agosto 17, 2006

Porque é para (me) ler que tenho isto

Reedito-me.

Porque não os vejo faz mais de uma semana. E porque incompreensivelmente (ou talvez não), a saudade dos meus filhos me traz a saudade de ser filho. Reedito-me porque as saudades são também isto: deixar ficar assim por escrever o que não preciso de poder ler.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:12 PM

agosto 14, 2006

Um mero (enfim, talvez um pouco exagerado) momento de saudades

Discutem lá pelos Algarves quando irá ele dali para acolá, e se pode ser só amanhã, mas que não, que já deveria ter sido ontem. De barlavento para sotavento, assim vou sabendo que tenho um filho disputado ferozmente entre duas veraneantes famílias. Que sorte tem ele em ter assim férias para além das que eu lhe posso dar. E que sorte ele tem, com o seu carácter sedutor, e esse fundo macio onde é bom chegar e ficar, que é sorte ser assim, alguém de quem é tão fácil gostar. E minha a sorte também, que assim o vejo, afinal, já tanto para além de mim, já tão mais do que eu sou.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:26 PM

julho 13, 2006

Ahhhhhhh pois

Este estabelecimento encerra durante a próxima semana por motivos de força maior (*).

 

(*) tenho uma forte expectativa de voltar curado - para ser franco já começo a ficar farto de tanto betadine e de tão mau feitio - pode ser que quando voltar já me possa sentar outra vez bem e talvez até voltar a merecer a família que tenho.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:43 PM

Da distância da morte

São mais cavadas as saudades daqueles a quem já não podemos tocar mais, (mesmo que ainda ontem o tenhamos feito), do que as saudades que sentimos por aqueles que sabemos poder sempre um dia voltar a ver, (mesmo que isso nunca venha a acontecer).

O que torna a ausência mais difícil de suportar não é a distância que a afasta, nem o tempo em que perdura, mas sim o sabê-la insuperável.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:50 PM

junho 20, 2006

Desenvenenamento
(do que resta de mim, algures entre o pessimismo e o optimismo)

Cada hora é mais uma braçada cansada, lançada a custo, e cada dia o princípio de um plano inclinado que tenho repetidamente de subir. Combato uma ansiedade que nunca julguei poder existir. É uma guerra sem inimigos e cujos golpes se desferem dentro de mim, uma contenda que se trava num território que julgava conhecer e do qual tiraria vantagem, mas que afinal está armadilhado. Aos poucos fui refugiando-me no meu corpo, do meu corpo. Combato já só na metade (para ser rigoroso já é menos que isso) que ainda sobrevive, na parte do meu corpo que agora irei habitar, a que resta, e à qual me agarro desesperadamente. Mas, de inconcebível, é o meu próprio corpo que(m) me quer abater. Não é um espectáculo bonito de se ver, e não tem qualquer sentido deixar aqui uma janela para o espreitar. Há coisas que são mesmo para resolver só connosco. Além disso, tudo o que escreva nestas condições será seguramente um desagradável e soturno exercício de leitura a que vos poupo, a que aliás já vos deveria ter poupado, há justamente 13 dias atrás. Para além disso, continuar aqui, assim, seria para mim como uma moinha a lembrar da ferida.

Enquanto não assentar o verdadeiro "pontapé nos tomates" deste bicho que há 30 anos me consome não volto aqui. Não sei quanto tempo vou demorar para isso; se semanas, meses, dizem que talvez anos, mas espero poder voltar.

Um abraço, especialmente a todos os fumadores

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:56 AM

junho 02, 2006

Da presunção de Aladino

Tinha coisas tão importantes para escrever ... desculpem, hoje não vos posso deixar nada. Mas estejam atentos.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:21 AM

maio 29, 2006

Dos odores

Continuo enamorado. Pelo menos continuo a interrogar-me dessa minha condição, o que é o mesmo. Logo - suspendam-se as dúvidas - aquele cheiro velho no mofo do lençol de banho que partilhamos será o meu. Além disso, dou comigo cada vez mais frequentemente a procurar nos meus filhos as coisas que admiro em mim. Não é só o odor que se torna mais acre com a idade, é também a auto-estima.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:15 AM

maio 18, 2006

E que sei eu do que os outros querem de mim?

Mergulho em mim. Por enquanto escrevo sem nada mais querer trazer que o prazer de o fazer. E colho destaques (links) das mais diversas latitudes como até então, quando mais exposto e interactivo, nunca amealhei. Afinal, a escrita, quando é mais nossa, pode também ser mais dos outros?

[ Não sei se a propósito, hoje ouvi que era um expert da introspecção. Passo o exagero, até porque a questão nem é essa. É que vindo de quem tão perto priva comigo, essa é talvez a crítica mais dura que recebi até hoje. Sobro.]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:44 PM

maio 16, 2006

Gritar ao vento não é o mesmo que um sussurro

Claro que por SMS não é a mesma coisa que postar aqui! Além de dar muito mais trabalho e no meu telemóvel nem ser possível pôr o “~”, ficam a faltar as testemunhas para (nos) caucionar - ainda que em silêncio - aquilo que escrevemos hesitantes.

Isto aqui é mais como se fosse o estendal das mensagens privadas. Camisas, calças, cuecas, cada trecho sua forma, cada impulso mais uma peça de roupa interior suspensa na marquise da nossa intimidade.

Os transeuntes passam, por vezes desapercebidos, outras olham e até exclamarão “olha, ele também usa boxers”. Entretanto aquilo seca e depois de passado a ferro fica como novo. E aí sim, logo que engomados os impulsos, assim cumprida a higiene doméstica, fecham-se as janelas da marquise e já os poderemos voltar a usar entre nós.

(olha, vês? ainda agora acabei de engomar mais este!)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:18 AM

maio 15, 2006

O segredo da renovação ...

Os melhores almoços são aqueles que acontecem com a pessoa mais próxima de nós, e dos quais saímos exaltados perante a possibilidade de a poder ter mais próxima de nós, ao jantar, outra vez.

… é sentir permanentemente que esta é a primeira vez

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:49 PM

março 27, 2006

“Break a leg”

Admiro as pessoas capazes de romperem com as rotinas, e que ao sufoco comezinho do dia-a-dia preferem o desconhecido. Admiro aqueles que não disfarçam o incómodo, que não ziguezagueiam em escusas, que conservam a lucidez suficiente e corajosa para saberem quando devem começar de novo e lançar-se por novos destinos. Admiro quem é capaz de enfrentar o estranho com a mesma segurança com que eu me movo no que me é familiar, e quando o faz, o faz com mais vigor ainda do que eu ostentei na primeira vez. Porque admiro as pessoas que depois das cabriolices que a vida nos reserva são capazes de aparentar a mesma pujança e a mesma expectativa de sempre. Porque usar assim a ilusão para contrariar a vida não é uma ingenuidade, é cultivar a resistência. É por isso que admiro aqueles que têm neles o fôlego para sempre mais uma braçada, e que olham para as encruzilhadas como mais uma oportunidade de escolha. Mas sobretudo admiro aqueles que sendo assim, temerários, inquietos, insatisfeitos, ousam recomeçar tudo de novo, uma e outra vez, tantas quantas forem precisas, [e já foram tantas(!)], com o mesmo olhar entusiasmado de sempre e o sorriso mais sereno do mundo.

