julho 26, 2006
Profundidamente
Um.
Ainda agora comecei. Calma
Dois.
Devia ter enchido mais os pulmões
Talvez aí uns três.
Sinto-me bem.
Quatro.
Os ouvidos. Espera. Aperta o nariz.
Cinco.
Nunca tinha passado daqui … Isto assusta, continuar assim na direcção do escuro
Seis, será?
Sinto-me com pulmões … Mas o frio, ui.
Sete.
Esta coisa do deixar de fumar… Sou o super-homem. Agora ninguém me pára.
Oito.
Brrr, que frio. E já vejo qualquer coisa. Mas tão longe ainda.
Nove.
Não dá, não dá mais. Vou voltar
Oito.
Alto! Já faltava pouco, e eu posso ir mais lá. Só preciso guardar no fim um pouco. Ter de voltar.
Dez.
Ugh. Como isto se aperta cá dentro. O ter de voltar. Não esquecer. Voltar no fim.
Dez e meiooo.
Penso? Ainda penso? Miúdos? Ãh, que miúdos? Ter de voltar. Guardar um pouco.
Onzeeee.
Que silêncio. Este frio faz medo. E eu, que faço aqui? Olhar para trás, há luz. Para onde devo ir
Onze e meiooooo.
Rebento, assim rebento! E há que voltar! Voltar? Está tudo tão longe!
Dozeeeeeeeee.
Já devia ter tocado em algo. Que pressão, caramba. Mas só estranho a pressão. Não sinto falta de ar, nem sinto sequer a necessidade de respirar. E como é doce este silêncio frio à minha volta.
Doze e meioooooooo.
Agora não desisto. Agora não. E estou tão calmo. Sinto que podia ficar aqui por muito mais tempo. É quase um não-ficar. E estou tão longe.
Doze e … Oopsss, já está.
Uma mão de areia, outra de algas, e voltar. Voltar
Voltar.
Voltar!!
Voltar!!! …
…
Ena!!! Clap Clap Clap …. Quase 13 metros marca aqui no barco! G'anda pai !!!! 13 metros ...
(Devo andar a bater mal! Se não era mais fácil comprar-lhes um PC, em vez de andar a apostar o ego com os miúdos. Além disso eles ficariam seguramente mais contentes; menos orgulhosos mas bem mais contentes. Esta agora que me deu para pastar vaidades nos fundos das baleares…)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:23 PM
junho 27, 2006
Provavelmente teria sido mais conveniente ter ficado por lá com a garrafinha de soro atrás e a fazer a coisa com mais calma
Oh pai, acho que a Tia M. ficou chateada comigo? Deve ter julgado que eu estava a brincar com ela. Ela ligou para o seu telemóvel e eu atendi claro, e depois das apresentações perguntou-me:
- E como está o teu pai?
- Está bem – mas fui logo esclarecendo – só que não está aqui
- Isso eu sei, nem podia estar não é? Então se foi operado ontem!
- Pois. Mas já veio
- Já veio? Já veio de onde? do Hospital?
- Sim
- Já? Mas … Não percebo nada. Se já veio do hospital como é que pode não estar aí?
- Porque foi ali ao café. Mas já vem. Quer que eu lhe diga que …
- Foi onde?
E depois desligou. Sabe, acho que ela deve ter achado que eu não estava a falar a sério. Se calhar é melhor ligar-lhe e explicar-lhe que as suas operações são assim mesmo, sem tempo para nada.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:29 PM
Creio que é a isto que as mulheres chamam d’as “mariquices dos homens”
Cheiro a éter por todo o lado, e tudo em mim é pegajoso, mas continuo a adiar o mais que recomendável banho. Devo dizer que passei por aquilo tudo sem qualquer agitação. Nem as luzes do corredor do hospital a caminharem muito rapidamente por cima de nós, de encontro à sala de operações, nem isso me alvoroçou. Depois, assim que me deram alta, meti-me num táxi e regressei para a vida de todos os dias, como se nada se tivesse passado, autónomo e silenciosamente, sem incómodo quase, assim espantando as vozes baixas que ao telefone me perguntavam cautelosamente do recobro do dia seguinte. Mas, neste momento, perante a possibilidade de ter de arrancar o enorme penso e constatar o que me fizeram, aí, confesso, já baqueio. Aguento a ferida, mas não me mostrem o sangue.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:06 PM
maio 06, 2006
Um dia triste para mim
Levaram-me o Nilfisk de 3.000W! Sendo este aspirador, (devido à sua invulgar potência de sucção), um instrumento auxiliar importantíssimo para a criação de tartarugas, (e ainda que na condição de emprestado), não posso deixar de o lamentar. Só faltava agora que levassem também as colheres da salada. Uma tristeza. É óbvio que nunca mais poderei ter tartarugas.
Que diabo, a gente ganha afeição aos bichos e depois levam-nos o aspirador!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:06 PM
março 31, 2006
Disso da beleza que um dia se desnuda
Um dia, em remoto liceu, a mocita que mais agitava as hormonas masculinas fez correr pelos infalíveis vasos comunicantes femininos que me considerava um “rapaz muito interessante”. Assim, agraciado pela lisonja de tão escutada voz, (nesse absurdo, mais acentuado na etapa juvenil é certo, que faz escutar mais do que diz quem o diz, do que o que diz quem o sabe) subi de forma fulgurante no ranking de popularidade – secção “aquele há-de ser meu”. Desde então, e apesar de ainda desconhecedor da razão desse entusiasmo, não pude deixar de começar a sentir-me tacteado pelos olhares alheios sempre que cruzava o hall de entrada.
Nunca fiz nada sobre isso e com isso. Era tímido, rezavam as vozes femininas, enquanto os machos quase arriscavam colocar-me no limite da fama já duvidosa no que aos interesses pelo sexo oposto dizia respeito. Mas para a maioria era apenas parvo, do tipo “com aquela gaja tão boa a mandar-se descaradamente e ele …”. Se condescendia desinteressadamente (o marketing pessoal nunca foi o meu forte) em fazer valer-me das minhas razões, então era o descalabro completo: tentar explicar que me estava a marimbar para as hipóteses que tinha de “andar nos méles (expressão então em voga) com a gaja mais boa da escola e que era quase certo ser burra como uma pedra”, num círculo de malta que tinha por principal mister exorbitar a sua virilidade, era desgraça certa. Daí em diante uns chamavam-me “artolas”, outros mais ligeiros faziam constar da minha “panel…”, e os mais próximos enchiam-se de propriedades para me aconselhar prudentemente sobre a matéria. Mas mais agravava eu ainda ao explicar(me) que a popularidade, e sobretudo esse tipo de notoriedade imposta, era por mim mal digerida, e que nessas coisas do “olha este e olha aquele”, modalidade porque nutria baixo interesse, eu era mais como na tropa, “nunca ser o último mas também evitar ser o primeiro”.
Mas é evidente que naquela altura das descobertas de tão indomesticáveis prazeres, até as convicções mais sisudas se mostravam incapazes de resistir aos pequenos estertores da libido, bastando para isso acidental episódio e uma bela fêmea para deitar por terra essa coisa do encanto que se quer genuinamente correspondido. E por isso, lá fui restabelecendo o meu bom nome, embora involuntariamente, por culpa das irresistíveis oportunidades que ora ocorriam numa esplanada de café, ora numa sessão de cinema improvisada lá na escola, ora nas festas de sábado à tarde no clube de ginástica da freguesia … E foi assim, descuidadamente, que por essa época, e apesar de manter essa extravagância de (também) cuidar dos requisitos intelectuais das mulheres com quem me envolvia, fui vendo a minha masculinidade aos poucos ser recuperada na hasta pública. Mas a verdade é que desse tempo já quase não recordo lugares, nem caras, nem nomes. Tal arrogância valeu-me poucas memórias românticas.
O certo é que, (apesar dos voluteares diversos com que fui desafogando as explosivas carências da minha juventude), me fui mantendo convicto destes meus critérios, e por cada vez que me via sondado pelas particularidades da minha figura, assim mais rápido me afastava. A idade não me trouxe melhoras. Com o passar dos anos fui ganhando ainda mais certeza de que haveria de ter de esperar pelo menos até aos 30 anos, idade em que presumia que os meus “scores” físicos se fossem atenuando, para me investir na demanda de uma paixão sincera e correspondida e, naturalmente, isenta já desses artifícios da “boa parecença”. Infelizmente a barriga nunca me chegou a despontar de forma significativamente saliente, (como então antevia), mas em contrapartida o meu mau génio foi-se agravando, o que de certa forma compensou em “handicap” esta imponderável depreciação física. Não me arrependi nada deste esperar. Afinal estava certo. Até porque vim a descobrir nos contornos da idade que as mulheres mais interessantes são as que envelhecem melhor e, no meu caso, aquelas que mais nos querem.
[ vem isto a propósito da tal musa do liceu, com quem acidentalmente me cruzei ontem … livra! Posso ter errado em muitas coisas, mas no que toca aos parâmetros da beleza acho que estava (estive sempre) certo. É que o peito poderá deixar de estar tão hirto com a idade, e umas folgas de gordura certamente rodearão as cinturas mais delgadas, mas apenas para quem nada mais tem com que encantar ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:58 PM
fevereiro 15, 2006
#$%! para o dia dos namorados e o seu valentim
O exercício que hoje aqui é trazido irá abordar a imprudência da juvenilidade, e os seus nefastos efeitos, se conjugados com efemérides (comerciais) públicas que exagerada e imprecavidamente trazemos para a nossa vida privada. Ressalto para aqui então, num mero desempenho especulativo, uma imaginada situação que localizaremos em redor das 3h ou 4h da noite de ontem, e cujo raio de acção não transcende sequer os contornos da protecção encefálica de um idiota que se entretém em prosseguir naquilo que sustenta ser o melhor paliativo para a desagradável situação em que se deixou envolver. Para melhor compreensão deste exercício teórico irei incorporar a pessoa do (idiota) narrador. Vejamos então.
