agosto 22, 2006

Desabafo de umas férias por gozar, com uma agulha de croché

Acabo de chegar da fisioterapia e recebo um telefonema em tom alarmado. Acalmo o interlocutor, aquele que afinal tem à sua guarda metade desta minha família, e disso de súbito ganhando consciência sou já eu que me desacalmo. Solícito prossegue então mais rápido. Que parece que o miúdo partiu a perna. Coisa de estar ali à babuja, aos pulos entre a água e a areia, uma cova dessas de baldes de pais, para ali esquecida, e pronto, coisa que julgava só a mim acontecer, coisa de usado portanto. Mas não, mais grave até que o sucedido com a minha pobre figura, que esta foi mesmo fractura e irá para um mês de gesso. Pior é o antes disso, o já, que as férias se continuam comigo logo depois de amanhã, e assim ficam já todas comprometidas. Ou talvez não, que lhe leve uns livros, diz-me ele, até orgulhoso da sua condição, ainda orgulhoso dessa condição. Digo-lhe que sim, que levarei vários, e uma agulha de croché. Que não percebe, para quê isso, que me estranha tais ideias, e eu a pensar nos gessos e nos calores e na raiva das comichões e do coça-coça, e que sim, que ainda assim lhe levarei uma agulha das grandes. E a conversa a desenrolar-se e ele e eu, os dois a normalizar-nos já, e boa noite filho e não te esqueças de agradecer aos tios tantos cuidados. Um beijo meu querido e não te pegues com o Diogo que me diz ele que anda de olho negro, e isso até asseverado pelas primas. Mas pai … e um beijo, clic.

Bem, agora vou eu dormir. Passo pelo quarto deles e não consigo resistir a olhar por cima do armário. Lá está ele, metalizado, a um canto, que bem lhe vejo a testa arredondada. Faço cálculos de desarmar aquilo de adereços, que sem a pala e sem os óculos aquele capacete da neve até se fará confortável. Depois apercebo-me do ridículo da ideia, mas mesmo assim hesito. É que já dificilmente alguém me conseguirá fazer acreditar que, durante a noite, não me irá cair o estuque do tecto na cabeça.

(Mas coitado do miúdo caramba, e eu aqui)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:26 AM

agosto 21, 2006

Desabafo de férias

“ os meus pais devem achar que eu já sou adolescente; deixam-me para aqui sei lá quantos dias, não me vêm buscar, nem sequer me vêm ver … devem achar que eu já sou adolescente”

Mas não se pense que se trata de observação choramingada - será quanto muito lamúria de pésmolhadosàbeirad’água - porque a hipótese do retorno a Lisboa seria logo recebida com um “quem? eu? fazer o quê?"

(E eu aqui a fazer-me forte ... mais dois dias só)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:20 PM

agosto 14, 2006

Um mero (enfim, talvez um pouco exagerado) momento de saudades

Discutem lá pelos Algarves quando irá ele dali para acolá, e se pode ser só amanhã, mas que não, que já deveria ter sido ontem. De barlavento para sotavento, assim vou sabendo que tenho um filho disputado ferozmente entre duas veraneantes famílias. Que sorte tem ele em ter assim férias para além das que eu lhe posso dar. E que sorte ele tem, com o seu carácter sedutor, e esse fundo macio onde é bom chegar e ficar, que é sorte ser assim, alguém de quem é tão fácil gostar. E minha a sorte também, que assim o vejo, afinal, já tanto para além de mim, já tão mais do que eu sou.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:26 PM

agosto 09, 2006

Cicatrização

São 3h da manhã. Continuo sem conseguir arrumar o dia. Falta-me a parte do seu termo que me remete para o dormir. De cada vez que fecho os olhos algo repica e me impede de o deitar, ao dia que já vai longo dentro de mim. Sei que daqui a pouco ele se levantará, inquieto e que me levará com ele, como se, apesar de absolutamente fatigado, não quisesse acabar já, não sem antes acabar como deveria poder. E todos os dias se repete esta cena soturna, silenciosamente, onde tento deitar o dia às escondidas da noite. E todos os dias os dois se juntam levando-me com eles em deambulações pela casa. E um fatiga-me e o outro impede-me o descanso. Travamos esta guerra há já para mais de dois meses, ininterruptamente. Resignado, preparo um nescafé fraco e beberico com ele o resto do wisky que ficou no fundo de um copo. Faço tudo isto com uma mão apenas. E levanto-me de novo, e ele irrequieto, a fazer-se pesado no meu corpo. Damos uma volta à casa como se revisitássemos cada assoalhada, colhendo e largando cada uma das peças que casualmente vamos encontrando pelo caminho, assim matando o tempo e as vontades. Mas não chega, nunca chega. Volto a vestir então uns calções, calço umas chinelas e saio para a rua. Uma, duas portas, que destranco, com uma mão apenas. Dobro a esquina, subo o beco e volto a descê-lo, e depois retorno para dentro. Os mesmos movimentos, a repetirem-se, mais cansados espero. Tudo recomeça agora uma outra vez. Sento-me na borda da cama. Mas não preciso de mais que isso para perceber que não vale a pena. Ele continua lá, dentro de mim, e espera que, tal como o sono que havia em mim, também eu desista. Há dois meses que espera. Abro a mão e faço rodopiar o isqueiro que tenho na sua palma. Apago de novo as luzes e fico depois a brincar com a sua chama no escuro. Vou pensando que me habituei a trazer comigo um sono que não consigo curar. Agora já nem me apetece pensar, estou cansado, e a chama já está débil. Tenho brincado muito com ela nestes últimos tempos. Mas agora já não quero pensar, nem no isqueiro sequer. Nem queria sentir nada, como se estivesse simplesmente a dormir. Deixo-me cair para trás e fico de costas na cama. O tecto tem um rendilhado nos cantos, umas cornucópias de gesso em que nunca tinha reparado . Mas não deveria estar a tomar a atenção a isso, nem deveria sequer pensar que não deveria tomar atenção a nada. Já devia ter aprendido a tapar vagarosamente a consciência e a escondê-la por breves momentos o bastante para enganar o dia e a noite, e assim nessa distracção poder finalmente adormecer. Abro a mão e o isqueiro cai. Deveria ser tão fácil assim, penso. E lá fico, eu, e o dia e a noite, e a mão aberta, sem nada, demasiado vazia do desejo que sempre se habituou a segurar. Este impasse repetindo-se permanentemente, assim, há 65 dias.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:12 PM

agosto 07, 2006

A "nossa" primeira vez

- E também serão só mais 30km depois do Francisco sair em Albufeira.
- Pois
- Quase nem irás sozinho
- Pois
- E de qualquer forma depois vai lá estar o tio C para te receber
- Pai
- E se por acaso houver algum problema tu também já te desenrascas não é
- Pai …
- Sabes o meu número de telemóvel não sabes? diz lá qual é
- Paiiiiiiiiiiii
- Sim?
- Eu não estou nada nervoso
- … não?
- Não. Nada
- Ah …mas olha, telefona assim que chegares, não te esqueças sim?
- Sim pai

[neste breve extracto da nossa conversa é notório o efeito da minha serenidade sobre a compreensível inquietude do Diogo nesta sua primeira viagem de camioneta a solo]

… e será que já chegou? também não dizem nada e uma pessoa depois fica em cuidados pois claro

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:30 PM

julho 26, 2006

O mundo visto pelo lado do mais novo

Mallorca, 26 de Junho, pés em terra para jantar numa esplanada de Pollensa. Enquanto aguardamos pelos solomillos de ternera e pelos invariáveis spaghettis dos miúdos vamo-nos distraindo com o alvoroço em toda a volta. É terra de veraneio e àquela hora enchem-se as ruas de gente. Por trás de nós um bando de garotos, mais novos que os nossos, embrulham-se uns com os outros, nas típicas bulhas do fim do dia em que cada um veste a pele do seu herói. Alguém assinala isso, e a forma brincalhona como cada um se envolve na briga. Comenta então o Diogo:

- É como eu e o Francisco, lá em casa (pausa) Só que ele diverte-se e eu não.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:36 PM

Especionando (as palavras)

Mallorca, 23 de Junho de 2006, fundeados na Cala Deya. A água invariavelmente nos 28ºC a fazer inventar os mais diversos pretextos para mais um mergulho. Avança o Diogo para o painel da popa. Entretanto interrompe-se para se manifestar:
- Vou especionar o fundo do mar
- Diogo – lança reparo a tia, fazendo-o interromper de novo, agora no balanço que já tomava – não é especionar que se deve dizer.
- Ai não? Mas a M. também disse …
- Não. A M. disse inspeccionar, de inspector, percebes?
- Eu acho que a tia está enganada. Eu não vou inspeccionar o mar.
- Não? Então o que vais tu fazer?
- Vou ver as espécies de peixes que ele tem. Vou especionar .

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:52 PM

Profundidamente

Um.
Ainda agora comecei. Calma
Dois.
Devia ter enchido mais os pulmões
Talvez aí uns três.
Sinto-me bem.
Quatro.
Os ouvidos. Espera. Aperta o nariz.
Cinco.
Nunca tinha passado daqui … Isto assusta, continuar assim na direcção do escuro
Seis, será?
Sinto-me com pulmões … Mas o frio, ui.
Sete.
Esta coisa do deixar de fumar… Sou o super-homem. Agora ninguém me pára.
Oito.
Brrr, que frio. E já vejo qualquer coisa. Mas tão longe ainda.
Nove.
Não dá, não dá mais. Vou voltar
Oito.
Alto! Já faltava pouco, e eu posso ir mais lá. Só preciso guardar no fim um pouco. Ter de voltar.
Dez.
Ugh. Como isto se aperta cá dentro. O ter de voltar. Não esquecer. Voltar no fim.
Dez e meiooo.
Penso? Ainda penso? Miúdos? Ãh, que miúdos? Ter de voltar. Guardar um pouco.
Onzeeee.
Que silêncio. Este frio faz medo. E eu, que faço aqui? Olhar para trás, há luz. Para onde devo ir
Onze e meiooooo.
Rebento, assim rebento! E há que voltar! Voltar? Está tudo tão longe!
Dozeeeeeeeee.
Já devia ter tocado em algo. Que pressão, caramba. Mas só estranho a pressão. Não sinto falta de ar, nem sinto sequer a necessidade de respirar. E como é doce este silêncio frio à minha volta.
Doze e meioooooooo.
Agora não desisto. Agora não. E estou tão calmo. Sinto que podia ficar aqui por muito mais tempo. É quase um não-ficar. E estou tão longe.
Doze e … Oopsss, já está.
Uma mão de areia, outra de algas, e voltar. Voltar


Voltar.


Voltar!!


Voltar!!! …


Ena!!! Clap Clap Clap …. Quase 13 metros marca aqui no barco! G'anda pai !!!! 13 metros ...


(Devo andar a bater mal! Se não era mais fácil comprar-lhes um PC, em vez de andar a apostar o ego com os miúdos. Além disso eles ficariam seguramente mais contentes; menos orgulhosos mas bem mais contentes. Esta agora que me deu para pastar vaidades nos fundos das baleares…)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:23 PM

julho 13, 2006

Ahhhhhhh pois

Este estabelecimento encerra durante a próxima semana por motivos de força maior (*).

 

(*) tenho uma forte expectativa de voltar curado - para ser franco já começo a ficar farto de tanto betadine e de tão mau feitio - pode ser que quando voltar já me possa sentar outra vez bem e talvez até voltar a merecer a família que tenho.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:43 PM

junho 27, 2006

Provavelmente teria sido mais conveniente ter ficado por lá com a garrafinha de soro atrás e a fazer a coisa com mais calma

Oh pai, acho que a Tia M. ficou chateada comigo? Deve ter julgado que eu estava a brincar com ela. Ela ligou para o seu telemóvel e eu atendi claro, e depois das apresentações perguntou-me:

- E como está o teu pai?

- Está bem – mas fui logo esclarecendo – só que não está aqui

- Isso eu sei, nem podia estar não é? Então se foi operado ontem!

- Pois. Mas já veio

- Já veio? Já veio de onde? do Hospital?

- Sim

- Já? Mas … Não percebo nada. Se já veio do hospital como é que pode não estar aí?

- Porque foi ali ao café. Mas já vem. Quer que eu lhe diga que …

- Foi onde?

