agosto 20, 2006
E por falar nisso de rios, outros rios, os mesmos escoares e correntezas
Deixa lá Zéze, a mim até já me perguntaram se o meu irmão mais novo era meu filho. São dislates de gente sem discernimento naturalmente. De qualquer forma um tipo acaba por resignar-se, não tanto com isso da idade, mas dessas constatações fartas de maldade que outros nos atiram cada vez mais frequentemente para a frente do espelho. E também, há coisas piores, … sei lá, … olha, avelhentar sem esse humor, ou sem esse dote da tua escrita, por exemplo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:27 PM
A minha vida é um rio ...
Uma B.leza ainda poder ir beber copos com amigos que conservo há 30 anos, e por lá encontrar gente que não via há 25 anos. Tanta idade, tantos anos, e copos, tudo isto aparenta um quadro irrefutavelmente geriátrico, bem sei, mas ainda assim, é bom ir para velho assim, que posso dizer mais.
[E amigo Ai, o nome que inventei aqui para mim é Eufigénio, que pode ser parecido mas nada tem a ver com o Efigénio que alguém já antes desta terá inventado. Se me hiperlincas, hiperlinca-me bem pá (as coisas que um tipo agora escreve!?) ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:32 PM
março 24, 2006
Para maiores de 40 anos
E para concluir conversa antiga aqui
(e agora só para a rapaziada: haverá aí alguém, com o mínimo de honestidade, na faixa dos .... vá lá, 38-45 anos, que seja capaz de afirmar que a rapariguita dos "pequenos vagabundos" não foi a sua primeira paixão platónica. ai, como é que ela se chamava mesmo?)
Já agora, depois de enxugar essa lagrimazita de comoção, sugiro que siga nesta viagem ao d'á muito tempo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:57 PM
março 16, 2006
Falta de mãozinhas é o que é
Caramba, agora que tenho aqui isto tudo engalanado com belas cores
... falta-me o tempo para nele escrever!
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Ai se fosse há 25 anos atrás
até para rolar folhas entre os dedos sobrava tempo
Olá malta, olhem que vcs estão quase na mesma! 
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:30 PM
janeiro 30, 2006
“Pedra Branca” – garimpeiros precisam-se !
(pequeno intróito apenas para sublinhar que este post só potenciará uma boa ingestão em pessoas com idade acima dos 35 anos)
Em tempos idos, talvez nas melhores caixas de comentários que tive oportunidade de frequentar, desenvolveu-se espontaneamente uma saudosista sessão de inventário das séries da nossa infância - memórias a preto-e-branco que nos deleitavam nas parcas oportunidades que se interpunham entre as duas miras técnicas da RTP. Certo é que, com as dicas de cada um à sua vez, aquilo se tornou um exercício imprevisivelmente prolífico: desde a “Pipi das meias altas” até aos “pequenos vagabundos”, passando por outras de que já nem me lembrava. Neste fértil arrolar ter-se-á então citado uma série de que apenas me recordo pela sua placidez, a cerca do quintal e a língua exótica em que era falada, e que dava pelo nome de “Pedra Branca”.
Largos meses depois, uma aqui eternidade portanto, recebo mail de um leitor que ao peregrinar por lá, e por esse motivo, me solicita de informação sobre a possibilidade de encontrar essa série em filme, ou/e qualquer outra informação relacionada que se possa prestar. Confesso que não faço a mais pequena ideia, e sou demasiado preguiçoso para grandes pesquisas, mesmo essas de só-clic, pelo que aqui o invoco com um apelo a quem possa ajudar.
ANEXO
Recomendando mais uma vez a quem se sinta identificado com os motivos deste post que arrisque esta surpreendente viagem ao passado, e apesar desta ligação, optei por transladar para aqui, por mero interesse pessoal, trechos do diálogo que está na origem destas memórias revividas. E isto porque os links e os destinos que indicam são perecíveis, e seria uma perda lamentável e irrecuperável se amanhã não pudesse comprazer-me no recordar deste enorme espólio de memórias televisivas. Ao João Pedro da Costa e aos comentadores aqui plagiados as minhas sinceras e assumidas desculpas pelo abuso. E segue extracto de comentários associados ao post em referência
Essa é uma das imagens que me marcou, mas para mim há outra ainda mais emblemática... a do Engº. Sousa Veloso a despedir-se na praia no seu programa "TV Rural".
Vejam lá, já agora alguém quer dizer que tambem via os "pequenos vagabundos" não?
E já agora só falta dizerem que estavam ali ao meu lado a comer pães com tulicreme e açucar!
JPC, essa coisa chamava-se "mira técnica". Na verdade nunca percebi bem porquê, porque não haveria de ser "mira filosofal" ou mesmo "mira aí que esta coisa já vai começar".
Abraços
E o Vasco Granja? Os desenhos animados acabados em koniec. :)
Acho que ficou tudo dito sobre a mira técnica. Eu também costumava olhar para ela, enquanto esperava pelos desenhos animados e pelas séries infanto-juvenis. Depois desapareceu a mira técnica e eu meti-me a fazer um doutoramento.
Tenho os "Pequenos Vagabundos", mas ainda só vi o 1º episódio, não tive tempo para mais. Ainda sabia a música de cor! Alguém se lembra dos "Garotos do 47A"? E do "Frank Spencer" que só fazia asneiras?
Mas, quanto à rtp: e a música de início e fim de emissão? :) Na altura, alguém até me convenceu que aquilo tinha letra. Se se lembrarem da melodia, encaixem lá estas palavras (se conseguirem): sim! vai começaaar, rtp! vai começaaar, rtp! vai começaree, vai começar!
(ah! e saudoso Vasco Granja Koniec... o raio dos bonecos nem se mexiam, mas aquilo era poesia animada pura!)
E quem se lembra dos "3 Duques"?
Esses são da geração pós-romântica, da Tv a cores.
Mas veio-me agora mais um à memória: "meina projnika klösse"? que ganda série espreitada lá do alto das escadas, na hora do óhóh.
E uma série de que não me lembro o nome e que dava ao fim da tarde, em que eles estavam sempre a dizer "kon kolea" ? era uma expressão mais complicada que esta mas a gente cá simplificava-a por o "c'valo q'cocheia".
As coisas que tu me puseste a reviver JPC ao sabado de manhã !!
A Vi tirou-me as letras do teclado mas eu volto a pô-las: 'Pedimos desculpa por esta interrupção. 'O programa segue dentro de momentos'. E o Vasco Granja, tb citado, com a sua respeitável pantera cor de rosa? q é feito dele? E o Verão azul, depois da Heidi, do Marco, da Abelha Maia. E a Casa na Pradaria...
Não estou é a lembrar-me da série Os pequenos vagabundos e sinto q algo me está a escapar, hum....não me lembro mesmo.
E o Bonanza, muito tempo antes?
lol, em vez de estarmos aqui com rodeios, mais valia e era mais prático dizermos a nossa idade uns aos outros ;)
vim só ver se o programa já tinha recomeçado, mas nada. deve ser de lá...
(lembram-se quando a emissão pifava e surgia invariavelmente a questão: "será de cá ou de lá"? uns palmadões no televisor para concluir rapidamente que era "de lá" :)
Quanto ao post: vias isso, porque era o que havia para ver toda a tarde. Até ao início da emissão. (ninguém tem saudades do tempo em que só havia televisão durante um punhado de horas por dia?)
Quanto aos comentários: esqueceram-se do Espaço 1999. Passei muitas aulas do 2º ciclo a desenhar aquelas naves espaciais tão aerodinâmicas...
E a Pipi das meias altas?
E o Verão azul?
Ana, o Franjinhas é o do Carrossel Mágico?
Lembro-me bem da série da Pipi. Não tinhamos tv e iamos ver para casa da vizinha.
Os Pequenos Vagabundos e a Laranjina C - acho que nunca conheci as duas experiências ao mesmo tempo - teria sido o nirvana.
E alguém se lembra por acaso daquela série com um cavalo falante, o Mr. Ed? Ainda me lembro da música do genérico: "A horse-is-a-horse-of-course-of-course-and-no-one-can-talk-to-a-horse-of-course..." (looooool)
E do "Cão Vagabundo" (bem, talvez não fosse este o título...), alguém se recorda? Ainda ecoam na minha memória alguns fragmentos da musiquinha do cão (que não falava tanto como o Mr Ed, mas era, em contrapartida, mais filosófico ;) ): "maybe tomorrow I wanna settle down, until tomorrow the whole world is my home..." (suspiro)
:o)))))
(recordo perfeitamente o cão vagabundo e a música, de facto, era espantosa - o genérico tinha planos do cão a passear na cidade, não era?)