(Dá-lhe … que eu estarei aqui, no mesmo sítio de sempre, a seguir orgulhoso essa inquietação que há em ti)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:53 PM

março 02, 2006

A “razão” repousa onde a quisermos descobrir

Chego a casa e encontro-a a dormir no sofá. Aproximo-me. Cautelosamente. Seria embaraçoso que ela despertasse e me visse este olhar d’agora. E escusável. Sei que se isso acontecesse iria ainda acicatar-me mais a fúria com que horas antes ali a tinha deixado. Mas algo em mim não resiste, algo em mim não lhe resiste. Ajoelho-me ao seu lado e aproximo-me ainda mais. Quase lhe toco a respiração.

Deixo-me assim ficar, sobre os seus olhos fechados, e depois seguindo-lhe as rugas que deles divergem, lendo-a. Cada uma dessas linhas lavra um tempo, pessoas, episódios, troços do passado que revivo, onde a encontro, e onde ela me vê. São traços dela que são já meus também, que é um passado cada vez mais partilhado e prolongado que assim se sulca. Nenhum passado é igual nem de igual se conta cada passado. O que foi, só o é pela forma como hoje o sabemos transportar. Continuo a seguir-lhe esse raiado que lhe nasce dos cantos dos olhos, e o passado que percorro nele, a forma como o conta, é um passado preenchido, sereno, bastante. Olho-o e compreendo como seria inconcebível pertencer a outro passado que não este que se escreve assim sulcado nela. Olho-a, e compreendo que é ela quem eu quero que desenhe o meu passado - que as suas rugas, mais que as minhas, o sabem contar com contentamento.

Depois desço para a sua boca, e aí me perco mais um tempo. Aqui não é o passado que repousa. Os seus lábios falam-me do futuro, do que ainda temos para sorver, da carne e do desejo, do que agora sinto por eles e do que tanto quero deles amanhã. São generosos, carnudos, vivos. Percorro lentamente com os dedos as suas curvas adormecidas - a linha de cima, arqueada, depois a de baixo, saliente - e sigo tacteando o desenho desse viver sereno, intenso, capaz de sussurrar subtilmente o que tantas vezes me falta ao fim do dia.  Contorno-os até tocar o arrebique de felicidade que volteia os seus cantos. Ali onde as duas linhas se tocam, no exacto ponto onde se forma o seu sorriso, é ali onde mais que tudo quero que se abrigue a minha vida. Que não há nada hoje, nada que conheça, que me fale tão veementemente do futuro onde quero estar.

Rio. Rio agora de mim: acabo de determinar que o meu amuo, desta vez, por mais esta vez, acabou. Que importa toda a razão do mundo, e as minhas iras, se dela tenho os seus lábios.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:51 PM

dezembro 23, 2005

É quase Natal - que fazem logo vcs os quatro ?

Tinha acabado de me lembrar dele. Talvez fosse pela circunstância em si, aquele entre copos, ali impedido a meio da noite numa fila de carros que não se movia, junto ao Chafariz da rua do Século. Já não o via há imenso tempo, e esse folgar na noite em que agora me deixava ir, talvez fosse isso que mo tivesse trazido à memória. Mas mera coincidência, ou talvez não, lá estava ele, dois carros à minha frente, visivelmente num estado ainda mais desaconselhado que o meu, e sentado na capota, gesticulando ao som da música, bem no seu estilo exuberante e alegre. “F !!!”, e ele nada. Esgueirei-me do carro, três lugares atrás, e lancei-me cambaleando na direcção dele, quase eufórico, antevendo já a possibilidade de juntarmos as duas carraspanas noite fora, como nos bons velhos tempos. “F !!!” agora já em cima dele, reclamando-o por um braço, eu quase aos berros também. Por fim virou-se. Não era ele. O tipo trocado olhava-me com uns olhos ocos, da bebedeira certamente, mas também da esquivança de mim ali, desconhecido, ainda rindo, e a puxar-lhe pela manga. Mais do que a decepção de não o ter revisto, algo ali naquele confuso encontro me desconcertou. Acho que o facto de esperar encontrar-lhe a cara bonacheirona e num rompante dar com a face de um desconhecido, como se alguém o tivesse no último instante retirado dali, ou o escondesse sob uma máscara desconhecida. Não sei explicar exactamente porque me tocou tanto, talvez o súbito com que foi desvendada a carranca inesperada daquele bêbedo anónimo, a trocar-se pelo F, mas fiquei inquieto. No dia seguinte tinha-se morto numa moto contra um pilar.

Ele, como quase todos os meus mortos, fizeram-se sempre anunciar na véspera. Isto é inexplicável, bem sei, e nem tenho nem tento fazê-lo, mas é algo tão incontornável e tão inconfundível para mim, que nunca o poderei negar. Não se tratam de desvarios de um espírito desistido nessas alturas difíceis, fraquejando perante as amargas contingências do destino. Não, trata-se de uma íntima e convicta percepção de que eles foram trazidos por uma insondável razão ao meu espírito, antes de morrerem. Uma misteriosa sensação de que algo sorrateiramente escarnece de mim, a fazer-se quase inaudível, uma premonição suficientemente ligeira para que a ignore, para que me abstenha de desfazer esse nó que já está laçado, mas suficientemente evidente para depois vir a constatar não o ter feito. E há sempre um telefonema que calha fazer, mas que não se materializa num encontro por falta de folga de um de nós, ou um simples engano na fisionomia como naquela noite na rua do século, ou um almoço que subitamente me ocorre e que sugiro à última hora mas que tarde demais já não o encontra. E de todas as vezes teria sido tão fácil antecipar-me a essa madrasta da vida, inventar um qualquer pequeno detalhe que fosse o bastante para mudar as agulhas do destino, um ínfimo pormenor, mas bastante para estraçalhar de vez com essas abstrusas fatalidades. É por isso que eu sinto todas essas minhas mortes ainda mais súbitas e injustificadas do que o destino as quer fazer parecer. É por isso também que me sinto tão parte delas, a parte que ficou de as interromper.

Em todas essas vidas que vi partir, em todas elas, bastaria que eu franqueasse a pretexto da minha amizade qualquer outra oportunidade do que aquela que lhes ocorreu. Teria bastado um café. O café que hoje já não posso tomar com eles, onde, quem sabe, desastradamente lhes tentaria explicar, a conter-me dos seus risos trocistas, que estava ali com eles para que eles não estivessem ‘lá’. Ou simplesmente porque era quase Natal, um bom pretexto, como qualquer outro, para nos encontrarmos outra vez.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:17 AM | Comentários (8)

dezembro 21, 2005

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:40 PM | Comentários (3)

novembro 21, 2005

Insuficiente … mente

Chego a casa, por cá vou andando, e é assim que daqui saio depois - uma breve interrupção do dia, vestido de intervalo entre o abrir e fechar da porta. E todos os dias assim me trago de volta, a mesma repetição, as aflições que me esperam, do lado de fora, o cansaço das coisas que acabei por não fazer, do lado de fora, distante e meditabundo, e zangado com coisa nenhuma, insusceptível de ser algo mais do que os restos que trago comigo, a parte que sobrou, do lado de fora. Trago-vos angústia e exaltação. Coisas que não sei como se me pegam, nem porque as trago, do lado de fora. E menos sei ainda porque as deixo entrar comigo. E pior ainda, porque espero que m’as curem.

