agosto 16, 2006
Coisa de "fora de prazo"
“O costume, pente 4” - e no barbeiro nunca fui menos conciso que isto. Hoje, quando de lá saído e vendo-me resvalado num vidro espelhado, inquieto-me com o resultado. Chateou-me nisso não o corte em si, (aliás de pouco para comentar), nem o ver-me reflectido de sobressalto, e assim surpreendido achando-me como se fosse pelos olhos dos outros, velho. Não, o que me arreliou nessa constatação fútil foi mesmo isto, de agora, quando da boniteza já pouco há para remediar, e só agora me dar para isto da vaidade.
Sim, que da vaidade só a tinha a essa, a de não ter vaidade nenhuma. Pois
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:06 PM
agosto 09, 2006
Cicatrização
São 3h da manhã. Continuo sem conseguir arrumar o dia. Falta-me a parte do seu termo que me remete para o dormir. De cada vez que fecho os olhos algo repica e me impede de o deitar, ao dia que já vai longo dentro de mim. Sei que daqui a pouco ele se levantará, inquieto e que me levará com ele, como se, apesar de absolutamente fatigado, não quisesse acabar já, não sem antes acabar como deveria poder. E todos os dias se repete esta cena soturna, silenciosamente, onde tento deitar o dia às escondidas da noite. E todos os dias os dois se juntam levando-me com eles em deambulações pela casa. E um fatiga-me e o outro impede-me o descanso. Travamos esta guerra há já para mais de dois meses, ininterruptamente. Resignado, preparo um nescafé fraco e beberico com ele o resto do wisky que ficou no fundo de um copo. Faço tudo isto com uma mão apenas. E levanto-me de novo, e ele irrequieto, a fazer-se pesado no meu corpo. Damos uma volta à casa como se revisitássemos cada assoalhada, colhendo e largando cada uma das peças que casualmente vamos encontrando pelo caminho, assim matando o tempo e as vontades. Mas não chega, nunca chega. Volto a vestir então uns calções, calço umas chinelas e saio para a rua. Uma, duas portas, que destranco, com uma mão apenas. Dobro a esquina, subo o beco e volto a descê-lo, e depois retorno para dentro. Os mesmos movimentos, a repetirem-se, mais cansados espero. Tudo recomeça agora uma outra vez. Sento-me na borda da cama. Mas não preciso de mais que isso para perceber que não vale a pena. Ele continua lá, dentro de mim, e espera que, tal como o sono que havia em mim, também eu desista. Há dois meses que espera. Abro a mão e faço rodopiar o isqueiro que tenho na sua palma. Apago de novo as luzes e fico depois a brincar com a sua chama no escuro. Vou pensando que me habituei a trazer comigo um sono que não consigo curar. Agora já nem me apetece pensar, estou cansado, e a chama já está débil. Tenho brincado muito com ela nestes últimos tempos. Mas agora já não quero pensar, nem no isqueiro sequer. Nem queria sentir nada, como se estivesse simplesmente a dormir. Deixo-me cair para trás e fico de costas na cama. O tecto tem um rendilhado nos cantos, umas cornucópias de gesso em que nunca tinha reparado . Mas não deveria estar a tomar a atenção a isso, nem deveria sequer pensar que não deveria tomar atenção a nada. Já devia ter aprendido a tapar vagarosamente a consciência e a escondê-la por breves momentos o bastante para enganar o dia e a noite, e assim nessa distracção poder finalmente adormecer. Abro a mão e o isqueiro cai. Deveria ser tão fácil assim, penso. E lá fico, eu, e o dia e a noite, e a mão aberta, sem nada, demasiado vazia do desejo que sempre se habituou a segurar. Este impasse repetindo-se permanentemente, assim, há 65 dias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:12 PM
agosto 07, 2006
Porque Agosto é um bom mês para escrever estes dislates sobre a preguiça neo-depressiva
E porque, enquanto não tiver tempo para o ajeitar nem sítio onde o arrumar, este me parece local acertado para pousar isto, isto da pretensão da inépcia, esse sítio que há em nós, este nós onde tudo espera languidamente pelo que nunca virá a acontecer.
[Moleza #1]
Todos os homens têm em si esse buraco secreto onde vão cometendo o seu suicídio silencioso. Alguns, mais enérgicos, ainda vão entretanto dando sinais de si e construindo coisas em seu redor, supérfluas é bem verdade, mas contudo, algo. Os mais langorosos, como eu, esses já pouco mais procuram que um canto em si onde se possam acomodar para, sem pressas e comodamente, poderem manobrar essa lamina da indolência com a qual, um-por-um, como quem apara as unhas, vão arrancando todos os bocados da sua vontade. Uns mais fulgurantes e ostentosos, outros mais desencorajados e acanhados, hão espalhado por todo o lado bocados da vontade dessa tanta gente que, antes de se resignar, já foi homem.
[Moleza #2]
Devagarinho vou contando as horas, os dias, os anos
Devagarinho vou repetindo os gestos inúteis de todos os dias
Devagarinho vou perdendo o contacto com os meus amigos
Devagarinho vou deixando de fazer tudo aquilo que tanto queria fazer
Devagarinho vou esquecendo tudo aquilo que reuni à minha volta
Devagarinho espero já a minha vez, sem ilusão, sem curiosidade sequer
Mas sobretudo sem pressa, que já não tenho onde ir
Só este sítio, que sou eu, onde espero
Devagarinho
o fim
(está a começar bem, este mês de degredo, está-está)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:47 AM
agosto 01, 2006
Frente-e-verso (auto-colisão)
Como pode alguém manter um blog se cada linha que lê escrita por si o enfastia?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:45 PM
julho 29, 2006
51 dias e ainda assim
É primeira coisa que desejo todos os dias quando abro os olhos
E a ultima coisa por que anseio antes de os fechar à noite
É sempre a mesma
51 dias e ainda assim
Continuo a viver como se pairasse no intervalo de duas baforadas de fumo
dos cigarros que todos os dias acabo por não fumar, e tantos dias já
E sempre o mesmo
51 dias e ainda assim
O cabrão do vício continua sem se despegar, alapado na minha vontade
sem me deixar ter o meu orgulho por inteiro - e eu a adulá-lo, dia após dia,
para ainda ser o mesmo de ontem
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:21 AM
julho 13, 2006
Da distância da morte
São mais cavadas as saudades daqueles a quem já não podemos tocar mais, (mesmo que ainda ontem o tenhamos feito), do que as saudades que sentimos por aqueles que sabemos poder sempre um dia voltar a ver, (mesmo que isso nunca venha a acontecer).
O que torna a ausência mais difícil de suportar não é a distância que a afasta, nem o tempo em que perdura, mas sim o sabê-la insuperável.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:50 PM
julho 07, 2006
Dá-te folga pá, nem que seja por uns dias
e seria aqui, como sempre
Que ideia desvairada esta de querer resolver todos os males ao mesmo tempo. Como se um homem de repente pudesse entrar em obras. Tenho sido muito desajeitado comigo mesmo. Acho que o que agora precisava mesmo era de fazer férias desta obstinação violenta que não me larga. Que cansaço. Pstttt, oh ego que andas por aí, estou farto de ti. E olha que se eu rebentar, tu, pfffffff, dissolves-te na atmosfera e já não servirás para nada.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:58 AM
julho 05, 2006
Ai que eu começo mesmo a ficar fartinho desta merda toda (*)
Quatro semanas, (faz amanhã), sem o cabrão do vício, e eis que volta a grande constatação desta nova vida: os cheiros! E não é que descobri que …. (como é que eu vou dizer isto sem me desmerecer muito) … não é que descobri que …
… cheiro mal!
(*) quero lá saber do jogo da selecção e dessas porras sem importância nenhuma. Eu nem sequer conheço o Figo de lado nenhum nem tão pouco tenho conta no BES !
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:01 PM
julho 04, 2006
Questões de mau humor e eu já outro homem (e se me estranho)
Esquecer a hipótese de algum dia, mesmo num caso de maior sufoco, poder vir a ser um jornalista desportivo. Ninguém está interessado em saber que o Obikwelu bateu a marca dos 100 metros deste ano (10,03s salvo erro) na véspera das meias-finais de um mundial. Para se escrever, até sobre desporto, é preciso ter algum sentido de oportunidade
Tenho um penso para mudar 3 vezes por dia, todos os dias, durante sei lá, talvez um mês. A dose desagradável dos quiproquo (é assim que se escreve? bah, nem sequer era isso que queria escrever, que se lixe, a seguir escreve-se alguma coisa sobre o deixar de fumar e a relação directa com o mau-feitio e está a andar) da vida de mulher, eu já a tive que chegue. Poupem-me, quero voltar a só ter de fazer a barba todos os dias e juro que não volto a comprar o record.
Fumar é um acto brutal. Não percebem? O que é que não percebem? Experimentem deixar de o fazer, deixem que o bicho saia cá para fora e depois digam-me o que não percebem. Fumar é um acto brutal. A menos que o sangue que todos os dias lavo dos nós dos dedos não seja meu.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM
junho 27, 2006
485:46'30''
O mau-feitio estrutural, o desmame ajudando a amargar, e o conforto da psicoviolência sedativa
Para aqueles que perguntarem “então, ainda estás a deixar de fumar?” devemos responder explicadamente “não, eu não fumo, por isso não poderia estar a deixar de fumar”. Depois, no exacto momento em que ele fizer aquele risinho irritante do “pois, tá bem tá”, devemos então aplicar-lhe um soquete debaixo para cima, mesmo no centro do queixo, com força suficiente para ele ficar a mastigar palavras durante pelo menos um mês. Notarão então que não só se aplacará alguma ansiedade que se terá acumulado dentro de nós, como aquele simpático e prestável comparsa, quando daqui a uns anos se arriscar a aproximar de novo de nós, o fará com muito mais respeito, e sem baforadas para cima do nosso nariz.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM
junho 24, 2006
387
E devo orgulhar-me deste orgulho
[finalmente encontrei-lhe uma finalidade, e (a)proveito]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:30 PM
junho 20, 2006
Desenvenenamento (do que resta de mim, algures entre o pessimismo e o optimismo)
Cada hora é mais uma braçada cansada, lançada a custo, e cada dia o princípio de um plano inclinado que tenho repetidamente de subir. Combato uma ansiedade que nunca julguei poder existir. É uma guerra sem inimigos e cujos golpes se desferem dentro de mim, uma contenda que se trava num território que julgava conhecer e do qual tiraria vantagem, mas que afinal está armadilhado. Aos poucos fui refugiando-me no meu corpo, do meu corpo. Combato já só na metade (para ser rigoroso já é menos que isso) que ainda sobrevive, na parte do meu corpo que agora irei habitar, a que resta, e à qual me agarro desesperadamente. Mas, de inconcebível, é o meu próprio corpo que(m) me quer abater. Não é um espectáculo bonito de se ver, e não tem qualquer sentido deixar aqui uma janela para o espreitar. Há coisas que são mesmo para resolver só connosco. Além disso, tudo o que escreva nestas condições será seguramente um desagradável e soturno exercício de leitura a que vos poupo, a que aliás já vos deveria ter poupado, há justamente 13 dias atrás. Para além disso, continuar aqui, assim, seria para mim como uma moinha a lembrar da ferida.
Enquanto não assentar o verdadeiro "pontapé nos tomates" deste bicho que há 30 anos me consome não volto aqui. Não sei quanto tempo vou demorar para isso; se semanas, meses, dizem que talvez anos, mas espero poder voltar.
Um abraço, especialmente a todos os fumadores
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:56 AM
Pessimismo
Fechar isto antes que se torne um comprometedor resíduo testamental.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:27 AM
junho 14, 2006
145
Dos cheiros
O mundo para mim era morfológico, uma mera mistura de cores e formas, algo absolutamente físico. Hoje, inesperadamente, voltei a descobrir-lhe a dimensão dos cheiros. Ando maravilhado a juntá-los às minhas antigas memórias dos sítios, dos espaços, das folhas, do velho e do novo, do calor nas pedras, do pólen preguiçoso, do silêncio da canícula, da areia escaldante, da água salgada, da praia toda, aos poucos vou juntando esta colecção de cheiros e destapando ‘lugares’ passados que deixara de compreender, e depois, de visitar, justamente por ser incapaz de lhes associar os cheiros. O mundo dos cheiros é fantástico, algo que eu já esquecera, e que agora faz com que tudo se pinte de novo, como se, entre a objectiva realidade com que vejo e via as coisas que me rodeiam, lhes juntasse agora uma dimensão onírica, um adamascado que dobra o significado de tudo o que nos rodeia. Mas não é só o de hoje que se acrescenta com a recuperação dos cheiros, é também o que foi, o que foi lá muito distante, do tempo em que eu ainda tinha olfacto. Há nisso dos cheiros algo de substancial para as memórias, algo que agora se vai destapando a pouco e pouco, e nisso vou descobrindo as memórias que guardava, muitas delas já só quase vestígios, alguns restos minerais sobrados, e que agora recomponho, como quem revisita o que, sem este elixir dos cheiros, havia perdido. No fundo, os cheiros são a dimensão do mundo que faz as nossas memórias mais próximas e autênticas, e que ao concreto do que hoje nos rodeia o decora até que (o belo também) pareça um sonho.