E daquela série polaca (não me lembro do nome) passada na 2ª Guerra Mundial sobre 4 tripulantes de um blindado e do seu cão, um pastor alemão(!), há por aí alguém que se lembre? Já deve ter passado depois do 25-4.
Antes disso, gostava de ver o Comissário Maigret mas o do tempo do Jean Richard, não do Bruno Cremer que já é dos anos 80.
E VDGG? E...?
Colditz, claro que sim 1poucomais. O Fugitivo, o original; o Columbo com o Peter Falk; o Kung-Fu com o David Carradine...
A RTP já nao traz nada de novo...
Mas antes trazia, dai que a minha memoria televisiva encerra certos Holy-Graals, que nao sao mais que as perolas da minha infancia/adolescencia, a saber:
-Pequenos vagabundos
-Conan o rapaz do futuro
-Battlestar Galactica
-The A-Team (sem dobragem p favor...)
-Devlin Connection
-Derrick
-Zé Gato (sim, esse mesmo...)
E pra ja, chega de achas, toca a acender a fogueira...
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:33 PM | Comentários (19)
janeiro 11, 2006
Nova Lisboa / Huambo
Há muito tempo, o meu pai foi chamado para a “guerra”, pela terceira vez. Das outras duas vezes ficara pela metrópole, mas desta feita convocavam-no para Angola. Nenhum de nós percebia porque alguém queria tão insistentemente um capitão miliciano com um bigode bonacheirão e uma orla de seis filhos atrás. Quando em 1971 - um ano depois de ter partido - nos chamou para junto dele, percebemos finalmente que para além do fato verde e da boina que usava contrariada e desajeitadamente nada mais o ligava àquilo que lá longe se passava no mato. Fomos viver para uma cidade calma onde a guerra não entrava. Era um mundo diferente onde as águias pairavam rente à janela e em vez de galinhas se viam pacaças e macacos à beira da estrada e lá mais para dentro, diziam-nos, até leões. E haviam também uns gafanhotos gigantes com uns bizarros chifres esbranquiçados, quase do tamanho de uma mão adulta, que nós orgulhosamente guardávamos como troféus em frascos de vidro. Na escola pública onde andava, a um quarteirão de distância, conheci as gentes de lá. Éramos apenas três europeus, talvez melhores alunos, não sei, sei que mais poupados às reguadas que tentávamos amenizar com mezinhas à base de rabo-de-cavalo e azeite que se conjuravam e aperfeiçoavam na nossa clandestinidade de vítimas. O mais velho da sala era quase homem, e dizia-se que teria colocado duas batatas nos hercúleos bíceps que todos os intervalos ostentava para grupos de admiradores embasbacados, no que sempre acreditei. O meu maior amigo era um africano com mais 3 anos que eu e que me ensinou a dar saltos mortais e me defendia sempre das emboscadas no recreio. Lembro-me que um dia saltei do telhado do refeitório e desde aí deixei de ser o “puto branco”. Com eles passei a demorar-me mais depois das aulas e foi assim que conheci a “outra parte” da cidade. Quase sempre pó, senzalas e uma enorme liberdade que eu não sabia explicar e que ia muito para além do “brincar na rua”. O ar era mole e húmido, e a terra parecia tocar o céu e espraiar-se indolente até ao infinito. Em frente do edifício onde morava havia uma igreja onde todos os domingos me confessava de andar à pancada com os meus irmãos e de lá saía sobriamente desculpado. Quase todos os adultos que conhecia da messe dos oficiais não me pareciam ter nada a ver com aquela guerra que se dizia travar-se lá mais para leste. Aí onde vivia haviam alguns miúdos brancos e mimados que estavam proibidos de sair das cercanias e que nos invejavam a liberdade que nos era dada. Deles, com eles, lembro-me vagamente e apenas das tardes que passávamos assoberbados de um rádio-amador com que nos maravilhávamos a escutar o mundo inteiro. Aos 8 anos, aquele parecia-me ser o sítio mais aprazível e de maior liberdade do mundo. Foi lá que me apercebi de como a terra era tão grande. Fiz lá a 3ª classe e depois voltei. Para este mundo pequeno e encafuado.
Hoje, inesperadamente, as paredes deste escritório ruíram, e o mundo ficou outra vez maior.
[ Oxalá fosse assim o mundo (o de hoje, o desse tempo), como os olhos da criança que o viram. Oxalá eu não tivesse crescido, e ele comigo, a destapar-se aos poucos, a tornar-se cada vez mais inteligível, e mais pequeno, mais mesquinho e estropiado ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:35 AM | Comentários (10)
janeiro 10, 2006
A origem de todos os males ?
O amigo CAP com as suas fabulosas capacidades mnésicas lá me foi recordando qual terá sido de facto o meu primeiro post, se bem que na altura involuntário, ocasional e fruto da hospitalidade de blog alheio.
Ora se aqui que se faz acervo de tudo quanto escrevo é legítimo que o traga até cá, assim o desenterrando da simpática guarida que lhe deu o JPT, no seu Maschamba, quando a 8 de Junho de 2004 (abusivamente, note-se) elevou tal comentário a post. E reza assim:Rock in Cambodja
" Pois aqui estou eu para prestar o meu testemunho. E não contido, farei o retrato fiel do “Rock in Cambodja”, para os emigrados daí. O pior não foi o Cambodja, que aí nós, os Olivalenses, até somos muito miscíveis ... glórias das pedradas e alianças entre tribos. E era ver a atalhar caminho pelo meio do bairro J. …lá ia eu todo lampeiro: vamos em frente, não há que ter medo, é nem olhar para o lado, que estas beiras conheço eu. Há muito tempo que não sentia assim tão espampanante a minha (ainda que franzina) masculinidade. Mas dizia eu, o pior não foi o Cambodja, foi o que eu achava antes e achei depois de lá ter ido. E como sou o único que deve ter tal opinião, irei resguardar-me no recato do meu anonimato, pois “Zé” não será como é óbvio o meu verdadeiro nome, até porque de “Zé” ninguém se chama.
O que eu achava (pequena nota sobre o evento): Uma Patranha ! Irritou-me logo de princípio essa coisa de se colarem a causas humanitárias, e de tornarem aquilo um evento do estado. Causas humanitárias ??? 2% das receitas líquidas(!), podendo chegar a 5% (?). Vão fazer humor negro para outro lado!!! E pronto, achei que a dar qualquer coisinha, antes ao arrumador aqui á frente, que ao menos a esse sei para onde vai o dinheiro. Mas no último instante, nas últimas horas, casal amigo viu-se com 2 bilhetes a mais e com enorme esbanjo de amabilidade. E lá fomos.
O que eu achei (pequena nota sobre o cartaz): mas aquilo era um espectáculo dos anos 80, ou apenas uma exposição de seres embalsamados? Mas falarei apenas do Sting, que foi o que com expectativa vi, pois o resto do cartaz terei sempre hipótese de encontrar num desses arraiais que aí vêm por estes dias de santos. Havia lá um Carlos Sainz (acho que não era Carlos mas era Sainz de certeza), que devo poder ver de novo ali na tendinha mesmo em frente à casa dos bicos que por esta altura lá se encontra montada a vender superbocks quentes e farturas frias. Ora sobre este ícone (e volto ao ex-polícia) leio hoje nos jornais que ele apenas tocou o imprescindível. Opinião de quem certamente não esteve lá, ou então estava naquela coisa branca, a 1 kilómetro de distância, que tinha o nome distinto de Tenda VIP, e onde se vendiam vaidades mas certamente não se ouvia música. Aquilo até corria bem, uma mole de 100.000 pessoas, bom som, apesar do vento que varria o vale pelo lado oriental. Às tantas entrou o Roxanne (pela reacção diria que toda aquela gente há-de ter estado no Restelo, naquele memorável concerto dos Police - enfim, admito que nem todos tenham tido a sorte de assistir ao show erótico no final, dançado por entre os arames, com que nós fomos agraciados, mas mesmo tirando isso, foi daquelas recordações que se guardam). Fiquei na expectativa de ver entrar o refrão, luzes sobre o público, era ver pular, pular….pular, uma massa inacreditável de cabeças, floresta de braços no ar, pensamentos estranhos e dispersos “e agora se largassem aqui uma …”, varrido de imediato pela orgulhosa sensação de que de facto a gente até somos muitos e “venham de lá os espanhóis”. Mas aqui é que as coisas complicaram! Olho para trás, e que vejo? 200.000 patas batendo desenfreadamente no solo. O pó levantando-se numa enorme nuvem, de todos os quadrantes do recinto. O vento soprando, metódico, fraco o suficiente para não dispersar aquela nuvem cremosa, disciplinadamente empurrando-a na nossa direcção. Aos poucos uma espessa nuvem, daquelas que nos deixam o nariz em bola e os olhos a fazerem lama no canto, eleva-se e vai sendo empurrada de mansinho, justamente de encontro ao palco. Vejo-a passar por cima da minha cabeça. Juro que vejo a cara do Sting encher-se de pânico. Segunda vez o refrão, a mesma coisa. Claro que a seguir o gajo cantou um swing, e depois outro. Ainda puxou umas rockadas pelo meio. Mas quando saiu não foi por ter cantado o imprescindível como os jornais contam, saiu corrido pelo pó.