E depois desligou. Sabe, acho que ela deve ter achado que eu não estava a falar a sério. Se calhar é melhor ligar-lhe e explicar-lhe que as suas operações são assim mesmo, sem tempo para nada.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:29 PM

junho 20, 2006

Optimismo

- E que tenho os pulmões de um homem de 80 anos q fume um maço por dia
- E tu ainda consegues estar com esse ar de agrado?
- Porque não haveria de estar. Já viste se me calhasse o peito da Tia Mª Luisa? Seria bem pior não?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:29 AM

junho 05, 2006

Garfadas pedagógicas. Ou nem isso. Mas esparguete.

Sua calor por todo o lado. Nós lá fora no abrigo do toldo pedinchando as aragens descuidadas que se esgueiram ao fim da tarde – como se o dia assim fugisse, silvando ao de leve - ventos térmicos, dizem. Come-se uma bolonhesa – mimos da mãe. O calor traz disparates já se sabe, embora seja coisa que só o género masculino é capaz de reproduzir em todo o seu esplendor a fazer fé nas palavras da mãe. Rola a conversa.

- Oh pai, eu sou alfacinha não sou?
- Humm, quase Diogo, Quase és.
- Quase??? Mas então eu não nasci em Lisboa?
- Nasceste. Mas com os banhos que te recusas a tomar …
- Ohhh. E que tem isso a ver?
- Alguma coisa. Na verdade nunca poderias ser exactamente uma alface.
- Porquê?
- Porque esse pivete …talvez couve … snif snif … Sim, quase alface, mas mais couve.

Cava-se um amuo profundo. Já do outro lado da mesa se arreia esganiçada a risada que entremeia um “Oh coitadinha da couvinha de Bruxelas”. Eu sorrio, contrariado, quase arrependido da graçola. Disfarço com olhos de faísca sobre o irmão. Atrapalho-me, e vou inventando para mim que se pretendiam no gracejo intentos pedagógicos. Felizmente não houve tempo para mais: soa um “oh Zé, francamente” e interrompe-se o riso, calam-se as minhas interjeições de “vá lá Diogo”, e o vento pousa completamente. Nesta folga, viro agulhas para o mais velho. Distribuindo.

- Pronto, agora vamos ter de gramar com os histerismos do alho francês.
- Alho francês? Quem? eu?
- Tens razão. Alho francês não. Talvez mais rabanete. Esse repolho que tens em cima da cabeça e que teimas em não desbastar tem mais ar de folhas de rabanete!

E pronto. Trocam-se papéis. Arrufos de onde vinha jactância, a euforia da contrapaga de quem se folga agora da humilhação já vencida. “ahhh, olha o rabanete, ahahhh”, e a coisa assim a alternar-se. Duas garfadas, a conversa a desenvolver-se mais macia já, talvez sobre o Rock in Rio que ouvimos dali do pátio, e a tachada de esparguete e esgotar-se.

O outro lá foi ao banho antes de se deitar, e este já me pediu dinheiro para cortar o cabelo amanhã. As bolonhesas cá da casa, assim saboreadas em família, são sempre muito conversadas e estimulantes. A gente lá vai cavaqueando, entre duas garfadas, e assim se dando a entender.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:05 PM

maio 30, 2006

Bilhetes para

Dia 4 de Junho vende-se
ou troca-se, sei lá, qualquer coisa
o assunto é sério - está em causa a expropriação da minha paternidade ...
Dia 3 de Junho compra-se

Red Hot quê ?? ah não sei de nada.
Para pormenores da agenda falar com Francisco Lagoa

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:09 PM

maio 21, 2006

dormitorium

- … então vou ligar para a CML para virem buscar as camas
- Na, na, na, que isso faz falta. Faz muita falta
- Mas para que queres tu isso?
- Para os trabalhos de fim-de-semana
- Como assim?
- Já vais ver …

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:33 PM

maio 19, 2006

“Não estranhes que um dia te sintas mais homem por o veres seguir,

mas menos de ti por o saberes partir”

provérbio inventado por um pai na adolescência

Ontem, pela primeira vez não lhe disse para onde deveria ir,  nem o que teria de fazer,  nem até a que horas isso iria acontecer.  Pela primeira vez foi ele que …

Tinha combinado com um amigo às 9.00h num café da Expo. De mim, apenas se o poderia levar. Que logo veriam o que iriam fazer porque de manhã não haveria aulas. De mim, que ficasse descansado. Que precisaria de dinheiro para almoçar e para o metro. De mim, se o podia dar.

Depois de me despedir dele, fiquei a olhá-lo. Ia grande, muito maior que ontem. E pela primeira vez não lhe perguntei a que horas iria chegar. Lá partiu. Voltará, mas já não o mesmo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:52 PM

maio 16, 2006

Bricolar entre o jantar e o café

O que mais me fascina no Ikea não é tanto o design inteligente das suas soluções, nem a ténue mas ainda presente qualidade nórdica, nem tão pouco os seus preços agradáveis. O que mais me fascina no Ikea é a reputação que este oferece a um pai de família ao montar um beliche em 1h 34 min!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:42 AM

maio 11, 2006

Fixem bem os olhos em mim!

Vou comer só uma tosta. Tenho de ganhar tempo para ir num pulinho estender uma máquina de roupa.

(Dispenso a piadinha sobre o estender a máquina? pois talvez não saibam mas esta é uma gíria que nós domésticos utilizamos frequentemente. Sim, que eu também vos ouço dizer vou calçar a máquina, e toda a gente sabe que a máquina não se calça. E pior, ainda têm a mania de dizer que a lâmpada se fundiu, quando toda a gente também sabe que quando elas pifam ninguém diz Olha, fundeu-se. Fiquem lá com as vossas que eu fico com as minhas que me dão já muito que fazer.)

Recado pós lides: Eufigénia, não pendurei as tuas meias. Tive receio que pudessem esgarçar (digo bem?)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:19 PM | Comentários (3)

maio 07, 2006

Claro que a rapariga lá na Multiópticas já me trata pelo nome

- Pai, um menino lá no rugby amolgou os meus óculos
- Mas tu jogaste de óculos? Olha que …
- Não, claro que não! Foi quando os deixei no banco
- Vá, não faz mal. Traz lá os óculos que eu dou-lhes um jeitinho
...
- Estão aqui:

- Mas ??? …

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:54 PM

abril 13, 2006

Diálogos de matar saudades
Treinos 'batraquiais'

- Pai
- Olá. Está tudo divertido por aí?
- Já experimentei o truque que me ensinou
- Qual? o das bolinhas de ar que deves largar se caíres à água
- Sim
- Pois, é uma forma de não te atrapalhares se a água do rio estiver mto turva, não é?
- Se calhar é
- Se calhar? Mas então não disseste que experimentaste isso
- Eu experimentei, mas a água estava tão transparente que foi só seguir o Sol
- Bem, assim de facto não dá para ver.
- …
- Mas podias treinar na mesma. Assim sempre confirmavas para onde elas subiam
- Eu ainda tentei. Mas eles começaram a gozar comigo
- Que disparate. Não ligues
- Diz isso porque ninguém chama agora “sapo” ao pai

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:44 PM

Diálogos de matar saudades
Andam a pedi-las

- Pai
- Allô, então como vai isso por aí?
- Muita giro. Olhe, hoje encontrámos uma cobra no rio.
- Ah foi?
- E sabe uma coisa, ela estava a morrer engasgada
- Como assim? A cobra estava a morrer engasgada?
- O JM viu-a comer um peixe e depois ela ficou muito quieta, quase morta
- Se calhar estava a digeri-lo
- Não, não. Estava tão quase-morta que até lhe mexemos na boca e ela nem fez nada
- Cuidado! Vcs não deviam mexer em cobras
- Nas que estão engasgadas pode-se

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:41 PM

Diálogos de matar saudades
'Semenologias'

- Oh Pai, a mãe disse para vir falar consigo
- Um momento Diogo, deixa-me só …
- É que às vezes saem umas gotinhas brancas da pilinha?
- O quê ??
- Ontem saiu. E acordei assim - a desfraldar-se e a agitar-se, e a rir - todo suado.
- Sim? E como é que isso aconteceu?
- Comecei a sonhar com raparigas bonitas e…
- Humm, Diogo?
- Sim pai?
- Estiveste na conversa com o teu irmão?
- … Estive
- Ah. E ele explicou-te o que é isso?
- Sim.
- E queres saber mais alguma coisa?
- Eu … ainda não.
- Está muito bem. Falamos quando quiseres
- Pois. Se calhar é melhor falarmos só quando eu tiver outro sonho assim
- …
- Sémen
- O quê?
- Isso que o teu irmão te contou e que ainda não sentiste sair é o teu sémen.
- Ah, eu sei. É por onde vêm os espermatozóides não é?
- É
- …
- Mas a outra parte pai, das raparigas que me fizeram suar, é verdade
- Eu sei filho. Essa parte vem sempre mais cedo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:38 PM

abril 10, 2006

Tudo controlado

Olá,

Como não te consigo apanhar no telemóvel segue por aqui. Era só para dizer que tudo correu como previsto. Só os raviolli é que não saíram lá muito bem – deixei-os cozer um pouco mais que os cinco minutos e ficaram um bocado borrachosos. Depois, como pensei que fosse por falta de fervedura, deixei-os ficar mais um pouco e ficaram um pouco menos borrachosos - mas usámos as facas serrilhadas e lá nos safámos muito bem. (A propósito, os miúdos andam sem apetite nenhum, temos de ver o que se passa). E agora a boa surpresa: não temos de nos preocupar com o jantar, sobrou o suficiente, enfim, se os conseguires convencer a encararam de novo aquela experiência espiritual.

Quando voltei para o trabuco ficou tudo mais ou menos sossegado - (ah, se puderes traz tintura de iodo, já não há) - e eles prometeram-me que se iriam vestir e que entretanto tiravam as peças de lego de dentro das garrafas de cristal e que não partiam mais nenhum candeeiro (oops, é verdade, lembras-te daquele candeeiro que herdaste da tua avó? Não te preocupes, aquilo tem arranjo, depois falamos).

Mas o importante é que eles ficaram bem almoçados e ainda há muita farinha cérelac. Olha, convém que saibas que já falei com a vizinha de baixo, portanto, se ela te interpelar, diz-lhe que nós já tomámos conta do ocorrido (eu depois digo-te que tipo de ocorrência, que isto aqui, enfim … é que pode servir de prova, percebes?)

Já agora … sabes quando é que eles recomeçam as aulas?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:11 PM

março 31, 2006

Causas de óbito

- … porque os animais selvagens mesmo quando parecem mansinhos, nunca são domesticáveis.
- Mas há gente que tem panteras? Porque é que não podemos ter uma pantera negra?
- Diogo, para perceberes melhor... uma vez, um elefante que vivia num circo, e que há vinte anos era tratado pelo seu dono, um dia acordou com mau humor e …
- E que aconteceu?
- Matou-o. Se não me engano foi uma trombada.
- Ahhh. A sério?
- A sério sim. Percebes agora porque os animais selvagens mesmo quando parecem domesticados são perigosos?
- Pois. E morreu mesmo o senhor?
- Hum, hum.
- Oh mãe, e isso é que é morrer com uma trombose?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:01 PM

março 28, 2006

Mas, (e prosseguindo nesta coisa do velho que nos vai circundando)

há outros sinais que se perscrutam  dos reparos domésticos. Dos mais frequentes recordo o “quem é que se esqueceu outra vez de deixar a vara a escorar a porta do pátio? Estou farto de dizer que assim aquilo ainda empena mais!”. E já noutras conversas ocasionais, mais ao serão, é ver ressaltarem em jeito distraído observações do género: “olha, parece-me que o gato está a ficar grisalho. E tão novo ainda?!” – e logo o desmentido a seguir-se, a trazer a razão de sempre: “Nada. Isso são teias de aranha. Terá é com toda a certeza andado pelo sótão. Por falar nisso, caiu mais uma parte do estuque, já viste?”. E eu a assentir, acabrunhado, com essa sempre e irremediada vetustez do lar.

Má sorte a deste imóvel. O pior que se pode desejar a casa centenária é que esta se aprisione por donos de modestos recursos, obrigados na resignação perante as suas maleitas. E com tanta gente tão folgada, dessa que acha pitoresco isso (isto) das casas velhas, logo haveriam de calhar (a esta minha) uns meros pelintras.

Enfim, que se avenha com o vozeio e o volteio dos miúdos. Que lhe baste nas almas que a habitam o que lhe falta de estuque.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:57 PM

Por entre a escova de dentes e a lâmina da barba

Durante a faina da manhã ouço-me exortar veementemente os miúdos para que “não arrastem a bilha do gás quando tiverem de abrir a porta do frigorífico se fazem favooor !!”. Foi recomendação tão estranha que por ali ficou a ecoar, que acabei por concluir que esta casa talvez ande a precisar de alguns cuidados de manutenção. Talvez.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:57 AM

fevereiro 11, 2006

Constatações

Ao jantar ouço os miúdos tratarem-me por “Eufigénio”. Isso inquieta-me um pouco pois começo por pensar que nesta casa, se calhar, há blog a mais, quando a intenção óbvia apontava para o contrário. Mas receio sobretudo o dia em que no correr da conversa um perguntará manhoso: “mas pai, Eufigénio não se escreve sem ‘u’?”