E da ansiedade
Entretanto não fumo há 145 horas. Precavi-me ao ficar sozinho por estes dias. Não que tenha partido para longe, mas faço-me longe quando eles estão perto. É a única forma de não os tornar vítimas deste processo brutal de desintoxicação. Quando estiver curado logo ‘volto’.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:14 PM
junho 05, 2006
Questão de fôlego
Escrever é como mergulhar de apneia. A princípio é fácil. Primeiro lançamo-nos na vertical, o fôlego sustém-nos e o profundo atrai-nos. Tentar cinco a sete metros, com o fundo ao perto é o ideal, mas com águas transparentes. Sai a primeira frase. Mesmo que lá não cheguemos, poderemos sempre deliciar-nos com esse planar que nos envolve no que nos rodeia, a sentir na pele que não há cimo nem baixo. O fôlego começa a ir-se. Começamos a investir ideias, coisas sem terminação, apressadas. Sentimos o pulsar do coração, e a água começa a ser-nos mais pesada. Já não nos sentimos parte dela, mas a parte que ela quer tomar. Mas tencionamos ficar ainda. Agora teimamos escrever qualquer coisa, ou acabar o que quase começámos. E assim arriscamos deixar-nos naquela suspensão por mais um pouco, e essa coisa que queremos escrever está quase em nós. É um mero, enorme!, é um mero que agora nos prende a atenção, com olhos redondos, rente ao fundo. Mas já não há fôlego. Justamente agora, quando queríamos ali ficar a (escre)vê-lo. Ainda arriscamos afundar-nos um pouco mais, quase rabiscamos a frase de forma completa. Há uma embriaguez quando nos atrevemos a arriscar o limite da nossa respiração que nos faz escrever mais depressa. Mas, a partir dali, definitivamente, não há fôlego que aguente. Ou ficamos, e mergulhamos num texto desconexo sem olhar para trás, sem ligar às reservas que já não temos, ou regressamos de imediato. Voltamos. Nada justifica que fiquemos nas palavras, que só elas - nós sucumbidos - de nada valem. E já na superfície, engasgados com a água que nos entrou nos bofes, lá vamos gesticulando. Falar, agora, é impossível. Nem eles ali perceberiam o desagradável que é ter quase algo para dizer, e não saber. Ficar a um fôlego de o poder dizer. É por isso que ninguém fala do que sente quando está no fundo do mar. Assim se escreve, e se cala. Tem-se tanto para dizer sem saber. Escrever é também assim, não escrever. Ás vezes é como se houvesse um limite de tempo para a nossa respiração. Sem perceber porquê, zarpamos para cima, expelindo no ar as letras desconstruídas, tudo ali misturado numa agitação de bolhas de ar e pressa de chegar. Escrever é na maioria das vezes assim, quase, e acabar por não o fazer. Um mero enorme que nós quase tocámos no fundo do mar, mesmo antes de nos faltar o fôlego.
[ Percebes porque escrever um livro é para mim um projecto de suicídio? Ninguém escreve com garrafas de oxigénio. Ou se sabe suster a respiração, ou subitamente deixamos de perceber que estamos ali, no fundo de tudo, a ver um mero. Além disso, quando mergulho não o faço para contar, mas apenas para estar ali. E um livro é um mero; prefiro sabê-lo no fundo do mar, e sempre que mergulho, não o saber contar.]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:36 PM
maio 29, 2006
Ainda sinto o fedor baço
Desse fel dos dias em que não gosto de mim e faço tudo para que os outros comigo concordem. Explosões que vou espoletando à minha volta, na esperança que algum estilhaço me acerte. Depois olho esse lastro das minhas vítimas, e elas a interrogarem-me com olhos caídos, como se a minha amargura alguma vez lhes pudesse dar respostas. Que se apartem para longe de mim, deste cheiro a carne arrependida, também ela a gritar, tardia, detonações de remorso.
É medonho viver comigo assim, nestes dias em que não quero viver com ninguém.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:13 PM
Dos odores
Continuo enamorado. Pelo menos continuo a interrogar-me dessa minha condição, o que é o mesmo. Logo - suspendam-se as dúvidas - aquele cheiro velho no mofo do lençol de banho que partilhamos será o meu. Além disso, dou comigo cada vez mais frequentemente a procurar nos meus filhos as coisas que admiro em mim. Não é só o odor que se torna mais acre com a idade, é também a auto-estima.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:15 AM
maio 24, 2006
Impressos personalizados
Gosto de ler. Mas gosto sobretudo de o poder fazer. Gosto de escrever. Mas não gosto de ter de o fazer.
… e convém que não insista nesta compulsiva mania de “ter de o fazer”. Começo a ficar farto de ler esta série de panfletos de mim. Tanta definição, tanto gesto administrativo, tanta repetição pateta nesta obsessão que me impele a produzir sem fim esta espécie de impressos comprovativos da minha existência.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:04 AM
maio 23, 2006
Inquietação fundamentada - ou se calhar já nada
E nisso, duas fragilidades – são sempre duas, a que há em nós, e a que a motiva. Uma, a desse temor que me alaga, e me tolda, e assim me impede de retornar ao estado de tranquilidade, que daí o expulsaria dessas terras de fantasia com que me sitiou nas cercanias da minha consciência. E mais uma outra, esta da oculta razão que assim me traz, esta que se abriga para além de mim, que da minha debilidade se alimenta e à minha debilidade alimenta, e me faz neste desassossego de recear o que nem conheço. Breves contornos, laivos de imagens baralhadas, o quase nem pressentir, um traço aqui, uma sombra ali, vozes ao fundo, nada que se discirna, talvez misturas vagas de coisas que já foram minhas, mas de longe, quase fantasmas.
E inquieto-me com isso que não me vem de dentro, e porque não me vem de fora também. E porque assim tão fugaz, nesse sendo mas tão sem ser, me leva a pensar que sou eu quem ali vejo, mas já na orla de mim. Nesse quase nada do quando já não for.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:00 PM
maio 19, 2006
“Não estranhes que um dia te sintas mais homem por o veres seguir, mas menos de ti por o saberes partir”
provérbio inventado por um pai na adolescência
Ontem, pela primeira vez não lhe disse para onde deveria ir, nem o que teria de fazer, nem até a que horas isso iria acontecer. Pela primeira vez foi ele que …
Tinha combinado com um amigo às 9.00h num café da Expo. De mim, apenas se o poderia levar. Que logo veriam o que iriam fazer porque de manhã não haveria aulas. De mim, que ficasse descansado. Que precisaria de dinheiro para almoçar e para o metro. De mim, se o podia dar.
Depois de me despedir dele, fiquei a olhá-lo. Ia grande, muito maior que ontem. E pela primeira vez não lhe perguntei a que horas iria chegar. Lá partiu. Voltará, mas já não o mesmo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:52 PM
maio 18, 2006
Do que ficou por dizer
Os comunicadores puros preferem o ruído, as vozes, a agitação dos gestos e das expressões, e nisso se saciam e concluem. Os que escrevem preferem o silêncio e o recato, e aí lançam na escrita o que normalmente calam, num exercício onde tentam reconstruir o que lhes ficou por dizer. É um lugar de resíduos do que não chegámos a falar ou a fazer acontecer, um espaço para onde se trazem as coisas incompletas cujo fim não ousámos ou não conseguimos concluir.
A escrita é a linguagem dos tímidos e dos ávidos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:10 AM
maio 15, 2006
Enervam-me as personalidades engravatadas e sem defeitos de fabrico
Eu cá meço a vivacidade da minha existência pela frequência com que alterno de temperamento. Gosto de saber que tenho amolgadelas no meu carácter - fazem-me sentir mais autêntico.
Já a distinta firmeza e a asseada coerência são para mim as características mais insalubres da nossa personalidade. Representam a ausência de humores, o excesso do zelo no que parecemos, as certezas e convicções inabaláveis. E nada mais para diante.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:49 PM
A nossa humanidade sobressai sempre que somos interrompidos pela resposta que nunca nos chega
Hoje comovi-me com um homem áspero pelo qual não sinto qualquer afecto e mantenho uma fria relação profissional. Conservava o habitual ar hirto e arrogante, mas chorava. A morte, quando nos rodeia, é o que mais avizinha os homens.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:14 PM
maio 13, 2006
Auto-citações desgovernadas
Não há vaidade em seleccionar e publicar trechos do que já escrevemos só pelo prazer de os reler como se de nós tivessem agora surgido. Se não visamos com isso a opinião dos outros sobre nós, se não são os outros que nos motivam essa (re)publicação, então nunca poderá ser vaidade. Onanismo intelectual? Ou simplesmente um acto caduco. Solitário. Talvez não mais que um mero gesto de decadência.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:03 PM
maio 10, 2006
O texto que tem de ficar para depois
Fico impressionado com aqueles que têm por profissão escrever. Como é que eles fazem para ligar o interruptor? Quando é preciso tomam uma dose de 5 ml de “entusiasmo criador” com o café da manhã? A minha vénia.
[ Eu, amador, sofro as agruras da falta de tais artes. A maior parte das vezes em que me apetece escrever, e por mais que abra as janelas de par-em-par, não sinto chegar nenhuma brisa de inspiração. Nas outras, poucas, quando inesperadamente me sinto insuflado por uma breve aragem de imaginação e o pulso se palpita mais ligeiro, não me apetece ou não posso gatafunhar. Essencialmente sou o pai de uma infinidade de textos que ficaram por escrever. ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:33 AM | Comentários (21)
abril 06, 2006
Cacos
Insistentemente, caem-me letras por todo o lado. Oiço-as distintamente, e sobretudo nestes dias em que não as quero, em que não tenho tempo para elas, tornam-se ainda mais barulhentas. Enquanto se alvoroçam na queda arranham ruídos de pontas aguçadas. (Os “r”, mais retorcidos, são os piores). Outras vezes interrompem-se cedo demais e sei que terão ficado presas em galho de neurónio cansado, provavelmente num balouçar desesperado, assim a verem-se limbo, que nem ideia, nem coisa que já não é. Mas quase sempre seguem o mesmo caminho até se depositarem já detritos, aqui mesmo, na base da nuca. E tudo se repete permanentemente. Enquanto brotam em ritmo alucinante novos resíduos com pontas reviradas de coisa ortográfica, já outros se amontoam no fim da queda (esta moínha que sinto tão bem) no cemitério das coisas que hoje não tive tempo para pensar. Acidentalmente há algumas que ainda se enrolam em outras, duas, três às vezes quatro letras - noto-lhes o estrídulo mais inteligível - são sílabas, quase formando palavras. Mas nada mais que isso: mero silvo silabário, repentes que nem chegaram a acontecer, interjeições de pensamentos.