Mas houve um final do melhor que já vi até hoje…. Eheheh. Ora bem, o homem acaba, o cartaz diz-nos que ainda aí vem o Abrunhosa. Começo a pensar que aquilo será a noite de glória para o gajo do bigodinho. Já viste, o gajo a fazer voz grossa para 100.000 pessoas? mas logo vou adiantando para quem comigo está que o melhor era o tipo entrar logo, logo. Meio dito, meio feito. Assim que nos viramos para a porta, intenção declarada de sair, constatamos que todos, mas todos mesmo, se encontravam virados na mesma direcção. Lá em cima olhei para baixo, e por detrás da manada, ainda pude ver a plateia, cheia…. de copos de plástico. Li hoje que foi um belo concerto, com mais de 15.000 pessoas. Enfim, podia ter sido pior!
E pronto, aqui tens a minha crónica, propositadamente ácida para te tirar a pena de por cá não teres estado. Muito melhor que aquilo foi a festa do Sonyman na sexta. Casa bonita, gente amiga cada vez mais cota cada vez mais igual, anfitriões do melhor. Essa sim, perdeste."Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:30 AM | Comentários (19)
dezembro 09, 2005
ou dito por quem sabe: de bom e de vilão todos temos um pouco *
* Somos feitos de fragmentos que chocam entre si, pequenos asteróides em órbitas incoerentes, trechos de um passado que teimamos em juntar ao redor de uma enorme ilusão egocêntrica
Repartíamos o orgulho de termos tirado a melhor nota. Dele não sabia nada a não ser que viera do Douro interior para fazer por cá o exame nacional e que agora que soubera as notas lá voltaria para ajudar o pai nas vindimas. Estendia-me que ainda assim se demoraria mais dois dias pela metrópole, que mal conhecia, e que bem podíamos … quando me pediu o telefone, pensei que não tinha nenhum sentido que nos viéssemos a encontrar, mas não lho disse. Dei-lhe o primeiro número que me veio à cabeça.
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Na frente corríamos todos que nem loucos. Quando o vi atrasar-se, com um corpinho ainda mais miúdo que o meu, e a ser envolvido por aquela multidão furiosa, estanquei o passo e fiz-me ao seu lado. Ainda levantei a voz enquanto o escondia por trás das minhas costas … depois levei com uma paulada na cabeça, e passei a gozar da fama dessa ousadia.
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Por duas vezes me perguntou se aquela revista ordinária que estava caída no quintal não era minha. Por duas vezes lhe disse que não. E avançava que tal descuido e com irmãs mais novas por ali sempre a brincar … e eu mantinha que não. Sabia quase as páginas de cor. Nunca me ocorrera que pudesse rebolar do telhado para onde a tinha atirado. Por duas vezes me perguntou, e por duas vezes renunciei a consenti-lo. A fúria da minha sexualidade adolescente tornou-se uma prática obscura e condenável, e durante anos culpei-o a ele.
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Escutava no quarto ao lado o estertor das chineladas. Ainda me corriam as lágrimas puxadas da zona das costas onde antes ele me enfiara uma biqueirada. Tudo começara por uma teimosia minha, ele a fazer-se de irmão mais velho e eu como sempre a desafiá-lo. Ouvia-o agora em choros aflitos ali ao lado e ainda me ocorreu intervir, dizer que a culpa era também minha. Em vez disso, deixei-me ficar consolado com um sorriso traidor.
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Quando jovem tive um barco à vela. Aparelhei-o e desaparelhei-o vezes sem conta. Numas zarpei, nas outras olhei o mar e fingi ter perdido a palamenta.
( e agora, Eufigénio, já podes fazer de pai virtuoso se ainda assim o entenderes)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:20 AM | Comentários (16)
dezembro 07, 2005
Memórias Frágeis
Tão d’outrora. Tão cristalinamente reconstruídas. Tão saudosamente repercutidas.
A vetustez a comemorar-se ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:38 PM | Comentários (5)
dezembro 02, 2005
Um pastel de nata demasiado viscoso
Ontem, enquanto tentava disfarçar o terror de tragar mais um incomestível bolinho sob o olhar atento e enternecido da minha avó e preparava já os meus óbvios e abismados elogios, lembrei-me dele, do T, e daquela inesquecível cena de antanho, numa festa de anos, num 8º andar lá do bairro.
As festas de aniversário naquela altura eram usufruídas como oferendas de fartos lanches e pouco mais. Serviam essencialmente para guarnecermos a barriga e forrarmos os bolsos com reservas que transportávamos depois tão rápido quanto possível para a rua, onde, aí sim, se desenrolava toda a acção relevante. Claro que essa voragem arrasadora com que nos apetrechávamos, nunca permitia grandes hesitações sobre o que nos vinha à mão, e depois à boca, e por vezes daí vinham agruras.
Ocorria assim por vezes uma ou outra vítima mais desprevenida ver-se surpreendida com um pedaço menos tragável do festim. Fora aqui ao T, moço expedito, a quem coubera a má sorte de inaugurar os pastéis de nata, os quais, aparentemente, nem para os nossos pouco exigentes palatos teriam proveito. E lamuriando-se de tal azar, atrapalhava-se no inventar a melhor forma de se aliviar do estorvo de tal carga. Angustiado, rodava a cabeça de um para o outro lado em demanda de esconderijos, e depois, em passo matreiro, cirandava pelos sítios menos conspícuos da sala com o propósito de se poder desfazer de forma desapercebida do intragável pastel, esse acidente gustativo que entretanto o impedia de prosseguir no repasto.
Entretanto o horroroso bolo - quase por inteiro ainda, a menos de uma interrompida dentada - escorria-se na sua mão. Tentou largá-lo primeiro num canto de uma mesa baixa, mas logo lhe saíram à atenção um “oh menino que não se faz isso à comida”. Depois num outro flagrante, e logo pela mãe do aniversariante, repreensiva, a olhar para o montinho de smarties com que o tentara esconder ao lado das limonadas. Afinal, aquela operação de descarte, tão vezeira e pacífica de se resolver normalmente, fazia-se agora um incomodativo e frustrado contratempo. Nada lhe estava a sair bem, e o borrachoso pastel de nata, tão rápido quanto se aliviava da mão que o segurava, assim voltava, de cada vez mais esbodegado e pegajoso, de cada vez mais incomodativo.
Por cada tentativa que arriscava para se folgar de tal contratempo, logo um adulto lhe saía a caminho. E por isso, da vez seguinte, mais olhos o policiavam, e mais árdua se tornava essa sua tarefa. Ora, posto isto, até o desembaraçado T teve de capitular, já receoso que tantos flagrantes pudessem vir a constituir-se em mais provas da sua grosseria, mais tarde, junto da sua progenitura. Assim, e vendo-se alvo desta apertada vigília, depois de mais duas ou três trajectórias cruzadas pela sala com que ainda supôs iludi-los, acabou por se acercar de novo junto de nós, que entretanto nos agrupáramos junto ao enorme envidraçado da sala. Lá se foi acomodando à roda que ali fazíamos, escolhendo o lado do vidro para, encostado, se deixar indolentemente ser visado pelas nossas observações e risos trocistas. Vencido, cerrava nas mãos que agora se cruzavam nas suas costas o mal de todo o seu incómodo, e por ali se deixava ficar, cabisbaixo, deglutindo estoicamente a chacota que cada vez se tornava mais ruidosa, mas mantendo negar-se a fazer o mesmo com o estuporado pastel de nata.