A experiência da idade já não me deixa cometer certos erros, (o que me leva a adiantar que nunca poderia estar aqui a escrever isto, de olhos esbugalhados na penumbra solitária de uma noite malbaratada). Primeiro, não me deixo ir em modas cujas finalidades são a manipulação sentimental à custa de manifestações embeijocadas que se pretendem adornadas com algo de valor material que se consiga comprar apressadamente entre o trabalho e a chegada a casa mesmo que no comércio local. Depois, nunca me deito demasiado bebido. Se por desatenção isso suceder, (e falo de bezanas), o que é raro, prefiro afugentar qualquer réstia de embriaguês, antes de me deitar. E digo eu, é mais recomendável acordar cansado que ressacado.
Provavelmente se me tivesse visto na noite de ontem nessa situação, o que seria algo insólito repito, poderia dar-se até o caso de me propor blogar até às tantas da madrugada, e isso como estratégica opção para, através do exercício da concentração, amansar os níveis de alcoolémia que neste quadro de ficção me habitariam. Ora assim premeditaria eu que tal prática me entreteria o suficiente ao longo de um largo período de tempo, já que mesmo antes de premir a primeira tecla, teria de me haver com o exigente desafio de encontrar e alinhavar tema que se estimasse ver escrito. Alargava-se tal exercício para jusante, já que depois, (e estou ainda no domínio das suposições já se vê), tendo porventura desistido de tão desgastante exercício intelectual, me lançaria apenas e sem pejo no preceito mais fácil das actividades literárias, isto é, limitar-me-ia a traduzir em texto o que me varresse a cabeça.
É certo que, na situação em que me encontraria, isso de retratar os instantâneos pensares não me levaria muito longe, nem por muito tempo. Mas não esqueçamos a entretanto desabilitada componente senso-motora. Assim, para além do esparso tempo já cumprido com as pressuposições e suposições que esvoaçam à toa numa cabeça inebriada, ajuntar-se-ia ainda a parte mecânica, essa sim, um verdadeiro desafio de concentração. Tecla aqui, tecla ali, nesse tique-taque do bater das teclas como quem faz tiro aos patos aprestar-me-ia a dissipar mais uns minutos, quem sabe, talvez horas, antes de espiritual e intelectualmente me recompor com vista ao esparramanço no já quase deseperado leito. Mas antes do recomendado tempo se esgotar haveria de me haver com outros oportunos emprazamentos ( e aqui gostaria de recordar que continuamos a tratar a remota hipótese de me ver na situação atrapalhada que dá o mote a este texto, a qual, segundo a minha abordagem aconselharia a que extinguisse a bebedeira antes de me entregar ao revigorante – ainda que já inevitavelmente curto - sono). Seguir-se-ia um profundo exercício intelectual, o qual passaria essencialmente por me entregar ao esforço de não esquecer a palavra que pretendia enquanto a matraqueava soletradamente nas teclas já queixosas. E mais contratempos, como a estratégia recomendaria, se interporiam depois. Que já não a palavra que arduamente era escrita, também a frase que a albergava reclamava da minha atenção, que para que uma se manifestasse a outra teria de estender a passadeira da compreensibilidade.
E assim descrevo o estafado exercício de intelectualismo a que me entregaria, por força da minha presunção de que deitar, antes cansado que embriagado. Desta mera suposição apenas ressalvo o desenvolvimento retórico que até aqui me traz, posto que, tudo isto só viria ao caso se eu não tivesse juízo e idade suficiente para não me deixar enganar por um tal Valentim de quem nem sei o apelido, e que me faria adepto das práticas bacantes a meio da semana.
Mas não foi o caso, que eu não vou nessas modas nem cometo já esses imprudentes deslizes. O que aliás se prova no facto de este post aqui ficar editado nesta ensolarada tarde, e não a meados dessa tal noite que eu (de acordo com o acima explicado), teria de outro modo arruinado para curar a bebedeira. Dir-me-ão que ainda assim, nada impedia que este texto não tivesse sido escrito durante a cura que hipoteticamente retrato, sendo apenas agora publicado. Sim, claro que o poderia ter escrito ontem à noite mas, para isso, seria necessário que então estivesse em condições para escrever o que quer que fosse. Ou que pelo menos desperdiçasse já na madrugada várias horas de sono para escrever uma dúzia de linhas assim, quero dizer, como estas poderiam ter sido, mas não foram.
E sublinho: não foram, que de outro modo estaria agora a sofrer os castigos de uma tonitruante ressaca, que não estou. Pois que se estivesse a ser vitima de tão imprudentes actos na noite de ontem ser-me-ia impossível articular duas palavras, pelo que ainda menos saber escrevê-las. Ora isso implicaria que tudo isto teria de ter sido escrito ontem à noite, o que só se justificaria se eu me constatasse ébrio, o que não aconteceu. Repito, não aconteceu. E peço-vos apenas a delicadeza de não me questionarem sobre isto, do quando terei então escrito tal coisa que não hoje nem ontem. Que se há alturas na vida de um homem cujas lembranças se apagam não será certamente para que as forcemos a voltarem a ser o que nunca quiseram ser.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:42 PM | Comentários (8)
fevereiro 13, 2006
'Regateando' no Tejo
Numa tarde de domingo sem vento, a regata vai rondando o pilar norte da ponte 25 de Abril quando toca o telemóvel.
- Oláaaa, estás a ver os miúdos aqui na esplanada da margem?
- Não, enfim, talvez, esse pontinho vermelho é o Diogo?
- É. Faz-lhes adeus que eles estão excitadíssimos. Todos orgulhosos de vos verem quase em primeiro.
- Quem, nós???
- Sim, não são esse do balão azul aí à frente dessa molhada toda?
- Ah, estás a falar desses que vêm atrás de nós? Esses são a testa da regata, que já estão a fechar terceira volta.
- O quê? Então ... mas ... isso quer dizer que vcs são dos últimos?
- …
- É?
- Agora não posso, temos de preparar as operações para virar de bordo.
- Mas … é o que digo aos miúdos?
- Não precisas de dizer nada, ora. Afinal, o desporto é isto. Não importa quem ganha, nem muito menos quem fica em últimooooo. Entendes?
Depois, já perto do fim, de onde se extrai esta conversa por VHF, emitida do meio do Tejo:
- Alô, alô alô. ‘Tásebem’(*) chama a Associação Naval, escuto
- ...
- Alô, alô alô, daqui Tásebem, escuto?
- Tásebem, daqui Associação Naval, over.
- Tásebem pretende manifestar à Direcção da Regata o seu pedido de desistência.
- Mas ?... Vocês acabaram de cortar a linha de chegada?!
- Ah foi? …zlcskhhhhh … um minuto por favor.
(durante a breve interrupção há lugar para uma pequena troca de impressões no deck do barco: ó meu c…. então o gajo está a dizer que … c… me f… olha só o mau asp…)
- Alô Direcção da regata, daqui Tásebem, escuto
- Diga Tásebem
- Era só para dizer que nesse caso pretendemos cancelar o pedido de desistência.
Over and out.
(*) o nome da embarcação foi alterado com o legítimo propósito de proteger o bom nome da mesma e da sua tripulação
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:30 AM | Comentários (22)
fevereiro 07, 2006
Artes e Ofícios, (ou conjugando: a técnica do desenrasca)
Foi ao Francisco que coube acabar o banho aos gritos. Enrijece dizem, tentei dizer-lho, mas ele não fez caso. Ultrapassado este incidente - e depois de lhe seguir as lamúrias pelo corredor fora e que insinuavam vagamente que por miserável sorte estas coisas do destino o escolhiam sempre a ele - lá avanço para o esquentador. Nada que me inquietasse. Afinal já não era a primeira vez que me havia com aquele bicho. Para além disso, enfrento sempre qualquer avaria ou incidente doméstico com doses reforçadas de “o pai sabe arranjar tudo”. Impante, empinei-me então no banco elevando-me à altura do piloto. Nem tudo são desvantagens com as coisas velhas. Se por um lado sucumbem com mais frequência, também é verdade que as suas avarias são cada vez mais facilmente diagnosticáveis, pois que em cada intervenção se alarga sempre um pouco mais o leque de “operações técnicas” que temos à disposição assim proporcionadas pelas marteladas abordagens empíricas que vamos experimentando. O esquentador é, nesse aspecto, de entre todos os electrodomésticos, o meu maior aliado. É aquele que mais frequentemente desfalece e que mais vezes me faz brilhar.
São tantas as vezes que se tornou quase uma rotina ouvir-me chamado de lá da cozinha por culpa de mais um espasmo do seu cansaço e velhice. Basta atentar no tom enfastiado e prolongado do chamamento para me munir das ferramentas necessárias ainda antes de lá chegar. Faço-o sem queixumes ou atrasos, diria mesmo, até com algum orgulho convenhamos, que não é todos os dias que um marido e pai se pode fazer de salvador da pátria, e estas coisas dos curativos nas avarias sempre ajudam a realçar o insubstituível território de um homem. Voltando ao teatro de operações, e recordando que me encontro sobre uma banqueta olhando com ar entendido e confiante para o piloto apagado: preparo-me então para aplicar a sucessão de técnicas que quase invariavelmente conduzem ao sucesso na resolução de tal imbróglio. Assim as descrevo:
- A primeira acção, passa por uma valente sopradela sobre o piloto. Este sopro deve ser aplicado enviesadamente por forma a tanger o orifício, libertando-o assim de qualquer impureza que se lhe tenha agarrado. Nada. Passo então à segunda fase.
- Enquanto com uma mão primo o botão de acendimento, com uma chave de parafusos dou duas ou três pancadinhas no tubinho de cobre. Embora não saiba que designação alguém deu aquele delicado tubo, compreendi um dia que ele conduz ao sensor térmico que por segurança obstrui a chama caso não detecte o calor que o deveria abraçar. Estes toques que imprimo já com um certo à-vontade, costumam aproximá-lo, na sua folga, o suficiente do piloto para que o problema fique sanado. Não foi o caso.