É assim comigo, quando a inspiração agoniza. Nunca morre de uma vez só. Vai se deixando estraçalhar aos poucos, amontoando-se depois - cadáver - em cacos de letras.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:44 PM
abril 04, 2006
‘Oh meu tenente, oh meu tenente, um passo atrás e dois à frente’
Regresso a pensar nos miúdos, que queria ver com eles o jogo do Benfica com o Barcelona, e depois o Sporting, o título em causa, e é já o mundo todo cheio de coisas importantes que vou estimando. As prestações da casa vão subir, dizem, e quanto? E lá sigo, trauteando a calçada, absorto, contando as bocas de incêndio, sete desde ali do café do sr. Zé, e sigo folgado, a acabar a folga, essa parte em que fico sem nada que fazer, e fico só com o que tenho cá dentro. As acácias estão cheias de folhas amarelas e já é primavera, que diabo. É intervalo de qualquer coisa, talvez almoço, deve ser, é sempre almoço quando dou por mim a desviar-me da caca dos pombos e a amaldiçoar os silos das farinhas que os sustentam. E lá sigo de novo cogitando sobre o futuro, de novo. Rememorizo as coisas que ainda ontem esqueci, que assim brinco como todos os dias com as expectativas que lanço para amanhã que ontem foi hoje. Olá boa tarde, nem o vi, desculpe. Pronto, interrompi-me, mas pouco importa que já estou chegando. Deve ser por isso que me ocorre o provir da conta bancária, como quem de súbito regressa a este caminho de santiago. Chegar, voltar, interromper-me, é sempre duro. Há coisas que não evoluem apenas com reflexões, há coisas que nos prendem. Não percebo o que quero dizer com isto mas sei que é assim. E sigo já, nesta ancoragem a terra firme, ou melhor, subo, subo as escadas porque estou finalmente chegando ao local de trabalho. Ainda não ajeitei o nó da gravata, ainda tenho tempo, ainda tempo para assentar no telemóvel dois compromissos próximos - dos que não são de natureza profissional nem são minudências do dia-a-dia doméstico - casamentos, IRS, computador dos miúdos, essas coisas. Assento-os sempre no telemóvel, que hão-de voltar com folga para as tratar, no bip-bip do costume (vivemos com tanta coisa a repicar à nossa volta caramba), coisas que assim tão tenho de me lembrar. Entretanto chego. Chego de onde ainda agora parti, de onde parto todos os dias, a mesma caca dos pombos, as bocas de incêndio, os comes do sr. Zé. É bom sentirmos rotinas e compromissos quando não sabemos exactamente o que fazer com o tempo. Outras vezes não. Mas agora voltei, ‘engenheiro’, ‘tosco’, ‘tão pá’, ‘senhor director’, visto o fato que serve a todos e recomeço. Recomeço sempre que começo por aqui: sento-me à secretária e escrevinho duas ou três acauteladas notas sobre os afazeres improrrogáveis da tarde, nos habituais post-it’s amarelos. Pronto. Olho em frente. Trabalha-se lá ao fundo. Subitamente percebo o meu atraso. Sou sempre o primeiro e o último, e embora seja assim quando faço intervalos para almoço, eu nunca almoço. Sigo, siga. apresto-me agora a abrir o Outlook, que de lá hão-de troar (e os alarmes de novo, o ar saturado de avisos, sempre), uma meia dúzia de solicitações, hoje talvez mais, que é dia de planning.
Mas, incompreensivelmente, desorganizo-me. Logo agora que estava a tomar nota de tudo! Nesta altura já deveria ter retomado as coisas do dia e por isso há já quem olhe para mim à espera de me ver prestável para despachos. Mas não. Um imponderável laivo ainda perdido da hora de almoço ressalta fora de tempo: tenho de dar prioridades a esta vida, o meu futuro não se pode escrever assim tão facilmente num ‘blackboard’, ou pelo menos, eu tenho de ser mais que giz que risca. Amanhã, já decidi, não vou anotar nada, vou apenas vogar. E para me fazer mais peremptório nisso puxo da folha A4 que tenho aqui sempre à mão, e escrevo em maiúsculas esta determinação nos “to do” de amanhã. Não vá eu esquecer-me também disso.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:52 PM
março 20, 2006
Egotismo
Estou cansado de lidar com (o medo d’)a morte. Não a minha, mas a dos outros, que é essa que me esvazia a vida. Não quero ser imortal, gostava era que tudo/todos à minha volta fossem eternos, pelo menos até eu acabar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:01 PM
março 14, 2006
Morrer lambido pela primavera
O sol empanturrando-se nas pálpebras. O fastio da sopa de peixe a escorregar amolecida nas mãos pousadas sobre a cava do volante. E as linhas rectas da estrada engolindo horizontes pasmados, toque-toque, ritmos entorpecidos a zunirem traiçoeiros ruídos de sono. Assim se segue rolando pelo meio da primavera, arriscando, literalmente, a vida.
Bem sei que a semeadura do anteontem agradece de lá do pátio, e que por lá se empinam agora os nados caules nessas vigorosas alavancas de luz, e que outros mais velhos sobrevividos do inverno avivam e agitam os tons vivaces da nova adolescência. Mas isso são razões do lazer, do além-dever, do mundo e do prazer, da natureza com que brinco e das minudências do fim do dia.
Esse sol que lá desejo, e até aqui se amanhã, é o mesmo que hoje não era tão preciso, assim de lâmina atravessada na garganta de um velho náutilo da estrada. Que já prestes estive morrendo, ali que ai quase me desaguava naquela luz. Eu, o primeiro sobrevivente da primavera.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:26 PM
março 13, 2006
O Golf e a terminologia inglesa no momento de ‘tacar’
Sou demasiado orgulhoso para ser um caddie, mas tenho um swing pouco ambicioso para poder ser um golfer. Não quero chegar ao green atrás de ninguém, mas também não quero levar comigo alguém atrás. É isto assim, no golf, como na vida, teimo em não querer vestir as personagens que fazem parte da acção - umas porque me desmerecem, as outras porque receio desmerecê-las. Resta-me a esplanada, nas margens do faraway. Pode-se tirar partido do golf olhando-o apenas, garanto.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:01 AM
março 04, 2006
Que eu parto e tudo o resto morre (*)
(*) como na última primeira vez
A realidade, incrédula
desenforma-se
e já quase nada,
mero anúncio da memória.
Depois nem isso,
nem sonho, nem vestígio
As coisas – esse tudo,
esse tanto que fizemos,
inelutáveis
deambulam agora
na velocidade ignorada
de um meteoro perdido
Eu parto
E tudo o resto,
tão incrivelmente importante
Afinal morre
A lembrança,
essa esmorece
como quem vai debandando,
cada vez mais vaga,
ao fundo,
já foi
Uma chave range
e cerra-se a sala,
desmazelada
da ébria festa
que súbita
acabou
E parto
deixando a incerteza
se no que foi
fui
[Há no exercício da poesia muita inocência arrebatada, despavor até. Que inventar significados induzidos e deixar que estes lavrem nos outros a noção que temos de nós, já para além das palavras, isso é enorme arrojo, tanto mais que é arte que bafeja a poucos. Escrevinhá-la é quase ter a certeza do risível, e mesmo assim não lhe resistir. Vestindo a pele, arrisco, e deixo o elogio à coragem de quem ousa assim, tão absolutamente, deixar-se despir na sua poesia - na maior parte das vezes, sabendo que é um corpo desfeiado (por si) aquele que assim expõe. Que não é nos bons poetas, mas nos sofríveis, que as palavras assim escaqueiradas se manifestam no irresistível exercício de quem sente essa necessidade, quase compulsiva, de se fazer, de se sentir devassado.]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM
fevereiro 08, 2006
E podia ser tão fácil
A realização de um homem não depende do que ele atingiu. Isso será o seu compromisso, importante certamente - daí advirá parte da sua auto-satisfação, e é provável que daí também granjeie algum reconhecimento. Mas isso tão só não constitui a equação essencial desta vida, e de nada vale se a esse pacto for alheia a felicidade, essa qualidade com que gastamos cada minuto de cada dia, que é isso afinal que conta quando de todos eles tivermos usufruído.
Centrar os nossos anseios no que se pretende alcançar, fluir na vida permanentemente em prol de objectivos esmiuçados, pode resultar num dano irreparável: pode cegar-nos ao ponto de nos impedir de a fruir. E por um absurdo inexplicável, este lapso tende a ser mais frequente à medida que ganhamos experiência como homens, pois nisso nos vamos comprometendo cada vez mais, não tanto connosco e com a nossa felicidade, mas com os outros e com as convenções (tantas vezes irrelevantes) que vamos estabelecendo.
Todos nós nascemos com uma carga de felicidade enorme, é algo que vem connosco e que é patente enquanto somos crianças. Mas é quando crescemos, quando nos abrimos ao mundo, quando este entra por nós adentro, que de alguma forma teremos de guerrear para a manter. E nesta liça esquecemos muitas vezes que a felicidade, aquilo que conta, quase sempre não vem de fora, e é quase sempre uma coisa simples que está ali à nossa mão.
A realização de um homem, para ser tangível, não pode deixar de fora o impulso que se esconde em cada instante que vivemos, e que treinamos para dominar, que aprendemos a esconder em detrimento duma missão ilusória que desempenhamos. Na maior parte das vezes acredito que esta se alcança pela capacidade simples de em determinado momento fazermos o que realmente nos apetece. Mas conseguir ser por vezes imune aos constrangimentos e compromissos que vamos amontoando ao longo da nossa vida (pública) não é fácil. E no fim constata-se que é muito mais difícil ser um homem feliz, praticando a impulsividade, do que um homem resolvido armado de tenacidade.
Também creio que por vezes, para se ser feliz, é exigida muita coragem e, talvez, também um pouco de egoísmo, daquele que não faz mal e que nos ajuda a olhar para dentro.
(E agora fechava aqui o estaminé e ia ali até à esplanada do Campo das Cebolas beber umas bejecas …contigo. Esse seria o meu impulso de felicidade hoje)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:28 AM | Comentários (4)
fevereiro 06, 2006
O problema dos sonos leves
Acordei quando ouvi alguém gemer a meio da noite. Era eu. Melhor, era um sonho que era meu. Anda algo em mim, por desfaçatez, e ao abrigo da noite, que se põe a chorar de coisas que nem existem. Folgo eu e logo esse algo se exagerando exagera, exagerando-me. Isso angustia-me, porque eu sou um homem feliz. Eu sou um homem feliz. E não choro, durante o dia (na parte que pode responder por mim) eu não choro.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:03 AM | Comentários (13)
fevereiro 01, 2006
E entretanto o mundo gira e avança … e eu, eu também, eu também
O telefone toca. Nada sugere que interrompa o labor administrativo, mas é preciso mão que o segure. Suspendo então distraidamente a caneta entre-dentes. De um lado a conversa resolve-se, do outro enjeito a papelada que tenho pela frente. Concluídas estas etapas quase simultaneamente restabeleço as tarefas anteriores. Mas antes vejo-me avançar com a mão na direcção da boca e agarrar de novo a caneta, entre o indicador e o médio. O trabalho prosseguirá então. Nesse preparo bato então com ela duas vezes na borda do cinzeiro, pretendendo escorrer-lhe a cinza, e por lá a deixo depois a repousar. Mas o telefone toca agora de novo. Ao invés de me anunciar mantenho-me calado, enquanto escrevinho o bocal. Entretanto vou ditando, de olhos fixos na folha de papel o texto que pretendo escrever a um colega de trabalho
… ???, acabo de reparar neste perturbante distúrbio, e enquanto coço o tampo da mesa, e já num esforço de comportamento mais vigiado, tomo a recomendável decisão de fechar a loja por hoje. Agarro na mala do portátil, ponho-a na cabeça, despeço-me da porta, e saio dali para fora a caminho de casa. Mas depois estranho a penumbra. E era suposto estar a caminhar em vez de estar assim anichado. Apercebo-me que me baralhei de novo em algum lado, e isso irrita-me. Saio então do armário do arquivo morto, volto ao gabinete e retiro a caneta do cinzeiro. Agora sim, tudo está no seu lugar. Procuro enfiar o agrafador na algibeira, pois bem sei que está frio lá fora. Nunca tinha notado ser tão difícil esta tarefa do final do dia, e incomoda-me que ela me leve tanto tempo; o tempo é dinheiro. Por falar nisso amanhã não me posso esquecer de tratar da questão do barulho do candeeiro de que já muita gente se queixou. Respiro fundo e acalmo-me, afinal, não há razão para tanta agitação. Vem-me à memória aquela letra que diz que “se o macaco gosta de bananas eu gosto de ti”. De facto não tem sentido que sacrifiquemos a nossa saúde e a nossa vida só para que tudo se resolva mais depressa. Mas ainda assim procuro ser rápido, pois não gosto de fazer esperar ninguém e há dois dossiers de cartão canelado que aguardam já impacientemente à porta de olhos esbugalhados e fitos em mim. Reparo agora nela, na porta, e estranho: aquela porta ali com quatro pernas metálicas, quase juraria que era um tripé com rótula ao meio. Assim sendo não sei como lá iremos caber todos. Mas que importa isso, aqui tudo muda, são os tempos, e não havemos de ser nós que iremos ficar para trás.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:23 PM | Comentários (4)
janeiro 30, 2006
Excessos
As oportunidades mais raras, os ímpetos mais esforçados, os momentos mais desejados, saboreiam-se enquanto os sabemos enumerar. Não são muitos, não podem ser muitos, e há espaço para todos, e cada um se chama pelo seu nome, e traz até nós coisas próprias que degustamos calmamente, distinguindo-lhes as diferenças, evocando os incidentes, as coincidências, e as consequências, uma por uma, cada uma de cada vez puxando a outra por uma ponta que ainda não se perdeu e que as interliga, e que lhes reserva o seu espaço próprio nas nossas memórias.
As mesmas oportunidades, dêem-lhes frequência, os mesmos ímpetos, retirem-se-lhes as dificuldades, os mesmos momentos, banalizem-se estes, quadrupliquem-se, e tudo resulta numa produção massificada sem sentido, uma amálgama de coisas sem valor específico, uma mancha indistinta que já só alcançamos reconhecer e desejar no abstracto, … como um quarto repleto de brinquedos em excesso, alguns nem desembrulhados, sob o olhar enfastiado de uma criança mimada que deixou de saber brincar.