Sustinha-se assim este hilariante ambiente quando subitamente todo este alvoroço se viu interrompido por um enorme estrondo. Um estrondo forte, um shmaaacck primeiro, que depois se perpetuou por uns instantes em vibrações mais roucas, e que distintamente provinha do local onde estávamos, junto à janela. Saltam alguns de nós para o lado, assustados, e quedam-se todos os restantes confrades. Todo o festejo, por um momento, se interrompe. De todos os lados provinham olhares perplexos, que incidiam sobre nós. Ainda hoje me rio desbragadamente ao recordar a cena: Um silêncio profundo. A mãe do H fitando-o furiosa, e o T, enrubescido, a balbuciar baixinho, a desculpar-se inutilmente de que não tinha reparado que a janela estava fechada. A cara dele, enrubescida de vergonha, e por trás dela, numa descida pegajosa da qual se iam soltando pequenos nacos de creme, o pastel de nata a escorrer lentamente ao longo da enorme vidraça, largando um viscoso rasto amarelo.
O T. é hoje homem importante numa dessas multinacionais da alta-fidelidade, pelo que acredito que tenha tido mais sorte do que a que lhe sobrou naquela tarde. Ou talvez tenha descoberto que até as pequenas batotas requerem que se estude bem o terreno em nosso redor. Volto aos dias de hoje. Constato que ainda tenho o borrachão na mão. Depois olho carinhosamente para a minha avó e, num único impulso, engulo o borrachão que me tinha sido oferecido, e de imediato o chá todo, a uma só vez. Custa menos o sacrifício de um “humm, que delícia” do que a trigésima tentativa de lhe explicar que não gosto daqueles bolinhos duros feitos com aguardente. Até porque aqui onde me encontro, não há janelas nem vidraças, felizmente.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:35 PM | Comentários (9)
novembro 11, 2005
Do antes da alcatra e do pojadouro
Arfava sofregamente e o seu hálito desenhava bolas de nuvens quentes na madrugada gélida. Ao fundo ouvia das camionetas os rangeres das gaiolas que atarefadamente se abriam. Por entre as frechas da lona via passar o magote de homens vestidos com fatos-macaco riçados e vermelhos que faziam por aquecer as mãos em concha com fôlegos que expiravam. Era o pleno Inverno e àquelas horas da madrugada, assim imobilizado, isso fazia-se sentir em toda a ossatura. A seu lado haviam muitos outros, e agora era bom poder apertar-se de encontro a eles e sentir-lhes o calor próximo. Um calor forte que largava um cheiro áspero. Lá fora ninguém reparava na natureza daquele cheiro que lhes vinha das entranhas, e que epidemicamente se ia pegando de uns para outros. Aliás, lá fora, por entre os afazeres que se adivinhavam do barulho, todos os ignoravam ali, eles sendo paisagem da rotina de todos os dias. Do edifício maior libertava-se um rumor de fundo, quase inaudível, mas que lhe era perfeitamente distinto. Ali quase nada, mas lá de onde se fazia ouvir era berraria, uma descontrolada gritaria de arquejos que lhe eram familiares. Aos poucos, todos os que ali estavam consigo foram tomando consciência desse doloroso som distante, e notava-lhes cada vez mais acentuadamente os sinais da sua irrequietude. Era orgulhoso, e lá das terras de onde vinha era tido como um macho altivo – e essa era a sua natureza. Mesmo ali, por entre todos os outros, era no porte mas também na sua aparente serenidade que se impunha entre os demais. Mas até ele soçobrava agora, arrastado por aquele murmúrio crescente, uma ladainha de terror, assim mesmo, largada em tom baixo e soturno. Era como se, mesmo sem falar, um por um, notasse nos outros confirmar-se aquilo que a sua intuição já lhe tinha trazido. Esperava-o a morte.
Pouco depois, a carripana onde os tinham enfiado deslocou-se em marcha-atrás, lentamente, até se imobilizar com um baque seco de encontro ao embarcadouro de cimento. Um homem meteu a mão por dentro e desarmou o ferrolho. Assim que se soltou o painel da parte traseira todos aqueles que ali o acompanhavam se comprimiram lá no fundo da caixa da camioneta, confundindo-se uns com os outros, embaralhando os olhares dos homens que agora os encaravam. Ele não. Deixou-se ficar imóvel, tenso, carregando um olhar de audácia com que escondia o profundo medo que o enfraquecia por dentro. A manhã agora destapada, deixou-o ver breves instantes o outro edifício lá mais ao fundo, de onde se exalavam agora mais evidentes os cheiros que notara antes. Eram odores agridoces, espessos, inconfundivelmente carnosos. Nesse outro embarcadouro afadigavam-se vultos para trás e para diante, dividindo aos pares o peso de peças pesadas, de cor encarniçada, que empurravam para dentro de camiões brancos. Mesmo sem discernir na distância do que de facto se tratava, sobressaltou-lhe a certeza de que eram cadáveres que assim eram transportados. Depois, subitamente, sentiu-se laçado, uma e outra vez, e antes que pudesse reagir um espigão enterrou-se dilacerante por trás da sua nuca. Atrás de si ouvia a bradaria de pânico que se tinha apoderado dos outros. Escorava-se com força nas travessas que lhe serviam de chão, agora inundadas da sua urina que escorria por entre as frechas do tabuado, enquanto do lado de fora três ou quatro homens gritavam e puxavam-no, incentivando-o a ceder. O ferrão cravava-se cada vez mais profundamente e a dor fazia-se já adormecida por todo o corpo. As pernas baqueavam e o seu olhar orgulhoso embaciava-se escondendo de si a visão dos homens de fato vermelho que tinha pela frente. Uns vociferavam, enquanto outros riam desbragadamente. Não conseguia compreender exactamente as suas expressões. Sabia apenas que mostravam uma alegria que lhe era incompreensível ali, e que o revoltava ainda mais. Tudo aquilo era ignóbil. Não fora ensinado a perceber o que os humanos queriam fazer com ele, e muito menos porque agora ali estava e porque o queriam conduzir para a matança. E nada disso lhe deveria levantar interrogações. E contudo, naquele momento, perguntava-se porque teimavam aqueles homens em largar aqueles gritos esganiçados. De que mostravam eles satisfação afinal. Porque não o deixavam cumprir com a sua dignidade de macho estes seus últimos passos. Fincou então numa última teima as patas dianteiras, e de seguida rodou o torso tanto quanto pôde, até poder ver os fundos da camioneta. O seu cachaço rasgava-se num colar de dor, e um bordado de sangue deixava-se cair em franjas escuras. Fitou então com os seus olhos negros, uma última vez, os seus companheiros, e susteve-se assim galhardo todo o tempo que lhe sobrou. Por fim, lançou o pescoço ao céu e largou o mais estridente grito que alguma vez se deverá ter ouvido pelas bandas daquele matadouro. Os homens, surpreendidos aliviaram bruscamente a pressão do ferro e das cordas com que o acicatavam, e depois, vendo-o liberto, afastaram-se num reflexo de receio por uma investida sua. Em vez disso, desceu mansamente pelo estrado que ali tinham pousado, e encaminhou-se altivamente para a porta do edifício de onde sabia virem aqueles inexplicados odores e barulhos. Só, sem outros mais, sobretudo sem a infame companhia daqueles homens que se aliviavam por o ver seguir assim brando. Mesmo sem a compreender, esta morte, seria sua.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:40 PM | Comentários (18)
outubro 12, 2005
Acontece que ...
te esticas nas memórias para além do que eu retenho anoso* amigo. E esse que citas até pode ter sido grande despique, mas mantenho que no memorial da F1 lavra-se aquela tarde de ’79 em Dijon, que teve como protagonistas o Arnoux e este Senhor:

E foi tamanha a amargura em saber que tinhas perdido (andavas em ensaios no concurso da “Vaca Cornélia”?) aquelas épicas 3 (!) voltas, que te trouxe para aqui o Vídeo … delicia-te.
Ah, e naquele tempo quando se era pela Lótus-JPS não se podia reconhecer publicamente qualquer mérito nesse Tyrr(iv)el adversário, por isso, de entre os quatro … viva o Peterson !
