julho 26, 2006

O mundo visto pelo lado do mais novo

Mallorca, 26 de Junho, pés em terra para jantar numa esplanada de Pollensa. Enquanto aguardamos pelos solomillos de ternera e pelos invariáveis spaghettis dos miúdos vamo-nos distraindo com o alvoroço em toda a volta. É terra de veraneio e àquela hora enchem-se as ruas de gente. Por trás de nós um bando de garotos, mais novos que os nossos, embrulham-se uns com os outros, nas típicas bulhas do fim do dia em que cada um veste a pele do seu herói. Alguém assinala isso, e a forma brincalhona como cada um se envolve na briga. Comenta então o Diogo:

- É como eu e o Francisco, lá em casa (pausa) Só que ele diverte-se e eu não.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:36 PM

Especionando (as palavras)

Mallorca, 23 de Junho de 2006, fundeados na Cala Deya. A água invariavelmente nos 28ºC a fazer inventar os mais diversos pretextos para mais um mergulho. Avança o Diogo para o painel da popa. Entretanto interrompe-se para se manifestar:
- Vou especionar o fundo do mar
- Diogo – lança reparo a tia, fazendo-o interromper de novo, agora no balanço que já tomava – não é especionar que se deve dizer.
- Ai não? Mas a M. também disse …
- Não. A M. disse inspeccionar, de inspector, percebes?
- Eu acho que a tia está enganada. Eu não vou inspeccionar o mar.
- Não? Então o que vais tu fazer?
- Vou ver as espécies de peixes que ele tem. Vou especionar .

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:52 PM

Profundidamente

Um.
Ainda agora comecei. Calma
Dois.
Devia ter enchido mais os pulmões
Talvez aí uns três.
Sinto-me bem.
Quatro.
Os ouvidos. Espera. Aperta o nariz.
Cinco.
Nunca tinha passado daqui … Isto assusta, continuar assim na direcção do escuro
Seis, será?
Sinto-me com pulmões … Mas o frio, ui.
Sete.
Esta coisa do deixar de fumar… Sou o super-homem. Agora ninguém me pára.
Oito.
Brrr, que frio. E já vejo qualquer coisa. Mas tão longe ainda.
Nove.
Não dá, não dá mais. Vou voltar
Oito.
Alto! Já faltava pouco, e eu posso ir mais lá. Só preciso guardar no fim um pouco. Ter de voltar.
Dez.
Ugh. Como isto se aperta cá dentro. O ter de voltar. Não esquecer. Voltar no fim.
Dez e meiooo.
Penso? Ainda penso? Miúdos? Ãh, que miúdos? Ter de voltar. Guardar um pouco.
Onzeeee.
Que silêncio. Este frio faz medo. E eu, que faço aqui? Olhar para trás, há luz. Para onde devo ir
Onze e meiooooo.
Rebento, assim rebento! E há que voltar! Voltar? Está tudo tão longe!
Dozeeeeeeeee.
Já devia ter tocado em algo. Que pressão, caramba. Mas só estranho a pressão. Não sinto falta de ar, nem sinto sequer a necessidade de respirar. E como é doce este silêncio frio à minha volta.
Doze e meioooooooo.
Agora não desisto. Agora não. E estou tão calmo. Sinto que podia ficar aqui por muito mais tempo. É quase um não-ficar. E estou tão longe.
Doze e … Oopsss, já está.
Uma mão de areia, outra de algas, e voltar. Voltar


Voltar.


Voltar!!


Voltar!!! …


Ena!!! Clap Clap Clap …. Quase 13 metros marca aqui no barco! G'anda pai !!!! 13 metros ...


(Devo andar a bater mal! Se não era mais fácil comprar-lhes um PC, em vez de andar a apostar o ego com os miúdos. Além disso eles ficariam seguramente mais contentes; menos orgulhosos mas bem mais contentes. Esta agora que me deu para pastar vaidades nos fundos das baleares…)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:23 PM

maio 13, 2006

Viajando por aqui, e sobre o mar ainda ...