Claro que isto podem ser só as (minhas) memórias a tornarem-se velhas e ressabiadas, sem consentirem ver-se nos tempos por onde hoje ainda espreitam.
E claro que isto não tem nada a ver com o post de baixo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:19 PM | Comentários (0)
janeiro 19, 2006
Voto de Castidade
Ainda agora ao chegar do almoço vinha com um desejo – talvez não deva dizer tanto, vinha com um desassossego miudinho - de ler um belo de um texto. É uma rotina como outra qualquer, como a do cafézinho por exemplo, um simples estímulo que se nos entranha, um intervalo de que se lança o mote para enfrentarmos o resto do dia. E era mesmo só isso, um texto que mexesse comigo, uma coisa que me espantasse, ou algo que me levasse lá para algures no corrupio da imaginação de alguém. Nada que precise ser inatacável na forma literária nem coisa que tenha de evoluir em grandes espirais de conteúdos metafísicos. Apenas um texto simples, um sorriso na boca, e toca de seguir em frente já saciado
… mas hoje não encontrei nada
Quando assim é, sobra-me sempre a oportunidade de ler isto aqui, onde escrevo. O mesmo anseio afinal que procuro lá fora - e repito – talvez fraca literatura, provavelmente um conteúdo mediano, mas um montinho de texto que me dê agrado ler, a trazer coisas de lá d’antes, ou resquícios desta manhã, ou mesmo o que nunca chegou a ser mas que acabou por ser o que fui, e que por isso me dão gozo rever depois. Ou seja, como dizia ainda agora, texto simples, um sorriso na boca, e toca de seguir em frente já saciado
… mas também aqui nada, nem aqui encontrei nada
Poderia sempre arriscar novos mundos, alargar fronteiras, mas eu não sou homem para grandes voltas. Gosto de acender o cigarro na esquina do costume, espreitar a montra empoeirada de onde já conheço os lugares das coisas, e sobretudo não gosto de perder a minha casa de vista. Nunca aspirei a alcançar coisas novas, prefiro investir-me nas coisas que tenho e talvez melhorá-las. Mas por isso mesmo, do hábito, sei que há um tempo certo, ou melhor, sei haver uma batuta que não é minha apesar de ser ela quem marca os ritmos do que aqui deixo. Mas ultimamente vejo-me confuso enquanto leitor e autor: como se um pudesse (tivesse de) produzir o que o outro quer ler; como se um sem o outro não tivesse razão de ser; como se a avidez de um pudesse ser compensada com o ritmo desenfreado do segundo. E disto
… sobra o vício, e fica o vício apenas, que nada é, e nada fica para ler
É já o metabolismo vicioso da escrita que se impõe, e já todos os pretextos servem para satisfazer a contabilidade das palavras. Algo que já não se importa do que seja legível, algo que apenas se quer fazer texto, já, e nem interessa qual. Esta é uma rotina de que já não me desenlaço e que produz para a saciedade do que quero ler. Acabam-se assim os tempos do deleite, aqueles em que um texto se lê porque primeiro quis ser escrito. E já não retiro encantamento disso, essa modorra que
… é sobretudo escrever para o vício de o querer ler sem o ter
E por isso, agora, interrompo-me no texto, aqui, nos textos, cá. Não haverá mais cadência nem calendário, nem esse desejo incontrolável de ver correr a escrita, mas apenas o prazer (que tem de o haver) de escrever o que se tiver de escrever. Determinarei que a escrita será o intervalo, e que nunca mais olharei para o resto do tempo, do blog, como o intervalo entre a escrita. É isso. Todos os impulsos são o que não se espera, e é isso a escrita também. Trocarei a ordem das coisas que por um absurdo tomou conta de mim: fica por mim proclamado que aqui já não há texto, que aqui não existe um blog, a não ser que por mero acaso e indómita vontade um texto se tenha de cumprir.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:10 PM | Comentários (3)
janeiro 07, 2006
Marés
Na enseada de S. José o Sol filtra-se com uma suavidade de calor manso. Por vezes, a sua cava do meio enche-se subitamente de uma água cálida, e tudo ali se torna um sítio aprazível onde veraneiam as memórias, por breves instantes. Umas nadam, outras divertem-se na linha d’água, outras simplesmente se deixam ficar indolentemente deitadas sobre as pequenas dunas que formam o seu bordo.

Depois, abruptamente, tudo se enxuga, e as memórias, apressadamente e em magote, voltam para dentro. É assim que se fazem as marés na enseada de S. José, súbitas, inesperadas e irrefreáveis.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:25 PM | Comentários (7)
dezembro 28, 2005
A idade é os dias que se atravessam para chegar onde hoje queremos estar
Há dias em que me sinto um velho rezingão que desesperadamente procura encobrir a vergonha de ter uma criança à solta dentro de si. Sai voz grossa e sensaborona.
Noutros é a criança que me domina e que brinca descarada com os novelos das sisudas barbas brancas que ficaram encarceradas em mim. E saem risinhos e arrepios.
Neste pulsar de personagens devo certamente estar eu, ora novo ora velho, com a idade a fazer-se de impulsos, como quem nunca quererá saber exactamente os anos que tem.
Riem os mais arredados e lastimam os mais chegados, desta avaria que tenho, que não faz de mim a média destas duas criaturas que sou.
De concreto, apenas as velas que se apagam todos os anos. Uma que é posta a mais, outra que surripio e oculto nos confins da minha idade.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:38 PM | Comentários (11)
Com cimento nos gestos e tijolos nos afectos
O amor não é algo impulsivo nem se alimenta de manifestações espontâneas. Nem é essa ilusão de que uma flor, um beijo ou esparsas declarações apaixonadas serão receita para o alimentar. O amor, aquele que se partilha, é cavado no terreno do dia-a-dia, onde mais do que julgamos sentir, é do que somos capazes de mostrar que verdadeiramente se importa. Esse é o amor de todos os dias, dos dias todos, esse que é coisa que não cresce, porque nele não há medida. Nele, somos chamados como operários, vigiando para que se mantenha, às vezes até reconstruindo uma parte aqui ou ali, num labor diário, atento e silencioso. Porque o amor não é uma empreitada que se constrói por uma ou outra vez, nada de assim tão importante e espampanante. Nem ninguém estará lá no fim para aplaudir tal obra. E também não é esse gesto com que nos esmeramos numa determinada altura, essa outra definição do gostar de alguém e de o poder manifestar, esse tão confortável e aprazível compromisso do “de vez em quando”. Estamos a falar de uma estrutura que continuamente se tem de recuperar, de rebalancear, com a argamassa dos dias que correm numa mão, e na outra, com tijolos fabricados dos pequenos gestos e pormenores no fim de uma tarde cansada, num serão imprevisto, numa noite mal dormida ou numa manhã estremunhada. É uma empresa invisível que lamentavelmente só valorizamos quando falhamos. E é um trabalho nos bastidores dos nossos afectos muito mais árduo e irreconhecido do que as orgias de uma noite apaixonada. O amor é o turbilhão de detalhes com que lidamos todos os dias, e que sobrevive porque somos capazes de nele ter por importante outro alguém para além de nós, e nos sentimos felizes assim. Mas nesse contínuo do que somos junto dos outros, nessa permanente reconstrução, nessa labuta dos pormenores do afecto … é tão fácil distrairmo-nos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:38 PM | Comentários (4)
dezembro 19, 2005
A emproada hipocrisia das palavras
Às vezes ignoramos o quanto as nossas palavras se afastam do que realmente pretendemos dizer. Depois, inesperadamente, e sem nos apercebermos, vemo-nos transportados para o centro de um conflito, cujo cerne é um combate que se trava já na esfera da dialéctica, onde as bojardas são um presunçoso apuro do vocábulo, e o requinte dos significados que agora arremessamos indignados, e as nuances que deveriam ter sido subentendidas, tudo agora nada mais é que munições para ganhar esse absurdo da razão.
Tudo em nós se transforma em verbo, e embalados pela glote voraz com que teimamos em dizimar os outros, nem damos porque somos para além da ira já só domicílio das palavras que já esquecemos. E depois é já tarde. É sempre já tarde demais. Um qualquer abstruso orgulho impede-nos de corrigir tal equívoco - as palavras, orgulhosas, tomam de vez conta de nós, e reclamam-se de mais valor do que o afecto e a consideração que temos por aqueles a quem as dirigimos.
E quando mais precisamos delas, as palavras - até então tão grandiosas e instruídas - incapazes de se vestirem de humildade, afinal, abandonam-nos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:33 PM | Comentários (0)
dezembro 05, 2005
Pois, faltou-me a bica ao almoço
A boa ceia saboreia-se com o digestivo, o livro resolve-se na última página, a travessia conclui-se no porto. O nosso lado carnal deleita-se na forma verbal das coisas: o comer, o ler e o partir, todo esse fluir que as torna tangíveis. Mas na verdade, não é isso, o caminho das coisas, que admiramos. É o seu fim, o fim das coisas perenes.
Também não somos verdadeiramente capazes de amar algo que perdure para além de nós, nada que não caiba dentro de nós. É porque lhes pressentimos um fim que as amamos. Esse fim que as torna admiráveis aos nossos olhos, como se o amor afinal se resumisse a um breve instante final, ao qual queremos insaciadamente chegar.
Há em todos os homens essa contradição de procurar o mais das coisas que ama no que delas ainda não tem. Há em todos nós essa violência com que precipitamos tudo o que amamos no abismo do seu apogeu, depois do qual as perderemos definitivamente.
Como se amar não fosse o caminho, mas o desespero de um destino que não chegámos verdadeiramente a ter.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:51 PM | Comentários (2)
novembro 13, 2005
Escrevi sobre quase tudo aqui, mas ficou tanto fim por enlear
As bobines espojavam-se pelo chão desarrumadamente, e de dentro de algumas, semiabertas, saíam despenteadas as filiformes películas. Olhava à sua volta, ainda com a nova fita nas mãos, e desalentado conferia as datas, personagens e locais gravados nas tampas redondas de zinco, procurando-lhe lugar naquele enorme mar de histórias sem ordem que cobria todo o estúdio. Anos e anos transformados em desgrenhados cabelos de celulóide. Pontas de filme a mais para que um dia as ousasse juntar.
Todos os dias trazia um novo sketch cheio de personagens e argumentos que para ali atirava, sem mais uma vez se sentir capaz de dar sentido à longa-metragem que há 42 anos tentava montar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:41 PM | Comentários (15)
novembro 04, 2005
“fiquei surpreendida com o que conheci de ti, não te fazia assim”
As pessoas não escrevem como falam, não falam como pensam, nem pensam como escrevem, apesar de em cada um destes planos expressarem um pouco de si próprias. Se conseguirem contudo cuidar destas três formas de ser, talvez se possam sentir mais próximas do que verdadeiramente são. É por isso que é bom escrever. É por isso que quando o não podemos fazer nos sentimos mais vazios, como se desperdiçássemos cá dentro alguém mais, assim silenciado, ensimesmado no meio da enorme algazarra que exaltam as outras duas partes de nós.
“nem eu I., nem eu me fazia assim”Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:51 AM | Comentários (12)
outubro 24, 2005
As palavras que escondem
No portátil tenho aberto o Instant messaging da Empresa. Por detrás dele o portal de informação com as novidades do dia e com um fórum de desenvolvimento de temas e ideias. Claro está que para além desta janela tenho sempre o Outlook aberto com o meu e-mail profissional, se bem que com um click possa ainda aceder a duas outras caixas de correio, estas pessoais, que são outras gentes e outros os motivos aí. E depois ainda há o telefone, como sempre, à esquerda na secretária, descansando agora. Mas só este, que lá no canto, o outro, o telemóvel arrelia-se agora de dentro do bolso do casaco. Para cada intuito, e conforme a pessoa que se pretenda ‘avistar’, há um meio que me fará lá chegar, seja em voz ou escrita.
E contudo, ao fechar de cada dia, sinto sempre que houve conversas que ficaram por haver, e que as palavras que verdadeiramente interessavam nem chegaram afinal a ser escritas, e que todas as coisas simples, desnecessárias, sem lugar neste atropelo de mensagens, se tornaram fúteis.
Será que com tanto para chegarmos onde quisermos, quando quisermos, como quisermos, será que assim tão ‘próximos’, desaprendemos a palavra sã?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:48 AM | Comentários (3)
agosto 18, 2005
“Então vais contar isto lá no teu blog?”
Começo a não gostar nada desta ideia de ter uma vida que, ainda agora acontece, e já se lhe espera a segunda versão. E é até com algum embaraço que vejo esta parte de mim que até para os amigos se começa a tornar ‘cinematográfica’. Ora bolas, mas afinal, ando a brincar com o quê?