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Agora é manhã, já sábado. Estou em cuecas a blogar de frente para as portadas abertas do pátio. A imagem não é bonita bem sei e sugere até algum desleixo matinal, mas era só para dizer que aqui a primavera chegou hoje.

 

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:04 PM | Comentários (9)

fevereiro 09, 2006

Com paciência até se entende(m)

Ao vivo, na Internet , a 30 anos de distância:

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:21 PM | Comentários (19)

fevereiro 07, 2006

Artes e Ofícios, (ou conjugando: a técnica do desenrasca)

Foi ao Francisco que coube acabar o banho aos gritos. Enrijece dizem, tentei dizer-lho, mas ele não fez caso. Ultrapassado este incidente - e depois de lhe seguir as lamúrias pelo corredor fora e que insinuavam vagamente que por miserável sorte estas coisas do destino o escolhiam sempre a ele - lá avanço para o esquentador. Nada que me inquietasse. Afinal já não era a primeira vez que me havia com aquele bicho. Para além disso, enfrento sempre qualquer avaria ou incidente doméstico com doses reforçadas de “o pai sabe arranjar tudo”. Impante, empinei-me então no banco elevando-me à altura do piloto. Nem tudo são desvantagens com as coisas velhas. Se por um lado sucumbem com mais frequência, também é verdade que as suas avarias são cada vez mais facilmente diagnosticáveis, pois que em cada intervenção se alarga sempre um pouco mais o leque de  “operações técnicas” que temos à disposição assim proporcionadas pelas marteladas abordagens empíricas que vamos experimentando. O esquentador é, nesse aspecto, de entre todos os electrodomésticos, o meu maior aliado. É aquele que mais frequentemente desfalece e que mais vezes me faz brilhar.

São tantas as vezes que se tornou quase uma rotina ouvir-me chamado de lá da cozinha por culpa de mais um espasmo do seu cansaço e velhice. Basta atentar no tom enfastiado e prolongado do chamamento para me munir das ferramentas necessárias ainda antes de lá chegar. Faço-o sem queixumes ou atrasos, diria mesmo, até com algum orgulho convenhamos, que não é todos os dias que um marido e pai se pode fazer de salvador da pátria, e estas coisas dos curativos nas avarias sempre ajudam a realçar o insubstituível território de um homem. Voltando ao teatro de operações, e recordando que me encontro sobre uma banqueta olhando com ar entendido e confiante para o piloto apagado: preparo-me então para aplicar a sucessão de técnicas que quase invariavelmente conduzem ao sucesso na resolução de tal imbróglio. Assim as descrevo:

  1. A primeira acção, passa por uma valente sopradela sobre o piloto. Este sopro deve ser aplicado enviesadamente por forma a tanger o orifício, libertando-o assim de qualquer impureza que se lhe tenha agarrado. Nada. Passo então à segunda fase.
  2. Enquanto com uma mão primo o botão de acendimento, com uma chave de parafusos dou duas ou três pancadinhas no tubinho de cobre. Embora não saiba que designação alguém deu aquele delicado tubo, compreendi um dia que ele conduz ao sensor térmico que por segurança obstrui a chama caso não detecte o calor que o deveria abraçar. Estes toques que imprimo já com um certo à-vontade, costumam aproximá-lo, na sua folga, o suficiente do piloto para que o problema fique sanado. Não foi o caso.
  3. Passo então ao terceiro passo. Aqui não escondendo já alguma inquietação, uma vez que os meus recursos se começam a extinguir. Esta consiste numa intervenção mais radical e também de maior brio técnico. Desmonto a carnagem do esquentador por forma a ter uma área de trabalho mais liberta. Na verdade não é absolutamente obrigatório que o tenha de despir assim, mas a verdade é que isso me faz desfrutar da vantagem de impressionar eventuais observadores sobre o meu discernimento em matéria tão sofisticada. É aqui que entram as limas das unhas da Eufigénia que se consomem a um queixoso ritmo lá em casa. Absorvidamente entrego-me então a umas raspadelas. Uma aqui, outra por ali, e piloto, sensor, e todos os restantes picoletes que me sugerem ter alguma função importante são assim alisados até que apresentem um ar luzidio. Isto vou acompanhando de explicações técnicas (que por esta altura já não costumam ter ouvintes) que explanam a importância do retirar o carvão que por esses sítios se acumulam. Sendo esta última operação mais complexa e de maior impacto, é também aquela cujo êxito conduz a maior regozijo, pois esta evitará o cabo dos trabalhos que é recorrer a serviços externos.

Mas desta vez nada resultou. Ferido nos meus méritos, mas consciente da delicada situação, (e logo a um fim de semana), solicito ainda que relutantemente os serviços de um profissional.  (Benditos cartões de crédito que trazem uma série de pechisbeques agarrados que normalmente nem nos lembramos). Ao final do dia lá chega o técnico, esfalfado, e fazendo-se acompanhar de algum falatório habitual: “Hoje ainda não parei, nem almocei. É sempre mais no Inverno, é sempre mais frequente isto e a gente sem mãos a medir” e os desabafos e confissões depois, “Não sou técnico certificado de gás mas já faço disto há 14 anos. Anda aí gente cheia de diplomas que não sabe nem metade do que eu já esqueci”. Aí está o verdadeiro know-how português pensei, o “desenrasca” continua a ser o atributo profissional mais honrável. Mantenho-me ali à parte, atento, pretendendo aprender e ampliar os meus dotes neste domínio que até então era só meu. Para meu uso futuro, e para que não soçobre amanhã ainda mais a boa reputação angariada, eis como passo a descrever a operação que testemunhei:

A julgar pelo expedito técnico não são necessárias muitas nem sofisticadas ferramentas. Com ele faz-se acompanhar de uma caixa do tamanho de um estojo de lápis que abre embora de nenhuma das ferramentas se apreste a fazer uso, pelo menos para já. Retira a carnagem do esquentador. Até aqui nada de novo, eu segui exactamente os mesmos passos do “colega” e até arrisco alguma intimidade nisso falando do mau jeito dos camarões que o seguram. A cavaqueira inicial entretanto dá lugar a um ar sério e compenetrado. Nem parece manifestar o mínimo interesse na descrição que lhe vou fazendo. Concluo portanto que a fenomenologia e o diagnóstico não é uma abordagem relevante para este mister.  Noto que nem tão pouco experimenta o acendimento, preparando-se para evoluir directamente para a acção de reparação. Experimento algum orgulho ao constatar que nisso temos abordagens semelhantes.

Um minuto depois, munido de uma chave de fendas, tira o bloco do piloto para fora. Três gestos e ei-lo desmanchado em cima do balcão da cozinha. Eu nunca o houvera arriscado com receio que saltassem de lá molas e parafusos de afinação, pelo que me agrada saber que a partir de agora já poderei estender as minhas intervenções em domínios mais complexos e certamente impressionáveis ao meu pequeno pecúlio de admiradores (na verdade é só um; aparentemente acima dos 13 anos estas lides já não impressionam ninguém).

Sou interrompido pelo técnico: “Por acaso não me arranja uma agulha? ”. O pedido é-me estranho, “Uma agulha?”. Satisfeita a bizarria observo-o agora, executando gestos que até então considerava  inimagináveis assim associados a este tipo de intervenções especializadas. Ele é dos que trinca a língua quando se vê com uma agulha na mão. Passa-a de trás para a frente através do orifício no topo do piloto, enquanto balbucia qualquer coisa que entendo ser uma explicação. Certamente terá notado o meu espanto e até desacreditação de o ver ajudar-se com tão impróprias ferramentas. Dois sopros, e mais uma vez a agulha a fazer-se passar de um lado para o outro. Depois bate com a peça no bordo do balcão e aponta para um montinho minúsculo de impurezas, “vê?”. Mas nessa altura já pouco lhe ligo. Aos meus olhos aquele homem ficou desacreditado.

Mas a injúria maior, aquilo que retirou a réstia de dignidade do ofício que até então concedia partilharmos, veio a seguir: “Por acaso não tem aí forza?”. Já não queria acreditar. Fi-lo repetir três vezes o pedido, por incredulidade mas também para o obrigar a expor-se ainda mais no seu propósito. Depois certifico-me junto da Eufigénia. “que não, que no fogão não usamos forza”. Ele encolhe os ombros achando isso estranho, quase sugerindo a minha má vontade, depois olha em redor e improvisa. “Dá-me licença que use aqui um pouco deste detergente líquido”. Assenti, mostrando já indiferença e decepção para com os seus propósitos. Enquanto bombeia o detergente para dentro do tubinho, vai batendo com o mesmo na borda do balcão e soprando-o insistentemente. Depois passa-o pelo fio de água que deixou a correr e volta a repetir as operações. Faz tudo isto com ar desenvolto e confiante. A forma delicada como agarra na peça entre dois dedos mantendo os restantes esticados e lança sopros enérgicos sobre o orifício manifesta uma experiência já adquirida de há muito tempo.

Terminadas estas operações, volta a encaixar o mecanismo, dá uma varridela com uma trincha sobre o queimador e coloca a carnagem de novo. Dois cliques e aí está o esquentador a funcionar. Demorou exactamente 12 minutos. “São 14 euros então se faz favor. O senhor não paga a deslocação, vantagens do serviço X”. Ficara tão desconsolado com ele que estive quase para me armar em engraçado e perguntar se não me descontaria no preço os materiais utilizados. Reconsiderei a tempo. Além disso, se por um lado me sentia ultrajado em verificar que tudo aquilo não passaram de operações de carácter amador tão equivalentes às que eu usaria, por outro lado reconhecia facilmente as inolvidáveis vantagens de ter testemunhado toda a execução anterior.

Doravante nunca mais precisarei de recorrer aos serviços externos, tão incómodos e tão nefastos para a minha credibilidade familiar. E isso tem um valor inestimável. Da próxima vez que o estafado esquentador decidir fazer das suas já terei oportunidade de alargar o âmbito da minha intervenção. E já não para desenrascar, dessa vez será um desempenho profissional, devidamente munido de agulhas de coser e detergente liquido.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:26 AM | Comentários (7)

janeiro 27, 2006

Mais uma anedota do Diogo para a prosperidade posteridade postidade

(E que bem que sabem, ao fim da tarde de uma sexta-feira extenuada)

Pergunta o patife do elefante ao camelo:
- Oh amigo camelo, porque é que tens duas mamas nas costas?
- E tu engraçadinho, porque tens uma pila na testa?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:29 PM | Comentários (6)

janeiro 25, 2006

Um pai deveria pelo menos servir para ensinar o filho a voar

- Não Francisco, deixa que primeiro seja eu a tentar.
- Pois, é sempre assim. Mas afinal a prenda é de quem?
- Oh filho, eu apenas quero perceber como se controla isto, depois posso ajudar-te e será mais fácil para ti.
- Mas porque não posso ser eu a fazer isso?
- Bem se insistes. Mas olha que vai dar chatice. Depois não te lamentes de o teres partido todo.
- É assim tão complicado pai? Então não percebo porque me ofereceu um avião telecomandado.
- Ao princípio pode não ser fácil, são muitos graus de liberdade. Estás a ver este manípulo aqui?, é para subir. E este outro é para tirar potência da esquerda ou da direita, fazendo com que ele curve.
- Já percebi. Posso então tentar?
- Francisco! Não sejas impaciente.
- E porque não posso eu aprender agora que já percebi como isso se comanda?
- Olha, se voltas a insistir muito eu passo-to para a mão já. Mas aviso que este é um brinquedo demasiado caro para te voltar a comprar outro. Vais dar cabo dele por causa das tuas birras e acabou-se, não há mais. Percebeste?
- Humm … está bem, fico a ver o pai então.
- Óptimo. Então repara como faço. Aqui ligam-se os motores das hélices. E oplá, já está.
- Nota que quase o sinto a querer largar-se da minha mão. Isso quer dizer que já terá sustentação. Agora nesta outra mão tenho de preparar o comando. Não é fácil, temos de chegar com o dedo ao manípulo da aceleração.
- E já o vai largar?
- Sim. Mas esta parte é delicada. Tens de lhe dar uma certa inclinação para que ele tenha uma tendência de subida, mas não demasiada para que não entre em perda. Entendes?
- Simmm. Mas isso voa ou não?
- Calma. O aeromodelismo exige muita tranquilidade e concentração. Ora vamos lá a ver. Hélices ok, boa inclinação, nota agora eu a dar-lhe potência, e aqui vai, oplá !!!
- Pai!
- Pai !!!
- Pai !!!!