Velejar é isto, escrever sem parar, sem querer chegar,
é fingir que se escreve o mar que não se sabe contar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:37 PM

O Mar

“Pode-se lançar prosa desse mar que se cruza pela rota, mas não é assim que saberemos escrever o mar. Talvez as vagas, a fadiga, a embarcação que range, mas não o mar, que esse assim riscado não é mar, é água. Pode-se tentar descrever o mar que nos traz pelo vento, mas nunca o conseguiremos, que esse mar não se escreve. A esteira que aqui borbulha já ali é rumo, as brisas que aí vêm já nas velas se esgueiram. Tudo no mar apenas se deixa escrito, que quando o temos nas letras já ele se foi, já outro mar nos leva. Só há o mar que vem e o mar que foi, não há desse mar de que se saiba falar” ... possa guardar.

Lido daqui, trazido de outro lado qualquer

[ Se eu, num dia de inspiração, conseguisse escrever sobre o mar, acho que não me importaria de "não" o conseguir assim fazer. Talvez estranhasse depois lê-lo, muito mais tarde, num outro lugar, e incapaz de reconhecer o texto, dar por mim a concordar, a dizer para comigo: "é isso mesmo!". A escrita traz-nos sensações muito estranhas, como se por vezes nos olhássemos de fora. ]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:12 PM

outubro 12, 2005

Recolhendo destroços

Algum dos presumíveis familiares silenciosos visitantes deste blogue, porventura destinatários das 3 SMS (*) sobre a viagem de circum-navegação que eu emiti em fase de delírio argonáutico poderá fazer o favor de as reenviar para mim, para eu poder juntá-las ao portfólio da viagem.

Beijos e Abraços

(*) é que aquilo, agora em terra, já não sai da mesma forma

PS: Em sinal de agradecimento prévio deixo aqui testemunho de um dos seus pontos de emissão, no “caminho” que então se fazia rumo à Córsega. Já repararam na temperatura indicada no ‘PlotChart’? Não minha querida família, não é a temperatura do ar, é lá mais para baixo do casco.

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:35 PM | Comentários (5)

outubro 03, 2005

Ah bom, assim está melhor

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:36 AM | Comentários (7)

setembro 27, 2005

Contaminação

Ao fim de algum tempo tudo é água. Para onde olharmos haverá água, tanta água que a julgaremos até escorrer do céu. E chega essa a envolver-nos de tal maneira, que mesmo que bem aportados e de amarras bem lançadas, nem assim há quem nos convença a deixar a embarcação, tal o medo de nos afogarmos em terra.

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[ Mahon – Menorca – Ilhas Baleares – Numa soalheira tarde de verão ]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:28 PM | Comentários (15)

O mundo, quando acorda, ainda sozinho

O último turno da noite, sendo o mais árduo, é definitivamente o mais apetecível. De cada vez que via a alvorada avizinhar-se surpreendia-me com o facto de o dia, todos os dias, nascer assim.

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Devem ser os homens, ao acordar, que depois o ‘dis’formam.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:15 AM | Comentários (15)

setembro 26, 2005

Trago mar e saudades

A esteira, o poente, a linha indistinta do horizonte, todo esse mar que se estende à nossa volta e lá longe se desfaz para além da nossa vista, é a mesma imensidão, a mesma dormência das saudades. São contrários que se tocam: É enorme este mar por onde queremos ficar, e imensas são as saudades que a ele se pedem para nos fazer chegar. No mar, as horas passam lentas e os dias lestos. Há um vai-e-vem, nele, em nós, que traz a métrica do tempo confundida: de um lado esse tanto sentir que se ocupa das horas, do outro, nós, cada vez mais inertes, a pairar sobre os dias que passam. Nas saudades são as horas que se sucedem apressadas, sem nada que as preencha, e os dias que se arrastam, com uma indolência sádica que teima em nos manter longe. E no entanto, o mar e as saudades, quando brincam com o tempo que temos em nós, tornam-se a mesma coisa: aos poucos perdemos a noção da nossa identidade, até já quase só sermos o que sentimos do mar, e aos poucos, acabamos por nos resignar a ser apenas, minuto após minuto, o ponto de onde todo aquele azul se lança e as saudades se encurtam. Há tanto mar por diante e tanto deles em mim, que tudo o resto, cheio das coisas de absoluta importância que trazia, afinal se torna um sentir vazado em tanta infinidade. E já nada mais me é tão importante. Tornei-me longínquo, lá de onde nunca saí. Tornei-me o mar, a querer apertar a distância de onde o resto de mim ficou.