Ok, aqui escreve-se, aqui me escrevo, aqui escrevo sobre o que me apetecer, e blá, blá, blá, metade deste blogue trata isso mesmo, de explicar porque ele existe. (Este será mais um desses post’s circulares, ou talvez verse mais longe, que é da escrita que fala, quando ela se tenta a substituir a nós.) Mas afinal, que ousadia é esta de pensar que me pode explicar a mim? É este o meu alvoroço de hoje, pensar que isto de escrever seja uma suave mentira, retocada, tacitamente aceite por mim e por quem me lê. Nada disso será grave, desde que isso não trate uma personagem ‘emendada’ que se faz passar por mim.
A verdade é que aqui podemos ensaiar de novo o que fomos, e o que fizemos, e até justificar o que não fomos. Reconstituímo-nos, melhores, naturalmente, e burilamos argumentos, fazemo-los agora nossos, e atenuamos as reacções que não queríamos ter tido, se necessário justificamo-las até à exaustão, e acentuamos, engrandecemos até, os episódios que mais nos enaltecem, tudo isso faz parte da nossa natureza humana quando a esta se lhe dá uma caneta para a mão. Esta será para mim a atracção, o pintar-me com melhores cores do que as que tenho, não para vós, mas por mim. Narcísica? Pois claro, qual a escrita que não o é?
Isto de retocar o que já fomos, ainda quase acabados de ser, emendando o que de facto somos, poder reescrever o dia de ontem sabendo que por hipótese o estaremos a dar de novo para ser lido a quem connosco o viveu, agora reconstruído à nossa maneira, é novo luxo deste Olimpo dos tempos modernos. E é em certa medida uma enorme perversão. Usar a eloquência maturada da escrita como se esta fosse o relevante do que somos, acima, e para além dos nossos gestos e reacções; substituir a espontaneidade pela reflexão cuidada, por um cursor que vem atrás e que emenda e nos rescreve de novo; e voltar a desenhar o que somos, recursivamente, iterativamente, retroactivamente, como se ‘ser’ pudesse ser um engenho de palavras, e logo aqui, logo após, poder justificar porque se é, porque assim se é; usar desta dupla possibilidade de voltar a ser, isto é quase primazia divina. Mas é acima de tudo uma suave mentira que se constrói com detalhe, e que, como todas as coisas aprimoradas, se torna agradável aceitar. Por mim que as escrevo, e eventualmente para quem as quiser assim ler(-me).
Mas foliar com esta magia dos tempos modernos tem os seus riscos. Que há em tudo, mesmo naquilo que nos parece ser privilégio dos deuses, um golpe de aríete, os rumores que em nós se congeminam, quando algo vai além do que é devido, e retorna em atoarda do desassossego. Sem darmos por isso vemo-nos no encargo de ter de ‘ser’ por duas vezes, mesmo que a segunda, esta abusiva versão escrita, não o seja verdadeiramente, mas ainda assim, constitua a parte complementar que os outros esperam do que já fomos. Mas nós não somos conjecturáveis, nem sequer somos traduzíveis, e tentá-lo é tarefa árdua e incompleta, e ingrata. Porque além disso, esta coisa soletrada, filha do nosso incontrolável fulgor em nos escrevermos, virá inevitavelmente trazer-nos … o ciúme. Sim, disse-o agora bem - este ensaio de “honestas” mentiras, com que nos fazemos aditar será, mais tarde ou mais cedo, o objecto da nossa inveja. E quase todos os dias nos vemos a concorrer com uma personagem maquilhada, que aqui vamos acrescentando, contra a qual nada podemos. Que o que escrevemos de nós, por mais sincero que o tentemos, será sempre muito melhor do que nós que o escrevemos.
E onde está a preversão e o ciúme em tudo isto? Aqui. Aqui mesmo, se um dia, aqueles que nos rodeiam, esperarem de nós, já não apenas aquilo que somos, mas também aquilo(isto) que escrevemos de nós.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:34 PM | Comentários (9)
agosto 16, 2005
Não fui treinado para tanto "eu"
Nós, os dois miúdos, a avó Vitorina, um cão e um gato. Levei o meu mundo para férias, deixei-os à beira da piscina, e voltei para cumprir com a minha sorte profissional. E por aqui me debito agora a trabalhar, em sossego e sem interrupções … sem ‘interrompimentos’ diria. Bom tempo este para o trabalho, em que por aqui me uso e abuso. Que trabalho há muito, e agora é boa altura. Agora não incomoda resolvê-lo a todo de uma vez, que nem há quem espere pelo meu atraso.
Aldrabices! Isso do trabalho, essa coisa que construo, quase obsessivamente, para me afastar, para me atrasar, de uma casa que agora está estranhamente vazia, na qual se guarda um silêncio que não sei viver. É assim, nesse logro que arquitecto com coisas inadiáveis e compromissos importantes, que aprendi a fugir da altura em que faltarão os barulhos, as suas vozes, os tropeços em algo que alguém deixou no caminho, traços de outros. Que fatalmente, nada esconderá o facto de ali apenas estar eu.
Nunca aprendi a viver só comigo. Sou irmão de mais cinco, cresci no meio do barulho e de uma multidão de afectos. Quando um dia parti dessa vida de filho e irmão, foi para construir logo outra, mas já não só, nunca só, e depois quase pai, e já mais gente outra vez. Sempre vivi rodeado de afectos, e na família fui somando-os. Cresci e tornei-me adulto sempre com outros, e nunca tive de me treinar para lidar só comigo.
A verdade é que assim, apanhado desprevenidamente sozinho, tudo deixa de ser urgente ou importante, ou interessante. Amolece-me a vontade do que quer que seja, e o que quer que seja é tempo demais que se tenta esconder com a pressa de o terminar. Tudo ali em casa, onde estou só eu, se faz desajeitadamente. Nada tem ordem ou urgência, e sem outros também não tem significado. É deriva e fastio.
E fico para ali, no liga-desliga, a disfarçar a companhia de alguém que nada exige de mim, que afunda o silêncio quando se fica calado porque estou calado, que soterra a vontade quando nada exige se eu nada tenho que fazer, que me empurra para uma mansidão onde pairo sobre as horas, angustiado, para que algo, além de mim, aconteça. Tudo ocorre num sítio que me é estranho, e onde me sinto a mais comigo mesmo.
Na verdade é como se me sentisse inibido comigo mesmo. Como se de repente me pedissem para ali ficar com alguém que não conheço, e isso me atormentasse, só de pensar em tanto “eu”. Como se fosse uma conversa que não se dá por iniciada, e se suspende naqueles momentos intermináveis e embaraçosos, e eu ali, acabrunhado, a ficar sem saber o que dizer fazer comigo. Há nisto até uma vergonha púbere, de quem de repente descobre que nunca aprendeu a solidão, essa parte que nunca treinei, e de que sempre, sorrateiramente, soube fugir.
É um bom tempo para trabalhar, enquanto espero que voltem de férias. No resto, se um dia tiver de o aprender, hei-de saber crescer com essa parte em que sobra um enorme absurdo de mim. Se um dia precisar, hei-de treinar-me, dia após dia, sozinho, até que deixe de me sentir um desconhecido. Mas por agora, não lhe vejo proveito nenhum. Na solidão, se posso, hei-de continuar criança.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:44 PM | Comentários (10)
agosto 10, 2005
Para reflectir (e decidir) depois das férias
Este blogue foi criado para ser o meu saco de boxe. Neste espaço deveria escrever aquilo que não consigo soletrar. Mas apesar do nome estapafúrdio com que o assino, deixei de me esconder o suficiente para isso, para falar entre mim e eu. E agora que tanto preciso dele assim, e me vejo continuar a escrever, coisas que nem parecem vir de mim, textos que saem para disfarçar o que eu queria escrever, só posso concluir que ele se fez demasiado próximo dos receios, das inibições, e dos azedumes do que eu sou. Os mesmos defeitos, e as mesmas coisas que lhe ficam por dizer. Tornou-se mundano, enfarpelado, jovial e contraído. Para isso não preciso dele, basto eu.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:11 AM | Comentários (16)
agosto 08, 2005
Delírios náuticos (... 16)
É Agosto, mês de refregas incertas e de marinheiros noviços: tempo de devaneios. E devia ser sempre assim, só de caneta na mão, que sotavento e barlavento isso é para quem quer chegar. Aqui arriba-se e orça-se, que não é a rota que nos fixa, é o vento que volteia e nós que com ele rondamos.
Não há mais na navegação: ou se veleja à rota, ou ao vento. É a prosa cuidada, ou desvarios apenas. Na rota ‘cuidada’ leva-se direcção, é desengano, é fazer do marear travessia e do mar a estrada, que não é de ali estar que se quer, mas sim o chegar mais do que o ir. Ao ‘desvario’ do vento, somos nós que nos levamos, que não interessa para onde, é o ir que é encanto, e chegar é apenas o seu fim. Tragam-se as velas de través, gire-se o leme nos nervos do vento, gingue-se a proa por todos os horizontes que o mar nos quiser dar, que no fim logo se emenda.
Pode-se lançar prosa desse mar que se cruza pela rota, mas não é assim que saberemos escrever o mar. Talvez as vagas, a fadiga, a embarcação que range, mas não o mar, que esse assim riscado não é mar, é água. Pode-se tentar descrever o mar que nos traz pelo vento, mas nunca o conseguiremos, que esse mar não se escreve. A esteira que aqui borbulha já ali é rumo, as brisas que aí vêm já nas velas se esgueiram, tudo no mar apenas se deixa escrito, que quando o temos nas letras já ele se foi, já outro mar nos leva. Só há o mar que vem e o mar que foi, não há mar de que se saiba falar.
Mas teimo eu. E agora sigo por aqui, e aqui mesmo uma vírgula, e vai agora, virar de bordo, e enquanto penso para onde vou já sigo com nova esteira, e já está, que se bolina de novo. Mas rondei a frase cedo demais, e nada conclui ainda. Caçam-se escotas, lança-se rumo para distante, adorna o casco, e finos se fazem os sulcos a sotavento, mas falha-me a frase de novo, que nessa bolina só há tempo para estar, e sonhar, e essas são coisas que não se contam. Mas teimo eu, há que tomar rota - tenha-se a mão no leme e os olhos ao vento que assim não há caminho - e talvez se conte, se assim o deixarmos ir de encontro às palavras.
Agora já mais ao largo, e mais atento, há que evitar faltarem sílabas. É aqui que cambarei, e aqui terei para contar. Que por cada três linhas algo de concreto se deve contar. Senão não há lastro, fica-nos o barco de capa, e dali já não se sai. Mas que se conta quando ali estar é assim, não há chegar, e nisso nada há de concreto. E já devaneio de novo, falta rota, falta mão, agora é já o vento que falta. Aqui ou há rota, e assim escrevemos nós, ou lá se vai a embarcação para as águas que ela quer. Mas bate-nos o vento de capa, e agora já nem estibordo nem bombordo. Nunca virar de bordo cedo demais, que a proa se amolece, fica-nos folga na vela, devaneia-se, perde-se rumo, fica o texto sem o ser. Desespero já, e é assim mesmo, é aqui mesmo que lanço ferro - que continuar a escrever sem que depois saiba amarar o texto, não é coisa de marinheiro
Mas torna o vento e já vai tensa a embarcação, e rasga a quilha o texto na página branca, que é assim que se desliza, não há timoneiro, não há vontade, há apenas o mar que se escreve. E saem a borbulhar da popa voraz, as letras todas que a esteira vai levando. É assim navegar ao vento, deixar que o mar se escreva. E lá ficou o farol de estibordo, lá se dobrou o pontão de entrada, e já mais longe, já não vejo o texto, que é o mar que me leva agora outra vez. É o movimento que conta, a água que passa, é este ir assim que não é preciso mais para chegar ao fim do texto. Mas não é mar, é apenas texto que o conta. Que o mar, esse não se deixa falar.
Velejar é isto, escrever sem parar, sem querer chegar, é fingir que se escreve o mar que não se sabe contar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:10 PM | Comentários (10)
A reler coisas antigas,
de quando ainda saltava muros
e a pensar …
… já fui muito maior do que sou hoje!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:45 AM | Comentários (4)
agosto 05, 2005
Delírios náuticos (... 19)
Pé ante pé caminho para as férias. Cuidadoso, que não quero despertar o imprevisto, que Deus me salve do que mas possa roubar. Dia após dia conto as gotas da vontade, como água mole que se vai esbanjando neste visco de ficar aqui. Já rastejo no que faço, e assim me hei-de levar até ao dia do zarpar. Que me arrastem os dias, as horas e os minutos que faltam, que há-de ser assim, por justiça, para que o peso das coisas seja mais certo: Se o mar me vai ter por mês inteiro, se eu dele irei assim tanto beber, que a terra de mim abuse nestes dias em que lhe resto, que tudo o que dela tiver de comer, assim farei.