- Boa tarde, estive aqui ontem, não sei se se lembra de mim?
- Claro, como está? Então o que o traz cá de novo?
- Olhe, queria saber se vendem peças avulso para este avião.
- Do que precisa exactamente?
- Assim à primeira vista será da zona do cockpit, da asa grande e da armação do trem de aterragem.
- Ena, que grande trambolhão! Isso é que foi um baptismo de voo, ein?
- Pois, enfim … miúdos ainda sem experiência e
… Francisco, tu nem abres a boca!!!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:59 AM | Comentários (9)

janeiro 18, 2006

Hormonas, ‘after-shave’ e conselhos a mais

Chego estremunhado ainda do acordar e já ele se apoderou da casa de banho. Não está a lavar os dentes com o poupado pingo de pasta de dentes, nem sequer a tirar cirurgicamente as ramelas da noite como costuma fazer com cada um dos polegares. Na verdade não se trata de nenhum dos volteios forçados da higiene infantil que servem apenas para satisfazer a contabilidade das recomendações paternas. Contudo, a actividade em que se concentra é-me tão familiar que ao princípio nem lhe acho estranheza. Já só quando lhe dou um encosto para ganhar a beira do lavatório e o revejo na imagem reflectida no espelho é que me apercebo então do que se ocupa. E a lâmina que usa é minha.

À surpresa ainda a sustenho, à inexplicável vaidade ainda a camuflo, mas já às progenitoras recomendações não as consigo amordaçar: … e que não deve usar a minha máquina, que há o problema dos contágios das dermatoses. Naturalmente, ele pouco acata. Acima de tudo está embaraçado por se sentir assim minuciosamente observado nesta lide que o chama para coisas que ainda lhe são estranhas, e que assim, comigo ali espreitando de sorriso arqueado nos cantos da boca, ainda mais lhe expõe a renovada puberdade de todos os dias com que agora se tem de haver. Dou comigo sendo ele, há muito tempo, embaraçado de ver assim espiolhados os primeiros pêlos, e logo a receber conselhos. Irrito-me desta repetição que me tem agora do outro lado, e lamento este vício de pai conselheiro que se liberta incontrolavelmente de mim. Cauto agora, procuro sair dali da forma mais subtil que me é possível fechando atrás de mim a porta da casa de banho, suavemente, como se pudesse assim apagar vestígios da minha trapalhona presença.

Afinal, há coisas mais importantes do que os problemas superficiais da pele … Mas mais uma vez retorna o macho orgulhoso de o ver chegar ao ‘clube’, e de lá do fundo do corredor ainda grito: “usa o aftershave que está aí do lado esquerdo”. E assim  incontinente ainda ensaiava mais uma recomendação: “e faz sempre a barba de cima para baixo, no sentido dos pêlos”, mas já esta fui a tempo de a travar na garganta. Há coisas que é preciso deixar que um homem aprenda sozinho, e outras que nunca aprenderá por mais que se recomendem,

… por exemplo, que não deve partilhar a máquina de barbear, ou ainda, que se um dia o vir fazer ao seu filho deverá ficar calado - que há coisas em que um homem prefere descobrir a/por si mesmo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:28 PM | Comentários (12)

janeiro 11, 2006

Piscalações

- Oh pai, que oscilação tão grande!
- Onde? Não sinto nada.
- Ali, no céu. Vê?
- No céu? O céu treme?
- Não, mas as estrelas piscam. Mas não vê aquela oscilação de estrelas?
- Onde? … ahhh, constelação!
- ‘Tá bem, constelação, pronto. Mas as estrelas piscam na mesma!

(adaptação livre de coisa de irmã em tempos idos e das trapalhices recentes de um descendente)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:12 PM | Comentários (6)

janeiro 06, 2006

Escolhas estratégicas: a menina dos (três, eram só três) fósforos

[ … ao jantar falávamos sobre a dificuldade de escrever em grupo]

- Eu também não gosto. E além disso despacho-me melhor sozinho. Ainda no outro dia fizemos uma composição sobre uma lenda à escolha e como estava sozinho acabei vinte minutos antes dos outros que só discutiam e não escreviam nada.
- E depois, aproveitaste para melhorar o texto?
- Não, a professora deixou-me ficar a ler o Harry Potter.
- Mas é isso que te digo sempre Francisco, não basta só o que se conta, também é importante como se conta. E isso requer tempo.
- Mas eu revi.
- Pois
- Oh Pai, mas eu escolhi a menina dos fósforos.
- E?
- E … eram só três fósforos!!

Às vezes, a preguiça é uma arte

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:49 AM | Comentários (8)

janeiro 02, 2006

As duas melhores prendas de Natal *

Elejo:

… que querem, comecei por fazer a instalação, depois era só perceber como aquilo se jogava para lhes dar umas dicas e depois, enfim, talvez me tenha entusiasmado um bocado. Já passei 8 dias naquilo quem diria, ein? É que aquilo também é um pouco difícil de assimilar logo, bem se vê. Mas amanhã (hoje se calhar ainda não que tenho uma contenda para acabar), mas amanhã prometo que os deixo jogar.

* Nota exclusiva para a vertente de album de família deste blog: Diogo, eu sei que a v. prenda não foi de natal. Mas eu não queria estar aqui a dizer que também fazia anos, percebes. A mãe disse-me que se um dia lesses isto poderias ficar magoado por eu ter confundido as datas, mas eu disse-lhe que o importante era que percebesses que tinha gostado mesmo muito da prenda e que vai ser giro ter no quintal uma prenda que todos os dias está diferente, como nós.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:00 PM | Comentários (4)

Cada um com o ‘reveillon’ que prefere

- Eufigénia, não estás a ouvir? Parecem foguetes lá para os lados do rio … tu queres ver que …
- Espera aí que eu vejo aqui na televisão … Xiii, é meia-noite e meia já.
- Humm, e como fazemos, vou buscar a garrafa de espumante?
- Oh, se calhar … já agora. Mas é seco não é? Senão não vale a pena que não bebo.

- E achas que telefonamos agora aos miúdos, ou logo tratamos disso amanhã?
- Humm … depois, agora estou numa parte entusiasmante do filme …
- Ok, agora também não me apetece nada interromper isto aqui

- … Oh Eufigénia
- Sim?
- Bom ano.
- Bom ano também para ti.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:07 AM | Comentários (13)

dezembro 31, 2005

Tudo pode ser (re)escrito de novo

Entra a meio da tarde em casa da avó e logo displicentemente se dirige para as bolachas junto à máquina do café, atalhando nos salamaleques que convêm.

- Oh Francisco nem fala à avó? – quase em coro, nós, quase envergonhados.

- Acho que o melhor é começarmos tudo de novo! – reforça a avó, ironizando.

Aí ele pega na mochila e sem réplica sai porta fora, assim, subitamente. Ao princípio sustivemo-nos de o perseguir, até algo curiosos, mas depois, mais inquietos, deliberávamos já segui-lo. Enquanto nisso nos decidíamos ouve-se a campainha. Era ele de novo.

-Olá avó, como está? Vou deixar a mochila aqui. E já agora, posso comer uma bolacha?

(já percebi porque este puto pode comer todas as bolachas que quiser em casa da avó)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:27 AM | Comentários (2)

dezembro 14, 2005

Há que não dar abébias

- Ena, mais um “Bom”. Isto agora é que está a dar !
- Mas pai, eu não estou muito satisfeito com isso.
- Não estás? Ah ganda Francisco - vai-te a ele, manda-te para o “M.to Bom
- Ou “Suficiente”, também dá.
- O quê?
- Oh pai, já viu se os espertinhos da minha turma me começam a chamar bombom?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:24 PM | Comentários (10)

dezembro 11, 2005

De onde apareceu este tipo?

Chego ainda estremunhado à casa de banho e dou de caras com um tipo. Meço-o: é novo, magro e relativamente baixo, (não terá mais de 1,65m), e quase imóvel em frente ao espelho  concentra-se a rapar o bigode. Ainda perplexo, dou-lhe assim tempo para reparar na minha presença, e surpreendentemente acabo por receber dele uma simpática saudação. Afinal, a voz não me é estranha, e o cumprimento até vagamente familiar. Já recomposto, lá retribuo:

- Olá filho, bom dia.

Caramba!, ainda dizem que estas coisas do crescer não são abruptas. Como se a descoberta de que subitamente deixei de os poder anichar nos joelhos, e que agora me vejo compelido a dividir com eles o meu território tribal, fosse coisa que pudesse ser suavizada.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:05 PM | Comentários (9)

novembro 29, 2005

Retratos

É doce, bonita, dá mimos a nós todos e diz que o mimo não estraga, agora anda sempre cheia de frio, cozinha coisas óptimas mas obriga-nos a comer salada, é muito alegre, outras vezes não e diz que quer ficar sossegada, tem uns olhos que ficam pequeninos e muito brilhantes quando às vezes olha para nós, e uma boca grande que dá uns beijos muito macios, às vezes irrita-se mas depois esquece num instante as coisas que a chatearam, deixa-nos fazer mais coisas que o pai, e às vezes esquece-se do que a gente tinha para fazer e nós podemos brincar mais um bocado, quando vai ter com o pai e ele está a escrever no computador ficam lá os dois a rirem-se das coisas que ele escreveu e olham muitas vezes para nós e entre eles e voltam a olhar para nós e nós nunca percebemos porquê, quando precisamos de pedir alguma coisa é a ela que pedimos porque é mais fácil, quando estamos cansados enroscamo-nos nela e ela diz que somos as melhores coisas do mundo, e o pai abana a cabeça com ar chateado mas achamos que deve ser só a brincar

Ele ri menos que a mãe, e tem mais rugas, gosta mais de andar na rua e nós gostamos de ir com ele e a mãe fica a dizer porque azar tem uma casa só de homens, todos gostamos de rugby mas ele já não joga porque diz que está velho e no outro dia quando jogou connosco ficou a coxear imensos dias, nós ainda achamos o pai muito forte embora não seja muito grande, faz palhaçadas e diz coisas com graça quando está mais descontraído, mas quase nunca chega descontraído a casa, só depois, às vezes, o Francisco está tramado porque é ele que o ajuda nos estudos e é muito severo, e é o pior de nós a jogar o Fifa 2005 e depois fica irritado quando perde e diz que não precisamos andar a fazer risinhos esganiçados lá porque ganhámos, é bom para nos tirar duvidas, e tem jeito para arranjar coisas em casa mas está sempre a dizer que nunca tem tempo, arranja só mais ou menos, as únicas coisas que sabe cozinhar bem é o esparguete maluco e os cachorros ao domingo, a mãe diz que ele está amuado quando passa muito tempo sem dizer quase nada, mas depois quando começa a falar outra vez ri-se imenso e diz que gosta muito de nós, quando ele diz que jogámos bem ficamos mais orgulhosos do que se for a mãe a dizer, e está sempre a dizer-nos para lavarmos bem a pilinha, também gostamos dele mas ralha mais do que a mãe

Olha Eufigénia, ficaria muito mal se eu propusesse que trocássemos de fato, digamos, aí até ao Natal? Depois eu voltava a vestir o mau feitio e essa minha mania da disciplina e devolvia-te a indulgência, o sorriso e os mimos para tu usares outra vez. Um mesinho, que tal? Prometo não estragar

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:08 PM | Comentários (9)

O teste de inglês: Insuficiente, ele. Eu, medíocre.

Ontem desviava os olhos de mim. ‘Que se passa Francisco? ’ E ele claramente consternado a tentar explicar-se pelo silêncio. ‘Já recebeste o teste, foi isso? ’ e poupando-lhe os dizeres ‘então vai lá buscá-lo, se fazes favor’. Voltou com ele tremendo-lhe na mão, e a deixá-lo pela ponta, como quem daí escorre vergonhas. No mesmo instante em que lhe tomo o teste, subitamente, lança-se num choro. “Insuficiente mais”. A primeira negativa dele, creio. E logo a inglês, que ele julgava saber, que eu sei que ele sabia, eu que até lhe testemunhei o empenho, quase orgulho meu ao vê-lo entregar-se à leitura de um livro escrito em inglês, ‘para treinar’ dizia então brioso. Haveria ali mais do que o desagrado pela negativa, provavelmente porque descobrira assim o amargo sabor do insucesso, essa desconfortável sensação de incapacidade que lhe esparramou no orgulho um insuficiente em troca do esforço em que se tinha empreendido. E eu já acolhendo-o nessa desilusão, que mais desagrados desses haveria de ter, e que não era caso para estar assim, que haveríamos de recuperar aquela nota, e que eu nunca o repreenderia pois sabia que se tinha preparado e …e … a forma como ainda se encostava à parede, minguando-se, e como olhava de viés e media a distância de mim. Não, não era apenas a infelicidade e a sensação de injustiça que o perturbavam. Havia também o temor - era eu, a minha severidade, o que ele ali mais receava.