- Passo então ao terceiro passo. Aqui não escondendo já alguma inquietação, uma vez que os meus recursos se começam a extinguir. Esta consiste numa intervenção mais radical e também de maior brio técnico. Desmonto a carnagem do esquentador por forma a ter uma área de trabalho mais liberta. Na verdade não é absolutamente obrigatório que o tenha de despir assim, mas a verdade é que isso me faz desfrutar da vantagem de impressionar eventuais observadores sobre o meu discernimento em matéria tão sofisticada. É aqui que entram as limas das unhas da Eufigénia que se consomem a um queixoso ritmo lá em casa. Absorvidamente entrego-me então a umas raspadelas. Uma aqui, outra por ali, e piloto, sensor, e todos os restantes picoletes que me sugerem ter alguma função importante são assim alisados até que apresentem um ar luzidio. Isto vou acompanhando de explicações técnicas (que por esta altura já não costumam ter ouvintes) que explanam a importância do retirar o carvão que por esses sítios se acumulam. Sendo esta última operação mais complexa e de maior impacto, é também aquela cujo êxito conduz a maior regozijo, pois esta evitará o cabo dos trabalhos que é recorrer a serviços externos.
Mas desta vez nada resultou. Ferido nos meus méritos, mas consciente da delicada situação, (e logo a um fim de semana), solicito ainda que relutantemente os serviços de um profissional. (Benditos cartões de crédito que trazem uma série de pechisbeques agarrados que normalmente nem nos lembramos). Ao final do dia lá chega o técnico, esfalfado, e fazendo-se acompanhar de algum falatório habitual: “Hoje ainda não parei, nem almocei. É sempre mais no Inverno, é sempre mais frequente isto e a gente sem mãos a medir” e os desabafos e confissões depois, “Não sou técnico certificado de gás mas já faço disto há 14 anos. Anda aí gente cheia de diplomas que não sabe nem metade do que eu já esqueci”. Aí está o verdadeiro know-how português pensei, o “desenrasca” continua a ser o atributo profissional mais honrável. Mantenho-me ali à parte, atento, pretendendo aprender e ampliar os meus dotes neste domínio que até então era só meu. Para meu uso futuro, e para que não soçobre amanhã ainda mais a boa reputação angariada, eis como passo a descrever a operação que testemunhei:
A julgar pelo expedito técnico não são necessárias muitas nem sofisticadas ferramentas. Com ele faz-se acompanhar de uma caixa do tamanho de um estojo de lápis que abre embora de nenhuma das ferramentas se apreste a fazer uso, pelo menos para já. Retira a carnagem do esquentador. Até aqui nada de novo, eu segui exactamente os mesmos passos do “colega” e até arrisco alguma intimidade nisso falando do mau jeito dos camarões que o seguram. A cavaqueira inicial entretanto dá lugar a um ar sério e compenetrado. Nem parece manifestar o mínimo interesse na descrição que lhe vou fazendo. Concluo portanto que a fenomenologia e o diagnóstico não é uma abordagem relevante para este mister. Noto que nem tão pouco experimenta o acendimento, preparando-se para evoluir directamente para a acção de reparação. Experimento algum orgulho ao constatar que nisso temos abordagens semelhantes.
Um minuto depois, munido de uma chave de fendas, tira o bloco do piloto para fora. Três gestos e ei-lo desmanchado em cima do balcão da cozinha. Eu nunca o houvera arriscado com receio que saltassem de lá molas e parafusos de afinação, pelo que me agrada saber que a partir de agora já poderei estender as minhas intervenções em domínios mais complexos e certamente impressionáveis ao meu pequeno pecúlio de admiradores (na verdade é só um; aparentemente acima dos 13 anos estas lides já não impressionam ninguém).
Sou interrompido pelo técnico: “Por acaso não me arranja uma agulha? ”. O pedido é-me estranho, “Uma agulha?”. Satisfeita a bizarria observo-o agora, executando gestos que até então considerava inimagináveis assim associados a este tipo de intervenções especializadas. Ele é dos que trinca a língua quando se vê com uma agulha na mão. Passa-a de trás para a frente através do orifício no topo do piloto, enquanto balbucia qualquer coisa que entendo ser uma explicação. Certamente terá notado o meu espanto e até desacreditação de o ver ajudar-se com tão impróprias ferramentas. Dois sopros, e mais uma vez a agulha a fazer-se passar de um lado para o outro. Depois bate com a peça no bordo do balcão e aponta para um montinho minúsculo de impurezas, “vê?”. Mas nessa altura já pouco lhe ligo. Aos meus olhos aquele homem ficou desacreditado.
Mas a injúria maior, aquilo que retirou a réstia de dignidade do ofício que até então concedia partilharmos, veio a seguir: “Por acaso não tem aí forza?”. Já não queria acreditar. Fi-lo repetir três vezes o pedido, por incredulidade mas também para o obrigar a expor-se ainda mais no seu propósito. Depois certifico-me junto da Eufigénia. “que não, que no fogão não usamos forza”. Ele encolhe os ombros achando isso estranho, quase sugerindo a minha má vontade, depois olha em redor e improvisa. “Dá-me licença que use aqui um pouco deste detergente líquido”. Assenti, mostrando já indiferença e decepção para com os seus propósitos. Enquanto bombeia o detergente para dentro do tubinho, vai batendo com o mesmo na borda do balcão e soprando-o insistentemente. Depois passa-o pelo fio de água que deixou a correr e volta a repetir as operações. Faz tudo isto com ar desenvolto e confiante. A forma delicada como agarra na peça entre dois dedos mantendo os restantes esticados e lança sopros enérgicos sobre o orifício manifesta uma experiência já adquirida de há muito tempo.
Terminadas estas operações, volta a encaixar o mecanismo, dá uma varridela com uma trincha sobre o queimador e coloca a carnagem de novo. Dois cliques e aí está o esquentador a funcionar. Demorou exactamente 12 minutos. “São 14 euros então se faz favor. O senhor não paga a deslocação, vantagens do serviço X”. Ficara tão desconsolado com ele que estive quase para me armar em engraçado e perguntar se não me descontaria no preço os materiais utilizados. Reconsiderei a tempo. Além disso, se por um lado me sentia ultrajado em verificar que tudo aquilo não passaram de operações de carácter amador tão equivalentes às que eu usaria, por outro lado reconhecia facilmente as inolvidáveis vantagens de ter testemunhado toda a execução anterior.
Doravante nunca mais precisarei de recorrer aos serviços externos, tão incómodos e tão nefastos para a minha credibilidade familiar. E isso tem um valor inestimável. Da próxima vez que o estafado esquentador decidir fazer das suas já terei oportunidade de alargar o âmbito da minha intervenção. E já não para desenrascar, dessa vez será um desempenho profissional, devidamente munido de agulhas de coser e detergente liquido.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:26 AM | Comentários (7)
fevereiro 03, 2006
Apanhado nas mãos de uma talhante alucinada

A voz é meiga, e o corpo singelo e asséptico move-se com uma suavidade enganadora
- Olá como está. Vamos então deitar aí por favor
- Como está Senhora Doutora
- Ora vamos lá ver aqui o narizito, cá está o malandrinho … oh senhora enfermeira vamos fazer aqui uma excisão, está a ver?
- Senhora Doutora, -eu já inquieto - isso quer dizer exactamente o quê?
- Ah ah ah, não se preocupe. Olhe nem vai sentir, é uma pequenininha cirurgia para tirar daí esse tricioepitelioma
- Esse quê? … bom, deixe estar. Faça então o favor de continuar
- Senhora enfermeira tem de apertar o nariz com mais força
- Hum… huuummm
- E agora é só um pontinho aqui. Espere, é melhor dar mais um. Não o estamos a aleijar pois não?
- Huummmmmm
- Pronto, já está. Que diz
- Eu … arf, arf … respirar …
- Vê que não doeu nada, vê ?!
- Certo. Então muito obrigado
- Mas onde é que julga que vai?
- Não acabámos?
- Espere lá um poucochinho, e isso aí no pescoço ein?, não disse que lhe tinha aparecido aí uma bolinha amarela?
- Ah isto? Oh, não vale a pena, nem me incomoda!
- Não, não, não. Com estas coisas não se brinca. Ora deixe cá ver isso.
- Mas …
- Pois é …
- É?
- É, é. É um quistozinho cebáceo. Convinha ir fora, não quer aproveitar?
- Bem, se acha mesmo que é de tirar
- Oh senhora enfermeira prepare-me aí outra agulha
- Ai é mesmo com anestesia e tudo outra vez?
- Não se preocupe, vai ver que ainda demora menos tempo que o outro. E oplá
- Hum… humm
- Vê, nem notou? e agora vamos fazer aqui uma excisão …
- E isso doi? Ai
- Oh senhora enfermeira agarre melhor na cabeça do Sr. Engenheiro se faz favor. Isso, assim está muito bem
- Aiiiiiiiiii
- Ena, este era bem fundo. Vamos lá ver se não ficou nada. Ah pois, temos de dar aqui mais uma raspadelazita!
- Ai…aiiiiiiiii
- E pronto. Agora é só fechar isto com uns pontinhos e já está. Aqui vai precisar de mais alguns.
- Huummmmmm
- Vê que não custou nada.
- Olhe que …
- Ora, estes homens!
- Está bem. Foi, digamos, suportável. Nesse caso devo despedir-me e …
- Ai mas que pressa. E o outro?
- Outro? Mas qual outro?
- Tenho aqui registado na fichinha. O que me disse na última consulta.
- Ah, esse. Mas esse nem se vê?
- Ah ah ah, ai este paciente que me saiu na rifa … Olhe, baixe lá as calças e vire o rabo para cima
- Mas … agora?