E agora a mesma coisa numa versão "a armar aos cucos":
Pé ante pé caminho para as férias.
Cuidadoso, que não quero despertar o imprevisto,
que Deus me salve do que mas possa roubar!
Dia após dia conto as gotas da vontade
como água mole que se vai esbanjando
neste visco de ficar aqui.
Já rastejo no que faço,
e assim me hei-de levar
até ao dia do zarpar.
Que me arrastem os dias,
as horas e os minutos que faltam,
que há-de ser assim,
por justiça, para que o peso das coisas seja mais certo:
Se o mar me vai ter por mês inteiro,
se eu dele irei assim tanto beber,
que a terra de mim abuse nestes dias em que lhe resto,
que tudo o que dela tiver de comer,
assim farei.
Uns "enter" aqui e ali, depois uns itálicos a fazer parecer coisa antiga, e fica logo com outro ar não é ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:38 PM | Comentários (16)
agosto 01, 2005
Vaidade
Se é para zarpar,
Que me importa se é pouca vela

Ou será que as coisas que fazemos
Mais do que o que delas queremos
Só servem para o que parecemos ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM | Comentários (6)
julho 29, 2005
"Interrupimentos"
Passei o fim-de-semana passado a jardinar. As plantas já o pediam, e eu também. É bom mexer na terra quando estamos assim, até já fartos de nós. Andar por ali a trautear com as mãos, isso é folgar. E depois, ao vê-las frescas e a espigar, sem arrelias nem atropelos, nem coisas mais importantes que crescer apenas, é trazer à evidência o que anda esquecido: O MUNDO É SIMPLES, nós é que o complicamos.
Este fim-de-semana vou montar o toldo. O pátio vai ficar lindo, e o curativo acabado.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:51 PM | Comentários (19)
julho 25, 2005
A falta de um disco rígido e um passarinho
Passei toda a manhã a espicaçar gentes para que me arranjem o computador o mais rápido possível, a tentar-me ressuscitar. Entretanto fui relembrando e desmarcando as reuniões ‘inadiáveis’ e trabalhos ‘urgentes’ que hoje tinha agendados no computador que já não existe. Foi-se a máquina e os suportes de memória, foram-se os agendamentos. Mas assusto-me no meio de tudo isto. Afinal, desvinculo-me tão facilmente de todos esses compromissos, das coisas que ainda ontem eram imprescindíveis, que chego a temer que, não trazendo isso consequências, possa também eu não ser importante.
---
Subitamente dou por mim na estação, os morfes esquecidos com o espanto, empastando-me a boca, e o comboio da manhã de segunda-feira que já parte e segue viagem, indiferente, sem mim. Lá vai o chiar, que se arrasta com a carga de tanto afazer, e ai que lá leva os meus. Depois nada, apenas o silêncio que lhe sobrevém, e que estranhamente não me encontra em desespero. Não fico, como julgava, como quase juraria, ansioso de seguir viagem, e nem me vejo rogar pragas pelo atraso que esta distracção me consentiu. Antes pelo contrário, ter ficado por aqui, com falta de ligação a tudo o que estava programado ser a minha vida hoje, traz-me sossego – e já só este bafo de ar parado como quem anuncia que o tempo que a vida nos dá pode ter vagares de chilreios de passarinho (e cai-me o nó da gravata, e ela voa ali na boca do bicharoco, será graveto para ninho; fico nu agora). Vou-me recostando, que aqui ninguém me vê, e está tudo tão calmo.
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Está tudo tão calmo? Alguém que anuncie o meu atraso, que por aqui me fiquei acidentado, alguém que explique que me perdi aqui, que é dano, que já nada tenho daquelas coisas fundamentais que tanto procuravam em mim – não. Nem isso, não avisem nada. Avisar do quê, se eu não sinto a falta, ninguém sentirá a falta de mim. Está calor. Calor? O calor sentido assim, sem ser um acessório de um dia ataviado de coisas por fazer afinal parece mais importante do que costuma ser. Agora, vou-me deixar ficar por aqui sentado e talvez me deixe ficar a experimentar sentir o calor. Assim mole, sem atrapalhar as ‘contas do dia’, é até bom. Talvez fume agora uma cigarrilha enquanto brinco com as curvas do ferro forjado que sigo com o olhar curvilíneo até ao fim do telheiro, … mas ai, as coisas importantes que eu deveria ser hoje. Mas, (já nem o oiço ao comboio), quais coisas?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:08 PM | Comentários (2)
O Carpe Diem informático
Que estupidez esta de não fazer ‘backups’. Talvez o único meio onde seria possível guardar 10 anos de vida e … claro, há coisas que não se guardam, porque haveria a informática de as querer tornar imperecíveis. De qualquer forma estava mesmo a precisar de começar tudo de novo. Quantas vezes afinal se pode começar o dia seguinte por perguntar o que vamos agora fazer?
É algo de interessante esta sensação de vazio. Olhar para trás e nada encontrar é também olhar para a frente pressupondo o que se quiser.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:14 AM | Comentários (4)
A emissão seguirá agora intermitentemente
E pronto, nada como um bom copo de água em cima do portátil para se acabar o vício. Providência ou asneira de miúdos tanto me faz, agora é só um golinho de blogues de vez em quando e já está.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:07 AM | Comentários (3)
julho 20, 2005
Nem todos sabemos olhar o inverso das coisas
(mais uma fabulosa foto do Benjamim, aqui no FotoBen)Será a outra metade das coisas, aquela que não vejo, o ‘sítio’ onde eu gostaria de estar?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (5)
julho 13, 2005
Vai, não vás, vai, não vás
E penso, estará ele lá bem? São 15 dias, ao relento, é muito tempo, e sem telefones, e tão novo ainda. E se por acaso algo correr mal, sei lá, um grupo de miúdos sem mais nada que fazer senão para embirrar com alguém. Ou as botas (irra, eu já deveria saber que nunca se devem usar botas novas para grandes caminhadas), e se lhe fazem umas bolhas enormes, e ele sem outras, a arrastar-se dorido todos os dias nas explorações de costa-a-costa. Ou até coisas mais simples, como as saudades dos livros que costuma amontoar na mesinha de cabeceira antes de adormecer, ou do quarto, ou de nós. Pensar que algo que corra mal terá de ser suportado por ele durante duas semanas, sem um aconchego sequer, isso transtorna-me. Como vai ele depois passar cada um dos dias que ainda faltam? E eu, onde estarei eu para o consolar e lhe dar ânimo, e explicar-lhe(me) que nem tudo o que sobre ele sucede eu posso controlar. Mas posso, se for preciso meto-me no avião e trago-o de volta, ai isso trago. Não, isso não creio que deva fazer, e também não saberia se ele precisaria que o fizesse, ou se quereria. Oh, provavelmente irá andar tão encantado nas explorações e na montagem dos acampamentos que nem se lembrará de nós. Claro!, desde quando é que um miúdo se entristece ao ver-se assim numa ilha selvagem. Claro que vai tudo correr bem. Eu devia era andar orgulhoso de o ver partir assim, já rapazola autónomo. Mas, … mesmo assim, … nada me livra desta angústia.
Agora que os vou ‘libertando’, começo a perceber que deixá-los crescer é também saber suportar esta angústia. Que ser pai é também ser capaz de esconder em nós este afogo com aquilo que não podemos fazer por eles. Provavelmente irá ser sempre assim, até que eles se tornem homens. Ou talvez mesmo para além disso, talvez para sempre, mesmo quando já homens, quando nem sempre eu lhes puder valer.
( Não sei porquê prevejo que hoje vai ser servida alguma ironia ao jantar. Já estou a ouvir um “com que então eu é que sou mãe galinha, ein?”)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:42 PM | Comentários (12)
julho 07, 2005
Mas ciúmes de quê?
Ela sabe o que penso, o que me irrita, o que quero, o que não quero mas acontece, o que me absorve, o que me desanima, o que me satisfaz e desespera, sabe até o que eu quero de mim e o que eu quero para nós. Ela sabe do que falo, e do que calo. Mas não sabe o que eu sou quando nada disso é importante, quando escrevo apenas. Pelo menos acho que não sabe. E se calhar também não sabe que nada do que aqui possa escrever, sem a olhar, sem a poder tocar, poderá alguma vez ser o que falta. Mas mesmo assim, dessa ilusão, são por vezes ciúmes que sinto.
E eu sei - repito-o as vezes que for preciso - que o que escrevo não é o que sou. E até sei que querer parecê-lo é apenas uma traição permitida que a escrita me deixa usar. A escrita é mentirosa. É uma mentira bonita que condescendemos em ler e que nos pode envolver, e levar-nos com ela nessa fantasia que construímos, porque tudo isto nada mais é do que uma construção. Mas também pode ser uma mentira perversa, que apenas pretende falsificar a realidade, a realidade do que nós somos. Saibamos usá-la e podemos ser tudo, podemos ser corajosos, bons, calmos, complacentes, justos, podemos ser tudo o que queremos escrever, podemos até ser amantes. Mas não somos.
Alguém nega que gostaria de vestir a prosa do Eça numa conversa ao serão, por entre copos e amigos? Alguém acha que quando queremos justificar-nos das coisas que lamentamos, das nossas contradições, não era ao Fernando Pessoa que roubaríamos uma estrofe, e depois talvez juntar um beijo e dizer, “desculpa, eu sou assim”? E partir para férias com o espírito arrumado pelo Hemingway, agarrado ali à pressa na altura em que se agarra na mala e fecha a casa? Mas nós não somos isso, não somos o que alguém escreveu, nem sequer somos o que escrevemos. Somos apenas o que já fomos, mesmo quando escrevemos. Porque nisto de ser está muito mais do que o simples dizer, ou escrever, ou até pensar. Que ‘ser’ não é só isto, ser é algo que nos acontece não o que nós façamos acontecer, e ser é só uma vez, de cada vez, e é irrepetível, e não tem sortes de ‘reprise’ e não, não é assim tão fácil.
Aqui no papel tudo é diferente. Lemos, revemos, alteramos, mudamos as nossas reacções como quem troca a ordem de um parágrafo, apagamos os nossos gestos como se fosse um capítulo a mais, escrevemos até o que queremos que aconteça, antecipamos até o que queremos ser quando acontecer o que quisermos que aconteça. É feitiço esta parte que escrevo que é muito melhor que eu. Eu sou míope, ansioso, egotista, inseguro e irascível, sou esgotado, quase sempre, e formal, ausente, exigente, orgulhoso e surdo, sou muitas das coisas que não quero ser e que aqui não tenho de ser. Este sim, sou eu.
Não me regala parecer melhor do que sou, se não o sou. Que eu sou mais do que vírgulas, ou palavras circunspectas, ou parágrafos que se apagam e voltam a escrever. Eu sou o que apenas é quando as coisas acontecem, não depois nem antes, sou muito mais para além daquilo que visto escrevendo. Este encantamento de que me visto com palavras não me pode trazer ciúmes. Isso significaria que estava preso do que apenas escrevo.
Sou por exemplo, agora, esta necessidade de aqui dizer: Não sou nem metade do que aqui pareço, mas sou muito mais do que a outra metade que aqui não fica escrita.
(não levem isto muito a sério, mas estava a precisar de ajustar contas aqui com o tipo da caneta)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM | Comentários (3)
julho 06, 2005
O 'bicho' é uma merda … eu? Sou vício
Hoje, quando vejo o Cap a escorraçar a vontade de fumar (antes nada tivesses referido homem). Hoje, quando vejo na Eufigénia a mesma vontade inquebrantável do primeiro dia em que nos comprometemos os dois. Hoje, quando ainda me lembro do que prometi aos meus filhos olhos nos olhos, esbanjando tudo o que era código de preserverança. Hoje, quando recordo a forma confiante como assumi tudo aqui também, de onde recebi tantos incentivos. Hoje … 1 mês e 9 dias depois …
… venho aqui ‘entregar’ o que resta da minha franzina vontade, sem evasivas. Só me sobra mesmo a sinceridade com que o digo, e a punição de o poder dizer.
Mas amanhã … (... ? ...desconfio que nesta altura já não tenho ninguém a ler-me) … melhor assim.
[ Não posso é ouvir uma coisa assim e assobiar para o lado. Dá-lhe com força Cap!! ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:59 PM | Comentários (26)
Ainda o envelhecer
E os olhos,
porque são eles a única coisa de nós que fica mais bonita no envelhecer?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:34 PM | Comentários (12)
Envelhecer
A questão está em constatar que nem todas as ‘coisas’ ao meu lado envelhecem na mesma medida que eu. Algumas mais súbitas, esboroam-se, e deixam-me a nostalgia de as ver assim partir. Outras, mais lentas e mais sólidas, fixam-se na margem, e sou eu que escorro com a corrente, sou eu que me vejo partir.