Ontem, logo no mesmo dia, tivemos os dois uma negativa.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:42 AM | Comentários (2)

novembro 25, 2005

o acordar que alugo todos os dias

Quando me sentei no carro fiquei a vê-lo com aquele ar enrolado a tentar vencer desastradamente o fecho da porta. Lá entrou, já eu vociferava do atraso. Lânguido, remeloso, o cabelo pouco importado com os penachos despenteados da cama, o olhar sem enganar o sono que ainda trazia dormindo, e a ouvir-me como se fosse mais um pequeno incidente, como aquele do fecho da porta que estava perro, mas que se haveria de abrir, que assim me haveria de calar. Há nele um sono que nunca chega a despegar-se completamente, um sono cheio de coisas suas que por vezes se denunciam com repentes que desvendam um fabuloso mundo de humor e imaginação. E eu já de boca aberta outra vez para o confrontar com o que se tinha esquecido de trazer, com o atraso com que iríamos chegar, com as recomendações que nunca acatava, já ali desregulado, a antecipar-me, a preparar-me fera para o resto do dia. E depois tudo isso a misturar-se já com o comentário ao projecto lá da empresa que não me apetecia preparar, e eu já enervado, e mais a falta de açúcar em casa, as compras em atraso, as dores na coluna, a consulta que me esqueci de marcar, o carro que agora não quer pegar, e com todas as outras coisas inadiáveis que em cinco minutos, ao princípio da manhã, listo para me comprometer com todo o resto do dia. Eu acordo assim, cheio de atraso.

Já ele não, (ele tem a arte mágica de não deixar desenrolar completamente os sonhos que o invadem de noite), e a olhar-me agora, e a interrogar-me de porquê assim, essas já interrupções, porquê tanto logo. E manso, a levar-me a mergulhar naquele seu ar de quem sabe acordar com o que a noite ainda lhe dá, de quem sabe trazer a noite para o acordar. Eu quase ainda a resistir ao que fala, ao como fala, essa maneira com que entrepõe o dia com a noite, a realidade com a magia, os deveres com o humor, o que tem de ser com o que é. E já não, eu agora já só ouvinte desse essencial de si onde nunca chove.

É de manhã, ali metido no trânsito entre aqueles dez minutos a caminho da escola, quando tenho as maiores expectativas do dia - enquanto os dois saboreamos o seu acordar que se vai revelando com estrelinhas – (n)essas coisas com que salpica a conversa entre dois semáforos, antes do resto do nosso dia das coisas importantes. Isto claro se o meu acordar se deixar amansar pelos sonhos (do) dele, que os meus já estarão esquecidos no dia que vem.

A manhã que não se troca por todas as coisas importantes e atrasadas com que se acorda para o resto do dia - são assim os filhos, todos (?), talvez.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:30 PM | Comentários (4)

novembro 17, 2005

Ai que saudades que eu já tinha dos jantares em família

- E a ciências, o que estás a dar?
- Oh, o cromo do Aristóteles
- O cromo? Oh pá tu não digas isso …
- Mas ele não acerta uma. Primeiro foi a história geocêntrica e agora a teoria da geração espontânea, só porque viu umas larvas a saírem da carne que ali tinha deixado
- Mas Francisco, na altura …
- Oh pai, na altura já a terra era redonda e a carne apodrecia

- Bem … deixa é melhor mudarmos de assunto: Qual foi a origem do homo sapiens sapiens?
- O mamute
- O mamute??? Mas tu hoje estás mesmo parvo!
- Oh pai, se não fosse o mamute, não havia peles nem comida na época glaciar e o homem de Neanthertal estava feito, e depois não teria havido nem homo sapiens sapiens nem sem ser sapiens, nem homem nenhum.

(adoro quando o “oh pai” antecede o disparate)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:42 PM | Comentários (4)

outubro 20, 2005

E para acabar o dia sem aulas deste blogue… ufff … último episódio

A adrenalina do escrever num blogue

- Oh pai?
- Ainda acordado Diogo! Que é?
- Acha que as suas amigas lá do blogue gostaram da minha lengalenga?
- Não sei. Amanhã pergunto.
- Oh pai?!
- Diogo vê se dormes! Já é tardíssimo.
- ‘Tá bem, mas oh pai?
- Que ééé ?
- Acha que eu vou sair no jornal?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:58 PM | Comentários (5)

Lenga-lenga de uma tarde sem escola

lengalenga.jpg


Ficou linda Diogo, as duas últimas frases então, ui ui
e vês, a tarde passou-se num instante ! smyle.jpg

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:35 PM | Comentários (5)

Dormir(es) como uma pedra

- Então meu querido, ainda dói a perna?
- Nãooo … estou com sono
- Bem sei, mas são horas de levantar. Então … mas do trambolhão do beliche … já não sente nada?
- Que trambolhão pai? Eu não caí?
- Mas não te lembras? Ontem à noite, caíste daí de cima … um estardalhaço, um berreiro, puseste a casa toda em alvoroço?
- Oh, O pai está a gozar comigo

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E este é dos dois o que tem o sono mais frágil. Uma vez, aí há uns 4 anos, acordámos com um enorme estrondo também, como ontem. Não foi imediato perceber de onde tinha vindo esse barulho, aliás porque nada mais se sucedeu. Quando passámos pelo quarto dos miúdos tudo nos pareceu calmo, menos … faltava o Francisco; a cama de cima do beliche estava vazia! A estranheza e depois algum pânico, acabou por dar lugar à nossa estupefacção: o miúdo encontrava-se enrolado no chão por baixo do beliche, num sono profundo. Vá lá, pelo menos ainda se tinha feito deslizar aí uns 50 cm da zona de embate da queda.

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Eu nunca fui assim como eles. Era até bem mais sensível ao despertar; por exemplo, ao contrário deles, conseguia ouvir o despertador. Só que depois dos meus insistentes: Está lá? Estouuu! Está lááa??, e porque ninguém respondia do outro lado, acabava por largar o sapato e enroscava-me de novo no travesseiro. Mas isto são maledicências lá de casa dos meus pais, coisa que não posso asseverar pois desconheço que alguma vez tenha feito tais figuras.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:25 AM | Comentários (15)

outubro 12, 2005

"Allô Telepizza boa noite queira fazer o seu pedido"

Os putos põem a mesa, a mãe prepara o jantar e eu ponho a loiça na máquina. Assim é que é, e é assim que sempre foi. Cada um cumprindo com as funções do seu posto de trabalho e dedicado ao seu papel no seio desta organização doméstica eficaz, que resulta de pragmáticos ‘improvements’ ao longo dos anos.

Então, o que raio me terá hoje passado pela cabeça para querer trocar estes papéis caramba?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:00 PM | Comentários (4)

outubro 11, 2005

O que está para além do: "Quando mija um português mijam logo dois ou três" ?

Vejo-os aos três (pairou por cá um amigo do Francisco, este fim de semana) na sala da televisão em amena cavaqueira enquanto jogam ‘playstation’. Falam, falam, falam. A discussão está ao rubro quando dois deles argumentam sobre os dotes do Van Nistelroy e o seu papel fundamental no Manchester, equipa que o Diogo escolheu e que por essa razão lhe terá trazido vantagem. Apesar da velocidade supersónica com que saltam de tema para tema, aqui da outra sala consigo acompanhar-lhes as notas de fundo (o facto de poder auscultar a conversa deles e de esta ser para mim minimamente inteligível é um aspecto fulcral para tudo o que se seguiu).

Em determinada altura reparo que um de cada vez se vai levantando, sem que a algaraviada se interrompa. É aí que noto (tenho a certeza disso) que em momento algum se interpôs na acelerada conversa, uma expressão, gesto, ou insinuação que fosse, que indiciasse a intenção de subitamente se erguerem. Pensei na altura que isso não seria assim tão estranho, que eram reacções maquinais, réplicas de gestos que podem bem acontecer quando as pessoas estão suficientemente absorvidas em alguma coisa – e os miúdos quando conversam estão absolutamente absorvidos – as recorrentes interjeições do “tá bem pai já vou” a que se sucede “mas eu nem ouvi chamarem-me” são bem prova disso. Ainda assim ficou-me uma nota de curiosidade, o bastante para passar a segui-los com mais atenção.

Vejo-os então encaminharem-se na direcção da sala em que me encontro sem que tivessem interrompido a algazarra que agora versa o jogo da selecção nacional e a caricatura do Ricardo vestido de frango. Aqui a minha surpresa torna-se maior. Posso garantir que não proferiram uma única palavra entre eles que os pudesse trazer ao subentendimento da razão, do destino, que seguem agora. E lá vão, já passados por mim, a dobrar a esquina do corredor, quase se atropelando uns aos outros. Não resisto e sigo-os por ali fora, sem os perder de vista.

Lá no fundo tudo continua a acontecer da mesma forma maquinal, cúmplice até, numa tal harmonia com que repartem os pequenos gestos que têm de fazer que, dir-se-ia, seguem um guião. Tudo se passa num ápice, como se fosse um único e fluido movimento, como se os três fossem parte da mesma criatura: o Francisco empurra a porta da casa de banho, o Diogo intromete-se primeiro e levanta a tampa da sanita, e já o amigo se desembrulha com a braguilha. Nada, mas absolutamente nada foi trocado entre eles desde há uns minutos atrás, quando ainda estavam agarrados aos controlos do jogo até agora, momento em que atónito os vejo, ao mesmo tempo, numa mesma vontade que contudo nunca precisaram que fosse declarada entre si. Na minha frente lá os vejo gesticular por entre palavras enquanto distraidamente as suas fiadas de urina se cruzam e deambulam em diagonais douradas que tilintam na zona côncava da retrete.

Entretanto interpõe-se no meu raio de visão a Eufigénia que os apanha em pleno disparate: “Francamente mas que ideia é essa de virem os três ao mesmo tempo à casa de banho? Não se está logo a ver que isso vai dar asneira ?! E depois há-de vir alguém limpar não é?”, e virando-se para mim: “ E tu Eufigénio, aí especado, não podias ter repreendido os miúdos antes do disparate acontecer”. Talvez porque eu nem insinuasse articular palavra, e porque estava obviamente demasiado perplexo para intervir, voltou-se de novo para eles, e insistia “Mas que ideia foi essa de virem logo os três, expliquem-me?”.

E continuo observando aquela misteriosa simbiose de gestos que se desenvolve de forma tão implícita entre eles. Ainda agora, apanhados em flagrante reagem como se fossem um só corpo, ou melhor, como se fossem três corpos controlados por um mesmo instinto, uma mesma vontade: Enquanto o Francisco descarrega o autoclismo e o amigo tenta compor o “disparate” fechando a tampa da retrete, já o Diogo os justifica aos três: “Oh mãe, apeteceu-nos fazer xixi!”. E a mãe já irritada. E eu absorto sem conseguir explicar-lhe o extraordinário da situação. Pois já ela incrédula, voltando a sua exaltação para mim, que “pareço um miúdo, um deles, que ás vezes não ajudo nada”. E já aí os desafiava de novo a explicarem-me como é que tinham combinado chegar até ali, assim tão subitamente, e ao mesmo tempo, e sem sequer terem conversado entre eles. Obtive um simples encolher de ombros, um nada mais a acrescentar a algo que para eles era absolutamente natural, e a mesma resposta desinteressada de quem não percebeu sequer o alcance da minha pergunta: “então, apeteceu-nos fazer xixi”.

A mãe cada vez mais irritada comigo, e com razão que assim não estava a ajudar nada, e eu querendo prestar-lhe atenção, a querer redimir-me mas incapaz de tal. Na minha cabeça continuava a ribombar a mesma pergunta: “Porque idade é que os homens perderão esta tão admirável capacidade de agirem como um todo?”, e sem resposta, a lamentar a perda desta qualidade do inconsciente dos homens, algures na sua adultidade, e a pensar em como tão diferente poderia ser o mundo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:50 PM | Comentários (2)

outubro 10, 2005

Vá lá, podia ter sido um eucalipto !