- Com certeza, não acha que está no sítio certo para vermos isso
- É que, enfim, aquilo nunca me incomodou
- As cuecas também por favor
- Mas olhe que tenho este desde que nasci e nunc…
- Elá, mas que mau aspecto
- Como??
- Não se assuste, eu só disse que tinha mau aspecto. Não disse que era problemático.
- Ah, então nesse caso, e dado que aí não incomoda ninguém …
- Espere lá! Espere lá! Não quer mesmo aproveitar e tratamos desse também?
- O quê assim com as facas e tudo, como os outros?
- Ora, deixe-se disso!
- Mas hoje não me dá muito jeito … Eh, já são 8 horas !!! Hoje não vai dar mesmo
- Olhe que não paga mais por isso. Sabe que o que é caro é o equipamento e o material
- Não é por isso. Eu é que …olhe, nem tinha reparado nas horas e como tenho um compromiss…
- Vá lá, que se resolve já isso também
- Bem que devia Sra Doutora, mas já estou atrasado e não gosto de…
- Cinco minutos … mas, deixe lá as calças homem! Vista-se só no fim da consulta
- Mas a consulta acabou!
- Nada. Deixe lá ver isso que despachamos já tudo.
- Tenha paciência Sra Doutora, mas hoje não. É lá fora que devo acertar contas?
- Mas …
- Depois passo cá para tirar os pontos certo? Daqui a 8 dias foi o que disse?
- Mas …
- Muito boa noite então
- Mas tem a certeza que …
- Até para a semana então Catrapummm !!!!!
Posso já não parecer quem lá entrei, mas pelo menos ainda saí com o mesmo andar
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:30 AM | Comentários (11)
janeiro 30, 2006
Esclarecimentos sobre uma carambola no bilhar
Em serão recente esclarecia eu ao Bill (és tu a tacar agora) como é que fazia para responder no quase imediato aos comentários que aqui me deixavam (bela carambola pá). E explicava-lhe as estremenhas da coisa (a branca é a minha). Aquilo lá, de cada vez que alguém coloca um comentário faz saltar um mail na minha caixa de correio (isto cheira-me a capote). Ora, eu como tenho o Hotmail, aparece-me logo aquela caixinha azul a interromper o trabalho ae dizer que recebi mais um mail (aqui vai uma às três tabelas, tu controla-me esta coisa), e o resto é obviamente a curiosidade que o faz, que assim que pauso, lá vou eu ver o que ali têm a bondade de dizer. (olha, hoje acho que vai ser só até às 50 que não vai dar para chegar muito tarde) Depois, há sempre qualquer coisa para contrapor a quem simpaticamente por aqui deixa de sua justiça. “Ah”, interjeita ele (já viste, não se diz ‘interjeita’, mas então quem levanta uma interjeição, e assim sonora como a tua, faz o quê?), sem disfarçar a surpresa, “quer dizer que não passas o dia inteiro ali à espera que caiam comentários?!” (49! Estou à 'melhor', marca aí faz favor). Fiquei tão chocado por ele me achar assim tão disponível, tão arredado dos compromissos de homem da vida, que quis aqui estender esta confidência técnica aos demais leitores (pimba, toma lá pinhões, e agora vou mas é para casa dormir que amanhã tenho imenso trabalho e queria ainda escrever dois post’s e já se sabe que depois vêm os comentários e um homem quer estar em cima daquilo, que o Hotmail sempre demora um bocadinho a avisar das reacções dos comentadores …).
Desenroscámos então os tacos, guardámos o giz, e tudo junto na prateleira nº42 do costume, depois cumprimentámos o Sô Zé, fomos à nossa vida.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:49 PM | Comentários (15)
janeiro 03, 2006
Sim, sou eu. Aqui revelo o meu mister (e se me doem os costados de tanta alavanca!)
Prendas quase nunca as tive porque era logo a seguir ao Natal. Convivas também não que era logo antes do reveillon para onde já tinham partido. Em pequeno, o meu dia de aniversário esteve sempre associado a um momento de auto-compaixão. Mais tarde, já adulto, adaptei-o a uma espécie de cerimónia asceta, consignada à reflexão. É por isso que a data mais importante para mim é o dia a seguir ao meu aniversário que recordo sempre como o dia da maior ressaca do ano. E regava este ritual com tal esmero, que na noite seguinte, para onde quer que me virasse, ainda via o ribombar de foguetes por todo lado e o mundo inteiro cantarolando pelas ruas.
Mas um dia, já com melhores posses monetárias, acabei por concluir que uma boa aguardente não dá ressacas assim, e tudo se desvendou, para meu espanto. A verdade é que por culpa da falta de convivas, me envolvi num exercício transcendental onde acidentalmente me auto-instrui para o desempenho de um ofício, do qual, por mero acaso, tinha acabado de ser dispensado um tal Dionísio (que tinha andado a brincar com coisas sérias com um tal de Midas). Foi assim que me vi contratado para junto do contingente dos deuses, e aí colocado na secção dos ciclos, acasos, sortes e infortúnios, lugar aliás de grande responsabilidade. A mim cabe-me todos os anos rodar o relógio do Universo no dia 31 de Dezembro, e é por isso que um dia antes me é lançado tal alarme. Lamento um pouco que nessa ilusão das superstições, dos rituais pagãos, das passas e dos braços entrelaçados, ninguém entre a Austrália e esta terra por onde deambula a minha parte terrena tenha noção que esta festa na passagem do ano só acontece porque o mundo aguarda que eu celebre na véspera mais um aniversário, antes de se comprazer em terminar mais um ciclo. E continuo sem prendas nem convivas nesse dia, mas pouco importa. Nós que marcamos o ritmo do Universo temos horror ao conspícuo, pois preferimos manipular todos esta intrincados mecanismos resguardados da vaidade e da ostentação para melhor nos concentrarmos neste rigoroso trabalho cosmo-mecânico. Que fabricar isso a que chamais de destino é coisa de grande responsabilidade e requer uma atenção e dedicação desmedida. E louve-se também o trabalho dos meus colegas pois que até hoje ainda ninguém nos pôde acusar de alguma vez ter encontrado o futuro avariado por falha na engrenagem dos acasos ou desgaste excessivo num dente da cremalheira que faz as estações.
Nota: revelada a minha verdadeira identidade neste momento de fraqueza devo, por questões de ética, informar todos os leitores deste blog de que não poderei dar um jeitinho no euromilhões nem intervir por interesse próprio ou alheio em qualquer outro pormenor de 2006. E agora com vossa licença, Poseidon chama-me de lá do fundo, parece que está com um problemazito ali para o lado das baleares.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:05 AM | Comentários (18)
agosto 03, 2005
Quem disse que não se passa nada em Agosto?
No preciso momento em que giro a chave, ouço vir um carro completamente baldado. É impossível não reparar. Interrompido assim, sigo-lhe a velocidade com um abanar de cabeça reprovador. Mas subitamente o Clio branco bloqueia as rodas e vejo-o arrastar-se numa travagem longa, de través, claramente na minha direcção (!) Já lá não estou. Instintivamente protejo-me junto à frente do meu carro, deixando-o de permeio com aquele filme de acção que ali me envolve – só depois penso na estupidez deste raciocínio de avestruz, assim a livrar-me da desenfreada viatura, para a trocar pelo impacto do meu carro, caso este fosse abalroado. Mas já o afogueado Renault se estanca ao atravessado na espinha do estacionamento, aí a uns dois metros de mim. Travam-se-me os impropérios na garganta que já as portas se abrem com a mesma desenvoltura do automóvel que até ali chegou. O susto troca-se pela preocupação. Saem de lá dois marmanjos que deixam as portas escancaradas e se lançam na minha direcção. Vejo na mão do que sai pelo meu lado uma coisa a luzir. O outro enquanto circunda a frente do carro levanta a camisola por trás com uma mão, e com a outra agarra (vejo-a distintamente) … o punho de uma pistola. Não pode ser, isto não me pode estar a acontecer. Deixo-me descair sobre o capot, sem reacção, manso, é o que quiserem. Mas ... passam por mim! Nem sequer me fitam, (parece que afinal eu não faço parte deste filme), e lançam-se que nem loucos pela ribanceira abaixo.
Ainda no recobro da situação e a cena repete-se. Lá da esquerda ouço de novo um guinchar de pneus. Desta vez é um jipe da GNR. Recapitula quase a mesma trajectória e com uma destreza apreciável estaca paralelamente ao Clio. São dois homens e uma mulher. Repetem os mesmos gestos dos primeiros, e seguem-lhes os passos de olhar carregado de adrenalina. Os outros ainda se vêm a uns bons 20 metros, e agora começo a recear que esteja em zona de conflito. Nem hesito, desta é que já ninguém me impede de entrar no carro. Ainda tenho tempo para perceber que afinal os primeiros não fogem dos segundos, (ao menos isso), que também eles vão no encalço de alguém. Lá à frente dobram a esquina em passo corrido. Já atrás da linha de batalha, deixo que a curiosidade vença o nervoso, e mesmo com o motor já ligado deixo-me ficar um pouco mais por ali. Quero ver o desfecho. Mas soam dois tiros, depois mais um. Os GNR’s que vão mais atrás, instintivamente, agacham-se. Pronto, nem hesito, está na altura de me pôr a milhas que o fim da história logo vejo na televisão. O telemóvel toca e estupidamente ainda me interrompo para me escusar de não poder falar agora. “Estás no meio do quê?”, ainda ouço.
Nunca mais vou à Bobadela. Reuniões agora, só em Lisboa e em local previamente inspeccionado.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (8)
Sai um ‘toldozinho’ para disfarçar
A culpa é minha, é até desconsideração, esta de começar histórias que não acabam. E já não são uma nem duas vezes. Mas esse é o risco em que incorro ao atrever-me a contar histórias reais que se passaram comigo. Eu não sei contar histórias nem sou bom narrador, quando muito arrisco avivar memórias, e essas assim extraídas, só têm a parte do meio, sem pontas, sem princípio nem fim. E sucede-me sempre isto: quando tento escrever algo que aconteceu comigo, e sem que o consiga justificar, dou por mim enfartado, já sem estímulo para continuar, sem o saber fazer até. Procuro-lhe uma ponta que já não encontro, deixo-me escorregar para a frente no tempo, e depois volto para trás, ando por ali num tique-taque do passado, mas nada, que ela se esconde.