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Trago apenas mar e saudades, e essas são coisas que não sei (d)escrever. Tentá-lo seria mesmo uma impostura.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:40 PM | Comentários (9)

agosto 22, 2005

Delírios Náuticos ( ... 2!!! )

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:25 AM | Comentários (6)

agosto 19, 2005

Delírios Náuticos ( ... 5)

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:04 PM | Comentários (0)

agosto 17, 2005

Delírios náuticos ( ... 7)

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:00 PM | Comentários (0)

agosto 16, 2005

Delírios náuticos ( ... 8)

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:50 PM | Comentários (3)

agosto 12, 2005

Delírios náuticos ( ... 12)

Aiiii

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:30 PM | Comentários (10)

agosto 08, 2005

Delírios náuticos (... 16)

É Agosto, mês de refregas incertas e de marinheiros noviços: tempo de devaneios. E devia ser sempre assim, só de caneta na mão, que sotavento e barlavento isso é para quem quer chegar. Aqui arriba-se e orça-se, que não é a rota que nos fixa, é o vento que volteia e nós que com ele rondamos.

Não há mais na navegação: ou se veleja à rota, ou ao vento. É a prosa cuidada, ou desvarios apenas. Na rota ‘cuidada’ leva-se direcção, é desengano, é fazer do marear travessia e do mar a estrada, que não é de ali estar que se quer, mas sim o chegar mais do que o ir. Ao ‘desvario’ do vento, somos nós que nos levamos, que não interessa para onde, é o ir que é encanto, e chegar é apenas o seu fim. Tragam-se as velas de través, gire-se o leme nos nervos do vento, gingue-se a proa por todos os horizontes que o mar nos quiser dar, que no fim logo se emenda.

Pode-se lançar prosa desse mar que se cruza pela rota, mas não é assim que saberemos escrever o mar. Talvez as vagas, a fadiga, a embarcação que range, mas não o mar, que esse assim riscado não é mar, é água. Pode-se tentar descrever o mar que nos traz pelo vento, mas nunca o conseguiremos, que esse mar não se escreve. A esteira que aqui borbulha já ali é rumo, as brisas que aí vêm já nas velas se esgueiram, tudo no mar apenas se deixa escrito, que quando o temos nas letras já ele se foi, já outro mar nos leva. Só há o mar que vem e o mar que foi, não há mar de que se saiba falar.

Mas teimo eu. E agora sigo por aqui, e aqui mesmo uma vírgula, e vai agora, virar de bordo, e enquanto penso para onde vou já sigo com nova esteira, e já está, que se bolina de novo. Mas rondei a frase cedo demais, e nada conclui ainda. Caçam-se escotas, lança-se rumo para distante, adorna o casco, e finos se fazem os sulcos a sotavento, mas falha-me a frase de novo, que nessa bolina só há tempo para estar, e sonhar, e essas são coisas que não se contam. Mas teimo eu, há que tomar rota - tenha-se a mão no leme e os olhos ao vento que assim não há caminho - e talvez se conte, se assim o deixarmos ir de encontro às palavras.