Sei que sou isso tudo, quando chego, e que isso tudo é já só o quase que sobra. Sei que me falta o cantinho para as guerras reboladas com os miúdos no tapete. Sei que me esqueço de tirar a gravata antes de te dar um beijo. Sei que aparece sempre algo a interromper as risadas despregadas d’uns a contagiar os outros, por coisa nenhuma, só para estar assim, a dividir risos.  – há quanto tempo tudo isto? Desde ontem? talvez dantes, talvez desde a semana passada, mas não mais … Mas é assim que me conto em casa, por vezes? Mas as vezes de quê? Dos interregnosque arranjo para estar verdadeiramente aí? D’esse que chega a casa, esse feito de intervalos intermitentes de mim, preocupado com o tempo a que se roubou do lado de fora?

Mas hoje não. Chegarei com as ‘vezes’ enganadas. Tenho o dia todo para forjar um ferrolho melhor, que hoje, quando chegar, não me esquecerei de trancar a porta atrás de mim. Terei algumas horas para recuperar do que não tenho ‘sido’. E depois amanhã. E depois outra vez, e assim um pouco todos os dias, a trocar as voltas a esta coisa que se me pegou. Prometo, lá pelo natal, o mais tardar, já terei feito da minha vida lá fora, os intervalos do que sou aqui convosco.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:20 PM

novembro 07, 2005

O amor é … uma construção com cal e reboco,
ou uma noite de sexo em que a gripe se me pegou

[ Há uns dias li algures na blogosfera o tão costumeiro cântico do amor. Este fazia-se vincar por uma estrofe da Rita Lee: “Amor sem sexo é amizade, Sexo sem amor é vontade”. Vou lendo essas explosões de paixão, e acabo por ficar sempre acabrunhado, eu que continuo sem entender o que é isso do Amor. ]


Não percebo o amor, nem o ostento. Percebo o que é ter alguém a nosso lado, por quem cresce permanentemente a amizade e a admiração. E percebo o que é sentir por ela uma inesgotável vontade de sexo – sim, sexo puro, saciedade, troca de fluidos, orgasmos, as carícias que o envolvem, deleite – confesso, não conheço outro sexo, nem consigo neste incluir o ‘amor’ mas tão só esse fervor animal. Serei um amante incompleto, eu que não declaro o amor. Eu que apenas sei identificar a afeição e a carnalidade que nos move todos os dias ao encontro do outro. Eu que apenas sei que divido a minha vida com a única pessoa com quem quero, e tenho sexo com a amante que desejo. Nada nisto me transcende. É uma construção com cal e reboco. Uma dualidade simples e quase tangível de afectos e desejo. E isso já eu percebo.

Já do amor, esse que se sussurra, e que se escreve engalanado em versos, o amor que se jura, o amor que se envergonha do estrito prazer carnal, essa abstracção que se agita e que me confunde, dele pouco sei. Sei que tê-lo, ao ‘amor’, como a definição (exigência) de uma relação ... é uma incauta maneira de nos tentarmos explicar, e incauto é já querermos explicar-nos - Declamamos algo que é maior que nós, e gritamos a dois esse grito que não tem som, talvez até receosos, como quem teima em lançar para longe o seu fim, lá nesse dia onde a paixão, esse “amor/desejo” de hoje, se acabará por consumir.

Não percebo o ‘amor’, nem preciso dele para exclamar a relação que tenho. Pode ser que ele esteja mesmo aqui. Que o veja entre duas coisas simples, como esta gripe que agora sinto e que bebi dela numa noite de sexo, e esta outra, a satisfação que encontro em mim por poder imaginar que assim a tirei (à gripe) um pouco dela. Entre o desejo e o afecto, o meu amor não consegue ir além disto. Nem corre o risco de um dia o não ser.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:00 PM | Comentários (14)

outubro 21, 2005

Há memórias que não se escrevem

Por vezes escrevo para me deixar conduzir numa viagem às minhas memórias. Coisas lá deixadas pelos outros, do eu que fui com eles. E quando escrevo chego a apoderar-me de alguns gestos seus – alcanço-lhes até a forma das mãos nas conversas mais arrebatadas, ou um tique no andar, as hesitações no rosto antes de uma inconfidência – e aos poucos, nessas pequenas coisas os vou reencontrando. E porque continuo a escrever, vai-me chegando mais deles, e com o que me chega recomponho fragmentos das nossas conversas, e com estas, meticulosamente, interligo e reconstruo alguns dos momentos que passámos juntos. Escrevo porque consigo criar a ilusão de os visitar.

Hoje apetecia-me escrever sobre ele. Mas não o vou tentar. Aliás, faltou sempre o texto que eu poderia ter escrito sobre ele, e acho que o vou deixar sempre por escrever - há em mim um diálogo interrompido que não se troca por saudades, e que não ouso reinventar, que trazê-lo para mais perto era perdê-lo, mesmo que assim incompleto. Há coisas que vivem apenas na dimensão das coisas que se sentem. São lugares que não se escrevem. Na minha infância, lá onde vive, e agora comigo, e nos meus filhos, no que eu quero ser com eles, e assim no meu futuro. Em todos estes lugares o sinto presente, nestes lugares que não são só meus. Por isso nunca os saberia escrever sozinho.

Hoje apetecia-me escrever sobre ele, mas não sei, e acho que não o quereria saber.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:55 PM | Comentários (9)

outubro 07, 2005

Eu, entre eles

O dedo mindinho arqueado, o mesmo movimento das mãos … ontem, num gesto distraído do Diogo, reencontrei-o. São cada vez mais as vezes em que o descubro nos miúdos. E é como se olhasse para as duas partes da minha vida – para o mundo onde fui filho e para esta nova vida que construo agora com os seus netos – e ver nuns o outro. Será isso ser homem, ser a parte que os une. E poder ser pai e filho, e unir estes dois mundos pelo mesmo fio invisível de felicidade, (que ele teve-a, que eles têm-na), já é bastante para o que eu quero da minha vida.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:28 PM | Comentários (3)

setembro 05, 2005

Esta é uma mensagem POSTuma e privADA

Provavelmente hoje já teremos deixado o tacão de Itália para trás. Pouco mais que isso arrisco antecipar; sei que devo estar a sentir que esta é a viagem da minha vida, e que sofro de saudades infinitas vossas, isso sempre consigo antecipar. Mas volta-sim-volta-não lá vos tenho encontrado na proa, com os pés de fora, no respingo, e os braços apoiados no varandim, sabes como é, não é?

Mas era mesmo só para te desejar, na 'rentrée', um bom dia de trabalho

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:56 AM | Comentários (0)

agosto 22, 2005

E pronto

Acho que vou ficar mesmo por aqui, um dia mais cedo do que o mar me oferecia. Talvez ele me obrigue a contar tanta água, tanto ir, ou talvez não. Talvez que se o fizer o faça aqui, ou talvez noutro lugar qualquer. Que este calendário não tem dias depois de amanhã, e eu já não os sei inventar, nem sinto já magia nisso. E há também outras coisas na minha vida que me pedem que volte, calcule-se, como se eu daqui tivesse alguma vez partido.