Em qualquer uma destas histórias (ai o matadouro, durante 3 meses não pude ver um bife à frente) foram mais as situações e as sensações que me ficaram, e foi isso, por um absurdo qualquer, que eu senti necessidade de passar à escrita. Meros trechos apenas, nada que se sucedesse em capítulos com parágrafos tonitruantes. E haveria alguma coisa mais para cumprir nisso? Francamente não sei, talvez o que eu me lembre, ou o que eu quero recordar, se tenha dito no que havia para dizer. Só isso pode justificar esta esquiva desfaçatez de não lhes conseguir dar um fim.
É uma justificação ranhosa não é? Fica então a promessa de um fim com foguetes e fogo-de-artifício, (quando este se quiser escrever), e para as duas, que a do matadouro também anda aqui atravessada.
Mas entretanto aproveito e vou preparando o fecho da história do toldo:
O antes
e o depois
e já são três histórias para terminar! (mas esta é mais fácil) :)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:50 AM | Comentários (9)
janeiro 26, 2005
A técnica de aplicação de um Supositório
Suponhamos então um supositório … (não resisti ao trocadilho)
Vem o que se segue a propósito de um comentário que fiz a um post do João Pedro da Costa, lá no Afixe (sempre um regalo ler este ex-arruinado). Alvitrei então absortamente sobre a técnica de aplicação de um supositório, algo que me parece deveras importante sobretudo para os pais que não querem andar de gatas a apanhar os pegajosos projécteis da alcatifa, depois de os verem vigorosamente devolvidos pelo rabito da criança.
Bem sei que o tema não é simpático, mas é conselho útil. No entanto, não obtive nenhuma reacção ao meu comentário, já nem digo um elogio, um agradecimento, bastaria até um simples “ai é?”. Mas nada. Reconheço que aquilo se começou a desenvolver, a desenvolver, e entretanto fiz da caixa de comentários um lençol de palavras de tema pouco próprio. Agora pensando bem, vejo-o até como uma enorme falta de conveniência se pensarmos no post elegante, sintético e estético do JPC, que assim se viu embrulhado pela dimensão desajustada do meu comentário.
Ainda assim, obstinado, continuo a achar que disponho de informação útil sobre este matéria, e continuo a falar da técnica de aplicação do supositório. E como a adquiri por mero acaso sou levado a admitir que a maior parte dos pais prossiga na técnica errada, como eu seguia. Razão porque aqui reincido no tema, em conselho que mantenho achar útil. Faço apenas um apelo à v. generosidade: se o que a seguir disser for tão óbvio, se afinal se constatar que o único que não sabia disto era eu, então que alguém tenha a delicadeza e a elegância de me dizer que ando a fazer figura de urso, já não uma (lá), mas (aqui) duas vezes.
Aqui vai:
Eu com as fraldas (em boa hora chegaram as descartáveis) ainda lidava bem, e até de creminho johnson nas mãos me era capaz de arriscar. Agora, os supositórios, isso é que já era só mesmo quando não tinha já escapatória possível. Nem era pela coisa em si, era mesmo pela dificuldade de aplicação. Aquela cena já de si pouco agradável, acabava por se repetir quase até à (minha) exaustão, pois quase sempre o supositório insistia devolver-se cá para fora. Chegava mesmo a irritar-me com os putos (ainda bebés coitaditos) por achar que aquilo eram eles, precoces, para me azucrinar o juízo. Nada me parecia incorrecto no meu gesto, aliás, copiado das vezes em que sempre o vi ser tido.
Um dia, no Hospital da Estefânia, vi uma médica aplicar um supositório ao miúdo de uma forma que me pareceu perfeitamente idiota, e arrisquei chamar-lhe a atenção “Oh Soudoutoura, olhe que está a pôr o supositório ao contrário !!”, ao que ela me fez ver que não, e ainda que irritada pela observação lá foi explicando que da forma que tentava, com a parte arredondada para trás, o supositório ajudar-se-ia até a ser … enfim, a ir lá para dentro. Afinal, e para que não residam dúvidas, o que se me corrigia era:
Achei isto curioso, pois sempre olhei para um supositório como um projéctil, em que a parte ogival se viraria para a frente. Simples sugestão aerodinâmica diria, pois estamos perante uma quase réplica da forma mais perfeita: a “gota d’água”. Mas agora pensando bem, torna-se óbvio que o efeito de cunha que as paredes do ânus/intestino fazem no supositório, conduzi-lo-iam à expulsão. Já o invés favoreceria a sua penetração (a do supositório naturalmente). E se bem que na literatura anexa nunca seja referida a sua forma de aplicação (o que é lamentável, já que o contorno do supositório induz desde logo à sua errada manipulação), não posso deixar de me envergonhar um pouco, eu um especialista em arranjar problemas,por nunca ter tido uma abordagem mais científica da coisa.
Para os mais cépticos, eis uma esquematização gráfica do problema:
Enfim, em conclusão insisto que apenas desenvolvi o tema (pouco simpático bem sei) porque admito possa ser de grande utilidade a quem como eu ainda olhe para aquilo como um míssil, e continue a ir buscar por muitas vezes o dito projéctil ao meio do quarto, até à exasperação final, quando este já pegajoso, nem dos dedos se quer livrar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:27 PM | Comentários (18)
janeiro 22, 2005
Arrotar postas de bacalhau
Acabei de descobrir a verdadeira origem desta expressão, por contingência da minha condição de enfermo (não sei se já por aqui tinha dito que me encontro adoentado). Há alturas em que se quer um homem recolhido na cama, a convalescer, recuperando-se para o mundo, mas com a dignidade de o fazer em silêncio e recatadamente. Esta parece ser a própria condição do doente, e assim foi, até hoje. Mas vivem-se tempos modernos, tecnologicamente bem armados de portáteis, placas 3G e sei lá que mais, e aquilo que era uma sossegada reabilitação física no recato do lar, pode correr o risco de se tornar uma incontinente e degradante coisa pública.
Para isso bastará que deixem o doente – este já em estado pouco abonatório – por alguns instantes, sozinho em casa, e que a este se faculte o acesso à Internet, e que nesta tenha ele por hábito cultivar e regar um blog. Depois basta presumir a já famosa capacidade clínica de todos os portugueses, o povo no mundo com maior capacidade de se autodiagnosticar e automedicamentar. O desinteresse pela posologia dos medicamentos pode potenciar mais facilmente a situação pretendida, uma vez que visará acelerar o estado de delírio que é condição a atingir e a demonstrar empiricamente.
E pronto, reunidas todas as condições, é só esperar mais um grauzinho de febre que certamente não demorará, consequência da medicação tida, e aí iremos ver, ao vivo, post atrás de post, toda a dignidade de um homem, em curtos instantes, ser desmantelada, desossada, espezinhada na praça pública, (leia-se blog), num acto de autoflagelação delirante.
E chegámos finalmente à condição demonstrativa. O povo, com a sua perspicácia e poder figurativo, diria então que este homem, para o exemplo eu, estaria a arrotar postas, (as “postas” indicam os trechos de texto com que este obstinadamente vai editando o seu blog, o “arrotar” caricaturizando o lamentável nível e incontinência das mesmas).
Quanto à parte do bacalhau … cof, cof … essa deve ter a ver com o hálito do óleo do fígado do dito. Há historiadores que falam de postas a cheirar a pescada, mas acreditamos que isso seja um modernismo que nunca chegou a substituir completamente a expressão original. Recompúnhamos então a expressão, e apliquemo-la sobre o sujeito desta dissertação:
"Oh Eufigénio, mete-te mas é na cama e deixa lá de arrotar postas de bacalhau" (não de pescada, pescada não). Acho que faz sentido, sim senhor.
E pronto. Amanhã iremos então investigar outras duas expressões igualmente conhecidas. A primeira, mais popular, que diz "não vás ao médico não", e a segunda, esta já mais recorrente nos últimos tempos que refere "se eu fosse o teu blog, mudava de password", a insinuar um claro sentimento de desaprovaçáo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:16 PM | Comentários (8)
dezembro 06, 2004
Eu e as Tartarugas (4 ... e último)

IV - E ASSIM SE ACABA, PARA MEU SOSSEGO E ALÍVIO DO LEITOR
Quando a minha sogra chegou, eu estava de braços tensos e cabeça reclinada, com o melhor dos meus ouvidos apontando ao tecto. Dava passos curtos e irrequietos, ora para a frente, ora para o lado, ora atrás, e no rasto daquela dança bizarra ia empurrando sofás, fazendo cair tabuleiros, emaranhando tapetes, tudo isso com evidente alheamento. Ela não percebeu o que andava eu para ali a cirandar. Expliquei-lho. Continua sem perceber nada. Apesar de tudo, estou em crer que a sua opinião acerca de mim nada mudou, naturalmente.
Nota prévia que me esqueci de colocar previamente: Confesso que quase estive para dar por incumprido o compromisso de aqui relatar o desfecho desta minha guerra com as tartarugas. Ainda agora, quando fui rever os 3 outros posts desta sequela, fiquei atónito com que o que por lá andei escrevendo. Melhor seria fazer-me esquecido deles. É apenas o respeito e a admiração por quem até aqui conseguiu chegar, não soçobrando, que me leva a ultrapassar esta sentida vergonha, e assim dar aqui por concluída esta história. Finalmente e felizmente.
Continuando ...