* palavra gira, respeitável e cheia de propriedade esta, conhecias?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:07 AM | Comentários (15)
setembro 29, 2005
IV - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
Aviso prévio do Autor: Caro leitor, antes que venha ao engano deixe-me dizer-lhe que isto não é um post. Na verdade, embora tenha começado por ser um episódio real que aconteceu comigo, e apesar de ser uma narrativa que se contaria com meia dúzia de palavras, tem vindo a sofrer uma tal dilatação que agora, já na 4ª parte, (e sem que lhe veja fim), acabou por se transformar numa espécie de exercício aeróbico para as minhas falanges. Desista. Caso contrário repudiarei acusações futuras de que encharco os leitores com texto a metro, a pretexto de encetar narrações que depois nem tenho o decoro e a consideração de finalizar. Se não estiver ainda convencido do bom senso do meu conselho deixe-me só informá-lo: este post tem exactamente 8287 caracteres … ora vê !?
A sala para onde me mandaram entrar era ampla e todo o seu ambiente combinava com o ar de “estado novo” que o exterior do edifício ostentava. O mobiliário, escasso e austero, dividia-se simetricamente por cada um dos cantos na diagonal da sala. Nestes dois vértices concentrava-se tudo o que ali existia: as estantes, enormes, duas usadas secretárias de chapa esmaltada, papeis, gavetas para despacho, agrafadores, cinzeiros de cerâmica repletos de beatas e do cheiro de cinza fria, copos com designações comerciais de onde floriam as pontas de inúmeras canetas de oferta, um retrato emoldurado de uma família num dia festivo, outro com um bebé obeso e sorridente, e mais papéis. No meio desta amálgama de ‘clichés’ de escritório, destacavam-se incontáveis processos - alguns em pastas de cartão canelado, outros ataviados com um baraço de cordel - que se encavalitavam sobre as mesas de trabalho, e já para além destas, em cada um dos armários que lhes ficavam por trás, e que estes, já a abarrotar dos mesmos e arqueados de tanto peso, derramavam no chão em seu redor. Além destas duas áreas onde se concentrava todo o rol de coisas, quase nada mais ali havia. O resto da sala era um espaço enorme não ocupado, despido de qualquer ornamentação e funcionalidade, e onde apenas se encontravam duas velhas cadeiras de madeira. Foi numa delas que pediram para me sentar.
Recordo-me como fiquei surpreendido com o que assim encontrei. Tinha no meu imaginário que um Agente da Judiciária era um arguto “homem de acção”, ao jeito do “Colombo”, e que a última coisa que sabia e queria fazer na vida era lidar com burocracia, e afinal esse suposto local de temerárias investigações parecia-me mais uma poeirenta repartição de finanças. A segunda reacção veio de chofre e deixou-me atónito e desconcertado por alguns instantes. A outra cadeira era ocupada pela minha alucinada acusadora. Sentei-me como se não fizesse caso, e nem mesmo quando a porta se fechou me tentei a cumprimentá-la, pouco me importando de não disfarçar os efeitos daquela contrariedade. Já ela, acabrunhava-se com a minha presença, minguando na cadeira, fazendo-se ainda mais pequena do que na verdade já era. Nem pestanejava. Mordia os cantos dos lábios acentuando as feições aduncas, mas os seus olhos míopes fixavam-se apáticos no chão.
Notoriamente embaraçado, e procurando aquietar-me, resvalei primeiro o olhar pelo mobiliário, deixando-o depois correr para além das janelas, por sobre a copa dos choupos que lá fora quase tapavam o céu, acentuando ainda mais o ar penumbrento do gabinete. Neste volteio acabei por me aperceber que numa das paredes, a da minha direita, se estendia a todo o comprimento uma enorme vidraça. O facto de se encontrar de viés levara-me a que não me tivesse apercebido dela quando entrara, mas agora, que a tinha descoberto não podia deixar de notar os dois polícias que no gabinete contíguo mal-disfarçavam uma qualquer ocupação com os seus afazeres. Era óbvio que se pretendiam propositadamente conspícuos, e que nós, ali sozinhos, não havíamos sido deixados ao acaso. Tudo isso fazia parte de uma estratégia de observação que se baseava em patrocinar a nossa confrontação, a partir da qual aspiravam estudar-nos sem que para isso pretendessem dissimular a sua presença do outro lado da sala. Do que viam pouco haveria a registar, já que a L. se mantinha soturna e de olhar hipnotizado, enquanto eu, atento agora às suas duas figuras recuadas, experimentava uma postura contorcida e desajeitada que nem o olhar de soslaio que lhes lançava conseguia dissimular. Provavelmente isso emprestava-me um ar hirto e constrangido, o que apesar de tudo poderia ser considerado pouco suspeito se fosse tida em consideração a curiosidade e o suspenso da singular situação em que me encontrava.
Mas, naquele forjado momento de espera, ao invés de cultivar a serenidade que se justificaria num inocente, acabei por não conseguir evitar o regresso tumultuoso das minhas cogitações. Num ápice, toda a panóplia de suposições que já anteriormente me tinham percorrido, apoderaram-se de novo de mim. Tudo o que tinha antecipado, as perguntas, as insinuações, as minhas fundamentações, a evidencia do estado demente da minha acusadora, nada do que tinha congeminado me havia preparado para este truculento interregno. Aqui esperavam que reagisse, mais do que o que pudesse articular. Entre a espontânea agressividade que me tinha provocado a presença dela ali, e a contenção que toda a situação me recomendava, voltaram aos poucos todos os pormenores inquietantes da minha figuração. Sabia que todos os meus gestos - a calmitude ou a irritação, a moderação ou a agressividade, a atrapalhação ou a serenidade – qualquer reacção que manifestasse perante aquele confronto, estava a ser observada e interpretada, e que daí poderia provir a convicção deles sobre a minha inocência, ou culpabilidade. Tinha ouvido dizer que são os primeiros segundos que determinam os juízos que se fazem dos outros. E eu, que tinha tão meticulosamente listado todas as minhas prelecções argumentativas, não estava simplesmente preparado para a confrontação que me haviam preparado. Forcei-me a repetir várias vezes para mim mesmo que era eu o inocente, e que rapidamente se veria demonstrado que aquela mulher era simplesmente louca. Era importante que tivesse sempre isso presente, e que o nervoso que começava a sentir neste matreiro início do processo de interrogatório não viesse sobrepor-se a esta minha condição. Era de facto inocente, mas rocambolescamente não me sentia como tal.
Entretanto, todos estes inquietantes pensamentos foram subitamente interrompidos. Nas nossas costas abriu-se a porta e alguém chamou pelo nome dela. Nem pestanejou. Mantinha a impavidez nervosa com que a encontrara, como se nem tivesse ouvido o chamamento. Depois, e sem que tivesse sido chamada de novo, num gesto absolutamente desfasado, levantou-se com um ar indignado e empoeirado e desapareceu nas minhas costas. Satisfez-me ver-lhe - ainda que ténues - sinais de insanidade na forma como reagiu ao chamamento, e desejei ardentemente que isso não tivesse passado despercebido a quem a houvera chamado. A L, apesar de ter um olhar arredado, uma fisionomia soturna, e vestisse como se tivesse emergido do século passado, aparentava apesar disso ser uma pessoa normal. No máximo poder-se-ia concluir que era uma personagem nevrótica vestida de uma indescritível fealdade, mas isso não fazia dela uma pessoa estranha. Revia agora a dificuldade que tivera em desconvencer os meus colegas acerca das insinuações descabidas que já antes ela tentara junto deles. Era uma pessoa profundamente reservada, quase muda, e por isso particularmente imperscrutável, e que por mais estranha que parecesse mantinha as suas capacidades intelectuais em boa forma - aliás confirmadas nos resultados académicos que nós colegas íamos testemunhando - pelo que, convencer alguém do seu estado de demência era algo que já confirmara não ser líquido. Sabia por isso de antemão que a comprovação da sua insanidade, por quem (ao contrário de mim) não tivesse sido vítima dos seus desvarios, era bastante improvável, razão porque me regozijava destes pequenos desmanchos da sua personalidade com que pensava poder capitalizar um juízo final favorável por parte dos agentes que nos auscultavam.