Ai, que me esquecia ...
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Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:15 PM | Comentários (11)

agosto 19, 2005

O quadro de mensagens lá de casa anda assim

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Giz há, faltam-lhe é as mãos que o escrevem

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:02 PM | Comentários (2)

agosto 12, 2005

O sítio das saudades

Há um dias expurgava assim as saudades do Francisco

Primeiro um estava no Algarve, com a tia. Depois voltou. Mas quando voltou já tinha partido o outro para o acampamento de escuteiros nos Açores. Pensava eu que assim fosse menos espinhoso, uma espécie de só meia saudade. Esqueci que pelos olhos de um também falam as saudades do outro.

Agora somos quatro os que estão por fora. O escuteiro e cada um de nós, os outros três, que enquanto estamos já quase só estamos para o lugar dele, ali vazio, na mesa.

Hoje acrescento mais saudades, e do sítio onde estas vivem

Poderia também falar de outros que estão de férias, ou do meu pai. Mas não vou falar. Há em todos nós um diálogo interrompido que ninguém ousa reinventar, com receio que lhe perca o rasto. Como quando escrevemos, e vemos algo a vir, e o vamos burilando, tanto e tanto, que quando voltamos para onde nos interrompemos já não encontramos o caminho que seguíamos. Há coisas que vivem apenas na dimensão das coisas que se sentem. É por isso que tenho imensos lugares vagos na minha vida. Para lá me poder sentar de vez em quando, onde guardo e reabro as saudades que tenho dele. São lugares que não se escrevem. São lugares que nem são só meus. Por isso nunca os saberia escrever sozinho. E deve ser por isso também que nunca se apagam.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (3)

agosto 11, 2005

Ou seja,

Na verdade só há um mundo, o nosso - com as partes que dos outros nele cabem. Os outros são maiores quando há mais espaço para os arrumar cá dentro. Quando o nosso mundo é uma caixinha minguada só cabem os ‘outros’ pequenos, ou então, apenas as partes pequenas dos outros. Por isso é preciso repetir todos os dias a mesma coisa: “os outros não são nossos, os outros não são nossos, os outros não são nossos”, não vá um dia o nosso mundo ficar exíguo demais para os poder continuar a ter.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:16 PM | Comentários (7)

Intimidade

Em nosso redor existem 3 mundos. O que nos vem de dentro, o que nos tem lá fora, e o dos outros que nesse vivem. Quando trazemos este último até nós, é tão longa a distância que o fazemos percorrer, são tantas as mazelas que lhe fazemos pelo caminho, fica este tão estropiado para caber dentro de nós, que quando finalmente o julgamos ver, nem percebemos que esse outro ‘mundo’, afinal, nunca chegou a ser verdadeiramente nosso. Complicado? É por isso que às vezes, para simplificarmos, gostamos de chamar a isso “intimidade”. Quando julgamos que o que está ‘lá fora’ também é nosso.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:06 PM | Comentários (1)

agosto 08, 2005

Olhar outra vez

Estava uma luz tremeluzente que desenhava com riscos volúveis o seu redor ...

Ou então não. O mesmo local, a mesma noite, mas nada se vê para além daquela luzinha mortiça. [As coisas, mesmo que se olhadas exactamente no mesmo instante, podem parecer tão desiguais. E podem chegar a ser tão diferentes que nem se chegam a encontrar na mesma realidade] ...

Ou então não. Poderemos ser apenas nós que nos atraiçoamos ao querer vê-las sempre da mesma forma. A forma que nunca foi delas. Ou que já não é delas ...

Ou então não. As coisas não mudam assim, nem nós as vemos diferentes. Continuam a ser como são, apenas precisamos é de as compreender outra vez.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:25 PM | Comentários (1)

julho 13, 2005

Coisas importantes que me acontecem na trilha de mais um dia

Nove da manhã, caminho para o trabalho. Vou só, absorto e preocupado com o que me espera hoje. O portátil pesa-me e o sol já está desagradavelmente forte. Subitamente estaca uma carrinha uns metros à minha frente. Reconheço-a e alcanço-a em três passadas. Debruço-me sobre o vidro que se abre. Um sorriso, enorme, e todo meu, só para me desejar um bom dia. Depois parte. Ali parado, debaixo das quatro acácias, (curioso, nunca tinha notado a sombra sossegada que fazem) ainda revejo a sua encantadora atrapalhação, como se fosse isso e não todas as outras coisas que fosse necessário justificar. Para onde seguia eu? Ah, vamos então. Logo te encontro.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:12 AM | Comentários (4)

julho 12, 2005

Há coisas que não se dividem por dois

Primeiro um estava no Algarve, com a tia. Depois voltou. Mas quando voltou já tinha partido o outro para o acampamento de escuteiros nos Açores. Pensava eu que assim fosse menos espinhoso, uma espécie de só meia saudade. Esqueci que pelos olhos de um também falam as saudades do outro.

Agora somos quatro os que estão por fora. O escuteiro e cada um de nós, os outros três, que enquanto estamos já quase só estamos para o lugar dele, ali vazio, na mesa.

(que mania esta coisa de querermos acreditar que também há aritmética nos filhos)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:02 PM | Comentários (6)

julho 04, 2005

Mais uns tempos

Sexta-feira, aconteceu comigo, mas voltei, trazido do fundo. Desde aí sou duas partes, e cada uma pertence a uma delas, às duas mulheres da minha vida. A parte que faltou levar, assim se suspenderá por mais uns tempos, nas mãos da mulher de cabelos negros e voz doce que me entorpece os sentidos. A outra parte de mim, a que ainda ficou, a mesma afinal, é toda de quem a roubou das mãos dela, dessa outra mulher que faz de mim quem sou, porque ainda sou, arrancado uma, e mais uma vez, quando quase nada já era tudo.

Vim do negrume onde tudo em nós se amolece, mas voltei, trazido por ela, e sei que já só voltarei para lá quando não for capaz de lhe dizer nessa outra vez, que afinal, a outra me levou de vez com ela. E um dia hei-de quebrar este azedume, que me vem do cheiro do fim, do perfume da outra, para lhe poder dizer que até lá, serei dela.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:08 PM | Comentários (5)

junho 21, 2005

E segue o resto ...

Sinto-me tão desperdiçado aqui.
Devíamos poder visitar-nos um ao outro,
Tu chamavas e eu aparecia aí, agora
A chegar assim do ar, sem ninguém saber
E trocava-me pelo teu corpo,
Só enquanto ganhavas fôlego.
Depois tu voltavas
A tempo de nos vermos em casa,
E eu vestia-me de novo de mim
Para poder ficar ao pé de ti.

[ Por SMS já não dava :) ]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:27 PM | Comentários (31)

junho 03, 2005

Água Saudades em pó

Sabes, isto mudou imenso. Os polícias agora são mais novos e menos broncos - apesar de continuarmos a ouvir histórias mirabolantes, estou em crer que se vissem alguém morrer na sua frente eram bem capazes de acreditar, desta vez. E depois apareceu a Internet, e atrás dela uma coisa que se chama blogosfera em que acho que te irias dar muito bem. Foi justamente por aí que ontem, num comentário, me lembrei de ti.