De súbito o bicho cala-se. Deixei de ter a sua trilha sonora. Concentrado, assinalei mentalmente o último sítio onde tinha escutado o seu arrastar, no tecto, mesmo por cima de onde agora me imobilizava. Era onde o solho do sótão estava esburacado, justamente o local por onde ela se tinha deixado cair para o tecto falso. O único aliás através do qual eu poderia formular alcançá-la. Pus-me a galgar escadas, até ao sótão, convicto de que acabaria de vez com aquele raspa-raspa neurasténico. Mas como sabem, estava impossibilitado de a alcançar. Mesmo que a tartaruga estivesse no enfiamento do buraco, pelo qual conseguiria enfiar o braço, faltavam-me uns bons 30 cm para a poder apanhar. Via-a ali, mesmo por baixo do meu olhar impotente. Receava que apesar da sua languidez se decidisse raspar daquela zona mais próxima do meu alcance e que tudo voltasse ao princípio. Mas que grande salada, pensei eu. Salada ?? Vou apanhá-la! Rápido me trouxeram sob pedido histérico justamente aquelas compridas tesouras acolheradas (confesso que não sei o nome daquilo nem me apetece ir agora descobri-lo)com que se pescam as folhas de alface. E Pimba !!! Aqui vem ela.
E assim acabo esta quimera, que confesso, já me incomodava. E provavelmente ao leitor também. A autenticidade do pânico com que a comecei a escrever, aos poucos, foi-se desvanecendo num compromisso desinteressante. O compromisso de as ter de apanhar, às tartarugas, desistindo de o ter de fazer, o compromisso de aqui o dizer, sem ter já como o escrever.
Para quem mais arrojado ainda tiver a ousadia de insinuar que elas eram 3 - e não apenas uma como agora poderei ter feito parecer - para quem apesar do infortúnio de me ter seguido ao longo destas longas e adormentadas linhas ainda arrisca por mais, devo dizer que, embora desejando violentamente acabar com este desassossego, não me servi de escusa tão vil.
À primeira, já o tinha contado, por ser cega a coitadita, e lembrados disso, lá a fomos encontrar nos subúrbios da caixa por onde se escapulira. O negrum faz-nos acanhar a todos, e também a elas.
A segunda, embora para ser rigoroso a deva referenciar como terceira pois foi a última a ser encontrada, fez-nos esquecê-la, de tanto tempo que passou, do barulho que não mais lhe ouvimos. Há poucos dias atrás encontrámo-la na casa de banho, imóvel, como se por ali tivesse estado longos dias, esperando que a repuséssemos no aconchego do seu tanque, como que insinuando a nossa culpa, querendo desonestamente provocar os nossos remorsos por uma situação de que afinal era ela a culpada. E quase me fez acreditar nisso, graças à sua carapaça. A bicha tinha `trambolhado´por cada um dos 24 degraus, um por um, até por ali se quedar.
Enfim, podemos voltar a dormir descansados. Afinal estes bichos não se transmorfosearam em animais com garras e dentes, habitando sobre as nossas cabeças. E ainda queriam eles ter cobras!!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:36 PM | Comentários (10)
dezembro 04, 2004
Eu e as Tartarugas (3)

III - QUASE FINAL, OU SEJA, O DESFECHO DA SEGUNDA HISTÓRIA
Bem, as três tartarugas estão achadas, resguardadas e sossegadas. Contudo, antes ainda de relatar o final desta história devo cumprir com o prometido, o final desta outra história. Mas, verdade seja dita, pouco ou mesmo nada há já para desvendar. Ficou resolvida logo no primeiro comentário ao post, o da Maria, e aqui lhe evoco o mérito. E o desagrado naturalmente: isso não se faz Maria! :)
Mas foi isso. Retratando de forma breve a situação…
… olhava em volta e via o extravagante chão de madeira ( eu sempre disse que aquilo na casa de banho era má ideia) coberto de água. Uma metade da casa de banho ocupava-se da minha caixa de ferramentas, e destas, que entretanto tinham detonado em todas as direcções. Por lá misturada estava a retrete, ali sucumbida à minha exaltação, meia de lado, virando-me as entranhas por onde tinha sido despegada. Na outra parte da casa de banho, bem acostados ao canto pela minha já desgovernada raiva, encontrava-se a minha família. O silêncio era sepulcral, eles intimidados pelo resultado de anteriores tentativas de sugestão, eu porque apenas fitava o buraco do tubo de esgoto pelo qual ela se tinha evadido.
Mas minto, este silêncio era apenas a manta onde se insinuava aquele arrepiante riscar de garras que denunciava a sua inabalada e estúpida caminhada até à caixa de ligação (diz-se de passagem Maria?). Aí, o fim da tartaruga, o entupimento dos tubos, e o início das minhas obras. E isto tudo se passava debaixo dos meus pés. O tempo urgindo, ela tentando desconcentrar-me ainda mais. Deve ter sido a enorme vontade de a ter para a esganar, mais já do que a preocupação para a tirar dali, que me trouxe espontaneamente, esta derradeira hipótese: Aspirá-la. Expresso-me literalmente.
Pouco mais terá esgatanhado o imbecil do réptil até eu me ver equipado com a inovadora máquina de guerra, o fabuloso “Nilfisk” – e aqui tenho de referir que esta publicidade é devida, e que por razões óbvias passarei a preferir a marca. Os aspiradores normais terão 1000 ou 1500 Watts, fruto da maior debilidade e obsessão de baixos consumos que se nota actualmente nos electrodomésticos, mas aquele, de outras eras, mandava com portentosos 3000W. Um zunido de grande fôlego brotava daquele tórax, o suficiente para me encher de confiança. Assim foi. Assim foi como eu acabei tirando a tartaruga das entranhas da minha casa. Ela sugada, encolhida, encavacada pela derrota certamente, e rodopiando na ponta do tubo que eu hasteava com devida glória. E palmas, muitas palmas do pessoal lá de casa, por excesso de uma intensa descompressão. Sabiam termo-nos livrado de um complicado contexto, mas quase posso presumir que mais do que por isso, se sentiam aliviados por se verem livres daquela parte de mim, que durante dias adviria ao incidente, caso este fosse mal resolvido.
E pronto. Quase estou a ver o leitor a dizer que tudo isto era óbvio, eu sei, eu sei. Não tirem o mérito à Maria. Não me tirem sobretudo o mérito a mim. Essa é a história do ovo de Colombo, depois de alguém se lembrar … e além disso estava num momento de grande tensão, que não perdoaria a qualquer hesitação, era agir e decidir em poucos instantes. Não creio que deva ser subvalorizado o feito pelo facto de estar a lidar com uma criatura obtusa, pois ela teve sempre do seu lado um destino que, naquele dia, se quis encher de bizarrias.
Insisto, foi uma luta de animais de sangue frio, a da tartaruga … comigo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:45 PM | Comentários (3)
novembro 27, 2004
Eu e as Tartarugas (2)

II - TAMBEM JÁ TIVE UMA TARTARUGA NO ESGOTO
Ora bem, vínhamos da minha luta com estes repteis provocadores, creio. Ainda agora lhes oiço os arrepios riscados no tecto, e antevejo colónias de tartarugas mutantes a apoderaram-se do meu sótão, quiçá do mundo, enfim … Definitivamente a minha vida há-de ser amargurada por esta espécie de minerais amorfos (com o devido respeito aos minerais naturalmente) que dão pelo nome de tartarugas, e que viram a luz com o único fito de me desvairar.
Senão como se explica estatisticamente que algo de semelhante já me tivesse acontecido, a mim, ao mesmo homem? Esta outra situação desenrolou-se sensivelmente há 1 ano atrás. Na altura ainda não tínhamos uma colónia de carapaças, era apenas uma. Mas ainda que actuando sozinha, foi patente a mesma intenção de me dar cabo da vida, para o que pediu ajuda ao meu filho mais desastrado. Mas lá chegarei.
Aqueles bichos emporcalham-se muito, o que não deixa de me levantar fortes interrogações. Quando se corre muito sua-se, quando se come muito, enfim, percebem certamente. Mas aqueles animaizitos não fazem nada disso, e no entanto, fedem. Eles, a água, e tudo em redor. Impõe-se a higiene semanal. A mim coube-me comprá-las e fazer-lhes um trabalhoso suporte de madeira, aos miúdos cabe dar-lhes de comer e mudar a água, ou seja, tê-las como suas.
Esta operação passava (até então) por despejar a água pútrida na sanita. Com aquelas coisas de miúdos, capazes de encontrar no mais pequeno afazer um coliseu de brincadeiras, distraíam-se em ter a tartaruga naquele ponto de equilíbrio, balouçando-a na borda do ‘tartaruário’, inclinando-se na asneira, o desastre brincando suspenso, resistindo ao fluxo da água vertida. Naturalmente, foi apenas uma questão de segundos para que o inevitável acontecesse. Plofff, ela lá dentro. “Oh pai, oh pai”, nestas idades ainda julgam que nós cicatrizamos tudo o que não lhes agrada, e insistia “oh pai oh pai”, como se eu pudesse inverter o tempo, até à fase em que a tartaruga balouçava, numa réstia de hesitação, mesmo antes do limite do drama. Nada a fazer. E chorava.
A partir daqui inverosímeis situações se precipitaram, uma a seguir à outra, numa espiral de acontecimentos tão diabólica que nem o mais são dos homens lhe resistiria. Por uma tarde inteira, o mundo resumiu-se a mim, à tartaruga, e a um acaso que decidiu andar a brincar ao gato e ao rato comigo.
Ao princípio, apesar de a coisa já não estar para brincadeiras, ainda tentei uma abordagem convencional. Arregacei a manga, voluntarioso, mas enquanto me encorajava para mergulhar o braço, o raio do bicho decidiu-se esgueirar pelo sifão adentro. Deixei de o ver e de lhe chegar. Impossível acompanhar a curva do sifão com a dobra do pulso, para além de repugnante. Ainda me armei em inteligente com os miúdos: “vão ver que com comida aqui à tona da água a gulosa volta para cá”, mas apenas os consegui desesperar mais a eles. E a mim.