Por outro lado, receava que nada disso fosse assim tão notório, e que a base da minha inocência, baseada na constatação do seu frágil estado mental, pudesse nunca vir a ser uma evidência no juízo dos imprecatados (achava eu) agentes do interrogatório. Mas desta feita não tive o tempo bastante para matutar em mais esta nova inquietação. A porta abriu-se de novo, e pela mesma entrou de rompante um Agente de camisa amarrotada e ar bafiento e com cara de poucos amigos. Nada disse. Encaminhou-se para o armário que havia por trás da secretária para onde eu estava virado e retirou de cima de uma pilha de processos uma velha máquina de escrever que pousou carinhosa e lentamente em cima da mesa. De seguida, abriu uma gaveta e retirou de lá umas folhas de papel-químico que entrelaçou noutras brancas, e com a meticulosidade de um escriba ajustou-as no rolo. Entregou-se então a uma pequena pausa, comprazido, como quem se congratula de ter tudo preparado, e encarando-me com um modo absolutamente indiferente, começou: “Nome completo? ”
Durante uma boa meia hora foi registando maquinalmente os restantes dados cadastrais, onde se intrometia o trautear lento e compassado das teclas da sua pachorrenta máquina de escrever. Apenas o claque-claque, entrecortado pelo correr do carreto no fim de cada linha. A tudo fui respondendo, primeiro algo nervoso, depois com profundo enfado, e finalmente já irritado com tamanha falta de curiosidade, já que sobre o caso em mãos nem sequer tinha tentado qualquer avanço. Foi quando percebi que aquele homem semi-adormecido nada tinha a ver com os investigadores dinâmicos que eu conhecia dos filmes, e que seguramente não tinha havido nem iria haver nenhum interrogatório truculento ou qualquer outra manha policial que fosse para além do toque diligente com que alinhava as folhas sobre a sua direita. Perante tanta inépcia já não me sentia culpado nem inocente de nada, nem tão pouco recordava já o rol das inverosímeis acusações que me tinham trazido até ali, ou as dificuldades que tinha antevisto para provar que a L. era simplesmente maluca. A meio daquele improfícuo registo de dados já eu estava convicto que, apesar de ali ter chegado de manhã, iria passar todo o restante dia defronte daquele matraquear amolecido. Por vezes ainda me recordava da razão que me levara até ali, para acabar por concluir de novo que, apesar da aparência daquela inofensiva lassidão em que estava submergido, provavelmente estaria metido num molho de brócolos.
(…) <-- continua, claro
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:43 AM | Comentários (21)
agosto 09, 2005
O Xica
Faz um mês que ele se fez anunciar pela recepcionista: “está aqui o Sr. Xica dos Olivais”. Fiquei surpreendido ao princípio, afinal já lá iam mais de 25 anos. Mas depois lá fui recordando que num outro dia tive encontro fugaz aqui perto, e lhe terei referido a coincidência de trabalharmos bem perto um do outro. Era portanto caminho que eu próprio antecipara.
Enquanto o aguardava no gabinete fui revendo esses outros tempos. Ele terá sido o único “miúdo da rua” que tive como amigo na infância. Talvez considerá-lo como amigo seja exagero, mas eu ajudava-o, por vezes, e ele protegia-me da malta mais rude lá do bairro. E conversava-se, lá pelo meio daquelas tardes lentas e disponíveis. Era por isso uma relação sincera, talvez não de amizade, mas certamente de confiança (*). E tinha-lhe simpatia, nisso de ir para além da esfera da sua zona, dessa ousadia de passar a fronteira. Censure-se o raciocínio, mas era assim, e raros eram os casos em que estas duas gentes se misturavam, e ir assim até ao outro lado, para o pé dos “putos queques” seria certamente lá dos lados dele motivo de chacota. Acharia haver ali melhor futuro, talvez até possível de seguir? Sempre acreditei que era isso, e isso, sem qualquer afectação, levou-me a respeitá-lo e a augurar-lhe uma vida melhor, pelo menos mais a jeito de se ter um “bom” futuro. Enquanto eu ainda estudava já ele trabalhava. Claro que também roubava os “putos queques” como nós, (mas não nós), nos tempos que lhe sobravam. Quase uma perna no presente, que com usos do seu bairro assim o municiava, e outra no futuro com que se queria precaver. Aliás, um dos seus primeiros trabalhos tinha-o arranjado eu lá na fábrica do meu pai. Depois o meu pai perdeu a empresa, mas já antes disso ele tinha partido para outro ganha-pão. E foi por aí que o comecei a perder de vista. Fui sabendo que criara família, que se mantinha lá pelo bairro e que era algo inconstante nos empregos (por culpa do seu génio imaginava eu), mas que lá se ia safando, que lá se ia dando ao trabalho.
E agora ali estava ele. Contou-me do filho que se afundava na má vida e a quem já não tinha mão, da vida de caridade que fazia em casa dos sogros, e do sogro, um bêbedo, da penúria que vivia há 10 meses, da esmola da mulher que calculasse eu como era isso. Mas que se mantinha sem vícios, nem tabaco, nem álcool, nem nada dessas coisas, e que aquelas mãos nunca se recusaram a nada, que não era homem para se ficar. Que a desgraça de tudo aquilo era aquele seu génio, que acabava sempre por chatear-se com o patrão. E antes de sair ainda insistiu que me devolveria os 40 Euros, que agora a coisa ia melhorar, que aquilo era só para resolver os transportes no primeiro mês, e que quando tudo já estivesse mais certo e recebesse o ordenado logo viria ter comigo para acertar contas, que com ele era assim mesmo, e que eu era um grande amigo …
E eu anuía com a cabeça, que depois logo mos devolveria. Ambos sabíamos que isso não iria acontecer, mas era o jeito mais fácil para esconder a vergonha. Provavelmente no dia seguinte as coisas terão voltado a ser o que ele me contou, mas ainda assim duvido que o torne a ver. Vi-lhe os lábios cerrados, depois o abraço, a querer dizer mais, e percebi que naquele momento se terá ali acabado de esgotar o orgulho daquela parte da infância que ainda trazia consigo, a parte que tinha a ver comigo. Tanto, e uns míseros 40 Euros.
(*)Esta é uma versão atenuada, talvez até um pouco emoldurada, vítima certamente dos tempos vagos a que remonta ou talvez porque aqui não cabe tê-la pormenorizada; Para uma versão mais episódica, escrita com o esplendor fotográfico com que tão bem ele sabe criar, recomendo um dos últimos comentários deste post, pela mão do JPT
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:30 PM | Comentários (15)
agosto 02, 2005
III - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
(Primeiro aquele telefonema inaudito)
Ninguém se sente indiferente quando procura pelo gabinete 16ª nas instalações da polícia judiciária com um cartão ao pescoço que é distintamente de cor diferente dos outros, sobretudo se esses outros, de mangas arregaçadas, forem os que aparentam um ar caseiro e jovial. E isso pode ter efeitos psicológicos agravados se depois nos acomodarem num banco de madeira, na berma de um corredor austero, ao longo do qual vemos cruzar continuamente indivíduos com ar cabisbaixo e nada integrado, em passo arrastado por grilhetas invisíveis, e com um cartão ao pescoço, de cor igual ao meu.
Por princípio sou um indivíduo sereno e cerebral pelo que o insólito da minha situação já tinha sido várias vezes mastigado, estando eu convicto (pelo menos julgava estar, ou estaria nos primeiros momentos de espera) que a justificação que em breve intentaria junto dos Agentes da Autoridade (e aqui já exagerava em pronunciá-los prenunciá-los com as letras maiúsculas do temor, embora ainda não o soubesse), certamente iria dar tudo isto por resolvido. A verdade é que a natureza das acusações só por si deveria bastar para que qualquer agente experimentado tirasse daí as suas ilações, como aliás comecei por inicialmente presumir. E enquanto por ali me via sentado, e pela enésima vez, discorria sobre as mesmas, nos termos em que o prestável Agente B me as tinha enumerado.