E isto a propósito daquela tua ideia de vendermos água em pó. Continuo a achar que a ideia era boa. Até já pensei num slogan:

"Auguinha" - a água em pó
... só precisa misturar água

Quanto à parte logística, proponho que hajam dois tipos de embalagens. A familiar, para se vender nos hipermercados e a individual, tipo saquinho de preservativo, que seria a mais indicada para servir os copos com água nos cafés.

Depois diz-me o que achas. E não te atrevas a convencer-me que isso é impossível. Se tu podias ter ideias “impossíveis” como esta, porque não hei-de eu poder magicar coisas “impossíveis”. Tenho saudades das tuas ideias loucas pá - faço ideia do quanto já deves ter feito rir essa malta aí.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:22 AM | Comentários (6)

maio 27, 2005

Angústia partilhada

cafecreme.jpg Tenho-a aqui ao meu lado desde que cheguei.

Quando hoje de manhã me deixaste para eu beber café, fui na verdade comprá-la. E agora tenho estado por aqui a olhar para ela. E tamborilo na tampa. O toque soa amortecido. A caixa ainda está cheia e selada com as 10 cigarrilhas que por esta hora já deveria ter fumado. Gosto muito mais quando já dela sai um eco metálico do prazer que foi fumado. Tenho hesitado toda a manhã, e doem-me os maxilares da ferocidade da pastilha. Por cada uma que não fumei, levantei-me, voltei a sentar-me, e dei novo toque na caixa. Por cada toque lembro-me de ti. Depois levanto-me uma outra vez, vou lá abaixo, e volto. E quando me sento, fico outra vez como se tivesse de começar tudo de novo. E lembro-me outra vez de ti. O meu vício por ti tem de ser mais forte que a porcaria das cigarrilhas. É isso que me faço recordar quando me sento de novo, mais uma vez.

Agora penso de novo em ti. Mas não por mim, intervalei esta angústia. Agora resvalo para o teu lado, na esperança de te poder estar a ajudar tanto como hoje tens feito comigo.

Beijos e … muita força !!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:17 PM

maio 20, 2005

Os que nasceram para tomar conta do mundo
(brincando com o PaintBrush)

Se forem dois irmãos é quase certo que terão naturezas opostas. E se ao primeiro lhe sair em sorte esse deslizar aéreo sobre as coisas, esse estar-e-não-estar, então sobejará para o mais novo aquilo que normalmente são traços de irmão mais velho – a voluntariedade. Fica-lhes o encargo de tomarem conta das coisas. São os que ficam para trás quando alguém se deixa atrasar, ou que dão o peito quando alguém lá na frente receia algo. E há nisso um insaciável desejo de agradar, e também a contradição de não quererem dar nas vistas mas gostarem de ser reconhecidos.

As contrariedades resolvem-nas sem desvios, e suportam-nas até ao limite, em solidão. A última coisa de que serão capazes, é mostrarem as suas fraquezas em público, e por mais dolorosas que essas sejam, sairão sempre com um olhar orgulhoso, até que cheguem a casa. Aí, no calar do dia, só aí, deixarão que as lágrimas lhes corram, e apenas para dizer: “não volto lá”. E neles, o que dizem nestas alturas, é para se saber ouvir, e é bom que aprendamos a ficar antes dos limites do seu orgulho.

São naturalmente obstinados. Muitas são as vezes que conseguem em esforço o que outros alcançam com mais facilidade. São tímidos e orgulhosos, teimosos e inseguros, e nessa têmpera de contradições encontramos uma invulgar tenacidade. Nada neles é aparatoso, e por isso nem sempre os descobrimos facilmente, ou do que fazem pelos outros. Mas eu aprendi a reconhecê-los pelas mãos. São grandes, fortes e têm um jeito de dedos no agarrar das coisas que os desmascara: são as mãos de um artífice. Foi assim que as aprendi a ver no meu pai, e foi assim que as redescobri no Diogo.

Sei que na sua disponibilidade haverá muito de uma solidão especial, e que empurra para dentro as coisas que não interessam aos outros. É isso que fará com que, - mesmo que venha a alcançar quase tudo o que quer - nunca se sinta completamente feliz. E essa inquietação fará com que cada vez mais se procure realizar com os outros. Nasceu voluntarioso, mas pressinto que isso que está dentro de si o tornará acima de tudo alguém muito generoso. Há quem tenha nascido para se sentir mais nos outros que em si mesmo. Como pai receio que essa maneira de ser, tudo isso, tudo o que ele é, torne os seus caminhos mais árduos. Mas como homem sei também, tenho a certeza, que o irei respeitar por isso.

diogo.JPG

[ Hoje desenhei-te assim Diogo, tu aqui homem e lua ]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:31 PM | Comentários (10)

maio 13, 2005

A pior maneira de chegar a casa é quando o fazemos já tão tarde e tão cansados que já nada trazemos de nós. Os beijos neles adormecidos, a conversa que não se chega a fazer, assim, sem nós, sem eles, tudo parece ter sido (ainda mais) em vão.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:23 AM | Comentários (13)

maio 10, 2005

Azar nítido (brincando com o PaintBrush)

Se forem mais do que um é quase certo que um deles será o puto do azar nítido. Normalmente é um espirra-canivetes, desengonçado, com mãos que não se vêem quietas e que esvoaçam pelo espaço de forma desarticulada, com braços de lastro desastrado a que as coisas se apegam, e que tem no seu corpo uma arma letal do desastre. Não caminha, tropeça. A espera é um momento que inventa para a transformar na eminência de algo que vai correr mal. São tantas as topadas nos pés na única pedra da areia da praia, e as arranhadelas no prego esquecido da parede, e as vezes em que os pratos se poisam no exacto sítio de onde cairão, são tantas as pequenas fatalidades que, resignado, acaba por conviver de uma forma dócil com esse lado fatídico. Os acidentes, as contrariedades, a tudo isso se acostuma a dar-lhes uma proporção relativa, e isso fará dele provavelmente uma pessoa mais contemporizadora, mesmo que com alguns arranhões. Há uma resignação serena quando se recupera da dor, já de sorriso na boca a dizer “oh pai deixe. É o azar nítido do costume”. E vai ser alto e feliz.

azar nitido.JPG

Não sei porque me lembrei disto. Ou melhor, até sei. Soube-o logo assim que criei a falha na ponta do rochedo. Depois juntei-lhe aquele sol quente de fim de tarde, e ficou o Francisco.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:10 AM | Comentários (9)

abril 20, 2005

Post único do Dia

Passou a meia-noite. Passará o dia. Já passaram tantos anos. Beijo-te cada vez mais demoradamente. Já não o sei dizer de outra maneira. Desaprendi. Ou talvez tenha passado para além do que as minhas palavras sabem contar. Aos Parabéns divide-os ao meio. Metade deles são pela mulher cada vez mais bonita em que te transformas. A outra metade por me aturares.

bicla.jpg
Achas esta bem? :)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:47 AM

abril 18, 2005

F.

Quase a fechar o computador e chega-me ele. Está exactamente como era. Revejo-lhe as feições de sempre, joviais, e o riso, a trazer-me saborosas conversas, coisas de adolescência quase. Suspendo-me - não muito, com medo de o esfumar de novo - apenas o suficiente para ali ficar a matar saudades. Demorou-se duas longas baforadas de fumo.