Sentíamo-nos fortemente desapontados, para ali sentados os três, ouvindo-a esgatanhar no interior da retrete. Eles receavam pelo bicho, eu receava o pedreiro, o pó, as idas e vindas dos banhos em casa das avós, a viagenzita que ficaria para outras núpcias. Mas adiante, já conhecem a minha falta de sangue frio para com estas ignaras carcaças fossilizadas.
A coisa complicava-se, complicou-se. O que de seguida aconteceu foi de si tão estrambólico, que mais uma vez só com um boneco o conseguirei explicar (e isso deve dar-me um bónus para aí de umas 1000 palavras)
Pois bem, tínhamos o bicho esgatanhando em cima da curva interior do sifão (ver refª1 do esquema), provavelmente num equilíbrio tão precário que eu nem me atrevia a antecipar. Que fazer ? que fariam ? A decisão difícil, porque inevitável, acabou por começar a ser considerada. Nesta altura já estava de caixa de ferramentas na mão. Tinha visto uns meses antes um pedreiro de volta com aquilo, a tentar o encaixe da sanita no sítio certo, durante uma tarde inteira. Depois voltar no dia seguinte, repetindo o trabalho, repetindo as horas, simplesmente porque o encaixe não se queria dar. E pensava que eu nunca tinha tentado tal coisa, nem me parecia encontrar em mim convicção suficiente para me acreditar mais bem sucedido que um suposto profissional.
Pus-me ao trabalho, de chave de bocas na mão, ajoelhado, com a cabeça por entre o bidé e a sanita, naqueles sítios onde se escondem os panos e os produtos amoniacais, quais subúrbios desta assoalhada. Tomei então em mãos a sanita e fui levantando-a suavemente, tendo sempre presente que com ela traria empoleirado o desastrado animal. Tinha-a agora a uns 20 cm de altura, e começava a desviá-la para o lado , para a poisar. Packcc … Packcc ? olho por cima dela, para a zona do tubo de descarga e que vejo? Lá estava, balanceando-se no excêntrico (*) conforme representa a Refª 2 do esquema.
(*) peça cuja designação aprendi mais tarde. Já durante a noite, após a segunda ou terceira tentativa de acoplamento da sanita, descobri também porque é esta o terror dos pedreiros. Mas isso são outras histórias.
Tratava-se agora de pousar aquela coisa pesada que tinha entre mãos, ao mesmo tempo que mantinha os olhos fixos no bicho e ainda ia respondendo ao “olha que me molhas o chão todo” com um agora isso não tem importância que depois logo se limpa. Pedi silêncio, tive-o. Pedi que o tempo se suspendesse por alguns segundos, e aí não fui tão bem sucedido. Próximo de a agarrar, Zapppp. Não queria acreditar. A burra da tartaruga tinha mergulhado pelo tubo. A cada tentativa para a agarrar, mais ela se embrenhava pelas entranhas da casa, até deixar de a ver de todo.
Desespero total. A família inteira calada, suspensa. Apenas aquele esgatanhar por baixo dos nossos pés, (ver Refª 3 do esquema acima) de novo o esgatanhar. Um metro mais e a parva da tartaruga iria encontrar uma caixa de ligação, aqui, mais do que simbolicamente, representando o desfecho deste infortúnio. Os miúdos choramingavam de nervos, eu ainda não.
Mas a adrenalina tem destas coisas - faz-nos parecer mais rápidos que o tempo. Ocorreu-me de repente uma ideia louca, mas provavelmente a única que ainda assim era plausível …o meu ego de pai voltou a encher-se. Lá fui correndo, a buscar …
Nota de Interrupção:
E por aqui me suspendo. Relembro o leitor que o meu encargo ainda é tirar as tartarugas que, lampeiras, continuam o regabofe mesmo por cima da minha cabeça (vide “eu e as tartarugas(1)”). Não é por antipática vontade que aqui me interrompo, mas apenas porque viso repor a ordem dos acontecimentos narrados. Quando tiver por resolvido o problema que hoje tanto me apoquenta, certamente não esquecerei de vir aqui colocar um fim, e um ponto final, numa história que como verão acabou em bem. Já agora alguém quer dar palpites?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:11 PM | Comentários (5)
novembro 26, 2004
Eu e as Tartarugas (1)

Nota Prévia: Gostaria de começar por dizer que este não é um post humorístico. Nem tão pouco é o manifesto de um zoófobo. É apenas um apelo sincero de um homem desesperado. Neste momento tenho a família inteira a vasculhar o sótão. Dividimos tarefas; eu propus-me ficar aqui com o megafone clamando por ajuda.
I- SOCORRO TENHO 3 TARTARUGAS A ANDAR PELO TECTO
Ontem, enquanto o dia se vencia com aceitável naturalidade, ainda tinha 3 tartarugas no quintal. É certo que não se espera destes bichos zoólitos (*), de comportamentos petrificados, mais do que estar ali, cumprindo com a sua presença ornamental. Nisso não se vê grandes males, nem grandes vantagens, e até à data tem servido para suprir a falta de um gato, ou de um cão, ou de qualquer outro dos 200 animais que os miúdos entendem deveriam por aqui viver.
(*) A minha sinceridade, ou talvez a consciência de que a erudição do termo imediatamente levantaria suspeitas no léxico vulgar que é utilizado neste blog, sugere-me que refira ter rebuscado este termo do dicionário. Segundo definição encontrada, resume um “animal fóssil”.
Apesar daquele ar de rocha, acabamos por constatar que são animais maricas - ao primeiro friozinho metem-se lá para dentro, alheios ao resto da invernia. Nestas alturas, quando calha passarmos por perto, agarramos naquelas cascas e trazemo-las para lugar mais recôndito, normalmente dentro de casa. Ontem, alguém se lembrou de as colocar no sótão. A sugestão teve acolhimento geral (ai se eu me lembrasse de quem a deu), já que, se fugidas de nós, longe da nossa vista também. Supostamente lá para a primavera, alguém se recordaria delas, a tempo. Pois. E agora tenho 3 tartarugas loucas, em orgias e correrias olímpicas por cima da minha cabeça!!!
Hoje de manhã, mal acordaram, os miúdos quiseram ir vê-las. Mas não as viram. Reboliço completo. Os bichos tinham decidido saltar fora da coisa, e pufff, desapareceram. Mas de manhã há a pressa, as escolas, as arrelias do acordar e o vamos embora que já estamos atrasados. Deixámos aquela preocupação com a casa. A ela voltaríamos quando chegássemos com um vamos lá ver esta coisa. Acabámos de chegar. E neste momento invade-me tal pânico que apenas me ocorreu passar esta minha inquietação para fora, querendo acreditar que isso possa trazer alguma terapia, à custa de se desgastar no escrever. E além disso há o estimado leitor, de quem não escondo naturalmente, e reforço, uma grande expectativa de ajuda.
Estarão a pensar, “agora é que o gajo está mesmo a exagerar. procura-as e volta a pô-las lá fora”, não é isso? Isso queria eu. O sótão de que falamos é um sótão estafado, usado à maneira antiga (pelo menos enquanto não tivermos condições para fazer dele a nossa suite de 80m2 com janela para a lua …ui, ui), isto é, com o uso e desprezo que antigamente lhes davam. Aos poucos, descuidadamente foi-se transformando numa desprezada arrecadação. Pelo meio daquele madeirame todo que lhe escora o telhado, e daqueles buracos que lhe flúem pelo soalho, foram-se juntando caixotes, tábuas, radiadores velhos, enfim, todas as traquitanas que o nosso lado coleccionista resolve guardar. É absolutamente impossível encontrar por aqui aqueles 3 bichos.
Mas afinal enganei-me. Depressa soube onde estavam estes irrequietos exemplares dos quelónios (*). Aqui o(a) amigo(a) leitor(a) conclui precipitadamente com um simpatizante “ora vês, tudo se resolve. Não é preciso exagerar”. Calma, calma, eu disse que sabia onde as bichas estavam, não disse que as tinha aqui, à minha frente. E neste caso, para agravo meu, isso define uma intransponível diferença.
(*) aqui talvez esteja a exagerar um pouco, mas já que estava com o dicionário ainda aberto …
“Então que se lixem as tartarugas, elas são bichos sobreviventes, hão-de safar-se por lá”, estarão agora a pensar. Quase concordaria convosco se, neste preciso momento em que ainda tento manter a consciência instruída para acabar esta m****, sem me deixar consumir pela irritação do raio que a parta, estou a ouvir um exasperante crzzzzchhhh-crzzzzccchhhh. Oiço-o agora com tanta clareza quanto a convicção que tenho de que assim não conseguirei dormir, nem hoje, nem amanhã e enquanto não resolver isto. Ainda não me tinha posto a reflectir porque tinham aqueles bichos garras, já que sempre os vi ociosamente parados, as presas escusadas portanto. Soube agora, com aqueles riscos de arrepios sobre o gesso do pladur, a explicarem-me que as garras estiverem ali durante milénios de anos, desde eras ainda anteriores ao homem, com o único propósito de hoje me poderem atormentar.
Investiguei. A situação é grave. Os desastrados répteis deixaram-se cair por um buraco do solho, e habitam agora por cima do tecto falso deste (até à data prazenteiro) lar. Pelo barulho que fazem diria que já a consideram a sua ‘mezanine’. Vejo-me perante um problema tão complexo, que a sua própria explicação me é difícil. Desisto-me de o tentar descrever, aqui vai o boneco:
Já não receio apenas pela guerra de nervos que vou travar (e quem já teve ratos no sótão a acelerar de um lado para o outro durante a noite saberá reconhecer o trauma), mas também pelas inumeráveis visões que este meu cérebro, já descontrolado, vai antecipando.