Pois a menina L, que diz ser sua colega lá no Instituto, afirma que o senhor incorreu em coisas gravíssimas, algumas delas – devo acrescentar – para mim inéditas, e olhe que já por aqui ando há mais de 15 anos. Nada disto me parece muito comum, mas compreenderá que mandam os procedimentos que solicite a sua vinda até cá, para prestar declarações sobre o que esta Senhora refere … Ora, ela insiste que o senhor se chateou com ela no autocarro e que (1) usou de violência com o intuito de lhe cortar uma madeixa de cabelo ( e ressalva que quer destacar esta como acusação própria), mas que ainda que não se terá ficado por aí, pois que ao fazê-lo tinha como fito uma (2) espécie de feitiço, de que ela foi vítima e sentiu na pele durante largos dias. Como se não bastasse, refere ainda que o senhor, não contente com o mal causado, lhe (3) terá subrepticiamente injectado uma substância - através do uso de uma seringa - nos Yogurtes que ela transportava no supermercado, para isso tendo-se fingido acercar dela casualmente, e que também nisso – insiste ela – se perspectivava uma tentativa de envenenamento, pelo que, receando tal coisa, se terá desfeito da prova do delito. Mas caro senhor, as coisas não se ficam por aqui, e ao que parece terão estes sido os três delitos ainda assim menos graves, e que ocorrem na sequência do seu desagrado por a dita senhora, até então mantendo uma relação de amizade consigo, não se lhe ter oferecido para uma relação sexual. E terá sido aqui que as coisas terão azedado ainda mais, posto que ela também insinua que o senhor, vendo-se assim contrariado, a (4) terá forçado a ter relações sexuais, a que ela se conseguiu escapulir, o que ainda assim não deixa margem para dúvidas de se tratar de uma tentativa de violação. Finalmente acusa-o ainda de uma (5) perseguição maníaca (nos transportes públicos, na vigília á casa onde mora, nas aulas que frequenta no Instituto, durante as lides das compras do supermercado do bairro) e que terá acabado por afectá-la psicologicamente, (note que a senhora refere que isto já se passa após a violação de que foi alvo). Terá ainda o senhor, em meados de Julho deste ano, e vendo-se soçobrar em todos estes intentos, chegado ao limite de a (6) agredir brutalmente na via pública.
É evidente que tudo isto era um enorme absurdo. E se estas últimas acusações, as mais graves e mais comuns, até poderiam ter sido perpetradas por um crápula qualquer, já as primeiras eram dignas de um conto de bruxas, e (resmungava para comigo), pouco razoáveis de supor num rapaz bem composto, prosaico estudante de engenharia, tão vocacionalmente distante dessa coisa das magias negras. Mas estar ali, com aquele cartão rosa escuro incomodava-me. E porquê tanto tempo de espera? Repetitivamente, de dez em dez minutos lá desfiava eu cada uma das acusações, os dedos fingindo-se de ábaco, enquanto mentalmente revia o que iria responder a cada uma, e a forma como iria desmantelar aquilo, e até como ensaiaria os gestos e as expressões. Ao fim de duas horas, tinha já o rabo dorido e a cabeça conformada. E de cada vez que remoía tudo aquilo, mais me distanciava da argumentação genuína e espontânea que era suposto resolver desde logo tal imbróglio. As palavras que originalmente interiorizei com alguma naturalidade tinham-se tornado termos decorados de um discurso que já não era o meu.
Quando finalmente um dos Agentes me chamou à porta encontrou um rapaz de corpo arqueado, agastado da espera e da invulgar situação. E os olhos, que foi por aí que o veterano polícia se interessou, eram dois círculos esbugalhados e indiferentes ao que encontravam na sua frente, talvez porque estivesse concentrado num labiríntico algoritmo de justificações que iria ensaiar, mas também porque poderia ser um simples lunático. E depois os dedos, para onde olhou de seguida, entrelaçados de forma invulgar, num tenso espasmo, como se tivessem a enumerar algo, mas também uma possível evidência de um tique neurótico. Em tudo isso me sentia ser observado, clinicamente, e por cada justificação que encontrava, antevia logo uma alternativa comprometedora. E nada me fazia retornar a um comportamento normal, à aparência inocente e injuriada que eu deveria aparentar. Até a boca, trauteando sozinha as palavras baixas que fazia por não esquecer, também ela se mostrava longe de contribuir para a imagem branda que um rapaz inocente naquela situação deveria mostrar. E a consciência de tudo isso, de me ver assim observado, tudo isso contribuía ainda mas para que eu, incontrolavelmente, parecesse um receoso e apoquentado suspeito.
Ainda me tentei recompor. Mas quando entrei na sala tinha a noção de que dificilmente poderia ter dissimulado, (lá estava eu a pensar em disfarçar, mas disfarçar o quê? Representar um inocente, camuflar um criminoso? Mas eu não era culpado!), aos olhos de um arguto investigador, a postura de um presumível culpado.
(...)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:45 PM | Comentários (7)
julho 28, 2005
II - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
(...)
Enquanto seguia caminho, ia matutando em toda a situação. Apesar da insistência do Agente B para que me dirigisse de imediato às instalações da Rua … tinha-lhe notado na voz um tom simpático, até estranhamente cúmplice, como se assim se quisesse desculpar da maçada do procedimento. Tinha até confidenciado ao telefone do que era acusado, e por quem era acusado. Primeiro fiquei naturalmente estupefacto, tudo aquilo me parecia um filme surrealista, mas depois, e por isso mesmo, encaixando tão vasto e implausível rol de queixas na geométrica realidade, isso até me trouxe confortado. Ao correr as razões, e antevendo quem as esgrimia, achei que todo aquele absurdo seria relativamente fácil de desmantelar, e que cedo retornaria com todo aquele mal entendido devidamente desembrulhado.
Mas havia sempre o lado formal por cima dos raciocínios, e as histórias mirambolantes de ouvir contar e imensos ‘ses’ que imaginativamente inventariava em cada semáforo que me parava. Para todo o efeito estava perante acusações graves, e ainda ressoava o conselho do meu pai, que sim senhor, claro que tudo isso era uma loucura que logo se veria que assim era, mas que com estas coisas nunca se brinca, que eu esperasse que ele ia telefonar ao seu advogado. Claro que recusei peremptoriamente tal ideia. Mas recordo que foi nessa altura, e por lhe notar no olhar, o dele mesmo, algumas dúvidas - não que as tivesse relativamente à minha absoluta inocência, mas que a gente sabe que se a rapariga chegara àquele ponto alguma coisa haveria de ter acontecido - foi exactamente aí que receei que pudesse estar metido numa embrulhada. Afinal aquilo não passaria nunca por ser uma conversa de sanar mal-entendidos à mesa do café. Se por um lado era evidente a falta de senso em toda a situação e nas insólitas acusações que sobre mim recaíam, por outro lado, aquilo que para mim era óbvio teria de ser demonstrado, ou pelo menos justificado.
E foi assim, por entre o pára-arranca dos semáforos, que uma macabra suposição foi se foi apoderando de mim: não bastaria ser inocente, teria de os convencer disso, e para isso, teria de o parecer. E isso foi, obviamente, a mais inoportuna coisa que eu podia ter pensado. Sempre fui um péssimo actor.
(...)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:15 AM | Comentários (5)
julho 27, 2005
I - Para se ser inocente é preciso conseguir parecer ...
Quando o Agente B me telefonou, ainda não tinha terminado as apresentações e já eu me ouvia ripostar com toda a veemência que a minha revolta me estimulava. Tratava-se certamente ainda do carro que me tinham rebocado na véspera, do passeio do S. Luís, e ao qual tinham descuidadamente rebentado com o escape. Estava furioso, e mais uma vez arrazoei que se eu civicamente paguei e calei a multa, a eles cabia-lhes ressarcir-me dos custos com o escape que tinham estragado. Talvez por saber que seriam nulos os resultados de tanta argumentação, insistia naquela terapêutica ininterrupta de o massacrar com o meu desagrado atropelado de palavras. Mas assim que me calei, por breves momentos, o tempo apenas de ganhar novo fôlego, logo me vi interrompido por ele, que com um tom exemplarmente paciente, e mantendo um impávido distanciamento de toda aquela verborreia que lhe tinha lançado, logo me foi esclarecendo que não se tratava de nenhuma infracção ao código da estrada, pois, que ali na Judiciária não tratavam disso.
Foi assim que um dia fui notificado para prestar declarações sob a acusação de supostamente ter cometido seis crimes.
(…)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:58 AM | Comentários (4)
junho 26, 2005
O Paulo Gordo e um “Mini” cheio de pressa
Ora, o Paulo Gordo era uma espécie de rotor dos nossos tempos de ócio. Quando nada havia para fazer, era à volta dele que nos compúnhamos, ali esperando pela próxima situação que haveria de transformar com uma espontaneidade impressionante em mais um episódio hilariante. Andava de pernas abertas, braços para trás, pança orgulhosa e uma franja loura que afastava repetidamente com um sopro. Tanto ego, em condições normais, faria dele um personagem irritante no mínimo, sobretudo para mim que nunca fui de acatar excessos de protagonismo nos outros. Só que tudo em redor dele era tão inflamado de improviso e humor, que se consentia bem esses seus inchaços de personalidade, que aliás eram essenciais para a forma como desdobrava cada ocasião, por mais trivial que esta começasse por parecer.