Ainda agora ao jantar, nas raspas do dia:

- Então e aquele menino com quem dividias a carteira ?
- O Jorge? Que tem o Jorge?
- Ainda te distrai muito ou já se acalmou?
- Não, já nem me chateia. O Professor mudou a flor da sala.
- A Flor? Mas o que tem a flor a ver com a conversa?
- Então … mudámos todos.
- Já não percebo nada. Então não foi só ela?
- Não, foi a flor toda.
- A Flor?

- Diogo! Planta. Tu queres é dizer a planta!
- Ai é?

(agora ainda rio, mas começo a ficar preocupado com tanta trapalhice)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:19 PM | Comentários (6)

outubro 06, 2005

Vai tudo muito depressa …

Já na semana passada se queixou que as chuteiras não lhe serviam. E quando o vou buscar ao treino e o vejo a treinar com ténis volto a recordar-me disso. Há torneio de rugby no dia seguinte e por isso no fim do treino logo nos dirigimos à loja

- Não sei bem, talvez um 40
Ela lança um olhar avaliador para os pés dele e de imediato me corrige:
- Estes pais! Então acha que com esta pata ele calça 40?
- Mas certamente que sim
– disse-lhe – olhe que ele só tem 12 anos!
- Olhe, vá por mim, menos de 42 não é – e já com o Francisco se aliando, corroborando com a cabeça.
- Oh que exagero! E tu Francisco tem calma que tens muito tempo ainda para crescer. Faça o favor de me dar um 41 para ele experimentar.
- Se insiste, mas olhe que menos de 42 não é.
E depois ajudando-o a calçar, e já incrédulo empurrando-lhe a perna, forçando a entrada do pé onde visivelmente não cabia.
- Bem – disse eu contrariado – vamos então experimentar o 42.
E cada vez mais acossado com o sorriso zombeteiro dela:
- Mas olhe que isso deve ser um erro da fábrica, o miúdo só tem 12 anos.
- Pai, olhe que …
- Espera Francisco, não vês que eu estou a falar com a senhora?
- Mas pai …
E eu sem o ouvir, já pegado de razões com a minha antagonista neste juízo do calçado.
- Mas como é possível que ele calce tanto como eu se nem tem perto da minha altura. Aí há erro certamente.
E ela acentuava o sorriso trocista, depois de nos comparar alturas. Entretanto ele insistia:
- Oh pai.
- Sim? Pronto, diz lá.
- Não me servem.
- Não te servem o quê?
- As botas.
- Ah, vê que lhe estão grandes?!
E antes que ela pudesse contra-argumentar, ele de novo.
- Não é isso.
- Então – e premia-lhe os dedos por sob a biqueira - magoam-te de lado?
- Não … Apertam-me à frente.
- Ora – e continuava a palpar já irritadamente o dedo na biqueira – mas está quase bom!
Depois já mais sereno, e temendo que esta minha teimosia me viesse a sair cara, lá fui continuando a ceder, neste caso, a subir números:
- Eu não lhe disse que não era o 42? Dê-lhe por favor o 43.
E ela contida de tanto rir, a seguir-me as pisadas, literalmente, aproveitando a deixa de ironia que eu próprio havia usado:
- Mas tem a certeza? Olhe que ele só tem 12 anos.

… Engraçadinha. E ele logo a desembravecer-me lançando o braço por cima do meu ombro. E lá seguimos, ele de chuteiras novas e eu já mais resignado. Mas ainda estranho um pouco como foi ele capaz de me pôr o braço por cima do ombro. Estaria em bicos de pés certamente !!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:01 PM | Comentários (10)

setembro 30, 2005

Chego ao fim de um mês

Como cresceu ! Que bem cresceu! Vai ser certamente muito maior que eu
… e em altura também.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:08 AM | Comentários (3)

agosto 08, 2005

Hoje ao pequeno-almoço, para quem quisesse ler

blackboard2.GIF

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:06 AM | Comentários (8)

agosto 05, 2005

Aos amuados até o quadro dos recados serve

blackboard1.GIF Na cozinha, mesmo em frente da mesa onde resolvemos algumas refeições, pintei seis azulejos com uma tinta preta especial. Supostamente isso serviria para um quadro de ‘memos’, dessas coisas que lembram das faltas do frigorífico, recados, etc. A verdade é que aquilo tem sido usado para ‘postar’. O último que por lá deixei dizia assim “ Eu, nós e o mundo”. Nem sei bem o que isso queria dizer, mas acho que era para espicaçar os miúdos em conversas sobre a nossa individualidade e os círculos concêntricos que em nós formam os conceitos de comunidade.

Anteontem aborreci-me seriamente com o Francisco e a coisa agravou-se a ponto de determinar certas regras que agora ele deveria cumprir. Ficou arreliadíssimo, mas não recalcitrou o que quer que fosse. Nisso sai a mim, amua simplesmente. Quando ontem nos sentámos à mesa o que lá (r)estava dizia assim: “ (apagado), nós e o mundo”. Percebi-lhe a raiva no “eu” que se tinha embaciado. Respeitei-lhe o gesto. Sem pretender confrontá-lo directamente, insinuei apenas o quadro preto. Ele acenou que sim com a cabeça, subtil mas explicitamente.

Parece-me bem que aquele quadro, mais do que cumprir fins decorativos ou como instrumento da logística da cozinha, irá mas é mostrar-se particularmente útil para servir os nossos complexos e acabrunhados códigos comunicacionais. Quem sabe não será a última reserva, nos momentos mais críticos desta casa de amuados.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:26 PM | Comentários (9)

agosto 04, 2005

II - o Toldo

A COR E A LUZ– os segredos dos sentidos

Uma produção
toldo logo.JPG

É notável o resultado da eleição da cor na ambiência recriada neste ensombro. O níveo e espesso branco que se escolheu para a coloração das telas, assim como a quadratura destas, contribui para uma maior identificação com as velas das nobres naus portuguesas que dão o mote inspirador à obra, ao mesmo tempo que trabalha de forma admirável a luminosidade assim filtrada.

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O sol que é deixado transpirar de forma delicada por esta cobertura, envolve-nos numa tonalidade sépia que inspira um ambiente clássico e repousante. Esta suave luminescência é reforçada pelos tons pastéis da madeira utilizada pelo “deck”, resultando da mesma um ambiente acolhedor, fresco e elegante, que se espraia ao longo de toda a organização do espaço, e nos convida numa sedutora viagem pelos sentidos.


(Outra vez o telemóvel? Mas as coisas nesta casa parece que têm asas!? Porque raio haveria ele agora de ir parar em cima da mesa alguém me diz? Olha, agora vai mesmo assim … mas que chatice)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:50 PM | Comentários (4)

I- Toldo

AS TELAS E O CORDAME – uma elegante alusão náutica

Uma produção
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Todo o conjunto é uma explícita alusão às velas, e estas ao mar. A cava que se forma em cada uma das seis telas, inflada pelas brisas, brinda-nos com uma convexidade geometricamente suave e agradável, e que inspira o visitante da sua sombra a zarpar em evasivas navegações. Essa alusão náutica está presente em toda a obra, nas ilhózes, nas entreforras, e por fim no cordame que é intencionalmente deixado cair em pontas, das uniões onde opera.

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Todos os pormenores ostentam uma clara inspiração vélica. Esta evidente associação marítima é ainda mais reforçada pelo movimento ondulado que cada uma das telas insinua sob o efeito das erráticas refregas de vento que as varrem, acentuando a fantasia dos mares, e convidando a agradáveis momentos sabáticos aos quais nem o mais prosaico convidado resistirá.

(Mas quem é que deixou a merda do telemóvel em cima do muro? Ãh? … quero lá saber se ainda estamos “no ar”, o que eu sei é que ando aqui a esforçar-me para ver se vendo aquela gaita e só vejo gente à minha volta a atrapalhar-me! Assim não posso mostrar a outra foto que estava bem melhor! E depois a canícula acaba-se e lá se vai o negócio!!)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:04 PM | Comentários (7)

Porque hoje estão 40º C ...

é talvez a altura própria para vos apresentar, e em exclusivo toldo boneco.JPG

Pois estará certamente o leitor mais assíduo lembrado de quando aqui se projectou a antepara para o meu pátio, projecto esse que veio aliás a ser enriquecido com valiosos contributos para a sua concepção, e que resultou no espaço harmonioso e funcional que aqui foi esboçado.

Cumprida a obra, (da qual presentemente o autor desfruta orgulhosamente), é altura de vos apresentar a mesma, o que faremos espaçadamente ao longo do dia (e sempre que a l(ab)uta deste vosso apresentador se puder ver interrompida). Para além das incontornáveis imagens que aqui serão disponibilizadas, contamos ainda poder abordar, (com despretensiosas e singelas palavras), alguns aspectos da sua natureza conceptual.

No fecho desta prefação, não podemos omitir os nossos sinceros agradecimentos aos cunhados e comentadores que deram o seu valioso préstimo à obra, e sem os quais estaríamos agora a tostar aqui neste árido e inóspito lugar.

patio_reduz_2.JPG

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:45 AM | Comentários (7)

julho 07, 2005

Era só para mandar saudades

- Allô meu querido, está a divertir-se?
- {qshhrsshhh»«iahh&%$"nãoéatuavez&%/pimba#}
- Diogo?
- Sim? Ah olá pai. Estava a brincar com as primas.
- Oh pai, já viu que eu já subi para um ‘Bom’ a Português?
- Pois, bom esforço, mas é preciso continuar.
- Olha, tens lido como tinhas prometido?
- Tenho, tenho, já vou na página 36 de um livro grande do JM
- Boa, e que livro estás a ler?
- Hummm, não me lembro do nome, acho que é do luki luca
- De quem? Mas isso é banda desenhada !!
- Pois é, mas tem legendas. É bem giro.
- Mas Diogo …
- Oh Pai, a tia está a chamar, posso ir?
- Mas …
[Clic]

(Era só para dizer que já estava cheio de saudades, mas esta estúpida mania das recomendações e deveres, como se ele tivesse de pagar a alegria que está a ter, tirou-me o tempo para o dizer)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:18 PM | Comentários (3)

junho 30, 2005

Porque rangem mais as portas e se fundem as lâmpadas quando os miúdos estão de férias

Finalmente vamos ter uma semana como convém. Ai abençoada família, e vivam os primos, e as tias, e os cunhados, e todos os que nos levam tanto reboliço, os dois à uma. Voltaremos a ter dias enormes só para nós, para fazer o que nos der na veneta, sem cozinha a horas certas, sem banhos e esfregonas, sem oh mãe e pai olhe ele, que isto sim é que são verdadeiras férias. Vai sobrar para tudo nestes 3 ou 4 dias.

Mas o pior serão os outros dias, os que ainda faltarão depois, quando os putos não estiverem ‘mesmo’. E a casa parada, os livros sem desembrulharem o enredo, a comida insonsa, as chatas das portas que agora deram para ranger, o esquentador que agora se apaga por tudo e por nada, aqueles tipos lá fora a fazerem um chinfrim que hoje parece mais alto que sempre, assim, todas as coisinhas e questiúnculas do mundo ali bem juntinhas, a virem uma de cada vez, a encherem tempo que já é demais. E os putos sem chegarem, para virem com tudo, que é tanto o que são que não sobram buracos no dia para estas mesquinhices.

E com tanta tecnologia, e essas coisas todas do virtual, com tudo isso, e ainda ninguém arranjou solução para eles estarem e não estarem? Clic, agora sim, clic, agora quero descansar, clic, agora tenho saudades, clic, agora não que vamos namorar. Clic, clic, clic, ai que já os perdi. Talvez não seja boa ideia, talvez seja melhor deixar estar tudo assim, a vozearia, as fitas, as risadas, o oh pai oh mãe, e nós apenas a desejar poder folgar, assim, a querer e não querer. É óptimo ficarmos só os dois, mas só para feriado dos outros dias - esses dias de algazarra que nos enchem tanto a vida, e que nos fazem querer as vezes em que ficamos só os dois.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:01 AM | Comentários (6)

junho 29, 2005

O "senhor da barriga cheia"

(Deixemos a marinar lá no fundo do blogue o exercício da fama, e mude-se o assunto que a minha modéstia já não suporta tanto)

obeso_N.jpg Lá estou eu a rever coisas passadas naquilo que os outros escrevem. Aqui junto as de ontem a hoje por culpa de um episódio que a Mi nos confidencia. Deixa estar assim, não a corrijas já Mi, vais ver que isso ainda vai ser de grande utilidade. E isto a propósito de …

A outra casa onde morávamos era pequena e a vontade da cozinha nem sempre muita, por isso, com alguma frequência, recorríamos à tasca em frente para remediar jantares. Acontece que nessa tasca servia um homem extraordinariamente gordo, um batelão com dois rodízios nos pés, quase já escondidos pelas franjas de gordura que lhe caíam dos tornozelos. A familiaridade foi-se introduzindo com tanta frequência que fazíamos do estabelecimento e o tratamento foi-se informalizando entre nós, pelo que os chamamentos saíam cada vez mais espontaneamente. Nem o Diogo escapou a esse ambiente de proximidade, e de cada vez que queria captar a atenção do obeso Oscar, olhava-lhe para a camisa esticada, cheia de nódoas e botões rebentados, e sem mais nada que lhe ocorresse, por falta do nome esquecido, solicitava-lhe algo tratando-o por “senhor gordo”. Os reparos não se faziam esperar que logo nós, persistentemente, o corrigíamos sobre o tratamento menos próprio, mas aparentemente sem efeito.