D’umas fica a pena delas, d’outras a pena de mim. Poucas seguem comigo. E nisso me dou(*) ao envelhecer.
(*) dou-me às 'coisas', quando lhes deixo a parte de mim que lá ficou, ou dou-me ao envelhecer, quando sigo com o que de mim ainda sobrou? - até a ausência de uma vírgula pode mudar o sentido do (es)coar da vida
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:25 AM | Comentários (4)
julho 04, 2005
Eu sei
... que há qualquer coisa que (me) assusta nas coisas que aparecem assim escritas, ininteligíveis, despojadas da noção do que são, quase absurdas.
E lamenta-se a ausência do estilo, da melodia dos tons, da construção linguística, e de todas as outras nuances que lhe faltam para se tornar apetecível, compreensível, consumível. Haverá uma enorme solidão quando se escreve o que mais ninguém saberá ler, desperdício dir-se-á, como se o latente, o que não chegamos a dizer, por assim ser, não fosse afinal o que nos falta perceber.
Escrita corajosa, digo eu, que nada mais lhe valerá para além disso, o de se fazer de nós, o de se escrever para nós.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:45 PM | Comentários (9)
julho 01, 2005
É no que dá o vício das teclas
Hoje convoquei-me para as palavras. Sei que elas primeiro, virgens e ásperas, se amontoarão num caos que me quer imitar no que sou por dentro, que eu sou assim, a desordem das coisas que penso, e o que penso não se sabe escrever, e eu não sei pensar como escrevo. Ninguém sabe, embora alguns saibam escrever como se estivessem a pensar. Mas não escrevem o que estão a pensar, apenas são capazes de escrever como se estivessem a pensar mas sem estar, para poderem escrever o que realmente querem parecer pensar. E eu agora também tentei, queria aproveitar a frase bonita que pensei, embora não a tenha verdadeiramente pensado, porque a escrevi e faz sentido e é elegante, por isso não a pude pensar assim, mas escrevi que “por isso hoje convoquei-me para as palavras” como se o tivesse pensado. E vou continuar a tentar, mesmo que isso resulte numa fila de letras atropeladas do tamanho de páginas, que é assim que penso, e sei que assim escrevendo o que penso nada resultará para além da vontade ilusória de que o que escrevo é o que penso, e para quê isso se o que penso assim escrito é tão pior que o que escrevo se nem pensasse que escrevia. Que eu também tento escrever assim, como se não estivesse a escrever o que penso que penso que escrevo, mas também isso nada é, porque se penso o que escrevo é mais que isto, embora o que aí escreva não seja o que penso. Mas tentarei, continuarei a tentar escrever o que penso sem pensar no que escrevo, e logo depois irei intercalar tudo isso com vírgulas e acentos e irei disfarçar com interjeições, as que forem precisas até que os cantos das coisas que penso e que quero dizer fiquem aplainados de certezas, como se aquilo que escrevo fosse o que realmente penso, embora o que penso, se fosse escrito, nunca pudesse ser assim, tão pensado. E continuarei a tentar, até que as linhas amontoadas das coisas todas que penso de uma vez só pareçam pensadas uma de cada vez, e ordeno-as para que ganhem alguma ordem, já nem digo melodia, mas que apenas se amaciem, que se encostem umas nas outras, que façam sentido, mesmo que assim o sentido que façam já não seja o sentido que penso, porque o que penso não é ordenado de uma coisa de cada vez. E muitas vezes o que penso nem faz sentido, e ninguém escreve coisas que não façam sentido mesmo que sejam o que pensa, porque mesmo que o quisesse nunca saberia escrever com a mesma falta de sentido das coisas que pensa sem sentido. Mas tentarei na mesma, mesmo que isso nada diga de mim, nada diga de nada, e possa ser apenas uma expressão que diga que “hoje convoquei-me para as palavras”, que nada mais a si tenha atrelada, e eu desenrole outras tantas e mais, e mais, até que desesperado desista por saber que afinal, hoje não me convoquei para nada. Pudesse eu, soubesse eu, e elas acorreriam. Mas aí já não precisaria de me convocar eu, e escusaria de encher tanto texto a justificar que apenas o escrevi porque gostei da primeira frase, bonita, e achei que ficaria bem aqui, apesar de ser mentirosa, e quase certo nem ser minha, coisa que li e esqueci, decididamente, e agora iludo-me a pensar que é minha, mas não é. As minhas palavras, as que penso, não vêm assim, nem tão pouco chamam por mim.
Oops, caro leitor, chegou até aqui? As minhas sinceras desculpas, distraí-me e fui andando, e sem dar por isso empurrei-o para o caos das coisas que penso, quando penso que posso escrever o que penso. Não ligue sim? As minhas desculpas, as minhas sinceras desculpas.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:31 PM | Comentários (12)
junho 30, 2005
O que admiramos, poderá ser maior que nós?
A verdade é que quanto mais nos assenhoreamos de algo que admiramos, material ou imaterial, mais contraídos vamos tornando os seus contornos. A nossa saciedade pelo que desejamos pode tornar-se uma rotina voraz, que reduzirá o objecto do nosso anseio a uma fastidiosa forma de admiração. Aos poucos, de tanto o desejarmos, de tanto o procurarmos, de tanto o anteciparmos, deixamos de poder ser por ele surpreendidos, não porque a sua natureza se tenha alterado, mas porque nisso nós já não somos capazes de nos surpreender. A verdade é que aos poucos, tudo o que incessantemente admiramos, deixará cada vez mais de ser o que é, para se definhar no que nós viciosamente procuramos nele. E aquilo que estava para além de nós é reduzido à parte de nós que cada vez menos é capaz de o admirar.
Isto é transponível para a Blogosfera. Hoje, largos meses depois de me ter devotado a este inesgotável mar de ideias, de arte e de informação, concluo que as minhas voltas se resumem a meia dúzia de sítios. E isso ocorre não porque os outros não sejam igualmente bons, ou até melhores, ou porque não vá descobrindo alguns que mereceriam fazer parte desta minha rotina diária, mas simplesmente porque nesta imensidão já só consigo encaixar o que cabe no meu ‘tamanho’. E aqui a intangibilidade da blogosfera faz-se rotina, e a surpresa atrofia-se na palma da minha mão. Se continuo por cá é porque a sei tudo isso, mas quando ando por cá, ela é já só a parte minúscula que eu consigo admirar, não é já toda, não é a que eu admiro e que me faz andar por aqui.
E já agora, nos afectos, por vezes, pode acontecer o mesmo. O que amamos pode deixar (absurdamente) de ser o que amamos para ser apenas a parte de nós que é capaz de amar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:53 PM | Comentários (20)
junho 25, 2005
Falsificações? Vão mas é brincar com as memórias d'outro
Hoje vi um “mini”, e foi quase instantâneo, saltou-me logo uma história velha que já aqui andava escondida há algum tempo, e dei por mim a rever caras de que já quase não me lembrava. É sempre assim quando vejo um “Mini” velhinho. De repente vieram-me as deliciosas histórias do Paulo Gordo ao volante do Mini da mãe dele … mas isso terá de ficar para mais logo, que agora tenho compromissos com os miúdos.
Agora era mais só para dizer que, enfim, não tenho nada contra a marca que os vende, mas não simpatizo particularmente com essas tentativas revivalistas de formas abauladas e com um arzinho “tunning” que sinceramente fica a léguas das linhas dos originais. Além disso acho que fixaram um preço demasiado elevado. Um “Mini” era um carro do povo, era possivelmente o primeiro carro que se conseguiria comprar, não este, não o carro armado ao desportivo para um target endinheirado a dar ao de “olha para aqui”. Eu nunca compraria um desses novos “minis”, mas não era só por isto. O que acho mais absurdo é como alguém se atreve a fazer uma “release” destes carros sabendo que por mais que tente, por mais motor que ali ponha, nunca conseguirá substituir a caixinha de memórias que todos os “minis”, os velhos, mesmo já velhos, ainda preservam de nós. Quando vejo um desses “Minis” novos irrito-me. É como se alguém ousasse querer substituir as minhas memórias antigas por uma versão insípida de 2003/2004 cheia de Gigabytes disponíveis para gravar com sorrisos de dentes branqueados, e eu também já a sentir-me empurrado. Por isso, quando encontro um dos velhinhos “minis” entusiasmo-me, pois claro, quase vénias para ele ali no passeio. Afinal elas ainda andam por aí, as nossas memórias, afinal ainda rolam as nossas histórias da juventude. Fora os falsificadores de carroçarias, fora os “tunnings” das nossas memórias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:44 AM | Comentários (5)
junho 23, 2005
… é só fazer as contas
Aborrece-me que se pense que um tipo por andar a matraquear tanto por aqui abdicará inevitavelmente de boa parte das outras coisas da vida: o trabalho, os momentos de família, as voltinhas do arejar, enfim, as várias peças do dia-a-dia. (Para ser sincero, ainda ninguém me fez constar isso nem insinuou, mas se eu penso isso sobre outros bloguistas acho que é legítimo que pensem isso sobre mim).
Ora aqui vai o meu exercício justificativo. Em média (a divina estatística pois claro) o povo português desliga-se 3 a 4 horas por dia em frente à televisão. Ora eu não vejo televisão, guarde-se portanto estas horas para a conclusão final se fizerem favor. Depois tem-se que o tempo médio de sono dos homens é de cerca de 7 a 8 horas, mesmo que ocupem parte dele em outras actividades. Ora, eu durmo 4 horas, outras actividades não incluídas. Assim, resulta daqui que tenho de sobra num dia normal cerca de 7 horas para lucubrar no que quiser (designadamente descobrir o significado de expressões como esta do “lucubrar”). É muito tempo, é meio dia útil, e dá para fazer imensas coisas, por exemplo, escrever. Mesmo que se tire a parte do mudar a areia aos gatos, ou de dedilhar uma viola que nem sei afinar, ou de estender as fotos de família todas no chão para as voltar a pôr na caixinha que nunca mais se vê álbum, ainda assim, bastará trocar o que sobra por caracteres para perceber a imensidão de post’s que se podem arranjar. Com tanta família e trabalho, escrever é folga apenas, enquanto abrando do que gosto que me ocupe.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:28 PM | Comentários (6)
junho 18, 2005
Um blogue também pode ser isto – uma alarmante ficção do que somos
Em conversa de comentários trocados, a propósito de mais uma minha contrição pública, esta aqui no post debaixo, dizia eu que:
“Pois Karla, isto dos blogues tem destas coisas. Um gajo mete um post e vai logo mais aliviadinho para casa. E se alguém disser alguma coisa eu é logo: "E já leste o post que eu pus hoje? já? Pois, tu nem lês o Blogue e depois chegas aqui a dizer que eu sou isto e aquilo, olha que eu sou muito boa pessoa, e quando faço merda escrevo logo um post a seguir para me retratar"
Agora a continuar, já com a ironia posta de lado, e a pensar mais nisto, que esta coisa de ter um blog pode trazer-nos a ilusão fácil de fantasiarmos quem somos e, numa determinada perspectiva, que editar um post pode até ser uma desonesta tentativa de dar por feito, ou dito, ou até mesmo reparado, o que de facto não chegámos a fazer.
E nesta aparência fantasia que aqui pouco a pouco construímos com palavras até prevejo o risco de a nossa realidade se poder transformar numa almiscarada manta de retalhos de coisas que não chegaram verdadeiramente a acontecer, e nós, cada vez mais, numa construção ficção do que somos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:29 AM | Comentários (15)
junho 16, 2005
Lassidão
Tenho a vontade morta, e o pensamento, o pensamento também. Já estou assim há uns minutos, e é assim que quero estar, sem desejos, sem nada à volta, desaparecido, deles, das coisas que tenho para fazer, de mim até, dos meus rumores. Ou nem quero, que querer já é estar. Talvez ficar apenas a escorrer minutos, disfarçado de interrupção, onde nada é importante, onde o importante é já só o nada.
Deveria agora esconder-me e deixar-me assim a pairar, em rota afastada do mundo, mais longe até. Tudo o mais que faça, que tenha para fazer, será mero desperdício, e ninguém vê isso. Auditorias, relatórios e planos de investimento, investidas ao supermercado, reuniões na escola dos miúdos e programas ocupacionais de férias, efemérides, estátuas e louvores, jardins, regas ao fim da tarde e montanhas, arrelias, desencontros e amuos, nada disso deveria estar a acontecer agora. Nada deveria estar a acontecer. Eu não deveria estar a acontecer agora.