O resto do dia tenho-o trazido por perto, os dois cá dentro a rir daquele tempo em que fazíamos os exames a meias e no fim gozávamos com o absurdo de apenas um de nós ser glorificado na pauta.

Já só resto eu na pauta, hoje. A nota a dividir por dois, como sempre.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:23 PM | Comentários (4)

abril 04, 2005

Post apagado

Provavelmente poderei estar a exagerar, mas o certo é que me senti profundamente desconfortável ao ler o post que aqui coloquei. E apaguei-o.

Acho que de repente descobri os limites da minha escrita ‘pública’. Até hoje não me lembro de alguma vez ter hesitado em trazer para esta espampanante janela tudo o que me ia na alma, de forma incondicional, em absoluta anarquia de critérios, sem esconderijos. Arranjei um pseudónimo e leviano deduzi assim que tudo era ‘postável’. Iludi-me, pois não é o nome que nos esconde, assim como não é o nome que nos revela, e menosprezei a prudência de estabelecer regras.

Se o tivesse feito, facilmente encontraria critérios que determinariam já não os meus limites de exposição, mas a fronteira onde estes se confundem com os de outros, e onde facilmente escorregamos para o ilegítimo e o inconfidente. Para além disso, as coisas dos outros que nos ‘acontecem’, e as coisas que os outros nos dizem, por mais deleite e orgulho que nos tragam, nunca poderão ser resumidas à condição de post, com risco de deixarem de ser nossas, e de se esvaziarem de significado.

Provavelmente, tudo se poderá escrever, mas nem tudo se deve poder ler. E nisso aprendi a lição.

Siga a Marinha !

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:26 PM | Comentários (17)

fevereiro 14, 2005

Porque hoje é dia dos Namorados

Estas memórias dedico-as à minha primeira namorada...

A primeira vez que me apaixonei foi há quase 30 anos atrás. Era uma loirinha magricela, que eu entrevia pela janela da minha sala de aula. Profundamente tímido, demorei quase um período escolar até ao primeiro “olá” num intervalo das aulas. Foi coisa engasgada, enrubescida, e pouco retribuída. (Na verdade nunca chegou a ser minha namorada, mas apenas porque na altura ela não o sabia.)

Uns meses depois vim a descobrir que ela morava a uns escassos duzentos metros de mim. Foram os melhores dias do meu cão, ele que nunca terá passeado tanto. Era um enorme pastor alemão, que me arrastava desvairadamente por todo o bairro. Ainda assim, quase sempre o conseguia domar até junto da janela dela. Nos melhores dias ficava ali amansando-o nos degraus do seu prédio, noutros, menos bem sucedidos, mais não conseguia do que esquiá-lo em redor do quarteirão inteiro. Certo é que ele nunca tinha passeado tanto e eu nunca tinha estado até então tão perto dela.

A persistência com que combatia aquela profunda timidez trouxe os seus frutos. Primeiro um enorme “ah, vives aqui” com que disfarcei a coincidência. Depois começou a tornar-se frequente o quase entrechocarmos, e então ríamos da forma como aquele animal me rebocava. Era contudo uma situação lamentável para os meus intentos. Trazia-me inconsolável o ver-me abruptamente arrastado pelo cão para longe dela. Ainda desferia uma graça qualquer a esse propósito, mas já raramente lhe conseguia ouvir resposta, eu já longe.

Passaram-se meses. Paciente e escrupulosamente fui mudando de estratégia. Decidi acercar-me do círculo de miúdos que todos os dias cirandavam lá pela rua. Num bairro jovem, com níveis etários muito próximos e tanta miudagem, essa era tarefa fácil. Rapidamente constatei que muitos deles eram afinal nossos amigos comuns. A nossa aproximação, ajudada pelos episódios anteriores passou a ser algo já natural.

Passámos então a fazer parte do mesmo círculo de amigos. Mas curiosamente, à medida que lhe ia sendo mais próximo e crescia uma forte amizade, esta, de forma inexplicada, aos poucos, absorvia aquele encantamento passional. O meu acanho poderá ter sido a causa para essa paixão, depois de tanto esforço, de tanto estratagema, de tantas expectativas, nunca se ter declarado de forma aberta entre nós.

Ou algo mais a terá escondido dentro de mim, àquela paixão, ainda afogueada, mas refundida lá fundo, afastada até dos meus pensamentos. Ceio hoje que, e embora o não soubesse então, estaria a resguardá-la para outros tempos, mais próprios, nos quais me fosse possível poder alimentá-la, à paixão, e fazê-la continuar comigo. Definitivamente, não permitir que ali se consumasse como coisa fugaz, como uma peculiar experiência de amor de um rapaz púbere, algo que se tornaria irrecuperável no tempo e que mais não seria que coisa episódica, e que hoje apenas recordaria vagamente.

Certo é que a nossa amizade se manteve, e acabámos por crescer juntos. A adolescência e depois os acasos da vida já adulta fizeram com que nos passássemos a ver com menos frequência, mas a nossa relação manteve-se, apesar de já só ocasionalmente a ver.

Um dia, 15 anos depois desta minha primeira paixão, apaixonei-me de novo. Casei pouco depois. Ainda hoje, quase 15 anos depois do nosso casamento, quase 30 depois daquele dia em que eu espreitava escondidamente aquela miúda magricela da janela da minha sala de aula, ainda hoje estou a reconstruir aquela minha primeira paixão, um bocadinho todos os dias. Pelo meio houve outras paixões, naturalmente, em que confesso ter-me saído sempre um pouco desajeitadamente, mas o meu primeiro e último amor, o mesmo, esse soube-o tomar bem para mim.

… e à mulher que amo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:09 PM | Comentários (16)

fevereiro 07, 2005

Raios partam os compromissos, raios me partam a mim

Ontem ainda tentaste deixar escapar que afinal não te estava a apetecer ir ao acampamento. Mas nem sei porquê Francisco, que puto teimoso tu és, se afinal já sabes o que eu acho sobre o compromisso. Tenho a certeza de que ainda te lembras do que te disse quando te perguntei 3 vezes se querias mesmo ir. Lembras-te? Eu alertei-te repetidamente para que, se o assumisses, terias de o cumprir. Foste tu quem ligou ao teu chefe na 4ª feira, confirmando que ias, que querias ir. Eles estão a contar contigo. A partir daí terás de fazer o que disseste que farias e não apenas o que te apetece fazer. É isso o compromisso, é isso que espero que cumpras hoje, e se possível nos outros dias da tua vida. Por isso insisto tanto, não para ser bera contigo, não para me armar em pai mandão, mas apenas porque acho que te devo fazer sentir isso. Que frio está hoje. Quase me apetece dizer que sim, que não vais. Até porque este acampamento afinal, não é a coisa mais importante do mundo. Mas que frio está. Mas os nossos compromissos são para cumprir. E vais bem agasalhado, levas gorro e luvas, e tens lá muita roupa. Mas está de facto muito frio. Mas este terás de cumprir, percebes isso agora não é?