Certo é que um dia, por excepcional acaso, enquanto chamava a atenção do lento mas solícito Oscar com o habitual “Senhor gord …” se lembrou disso, a tempo de se interromper. Tendo presente as já amontoadas admoestações sobre o tipo de tratamento, mas não se recordando do nome dele, lá improvisou uma mais ‘educada’ interpelação, e disparou um “Senhor … de barriga cheia …”. Claro que o homem ficou inconsolável, que gordos há muitos, e nesse tratamento há até carinho na voz de uma criança, mas assim tratado, era demasiado sincero e retratista, quase lhe apontando uma qualquer enfermidade terá ele ajuizado. Mas enfim, salvou-se a meu ver o esforço da educação.

É grato ver os filhos a crescerem educados, e em cada um destes incidentes (mesmo que desajeitados) do seu crescimento vinca-se mais uma etapa e sobra-nos orgulho. Porém, há algo de útil que se perde nesses momentos. Que bem sabemos (deixemo-nos de falsas inocências) que a boca de uma criança pode ser uma eficaz arma de arremesso, e se convém tratar como inconvenientes as coisas que por vezes deles saem, mostrar até alguma lamentação, outras há que nos deixam sorrisos malandros que só a custo disfarçamos, ali tão sincera e directamente a ficar dito aquilo que tivemos de calar.

E isto vem a propósito de ainda agora, por exemplo, me apetecer ter dito ao meu chefe que aquela gravata que tão airosamente se suspende do seu colarinho imaculado, mais parece um ‘babygrow’ com lantejoulas brilhantes (que antes estivesse bolsado), e que isso assim dificilmente irá prender a atenção de alguém que não seja para o ofuscante penduricalho. Mas falta-me cá o Diogo, não o de hoje, que esse se vai fazendo educado, o outro, mais sincero, antes de eu o malbaratar com lições de educação.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:15 PM | Comentários (2)

junho 15, 2005

O estandarte porta-francisco

Ontem, por entre a reunião de pais dos escuteiros, pergunta-nos inusitadamente a chefe Susana:
- Então, e o Francisco já descansou?

Entreolhámo-nos os dois. Coube-me a mim solicitar explicações que por detrás havia ali insinuação a mais:
- Como assim?

E ela já antevendo reacções, procurando acentuar por isso um ar sério:
- É que na última missa adormeceu tão profundamente que o padre Manuel teve de a interromper porque ele tinha o estandarte a inclinar-se para cima do altar!

E tanta reprovação aqui, e tão miserável falta de humor. Uma cena que mesmo só pensada nos faz ir às lágrimas e ela ainda a sublinhar com o tom o desconcerto da situação. E quanto mais nos olhava, mais a cena se nos tornava hilariante. E pelo meio eu já a pensar que se o miúdo nem para porta-moedas se confia como poderia alguém ter tido a ideia peregrina de o querer como porta-estandarte durante mais de uma hora.

Mas cerro os lábios, estoicamente, e à falta da pretendida promessa de uma repreensão, lá saiu a escusa que se arranjou:
- Pois coitado, tem andado em torneio de rugby sabe?! Qu’aquilo mói bastante. E mais a escola … esta fase sabe, dos testes …

E ela anuindo, antecipando-se, que já sabia, e confirmando:
- Pois, foi o que ele me disse.

Tal pai, tal filho. Mais pelas desculpas, que no resto … bem, eu nunca consegui dormir em pé.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:15 AM | Comentários (8)

junho 14, 2005

A piscina torta

Feriados, nós no Algarve. A casa emprestada para baptismo de gente próxima, enfim, nós visitas em casa própria. De resto tudo igual, a mesma gente - talvez uns tantos mais - os miúdos, o sol e a piscina. A meio do almoço, coisa descontraída já se vê, alguém contou 21 crianças a banhos, e havia até quem ainda se admirasse da água turva calcule-se. Eu não, que eu já por ali andava do lado da catraiada, como de costume, fugindo de conversas sérias.

Organizo um torneio, coisa rápida que já há quem chame para a mesa, se bem que estas ali mesmo ao lado sobre a relva, emoldurando a piscina. Um por um, a cada contagem decrescente, tentaria a maior distância nadada debaixo de água. Uma prova de fôlego portanto. Partem os mais velhos, mais convictos, a abrir caminho. Lá para o meio da disputa o recorde cifrava-se numa piscina e pouco mais de um quarto de comprimento, o que perfazia uma distância de 12,5 metros. Urros e gritaria, o quase mais velho de todos a fazer peito, a fingir indiferença. Nova chamada que o almoço espera, e eu negociando com os crescidos que se prometa deixar ter fim a coisa que depois se prossegue logo para o almoço, que pois claro, numa festa de baptizado é assim mesmo que deve ser.

É agora o Diogo quem se perfila. O de sempre, cheio de valentia e insegurança, vaidade e timidez, a vontade de se mostrar mas o pânico da vergonha, e já lhe vejo o lábio mordido. Sabe que tem quase todas as mesas, que entretanto se foi amortecendo o tema de conversa, distraídas na competição. E se o conheço isso é mais que suficiente para se levar ao limite. E lá segue, quase uma piscina. E vira, e segue para trás agora. Passa a marca anterior, subirá agora certamente, a colher os louros que tanto procurou. Mas não, continua. Esbarra na zona baixa com as crianças mais novas, aí decerto para se levantar, a fazer disso pretexto. Mas não, continuo a vê-lo esbracejar, a contornear os corpitos debaixo de água e seguir, uma e outra vez. E por fim o toque na borda. Duas piscinas inteiras debaixo de água, o recorde fulminado, os adultos fazendo por não lhe dar de graça a sua admiração, e ele ofegante, mais de vaidade é certo.

Mas eu faço parte deles, sou adulto mas estou do lado deles ali. Sou eu quem lhes valida os feitos, quem lhes diz como encher o peito e sustê-lo assim, e para quem eles olham depois do esforço procurando a aprovação. E neste caso também sou pai, e por ali vou gritando e esbracejando com o feito, depois mais calmo, envergonhado até, já a voltar para perto do decoro dos crescidos. Porque é festa pois claro, mas não qualquer uma, é baptizado, alguma família longínqua, alguma gente que mal conheço até, e de respeitosa idade. Disso tomo noção por fim e a miudagem a destroçar, como prometido, que a sobremesa aguarda, e a festa deve continuar como deve ser. Em magote barulhento como sempre lá partem a caminho dos comes, e o Diogo comprazido, vejo-o mesmo maior do que costuma ser, ali no meio, banqueteado de tanta admiração.

Mas ficam dois na borda da piscina, esperando o meu aval, ou mais que isso, que assista. Manifestam calados o direito que mais do que nunca lhes assiste, que agora há lugar de destaque a tomar, afinal, amuados pelo prémio precipitado, ofendidos até. Reconheço-lhes isso. Negoceio a partida, primeiro com as mesas de gente mais velha, que são só mais eles que faltam, depois já com eles, estabelecendo a ordem de partida. Sai o primeiro. No fim um gesto de solidarização, que para a próxima será melhor, e que foi quase uma piscina inteira. Ele fazendo-se acabrunhado, misturando-se rapidamente no meio dos outros, entre doces e salada de frutas, requerendo a normalidade outra vez.

Falta então o outro. Esguio, curvado sobre a borda da piscina de braços estendidos sobre a cabeça, assim se mantém sem nada dizer, aguardando que o olhe, que lhe diga que arranque. É o Francisco. E algo me diz que ali já vai mais do que o torneio, mais do que apenas a vez a que tem direito. É manso o Francisco, nada dessas coisas das vaidades, mas desta vez anda ali irmão mais velho. E parte, braços e pernas, tudo ali são membros enormes, mas esguios, sem tanta pujança, e isso vê-se quase logo ali no salto. Mas vai para continuar, quase uma piscina e não vai parar, isso mostra-nos o ritmo. Mas quase perto do virar de direcção, deriva. A trajectória faz então uma curva acentuada e a mão toca-lhe já não na borda do fundo mas na borda do lado, bem perto do canto, e aqui irremediavelmente enganado nas direcções. Assim quando se vira já não arranca para fazer face ao comprimento da piscina, mas sim à sua largura, esta por metade do outro.

Prevejo-o ser surpreendido pelo encurtamento da distância, e receio claro a cabeçada na borda que ele não supõe ali estar já. Circundo a piscina, a rir de antecipar a coisa e travo o movimento dele, a mão na sua cabeça a tempo de evitar um galo. Ele interrompe-se esbaforido. Esbraceja surpreendido a recuperar do fôlego e ainda a estranhar de onde se vê. Eu sem me conter, a rir despregadamente, lá lhe vou adiantando explicação. Por trás de mim ouvem-se mais risos. Meio recuperado, e com a respiração ainda entrecortada lá vai dizendo, rindo-se de si mesmo: “Eu logo vi. Bem me parecia que isto me estava a correr bem demais

O Diogo pode ter grandes pulmões, mas o irmão ganha-lhe aos pontos na elegância com que sai das embrulhadas e contrariedades que tanto produz - que às vezes, saber ser segundo, é melhor que ganhar. E fico a pensar que tanta asneirice, tanta trapalhada, tudo isso só pode ser para podermos apreciar aquele humor, que flui ainda mais depressa do que o irmão consegue nadar debaixo de água.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:59 AM | Comentários (14)

junho 07, 2005

Caseirices

Hoje já sei como vou levantar a moral ao fim do dia.

[E tanto post que deles sai ... é quase como ter dois blogues dentro da minha vida :) ]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:09 PM | Comentários (4)

Diferenças

Quem foi o melhor lá no jogo da festa do A.?
Um logo
- Fui eu!
E o outro sem deixar pousar
- Não foste nada.
- Então quem foi? Foste tu?
- Não, eu também fui dos piores. Foi o M.

Filhos do mesmo e egos tão diferentes

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:30 PM | Comentários (5)

junho 06, 2005

Olha, já é segunda-feira?

Eufigénia, deixei-te a carrinha sem gasóleo, é verdade, esqueci-me. Mas mesmo que a quisesse abastecer não podia, tu ficaste com a minha carteira na tua mala, lembras-te? E porque só te digo isto agora, e logo aqui, neste estendal? Porque estou sem telemóvel - esqueci-me dele em casa. Eu sei, aqui tão perto, ia lá, mas … também não encontro o raio da chave de casa.

O que fazes ao almoço? Olha se pudesses vinhas ter comigo, e se não fosse abuso pagavas-me o almoço. Ou até pagava eu, se me trouxesses a carteira. E depois deixavas-me ali em casa, só para me abrires a porta. Eu assim já trazia o telemóvel, agarrava nas minhas chaves e, no fim, atestava a carrinha. Que dizes?