Em uma delas, vejo a cara de um bombeiro. Ao fundo, por detrás dele, os restos da casa, fumegando ainda. Ele atónito, esforçando a escuta ao que eu lhe dizia: “Foram as tartarugas!! Foram as tartarugas!!”. Atenção, não são apenas variações de pavor que me levam até aqui, creio mesmo que há alguma base científica naquilo que agora digo. Notem, todo o tecto se faz atravessar em direcções cruzadas de cablagens eléctricas. Por entre a bicharada, o pó, e sei lá o que mais será alimento daqueles percalços pré-históricos , não me esforço nada em aceitar que aquelas mandíbulas córneas cortantes irão mais tarde ou mais cedo entreter-se com os fios eléctricos, até ao curto-circuito fatal. Assim, o meu futuro próximo construir-se-á em cima de insónias forçadas, e de tiros frustrados de carabina, até ao dia em que finalmente tudo acabará em escombros.
Desespero. Sinceramente! Por favor, alguém me dê uma ajuda, uma sugestão, uma ideia por mais louca que seja, um aparelho qualquer que tenha sido inventado em Taiwan para tirar tartarugas do sótão, qualquer coisa !!! Estou em inanidade absoluta. Entretanto, para me abstrair tanto quanto possível daquelas riscadelas zombeteiras, por cima da minha cabeça, vou preparar uma outra história, igualmente verdadeira, que me aconteceu, adivinhem com que bichos? Pois, pois, e depois digam que sou paranóico, que sou um zoófobo (acho que era assim que se escrevia), e coiso e tal.
(portanto, continua)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:33 PM | Comentários (6)
novembro 22, 2004
O pensamento lateral segundo Ed. De Bono ….. Atchimm
Edward de Bono, grande mestre do “pensamento lateral” e uma autoridade do pensamento criativo, diz que o ponto de partida para uma solução inovadora é começar por bloquear o raciocínio que estamos treinados a ter. A partir daqui sugere vários métodos entusiasmantes, que não vou aqui referir, uma vez que os mesmos podem ser facilmente investigados na ‘net’. Tentando-me a resumi-los diria que se pretende estimular novas posturas interrogativas, variantes a partir das quais chegaremos a soluções que nunca seriam equacionadas se fossem seguidos os algoritmos de decisão mais conservadores. Algumas dessas hipóteses serão seguramente absurdas, mas outras viabilizarão novas e criativas soluções. Agradou-me o conceito, achei-o potenciador de grande criatividade. Admito mesmo que se aplicado com propriedade ao nível da gestão, pode ser uma excelente ferramenta de decisão.
Acabei por andar durante alguns dias estudando a sua teoria, de cada vez mais entusiasmado. Hoje decidi que deveria pô-la à prova, e aventurar-me no domínio da experimentação. Devo dizer que começou por não ser fácil. Nada me ocorria que se pudesse transformar num problema. Comecei então por aplicar as próprias técnicas à equação do problema, ou seja, travar-me no que quer que estivesse a fazer, obstar-me de o continuar a fazer da maneira que se esperava que o fizesse. Extraordinária esta primeira aplicação do método - como estava de saída, de imediato me impedi de continuar a vestir o casaco, do que resultou o problema: como sair de casa sem vestir qualquer tipo de agasalho?!
Não foi fácil, estavam 8ºC lá fora, hoje de manhã. Aos poucos comecei a concentrar-me na questão, disciplinadamente. Nada me ocorria. A ansiedade de me sentir já atrasado para os compromissos da manhã gerava-se a si própria. Começava a estar ansioso por me sentir ansioso, e tudo isso me ia toldando a aplicação científica do método. A solução acabou por me chegar por falta de alternativas. Confesso que depois de tomar a decisão, esta até me parecia óbvia e - com alguma vaidade o reconheço - plena de criatividade: sairia lá para fora sem casaco, e seria já em plena rua que encontraria a solução. Esta hipótese era suficientemente absurda para não me parecer digna de um pensamento lateral. Quando saí fi-lo então convicta e desaforadamente, embora já tremelicando um pouco de frio.
É de facto surpreendente poder constatar a aplicação desta teoria. É impressionante como este tipo de abordagem pode trazer novas e inesperadas soluções. Não escondo algum orgulho em afirmar que me prestei como excelente intérprete desta teoria do Professor De Bono. Com efeito, o facto de ter tido uma abordagem diferente na rotina de todos os dias, neste caso o sair de casa, transformou radicalmente o meu dia de amanhã. Aquilo que era um futuro previsível, alterou-se numa nova e inesperada variante:
Em vez de ir trabalhar amanhã, vou ficar em casa ... Attchimmmm!!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:35 PM | Comentários (7)
novembro 17, 2004
Errata ao Post de ontem
Hoje está complicado STOP
Não tenho tempo OUTRA VEZ STOP
As condições técnicas são deficientes STOP FINAL PARÁGRAFO
Estou num Blog EMENDAR E REESCREVER
Estou num Seminário STOP PEQUENINO PORQUE É COMO SE FOSSE UMA VÍRGULA
A ver uns Post’s de uns tipos EMENDAR DE NOVO COM LETRAS A BOLD PARA PARECER IRRITAÇÃO
Queria dizer, a ouvir umas intervenções de uns tipos STOP
E não posso usar o GPRS porque faz muito barulho STOP
Mas a vontade de fazer uma confissão pública é grande STOP
Irrita-me esta incontinência que me leva a mandar para aqui post’s sem sequer os deixar fermentar STOP
Escrevo-os julgando-os com um sentido e depois quando os releio, encontro outro completamente diferente STOP DE EXCLAMAÇÃO
Percebem como isso me deixa constrangido certamente. Mesmo que inocentemente, acabo por deixar uma imagem alterada do eu que o escreve STOP E FAZER UMA PAUSA COM QUEM HESITA SE DEVE APAGAR ESTA PARTE
No caso presente falo daquele post (não faço links porque tenho receio que com as falhas desta ligação estes possam ir parar ali ao powerpoint daquele tipo que à meia hora não tem já nada para nos dizer) AQUI DEVIA HAVER UM STOP PARA DAR MAIS RITMO AO TEXTO MAS NÃO SEI BEM ONDE O PÔR que pus ali em baixo, sobre a “formação desportiva dos putos”, e que só não o tiro porque ouvi dizer que por estas bandas isso não parece bem STOP TIPO DOIS PONTOS
Nesses escritos, aí (ir)reflectidos, queria eu fazer passar a ideia de que começava a apreciar aquela coisa de nada fazer TALVEZ UM STOP DE PONTO E VÍRGULA que lhe tinha saudades, e que me propunha mesmo propiciá-la ainda de uma forma mais ampla, mesmo que à custa do caparro dos miúdos STOP E REVER PARA GARANTIR QUE O SENTIDO É ESSE
Hoje, quando o releio, fico com a sensação de que é um pai esmerado, católico praticante, particularmente preocupado com o desenvolvimento desportivo dos seus filhos, e pronto a qualquer sacrifício para essa causa que o escreve STOP COM 3 PONTINHOS
Percebem a minha irritação STOP DE INTERROGAÇÃO Isto é quase como um gajo escolher um casaco antes de sair de casa e, quando a ela volta no fim do dia, descobrir que afinal tinha andado o dia todo com ele vestido do avesso STOP; BAIXAR-ME PARA FINGIR QUE ESTOU A APANHAR UMA CANETA; NÃO TINHA REPARADO QUE JÁ TODOS TINHAM SAÍDO.
STOP DOS STOP’S E REVER TUDO PARA VER SE NÃO É NECESSÁRIO ESCREVER UM NOVO POST A EXPLICAR O POST QUE AGORA ESCREVO PARA EXPLICAR O OUTRO POST DEBAIXO.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:42 PM | Comentários (3)
novembro 16, 2004
A formação desportiva dos putos é muito importante.
Dou por mim a pensar que a única altura em que não tenho positivamente nada para fazer durante duas horas, é justamente esta, enquanto espero que acabe o treino de rugby dos putos. É também a única ocasião que me consegue desentrançar de qualquer compromisso que na altura se me atravesse. Eles não faltam, aqui não falho.
Enfim, há que esperar. E espero, ociosamente, desfiando pensamentos inócuos, com vagar. É neles que descubro que há muito tempo que não tenho tempo para matar o tempo a pensar assim, à deriva, sem utilidade, se é que me compreendem … Quatro horas por semana então, é um montão de tempo, ali, para gastar … Um desperdício enorme diria, imoral até.
Bem, desperdício não será, senão, no fim, não sentiria como se os meus neurónios tivessem acabado de sair da sauna, de poros abertos e de toalha ao pescoço a pedirem um sumo de laranja. Mas seja como for é um excesso. Há o trabalho que ficou a meio, o jantar por fazer, e a gente não se sente bem assim, pronto.
Mas está tudo controlado. Não há a mínima hipótese de me voltar a viciar nesta coisa de estar por estar, a pensar por pensar, ou mesmo nem pensar … E ainda por cima dizem que as recaídas são mais fortes … Para já contabilizo pouco mais de 3% da semana com esse ‘não fazer’… Schtth, tudo controlado, tudo controlado.
… É um dever, isso, um dever. Cabe-me a mim, lá em casa, essa função de lhes ir desamarrando o físico. O desporto, os estímulos viris, são obrigações de pai, ora. E a essas faço questão de me dedicar com a disponibilidade e sacrifício que forem necessários. Não estão aqui em causa argumentos sobre o desperdício de tempo, ou sobre o sinistro prazer que ando a tirar disso. Não, nada. Trata-se de ter uma postura estimuladora do espírito desportivo apenas. Pois
… aliás, estou neste preciso momento – ena como o tempo passou, eles aí estão - a pensar que umas aulinhas de natação lhes fariam bem. E aquilo é muito agradável lá no Campo Grande - têm uma bancada confortável, um ambiente amornado dos vapores cálidos da piscina, não seria mau sítio. Bem, diria que talvez umas 3 ou 4 horas por semana sejam suficientes… E se fosse todos os dias até nem lhes faria mal, acho. A formação desportiva dos putos é muito importante.
A mim resta-me o sacrifício de ficar à espera.
Que chatice, mais tempo ‘perdido’.
Pois.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:56 PM | Comentários (3)