Há coisas em que um pai deve forçar, mesmo que lhe apeteça o contrário. Este é o meu compromisso. Tal como o teu, é algo que acho que devo cumprir, mesmo que não me apeteça fazê-lo. O forçar-te a assumir o teu compromisso é o meu compromisso de hoje. Mas esta madrugada, 7ºC , é de facto muito frio. Mas nós tínhamos dito que sim e vais, pronto. E agora até já nem pensamos nisso. Que bela viagem estamos a fazer. Nada como uma noite bem dormida para levantar a moral não é? Que bela viagem, cheia de humor, boa disposição, divagações como tu tão bem sabes fazer e eu tanto gosto de tentar acompanhar. E o que a gente se riu quando insinuei que ia chover! Que nem o dissesse rias tu, que nem o tentasse dizer que isso traria má sorte, que já chegava o frio. E riamos com o facto de todas as vezes que foste acampar ter chovido. Até no verão. E por isso não querias ir hoje, porque das outras vezes em vez de acampado acabaste acantonado e encharcado e enregelado. Mas agora, dois meses sem chover e logo hoje, seria grande azar. Que seria só frio sem chuva, que isso já bastava. E ríamos todos.

Passou-se num instante esta viagem não foi? Valeu a pena este madrugar. Chegámos um pouco atrasados mas bem dispostos. E os teus amigos ainda estão todos aqui, ainda ninguém partiu para o ‘raide’. E que grande festa te fizeram. Beijos miúdo. E já agora agradeço-te não ver em ti ressentimentos. Essa cara de puto para quem tudo está sempre bem deixa-me aliviado. Mas o frio …brrrrr, 6ºC agora. Ainda bem que trouxeste o gorro. Ainda bem que te despediste com um sorriso a tranquilizar-me. Ainda bem que partiste logo com os teus amigos, mostrando-me que afinal eu tinha razão, que afinal o que lá nos parece depois pode ser outra coisa. É isto o compromisso, o sabermos que o temos de fazer, e fazê-lo com a satisfação de o poder saborear, e não termos de tornar isso uma penalidade. É assim que se devem encarar os compromissos. Vejo que percebeste onde queria chegar. Mas que frio que está. Nada, tu estás bem agasalhado e vais divertir-te. Além disso tinhas dito que vinhas. É assim mesmo.

Mas este frio! Olha, estamos a partir. Tu já lá vais ao fundo, quase só te vemos a mochila enorme e as pernas magricelas por baixo. Mas vais bem, isso vê-se pela forma como caminhas, e pelos gestos de mãos que se vão mostrando por trás da corcunda de coisas que levas. Quase ainda te vejo no retrovisor … Já menos agora?!! Num ímpeto caiu sobre nós esta maldita tromba de água! Deixei de te ver, deixei quase de ver a estrada. Queria tanto voltar atrás agora para te ir buscar. Mas não o farei. Eu também faço parte do teu compromisso. Aliás sei que não virias já.

Mas se gritar alto talvez me ouças. Talvez não. Não precisas de o ouvir. Não convem que ouças. Mas eu preciso de o gritar como se tu ouvisses. Apenas para te dizer que há outras coisas importantes na vida de um homem, para além dos compromissos. A possibilidade de ele dizer “desta vez não! Desta vez não quero ter este compromisso. Que se lixe!”. Espero que da próxima vez, quando te falar de compromissos, um de nós o saiba dizer assim. É que às vezes é tão difícil para mim conseguir aguentar os teus compromissos filho.

Boa noite. Agasalha-te.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:07 AM | Comentários (19)

fevereiro 02, 2005

Doce Eufigénia

Agora que ultrapassaste essa fase de silêncio ao surpreenderes a Catarina (e a mim!) com um comentário neste seu post (já agora, e quanto ao que lá evocas, insisto de novo, eu só deixei o lençol de banho molhado em cima da cama uma vez, apenas e só uma vez);
Depois de me explicares que é a boa educação que te obriga a responder lá, já que o post te tinha sido directamente endereçado;
Depois de eu já ter quase ultrapassado esta profunda mágoa de me ver preterido e assim não ter podido ser agraciado com essa “tua primeira vez” aqui;
Então, e apelando ao princípio por ti justificado de que uma alusão explícita aconselha da tua parte um comentário, ... venho só deixar esta listinha para ti:

=>Mau acordar – ou a história de um ciclo dramático
=>Eu tenho um outro Blog
=>Humm …
=>Mensagens de amor+Re:Msg.s de amor+Re:Re:Msg.s de amor
=>Isso arranja-se
=>Vou indo bem obrigado
=>Creio que ...
=>Isso é que era bom ... ter-me lá mais do que cá!!!
=>Proposta privada
=>Quarto de Hotel (a fuga)
=>Quem sabe se ela não lerá isto?
=>Isso é ali na secção do lado

E não te preocupes com as horas, caso seja necessário eu trato do jantar (queres frango com picante ou sem picante?) e ponho os putos no banho.

Beijão

PS: À falta de resposta a cada um dos post's claro que haverá sempre alternativas ...

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:00 PM | Comentários (16)

janeiro 18, 2005

(A)os homens da minha família

Hoje lembrei-me deles todos, e do que eu sou afinal. Fui buscar-me lá atrás, reli-me e retive saudades, se é que assim posso chamar a este tê-los sentido tão próximos.

Hesito em colocá-lo, pelo seu lado intimista, que é texto que partilha mais do que eu, e nisso abuso. Coisa saída a quente, em Novembro de 2001, mas poderia ser antes, ou depois, poderá mesmo ser escrito amanhã, por um dos meus filhos. E por isso acabo por admitir que por aqui se espraie. Será indiferente ao estilo com que se escreve, apenas interessado em como será lido, será indiferente a quem o lê, apenas espreitando, um dia talvez, ser lido por eles.

“Ontem, morreu o último dos homens das gerações anteriores à nossa. Aos poucos vi-os seguir no inexorável destino desta família. A minha vida, e a dos meus filhos, já não se afaga com a presença masculina das gerações mais velhas. Mas a minha teve-os quando precisei deles, já a dos meus filhos me terá apenas a mim e aos homens da minha geração. E isso nunca poderei preencher ou substituir completamente.

Revejo-os. Recordo-os quando a eles me encostava criança, procurando o conforto, depois já não o mimo e as festas mas o apoio e o estímulo, mais tarde ainda, juntou-se-lhe o companheirismo de homem. Eram eles quem me trazia confiança, e que ora simpatizavam o mundo ora o deixavam entrar selvagem, mostrando-me as duas faces de uma realidade, alternada mas suavemente. Pois digam o que quiserem, aos homens o mundo mostra-se pelos homens, ainda que sabiamente retocado pela aveludada visão das mulheres.”

Releio e vou corrigindo: Este não é necessariamente um lamurio, nem tão pouco um típico pensamento machista do meridiano. É apenas uma fraca tentativa de tradução de um homem, que se procura compreender algures entre a cumplicidade dos homens que o viram nascer, e o afecto pelos homens que hoje vê crescer.

“Nem todos terão sido especiais, os homens que vi serem da minha família, mas todos, foram-no. Cumpre-se na minha memória a sua presença, como todos os homens mais velhos deveriam ter para cumprir em todas as famílias. Hoje, com a partida do meu tio-avô, o último desses, e já depois do meu pai, e dos meus avós, mais do que a tristeza, sinto a saudade dos tempos em que precisava deles sem o saber. Será uma perda, mas acima de tudo a lembrança de como me foram construindo, e essa não me é penosa. Reconheço-lhes a efeito em mim, nem bom, nem mau, apenas completando-se. E como foi bom ser miúdo e ter o mundo agarrado por aquelas mãos grandes, encaminhando, boleando as pontas mais agrestes, outras fingindo-as espinhosas.