Talvez a gente pudesse assim acabar de vez com o fim-de-semana, que isto de entrar de pijama pela segunda-feira adentro não está com nada.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:58 AM | Comentários (7)

junho 01, 2005

Eu com ar solene de garfo no ar

- Queria dizer-vos que a partir de amanhã não vou fumar mais.
- A sério?
- Sim, é a sério. É uma promessa.
- Então pai, e se fumar, tem de haver multa não é?
- Acho que sim, que sugeres Francisco?
- Se a gente vir o pai a fumar tem de nos dar um Euro.
- Bem , nem vai ser preciso. Mas se quiserem posso combinar isso convosco.
(...)
- Francisco, se o pai voltar a fumar 'bora comprar o Fifa 2005?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:54 AM | Comentários (21)

maio 30, 2005

O Pontapé ( II / II )

(A parte chata das histórias divididas em dois fascículos é que nos obrigamos a escrever a segunda parte de algo que apenas nos deu gozo ao princípio. E eu nunca mais aprendo)

… E lá fui revivendo a cena ao mesmo tempo em que ambos, entusiasmados, a contavam ao JM. Tudo se tinha passado por altura do Euro 2004. Vivia-se como todos pudemos testemunhar uma atmosfera incrível, empurrada pelo clima, pelas pessoas e por um estado de exaltação como não vi igual. Uma grande boa onda de que nós aproveitámos todos os bocadinhos. Durante esse período pegávamos todos os dias nas bicicletas, depois dos trabalhos e das escolas, e partíamos para a Expo. Lá chegados deambulávamos por entre as várias actividades, e palcos, e barraquinhas de lazer, deleitando-nos com toda aquela animação, e gente, e tão boa disposição. Daquela vez caminhávamos os quatro a pé, com as bicicletas a passearem-se encostadas às ancas, e assim cirandávamos por entre as várias “box” que se dispunham por baixo da pala do Pavilhão de Portugal. Já junto à doca, por onde saíamos, fincaram-se entusiasmados a apontar para um pequeno stand no qual se pretendia medir a velocidade de disparo de uma bola pontapeada pelos esforçados candidatos. A nossa trajectória saltitante sofreu daquela pulsão magnética e enviesou-se para aquela beira, com eles já no meio dos espectadores.

Lá, três jovens exibicionistas alternavam-se na marca dos pontapés e mantinham admirada com o estrondo dos chutos uma plateia muito considerável de espectadores. Havia ali pujança, juventude e sobranceria suficiente para intimidar qualquer outro candidato. Mas os miúdos insistiam, uma e duas vezes “Oh Pai, um chuto só, a ver quem ganha de nós”. Colocámo-nos impacientes por trás do último dos três animadores do momento. O estourar continuou à nossa frente. Subiam-se marcas. O melhor deles tinha acabado de conseguir um pontapé de 93 km/h. O record que se mantinha desde o primeiro dia marcava em destaque uns balísticos 124Km/h. Era marca quase inconcebível, depois de se ver os petardos que por ali se desferiam nem lhe chegar perto. Entretanto, aquele que tinha mais tiques de vedeta, de tronco nu, não inocente, fez questão, magnânimo, de nos reservar o lugar “deixa aí o homem jogar! É a vez deles”. Agradeci com a mesma ironia com que ele me tinha convidado ao desafio. A amadurecida gentileza de quem sabe que a minha concorrência eram ali os meus dois filhos, que já não tinha idade para andar a hastear músculos em plateias ocasionais e que “Cota hás-de ser tu, oh puto da treta”. Pensado assim, convidei o Diogo ao pontapé. Um e depois o outro, e logo ficaram os dois a argumentar que a seguir fariam melhor, que só mais uma vez, e eu a recolher, que havia que seguir caminho, e que não havia cá desculpas de futebolista. “Então agora é o pai”. Ainda declinei, mas depois, que muito bem, cá iria.

Dei por mim, enquanto ajeitava a bola na marca do pontapé, a sentir-me infantilmente acabrunhado. Como se de repente aquele pontapé passasse a ter importância. Notava nas minhas costas a expectativa que me seguia. Não por aquela dúzia de pessoas que acidentalmente estancaram ali, nem pelos três marialvas que se preparavam para fruir da situação. Na verdade, podia quase sentir a expectativa dos miúdos a antecipar, a comparar-me, já não com eles, mas com os outros antes, os do ribombar da bola, os dos vruummssss na rede. O confronto estava então lançado. Pelos miúdos? Por mim a pensar que pelos miúdos? Alguém de repente tinha subido a parada, e eu já intimidado com isso. E irritado comigo mesmo.

Por isso, quando avancei para tomar balanço sentia-me inquieto. Um ocasional pontapé por entre o nosso passeio tinha-se subitamente transformado em algo que não conseguia encarar com naturalidade, e isso modulava-me os movimentos. Mas concentrei-me o melhor que pude e disparei. Ainda no primeiro impulso do gesto senti logo que teria para uns meses, mas ainda assim o “ai” saiu no fôlego do movimento, e isso também não me impediu de pontapear a bola. O sapato escapou-se quase com tanta velocidade quanto a bola, ricocheteou no canto entre as duas paredes e caiu finalmente inerte no chão. No meio do espalhafato vi-me a suster a quase-queda com um braço, em posição descambada já, excessivamente agitada para um impulso que se deveria medir apenas pela brincadeira com os miúdos. A bola, não sei como, ainda assim desferiu uma trajectória suficientemente acertada para acabar embatendo do lado de dentro da baliza que distaria aí uns 10 metros.

Quando me voltei a endireitar, depois de calçar o sapato, procurei algo acabrunhado os miúdos, para lhes lançar um “vês pá, isto já não é para a minha idade”, ou algo assim que relativizasse tudo aquilo e ao mesmo tempo me devolvesse à minha condição de pai que apenas tinha ali ido fazer a vontade aos putos. Mas era impossível deixar de reparar no silêncio, e depois, na cara de cada um dos espectadores, no seu sorriso enigmático. A situação era algo constrangedora - tanto olhar, só por causa de um chuto desengonçado. Mas senti logo ali os braços do Diogo a abraçarem a minha cintura - um apertar vigoroso, a dizer que estava ali, lembro-me que gostei daquilo - e lá no dispusemos a seguir os dois. Mas logo ali fomos interrompidos por um dos três gabarolas que por ali estavam a entreter a plateia - perguntava-me ele se eu não iria assinar o livro de registos, e dizia-o com inusitada veneração. Ainda antes de lhe perguntar porquê olhei para o indicador electrónico: marcava 171Km/h !! Tinha simplesmente pulverizado o “record” anterior, e já se ouvia comentar num burburinho que aquele já ninguém bateria até ao fim do “Euro”.

Fui embora com o aperto orgulhoso do Diogo, cada vez a enlaçar-me mais a cintura e a ouvir um “nem o Roberto Carlos ! nem o Roberto Carlos ! ” do Francisco, extasiado, a antecipar baixinho as explicações lá na escola.

Há coisas que um homem deve ter a franqueza de agradecer à electrónica, sobretudo quando sabe que esta lhe terá concedido provavelmente a última grande oportunidade para brilhar (desportivamente) junto dos seus filhos. Erros? E não é de erros que nascem os mitos? E há melhor mito do que este de um pai para os seus filhos?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:55 PM | Comentários (14)

O Pontapé ( I / II )

Ontem ao almoço éramos mais um. O primo deles tinha acabado por ficar do dia anterior, como tantas vezes acontece, acabando por cá dormir. Ora, estando ali três dos intervenientes no evento da véspera, a conversação relatava ao Francisco - que não pudera ir - os incidentes e o desenvolvimento da jogatana. Neste correr da conversa queixava-se às tantas o JM de ter sido violentamente atingido nas costas por uma bola, no que o Diogo logo relativizou com - “ se tivesses levado com uma bolada do meu pai, ainda tinha sido pior ! ”. Nós que ali acompanhávamos aquela disputa de opiniões trocámos um olhar com que assinalámos mais um exagero deste meu fã. Mesmo sabendo-me pai-ídolo achei aquilo mais excessivo que o habitual. Por curiosidade e sem conseguir esconder nesse tom uma leve vaidade, acabei por perguntar descontraidamente porque era o meu pontapé assim tão temido. A conversa interrompeu-se abruptamente. O Francisco e o Diogo olhavam desconcertados para mim, esbugalhando os olhos, e quase não querendo acreditar que eu não soubesse de facto do que falavam: “Oh pai, não se lembra do pontapé ? ”.

De repente caí em mim. Irreflectidamente, quase tinha ali esbanjado um mérito que me deverá acompanhar toda a vida, e quem sabe, mesmo para além dela, um dia a ver-se contado já por eles aos meus netos. Emendei a tempo, que há coisas que um pai não pode desperdiçar assim, “ah o pontapé!? É verdade.” E no fim, não são tantas assim, e serão cada vez menos, as coisas que nos colocam aos olhos deles acima de todos os outros, e por isso há que saber cuidar das que temos. :)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:59 AM | Comentários (5)

maio 28, 2005

Arquivo #141 das trapalhices do Diogo

Hoje aprendi a pirâmide da igreja.
Primeiro é o papa,
depois os cardeais
e os bispos a seguir,
e depois …
depois …
os disconos

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:06 PM | Comentários (2)

maio 21, 2005

Aqui ninguém se atrapalha

- Então, ganharam?
- Mais ou menos.
- Então?
- Oh, perdemos um por 3-0, outro por 4-2 e o último demos 3-3 no Belém
- Deram?
- Sim. Eles levaram 3-3
- Ahh. Então não foi nada mau.
- Pois não …

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:35 PM | Comentários (6)

maio 19, 2005

Post-it (para quando chegar a casa)

post-it311.JPG

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:04 PM | Comentários (10)

maio 10, 2005

"pela ordem e pela paz"

Quase caçados pelo radar. Mais à frente a confirmação - uma fila ordenada junto à mesinha das autuações. A conversa voltou, agora para aí virada:

- Oh Pai, deve ser muito chato ser polícia.
- Então porquê?
- Já viu, sempre a ter de se pedir dinheiro aos outros.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:17 AM | Comentários (5)

maio 06, 2005

Há dias tramados (e as mães nem sempre ajudam)

Hoje mãe é um dos meus piores dias. Hoje a professora faltou e éramos para fazer a ficha de avaliação de língua portuguesa e para a semana teremos outros testes e depois chego a casa e a mãe olha para mim e manda-me tomar banho.”

(abusivamente transcrito das margens de um desenho deixado em cima da mesa de jantar)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:30 PM | Comentários (2)

maio 02, 2005

E eu ainda mais vaidoso que o Mourinho

Depois deste fim de semana ...

soalho1a.JPG

soalho2.JPG

... estou a pensar seriamente em abrir um negócio de recuperação de soalhos com o meu cunhado.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:23 AM | Comentários (8)

abril 16, 2005

E ficamos por aqui

O Francisco tem 12 anos. É um puto cool, com uma ironia muito especial. Não sei se isso será transmitido no diálogo que teve com o professor de ginástica, mas certo é que eu me rirei sempre que aqui o ler. E isso é quanto me basta:

- Xico !!!
- Oh professor, desculpe lá mas eu não sou Xico, sou Francisco.
- Ai és? Então como é que a tua mãe te chama?
- Biscoito :)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:56 AM | Comentários (8)

abril 15, 2005

Serões cansados

(A falar da sala do portátil para a sala da TV.)

- Que foi isto? …
- Acho que foi um gato
- Terão partido qualquer coisa?
- Esperemos que não
- Bem, não é nada que não se possa ver amanhã. Cair mais já não cai
- Pois
- E ladrões não devem ser
- Pois
- Deixa estar que eu quando for lavar os dentes vejo o que se passou
- Hum hum
- Mas, o pior é se foi o quadro que trouxemos hoje de casa da minha mãe
- Não deve ter sido
- Achas que não? Talvez não
- E também se foi agora não há nada a fazer
- Pois não
- Eu depois vejo isso
- Está bem

( e a conversa continua, intermitente, entre os bytes e as ondas hertezianas)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:58 PM | Comentários (4)

"ablogamento" excessivo

Estou a ficar apanhado. Agora até já escrevo dedicatórias em livros como se estivesse a escrever post’s para os meus filhos. Hoje na A1, na bomba da “Repsol”, comprei um Júlio Verne para o Francisco. Antes de lho dar escrevi:

“Para o Francisco
Conhecer um escritor
que tinha tanta imaginação
que inventava coisas
antes destas serem inventadas”

Mas o pior veio na resposta dele, como se verá:

Olhou-me com um ar meio desconfiado
- É tão bom como o Tom Sawyer que me emprestou no outro dia?
- É diferente. Mas vais gostar.

E como este miúdo tem sempre um “mas”
- Mas pai, posso pedir mais uma coisa?
- Humm?
- Depois de ler este o pai dá-me outro que eu …

Interrompi-o já assanhado do que previa
- Oh Francisco, não achas que dá para variar das varinhas mágicas do Harry Potter e dos dragõezinhos bons que agora estás a ler?
- É por isso mesmo pai, já estou farto de tanta fantasia.
- Humm ?
- Queria pedir que me comprasse a “Odisseia”
- A quê?
- Sabe, a história do Ulisses. Nós estamos a estudá-la na escola. Mas é a versão da ...
(depois digo que agora sinceramente não me lembro e o puto já está a dormir). Só que do que já conheço acho que aquilo não conta nem metade da história. Não posso ler a versão completa para adultos?

(Há alturas em que um homem devia era estar calado)

Publicado por Eufigénio Lagoa às