Agora já mais ao largo, e mais atento, há que evitar faltarem sílabas. É aqui que cambarei, e aqui terei para contar. Que por cada três linhas algo de concreto se deve contar. Senão não há lastro, fica-nos o barco de capa, e dali já não se sai. Mas que se conta quando ali estar é assim, não há chegar, e nisso nada há de concreto. E já devaneio de novo, falta rota, falta mão, agora é já o vento que falta. Aqui ou há rota, e assim escrevemos nós, ou lá se vai a embarcação para as águas que ela quer. Mas bate-nos o vento de capa, e agora já nem estibordo nem bombordo. Nunca virar de bordo cedo demais, que a proa se amolece, fica-nos folga na vela, devaneia-se, perde-se rumo, fica o texto sem o ser. Desespero já, e é assim mesmo, é aqui mesmo que lanço ferro - que continuar a escrever sem que depois saiba amarar o texto, não é coisa de marinheiro


Mas torna o vento e já vai tensa a embarcação, e rasga a quilha o texto na página branca, que é assim que se desliza, não há timoneiro, não há vontade, há apenas o mar que se escreve. E saem a borbulhar da popa voraz, as letras todas que a esteira vai levando. É assim navegar ao vento, deixar que o mar se escreva. E lá ficou o farol de estibordo, lá se dobrou o pontão de entrada, e já mais longe, já não vejo o texto, que é o mar que me leva agora outra vez. É o movimento que conta, a água que passa, é este ir assim que não é preciso mais para chegar ao fim do texto. Mas não é mar, é apenas texto que o conta. Que o mar, esse não se deixa falar.

Velejar é isto, escrever sem parar, sem querer chegar, é fingir que se escreve o mar que não se sabe contar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:10 PM | Comentários (10)

agosto 05, 2005

Delírios náuticos (... 19)

Pé ante pé caminho para as férias. Cuidadoso, que não quero despertar o imprevisto, que Deus me salve do que mas possa roubar. Dia após dia conto as gotas da vontade, como água mole que se vai esbanjando neste visco de ficar aqui. Já rastejo no que faço, e assim me hei-de levar até ao dia do zarpar. Que me arrastem os dias, as horas e os minutos que faltam, que há-de ser assim, por justiça, para que o peso das coisas seja mais certo: Se o mar me vai ter por mês inteiro, se eu dele irei assim tanto beber, que a terra de mim abuse nestes dias em que lhe resto, que tudo o que dela tiver de comer, assim farei.

E agora a mesma coisa numa versão "a armar aos cucos":

Pé ante pé caminho para as férias.
Cuidadoso, que não quero despertar o imprevisto,
que Deus me salve do que mas possa roubar!
Dia após dia conto as gotas da vontade
como água mole que se vai esbanjando
neste visco de ficar aqui.
Já rastejo no que faço,
e assim me hei-de levar
até ao dia do zarpar.
Que me arrastem os dias,
as horas e os minutos que faltam,
que há-de ser assim,
por justiça, para que o peso das coisas seja mais certo:

Se o mar me vai ter por mês inteiro,
se eu dele irei assim tanto beber,
que a terra de mim abuse nestes dias em que lhe resto,
que tudo o que dela tiver de comer,
assim farei.

Uns "enter" aqui e ali, depois uns itálicos a fazer parecer coisa antiga, e fica logo com outro ar não é ?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:38 PM | Comentários (16)

agosto 01, 2005

Vaidade

Se é para zarpar,
Que me importa se é pouca vela

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Ou será que as coisas que fazemos
Mais do que o que delas queremos
Só servem para o que parecemos ?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM | Comentários (6)

maio 24, 2005

Post escrito sem mãos

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Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:43 PM | Comentários (6)

maio 06, 2005

Os meus risquinhos náuticos

Ai de mim se este ano não lhes acrescento mais aquela bolina vermelha!!!

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Que isto da Vela, não é o chegar, é o ir. E em cada milha do caminho, não há só mar, há também mais de nós. E nisso, há mais de tudo. E não há mais nada, só apenas esse ir.

Não sei se vou, se posso, apenas sei que não quero ficar no “ficar”.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:31 PM | Comentários (10)