Ou, pelo menos, eu agora não deveria ser eu. Depois voltaria, com outro ânimo, como quem retorna de férias, devagarinho, a tactear as coisas que entretanto aconteceram. Tenho a certeza que isso não incomodaria o mundo, talvez fosse no máximo um pequeno risquinho de absurdo no que deveria ser. Mas quem daria por isso. E eu voltaria tão depressa …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM | Comentários (10)
junho 14, 2005
Outra vez o Bicho
De resto, só queria poder escrever, nada mais, e entorpecer-me por entre as palavras, esconder-me atrás de uma vírgula, até que o bicho já tivesse saído de mim e eu fosse capaz de fazer algo mais do que este estar quase, sempre quase, só ainda quase.
Ser texto, até Setembro talvez. E ficar assim a inventar histórias para domá-lo, e lê-las, e relê-las a essas coisas que o assustam cá dentro, coisas escritas de mim, coisas que também são dele. Coisas que teimam escrever vezes sem conta o gritar-lhe que ele há-de partir. A escrita aqui a vestir-se de vontade, e eu texto apenas.
Até já poder olhar para o que vem como um tempo que sobra, já não horas que se engolem apressadamente a querer levar o monstro na enxurrada das coisas desperdiçadas. Até poder voltar a ter todas as outras coisas que o tempo nos traz, essas tantas que agora são escorraçadas por uma luta de vontades, um jogo estúpido e infame, que vai mordendo, que nos vai tirando ânimo, e para o qual já só me resta continuar a fugir, assim, em palavras.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:48 PM | Comentários (13)
junho 06, 2005
A ira nas coisas que já não se querem escritas
Assim, do lado das nuvens, quase parece que os seus contornos brincam, e quase sinto que ainda as posso tocar. Mas quando tento chegar mais perto, tudo se torna mais difuso, e perco de novo a cintura por onde a enlaçaria, àquela memória. Isso repete-se uma, duas, três vezes. De cada vez, como se a desgastasse, vejo-a mais névoa, sinto-a mais longe, quase partir. Está ainda ali, mas já tão ténue. Mas escrevo, escrevo - deixar-me ir, assim folgado, talvez que fique cativa entre duas linhas. E cada vez menos, já só vultos. Os sons, as vozes, já não se fazem ouvir, e as palavras quase foram. Ainda tento de novo, ainda enquanto entrevejo esbatidas algumas imagens, e quase fúria esta escrita, a querer desesperada agarrá-la assim. Mas depois nada, tudo foi de vez.
Eu sei quase sempre quando as memórias antigas vêm para se dar uma última vez. Fugazes, uma pequena faísca lá ao fundo, por entre uma conversa, uma imagem, qualquer coisa que as traga. E fugazes assim partem de novo, sem que se deixem tocar-se mais que isso. Depois não voltarão mais. Fica espaço, e nisso algo do que já fui partirá, que depois algo se irá escrever por cima, dessa parte, do que já fui. E eu já outro. Será por isso que tantas vezes acho que não é depois das coisas acontecerem que as deixamos verdadeiramente de ter, é lá mais longe, como aqui, quando elas nos visitam pela última vez, já memórias, e quando já nada podemos fazer senão dar-lhes caminho. É aqui que as deixamos de ter definitivamente. É aqui que mudamos. E renovação é isso, esquecer, deixar partir.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:20 AM | Comentários (8)
junho 02, 2005
Falta o “tiro de partida”
Liguei o portátil, sentei-me
pouco tempo. Levantei-me de seguida
e voltei a sentar-me. Vi os mails, vários.
As respostas ficarão para depois
- ainda não ouvi o tiro de partida.
Levantei-me mais outra vez.
Levantei-me primeiro, depois a justificação. Qualquer.
Voltei a sentar-me. Olhei de novo para o portátil, mas só olhei,
ali nada para começar.
Levei a mão ao bolso da camisa. Ali nada também.
Tudo está no seu lugar, mas
falta tudo em tudo.
Alisei o monte para despacho, e ainda espiolhei as folhas de cima,
mas só isso. Ficaria para depois. Ainda falta aqui qualquer coisa
- falta o tiro de partida.
Passei as duas mãos espalmadas pelo tampo
à procura de coisa que agarrassem. O telefone.
Mas voltei a baixá-lo. Não havia com quem falar,
e não era falar que queria também. Não já.
- antes teria de haver o tiro de partida.
Mais um jeitinho, um toque, dois toques,
na proposta com que parei ontem. Urgente, mas só isso
que para já não lhe irei pegar.
Voltei a ver a lista que deixei para hoje
e carambolo de linha em linha,
e já ali no último compromisso, tudo tão depressa,
já não há mais. Pelo menos, não já
- não antes do tiro de partida.
Procuro outra coisa que possa fazer,
e há tanta coisa para fazer. Mas falta algo para lhes pegar
em tantas coisas que há para fazer. E eles.
Também devo falar com os meus colegas,
talvez depois. E também, hoje,
também tenho de ir ao médico, mais logo,
que logo se verá. Agora vou fazer um intervalo para o café,
mas não já. Agora vou ainda ver o que há mais para fazer.
Ainda há tanto para fazer,
mas falta tanto em tudo. Falta
- o “tiro de partida”.
Mais outro dia. Bom dia.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:10 AM | Comentários (18)
maio 31, 2005
O meu compromisso
… com os meus filhos (ok, e convosco também; quantos mais melhor)
Tinha treze anos quando comecei a fumar. Aos dezoito fumava um maço por dia, aos trinta fumava três, e actualmente fumo vinte e mais umas tantas cigarrilhas. Durante estes quase trinta anos não houve um único dia em que não me tivesse “chutado” com aquela maldição. Fugi para as casas de banho dos sítios onde estava hospitalizado, engoli em custo travos de fumo por entre amigdalites, levantei-me a meio de filmes para me ouvir argumentar mentiras, e disfarcei envergonhado com janelas abertas os sítios onde os meus filhos recém-nascidos viviam. Posso portanto reconhecer desde já: sou viciado, ponto um.
Ponto dois, sobre este “bicho” cá dentro: Não há tolerância nem efeito de escala, nem bons ou maus vícios. Ser viciado dói, devagarinho, muito lentamente, mas dói sempre, dói no fim. É algo que fazemos sem querer fazer, é algo que nos sabe bem quando nos faz mal, mas é acima de tudo, indigno. Tudo nesta puta de vício é indigno e fraco. Há algo mais indigno que um homem desculpar-se a si próprio? É indigna a explicação com que se vê um pai partir cedo de mais por culpa deste vício. É indigna a falta de amor próprio com que se relativiza um diagnóstico de uma bronquite crónica. É indigno interromper abruptamente uma brincadeira com os miúdos só porque aqueles rebolões na sala nos deixaram sem fôlego. É indigna a mentira com que se encobre as picadas no peito com um resfriado que se apanhou na noite anterior. Ainda nestes últimos dias foi a mentira que me acompanhou nesta farsa em que assumi que iria deixar de fumar. Reduzi para uns poucos, e há muito esforço nisso, mas até quando? Até que os truques psicológicos do todos os dias me levem a esquecer a promessa? Até só fumar um depois do almoço, e do jantar, e depois do pequeno almoço, e talvez ao lanche e só mais este, e aquele? E se esta merda não é droga pura, o que mais nos cerceia assim a vontade e o orgulho? E que não venham daí as agulhas e os calmantes e os pensos e as bruxas da vontade, que isto nasceu cá dentro e é cá dentro que se tem de matar.
Mas também é verdade que nunca tive em grande conta isto de ser eu. Se for fui e pronto, e não há nisso nenhum fervor autodestrutivo, apenas um desvalorizado apego à vida. Partilho do lema do “antes viver bem e curto”. Mas isso sou só “eu”, e esse “eu” já não existe. O “eu” real tem dois filhos, e isso faz toda a diferença. Desde que os trouxe a este mundo, (e quem é capaz de se arrepender disso), deixei de poder ser egoísta. Mas sou viciado. E por isso sei que já não basta traçar compromissos comigo, é preciso torná-los vaidade. E é por isso que logo à noite vou dizer-lhes na cara que não fumarei mais. E vou deixar letreiros em todo o lado, em cada esquina destes dias que cruzo. E vou pôr placards luminosos nos outros dias do resto da minha vida, para poder ver ao longe. Porque eu sei que vou querer fumar até ao último dia. Que seja então nesse dia apenas, nisso posso condescender, nesse dia poderei pensar só em mim. Até lá, vou é ganhar vergonha e ter o fôlego que um homem deve saber ter.
E isto não há-de ser assim tão difícil, basta apenas que todos os dias, ao chegar a casa, lhes possa responder a eles, olhos nos olhos, com um sorriso na boca.
E agora, aos leitores deste blog, para amanhã: Quase não preciso dizer o que devem esperar disto. Todos sabemos que este sítio é também ele uma esquina dos meus dias. Nunca escondi que aqui gosto de me divertir, confessar-me, recordar, acusar-me, disparatar, poder ouvir-me. É também aqui que virei combater o “bicho”. Receio que se venha a tornar um sítio obsessivo (basta “ouvir” o tom deste post), e presumo que isso não o vá tornar simpático. Pois.
Ah, e já agora, sabia que hoje se comemora o Dia Mundial sem Tabaco? Não, não estou a sugerir nada, mas se quiserem passem pelo Atuleirus (de onde roubei em desespero de causa a foto) para lerem umas coisinhas interessantes, por exemplo aqui ou aqui.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:00 PM | Comentários (28)
maio 30, 2005
O Pontapé ( III / II (?) )
(Antes que alguém comece a desvalorizar o meu feito desportivo)
Há alguma coisa que tenha mais realidade que as histórias inverosímeis que ouvíamos confirmadas pelo sorriso enigmático do nosso avô? Alguém ousa desmascarar na verdade que ouvia dele a fantasia com que cresceu?
Então porque não havemos de acreditar que naquele dia, só naquele dia, a bola lhes piscou o olho antes, riu-se, e foi esborrachar-se de encontro às redes, a oferecer-lhes o pai que ali, naquele momento, queriam ter?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:40 PM | Comentários (2)
maio 28, 2005
Aos sábados, na savana, por entre a casa
Tenho-os à bulha na sala. Já por quatro vezes levantei a voz, cuidando para que se acalmassem, a prever o desfecho, e dele lembrando-os. Eles acatam, mas por alguns momentos apenas, depois, irreprimivelmente, voltam ao mesmo, enrolam-se pelo tapete, entornam desastradamente os flocos no chão, e o telefone acaba por saltar com um piparote falhado. O reboliço irá crescendo até que eu os interrompa de novo. Este é o ritual das manhãs de sábado, de que eu, com as minhas abruptas interrupções, também faço parte. Os três sabemos como tudo irá acabar. Já falta pouco para que a brincadeira chegue ao fim - um irá aleijar-se e irá choramingar, baixinho, encobrindo culpas, e depois acabarão por trocar acusações. Nessa altura cabe-me intervir e acabar com aquilo tudo, definitivamente. Tudo isto dura normalmente cerca de 2 horas, e é uma das melhores partes do fim-de-semana deles. Não conheço nenhum brinquedo, jogo ou livro que signifique tanto gozo para eles como aquele andar de rojo com o irmão, por entre o caos que vão espalhando.
E aquele disparatar já é mais que isso, é um brincar de cria, é um treinar antigo. A sala esconsa desaba numa savana onde rebolam por entre arbustos macios. Onde sobem a cadeiras feitas de pedras altas de onde tomam balanço para o mergulho sobre o adversário. Tudo ao redor são pormenores de uma natureza que não se quebra, que por ali continuará, e a que não ligam importância. Lá ao fundo, o pai não os olha furibundo – e esconde por entre os seus afazeres o orgulho de ver as suas crias prepararem-se para serem homens. Assim medem forças, experimentam formas de aprisionar o outro, tentam olhares de desafio. Nada mais num rapaz o pode saciar tanto que isto, este afiar de garras, este treinarem-se homens que lhes vem de antes deles.
Depois chega o ralhete, e num lapso tudo volta ao que é hoje. Mudou o tempo, trocaram-se os sítios, e essa natureza selvagem de repente tornou-se repreensível ali. Ninguém percebe já nestas crias o seu brincar, o seu exercício de um tempo que foi o de sempre. Este reboliço dos sábados de manhã, afinal, ainda é a sua ilusão - que acabará numa manhã de fugida, onde nós já perdemos a nossa.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:16 PM | Comentários (3)
maio 27, 2005
Hoje acordei …
De braço ao peito; O carro a fazer birras, a tramar o arranque do dia e a acabar no mecânico; Um esquentador que acabou a levar pancada por entre cada um dos nossos banhos gelados; E por conta de todos estes reparos um almoço desmarcado que já sem tempo para se fazer; Pelo meio telefonemas e mails de gente a mandar sorrisos de fim-de-semana prolongado; Enquanto eu aqui olho para a agenda que já não vai ser cumprida hoje; E para a chuva que me espera no acabar do dia; E ainda assim,
Sinto-me bem à brava, de peito feito para a vida,
e sorriso na boca a gozar com estas contrariedades