Ocorre-me hoje, embora o sinta demasiado prematuro, que eles nos deixaram o seu legado. Olho para as minhas mãos e vejo-as fortes, enrugadas, peludas. Mas vejo lá longe as suas mãos. Com esta partida instala-se-me pela primeira vez a noção de nos estar designado sermos os pais, os tios, os avós mais tarde. Um inteligível sussurro chega-me trazido pela voz do Tio João. Despede-se e é ele que fala, mas são com ele todos os homens que nos viram e fizeram criar e que habitam a minha memória. E ouço que poucas coisas mais importantes existirão no mundo dos homens que o estar perto dos que nos sucedem, ao crescerem homens. Esta terá sido provavelmente a última mensagem que dele(s) me esforcei a ouvir. Sem o saber quando nem como, mas certo de a ter escutado.

Ao partirem tornaram-nos inapelavelmente homens, a nós agora, no toque final. Senti-los partir é saber conviver com a nossa parte infantil, mas forçosamente assumirmos também que agora desempenhamos um papel para outros, aqueles que vêm a seguir a nós, como eles desempenharam para nós. Não será seguramente a última coisa que receberemos deles, mas aceitemos que a sua última lição foi tornarem-nos homens, ao fazermos nós dos nossos, os seus verdadeiros homens. As minhas mãos - noto-as agora como se fosse a primeira vez - são fortes, enrugadas e peludas, como as deles eram. Pois saiba eu usá-las por metade do que fizeram comigo.”

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:49 AM | Comentários (4)

dezembro 29, 2004

Proposta privada

Tu levarias o sorriso de manhã,
e eu trazia-o ao fim da tarde comigo.
À noite deixávamo-lo a dormir na boca dos nossos filhos
antes de o pegares de novo, pela manhã.
Que dizes?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:34 PM | Comentários (7)

dezembro 20, 2004

O engenheiro do (meu) mundo

morávamos numa pequena moradia, e tínhamos sempre um cão de guarda !
primeiro foi um belíssimo pastor alemão. o segundo era um rafeiro ... do qual gostávamos muito mais !

mas em vez de guardar, o cão vivia vadiando pelo bairro inteiro !
e frequentemente aparecia com os devidos sinais de guerra
um dia apareceu com o maxilar debaixo completamente fracturado ! de tal forma que a mandíbula lhe baloiçava presa apenas pela pele !

agarrámos nele e levámo-lo ao veterinário
disse-nos este que em princípio aquilo seria fatal ... que não havia condições de sobrevivência, por razões evidentes que nem precisavam ser explicadas
perante a nossa insistência, e porque era um tipo novo, com genica, propôs que arriscássemos o seguinte ...
então com um arame d’aço prendeu as duas partes do maxilar do cão, como se estivesse atando a queixada !

as esperanças eram poucas ...
o que é certo é que o cão, apesar de ter um apalhaçado funil na cabeça para não se coçar ... acabou por fazer com que aquilo voltasse ao mesmo !
segunda vez lá voltámos
de novo tudo começou ... mais não sei quantas horas de operação…
aviso final: se desta vez não resultasse ... teríamos de abater o cão, por razões óbvias.

dias depois.... tudo na mesma.
o maxilar outra vez caído. a imagem era horrível, e o seu significado também ... estávamos todos descorçoados! seis miúdos inconsoláveis.
ele olhava-nos, e depois olhava para o cão, irrequieto

vi-o então sair e dirigir-se a um anexo que lá tínhamos no quintal, onde guardava ... as ferramentas ... e trazer de lá dois alicates de pontas!
o meu pai sentou-se então em cima do cão que esperneava, gania, rugia ....e durante largo tempo ...nenhum de nós ousou aproximar-se deles !!
No fim tinha refeito tudo aquilo, ligando as pontas do arame nos dois maxilares.

o cão viveu durante mais uma série de anos !!!!


Mas ficaram tantas outras pontas soltas para arranjar

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (6)

dezembro 10, 2004

As cegonhas do Rio

SENHORASUL_CaisdaPedra1.jpg
(esta foto foi abusivamente retirada do blog da Senhora do Sul)

Reparem na grua, a mais delgada, com pose de cegonha. Saibam que ela se chama "Poderosa". E tem uma irmã gémea, a "Vigorosa". São duas personagens muito antigas, do porto de Lisboa. Fazem parte de uma das minhas histórias de infância, contada pelo meu pai, nas nossas voltas à beira rio por aquele empedrado fora. Quando passo por elas, lembro-me dele, e ele traz-me a cidade. E a cidade contada por ele traz-me as suas saudades. Afinal sou muito próximo desta grua e da sua irmã. Somos gente do mesmo tempo, umas contadas, outras ouvindo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:41 PM | Comentários (6)

novembro 21, 2004

Boa noite

A lareira borrifada, os cinzeiros despejados, o inevitável trago final no resto do vinho. Olho em volta para fechar a noite.
Naqueles momentos que já são calados, de imprevisto, dou por mim a achar que ele ia agora entrar por aquela porta. Quase me levantei para o acolher.
Mas não, não poderia ser.
A esta hora, deve ter sido apenas algum barulho que ele fez 'cá dentro', a ajeitar a cama talvez.
Boa noite, eu também me vou deitar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:57 PM

novembro 08, 2004

Re: Re: Mensagens de amor

Também te amo.

Beijos

PS: Não podemos esquecer a consulta do Francisco

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:50 AM | Comentários (2)

Re: Mensagens de amor

Bom dia!!!

Então é assim:
* Pão
* Pão Pro Korn
* Leite do dia
* Batatas congeladas
* Fruta
* Saladas
* Cereais Cola Cao
* Cereais Golden Graham
* Cervejas
* Água
* Rolos de Cozinha
* Pasta de dentes

E que me lembre não é mais nada.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:47 AM

Mensagens de amor

"Kidinha,

Manda-me uma lista de supermercado, ainda de manhã, que eu tentarei lá ir à hora do almoço.

Beijos"

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:45 AM

outubro 18, 2004

Os meu mortos

Houve alguns dos meus mortos que se foram esfumando, e transformaram-se aos poucos numa nostálgica e longínqua recordação, cada vez mais deturpada com partes de mim. Eu tentando-os recuperar com o que eles deveriam ser mas já não eram.

Mas houve outros em que as memórias não se desvaneceram, não eram etéreas e solutas. Mais do que as suas memórias, foram eles que me entranharam. Esta dor brutal, gritando uma explicação que nunca virá, era afinal um processo de regeneração, enquanto eles passavam para dentro de mim. É aí, dentro de nós, não pelas recordações que deles guardamos, mas pelo que passamos despercebidamente a ser deles, que as almas daqueles que nos tocam verdadeiramente na vida, passam a viver.

Esses são os meus mortos. E é assim que agora nós vamos caminhando pelo mundo. Um dia virá que passaremos este testemunho a outros. Tudo o que vamos fazendo, e deixando, afinal é apenas isso, ir ajeitando o “lugar” onde mais tarde continuaremos a viver.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:09 PM | Comentários (3)