O seu poder de argumentação, o tom sincero com que colocava a voz, e a forma imaginosa com que enviesava qualquer situação ou raciocínio que lhe aparecesse pela frente, permitiam-lhe enfiar enormes tangas em qualquer pessoa que tivesse o azar de se cruzar com ele, o que aliás era confeccionado sempre com ar imperturbável e circunspecto. Um telefone nas suas mãos por exemplo, era uma arma de engano letal para o pobre coitado que fosse apanhado do outro lado. Várias foram as tardes em que nos entretemos a ouvi-lo marcar quartos para o Sr. Paco Rabanne (era o que os putos mais usavam na altura) em tudo o que era hotel de Luxo em Lisboa. Do outro lado da linha nem vacilavam. De outras vezes eram números discados ao acaso que invariavelmente produziam uma audível alegria naquele que acabara de concluir do outro lado ter sido agraciado com umas férias no Japão, após ter respondido a meia dúzia de perguntas absolutamente idiotas que alguém com voz firme e profissional lhe tinha feito. E já ali os dois miúdos e a avó e mais alguém que era chamado lá dos fundos da casa, toda a gente para ouvir mais uma vez confirmar o prémio radiofónico. Maldades? Claro que sim, de outra forma onde estaria o mérito do seu desempenho.
À noite as coisas eram mais movimentadas, e nos dias de sorte até conseguíamos arranjar um carro, por simpatia ou distracção de algum pai. O dinheiro não abundava, mas havia sempre uma ponta de mangueira à mão. Normalmente essa função cabia ao mais novo do grupo, ele vítima de um sorteio encapotado que já antes coubera aos outros. Não era praxe, só que assim dava-se a oportunidade a alguém que desejava mostrar a sua integração de forma afincada, e que ainda não conhecia o desconforto de passar o resto da noite a mastigar aquela saliva mole de gasolina. E depois de abastecidos, mais nada, ficávamos assim a navegar de um lado para o outro, por entre ruas, a fazer o destino acontecer.
Foi assim que um dia fomos apanhados a percorrer em contra-mão uma rua de sentido proibido, lá para os lados de Alcântara, no Mini da mãe do Paulo Gordo. Seis putos dentro daquela latinha, e de súbito atravessa-se à nossa frente um polícia, a mão lá bem no alto, a pose imperial. Em condições normais ele teria arrepiado caminho como já antes fizera, mas ali, de marcha-atrás, e notando logo nós ali a mota que facilmente nos alcançaria, hesitámos. Depois já era tarde demais, já só o tempo de abrir janelas para fazer volutear aquele fumo comprometedor, e o Gordo já a avisar para nem lançarmos um pio. Oiço-lhe o “bô noite sôr guarda como está”, e a seguir já sem parar a argumentar qualquer coisa que mal distingo lá atrás no carro. Mas a coisa não ia bem, que embora quase não o ouvisse, ao polícia, notava-lhe uma certa exaltação, que era ele que devia falar e via-se ali irritadamente envolvido no rol de palavras do Paulo Gordo sem ainda poder trazer ao caso a contra-ordenação grave que o fizera parar-nos. E já eu a recear que acabássemos onde já não nos era estranho, numa esquadra qualquer, com o Gordo a fazer-se exaltar e a exclamar que o pai era isto e aquilo, e as coisas a ficarem ainda piores.
Mas volto à conversa. Vejo-o puxar da carteira e eis que apresenta um documento ao polícia, não a carta ou o BI, mas um cartão plastificado, vermelho e branco. O polícia estranhado com o que ouve, já mais amaciado, já vítima. E lá o ouço explicar, agora com conveniente tom apressado, que ali todos somos nadadores-salvadores e que, ai Jesus. a ser chamados de urgência, uma catástrofe, lá para os lados da Trafaria, parece que naufrágio dos grandes, e como é que o sôr Guarda ainda não tinha ouvido nada, e tudo sem pestanejar, a lançar aquela teia fina que impedia o seu interlocutor de pensar quase, adormecendo-lhe o discernimento. E o agente da autoridade a hesitar, ali de documento ainda na mão, esquecido, e tão preso dos argumentos já que nem se apercebia do riso que quase não conseguíamos disfarçar lá dentro. E o Gordo, com a sua técnica imparável, a não dar tempo ao opositor para sequer pensar, lá continuava, que aquilo era coisa muito grave, que não dava sequer para perder tempo com ninharias, um naufrágio sim, ao largo da Trafaria, era só o que sabia, e que se o honesto polícia teimasse em fazer cumprir a ordem que passasse já ali a multa e que a fizesse chegar ao cuidado do tesoureiro dos Bombeiros Sapadores de Almada, mas que ainda assim ele teimaria naquele rumo, o mais curto, mesmo que em contramão, que era de vidas humanas que se tratava ali. Mas ia logo adiantando que não percebia como colegas nesta coisa de salvar vidas, cada um no seu mister claro, se podiam atrapalhar tanto um ao outro.
Num ápice vimos o polícia montar na mota, ligar as sirenes, arrancar convicto, gesticulando com os curiosos que entretanto haviam parado, encostando trânsito, e assim nos levando até à rotunda que nos faria depois subir para a ponte. E nós lá seguíamos, atrás, o Paulo Gordo a tirar partido de tudo aquilo, a fazer a festa, a apitar, a acrescentar o tumulto, a saudar os transeuntes que com ar estupefacto viam aquele “Mini” cheio de malta lá dentro, na esteira da sirene. Mais à frente, já no lance de estrada que nos levaria à ponte, o zeloso agente encostou, fez-nos seguir com um gesto, e despediu-se com uma continência cúmplice de nós. E o Gordo a retribuir, com ar solene e a apitar por ali fora, a caminho da outra margem. No fim ainda me recordo de o ouvir a lançar pragas, que agora tínhamos de seguir até à outra margem, e mais as portagens, e até quase a Almada, só lá na Rotunda poderíamos voltar. E se não bastava ter-nos deixado seguir logo ali, na rua onde nos encontrou, pois, que havia gente que complicava tudo.
…
Outros tempos, tão longe já, já tão pouco guardados nos raros “Minis” que ainda por ai andam. Quanto ao Paulo Gordo, sei que entretanto se fez rico, em área séria de negócio ao que dizem.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:37 PM | Comentários (5)
junho 22, 2005
Butuxiaminobenzoilodietilaminoetanol
Trinta e seis letras de um composto qualquer escrito nas costas de um frasquinho de gotas. Na altura ganhei 7$50 numa aposta com o meu pai em que deveria decorar esta palavra em meia-hora. Foi tal o empenho e depois o orgulho que nunca mais a esqueci. Anos mais tarde acabei por me esbanjar no Técnico a empinar leis de Electromagnetismo e a resolver Lagrangeanos e assim esgotar essa capacidade mnésica que um dia julguei que me tornaria rico.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:52 AM | Comentários (11)
maio 17, 2005
O Matadouro de Beirolas II - A ‘jorna’
O entrelaçado em série daquelas tarefas era de tal forma aprimorado, que qualquer ausência de um trabalhador implicava desde logo a sua reparação. Não poderia haver lacunas insupríveis, fosse no sector onde era desferido o tiro ou já no enlaçar das patas no mono-rail por onde seguiam depois cadáveres, e menos ainda no sangrar dos bichos ou depois nas serras com que se descolava o pêlo. E todos os outros, desde os ofícios mais técnicos como o separar das vísceras e o corte das peças, ou lá em cima na parte dos cachaços, até às menos exigentes zonas de separação dos quartos ou de preparação antes da entrada nos túneis frigoríficos, até aí, estancar uma dessas operações era asfixiar todo o ritmo dessa complexa cadeia de produção.
Qualquer função ali, por menos especializada que fosse, exigia por isso a substituição imediata do seu operador. Seria desastroso que por culpa de uma gripe no Sr. António do ‘rack’ onde se dependuravam as línguas de vaca, se visse lá fora toda a logística abruptamente parada, com aquelas dezenas de camiões encarecendo o atraso. E depois havia ainda as questões técnicas, o descontrolo da temperatura, e os fiscais da qualidade a exaltar os mestres de cada sector, provavelmente já perdidas largas centenas de quilos de carne, e a serenidade.
Por isso, pelas 7.30h, logo após a chamada, cada chefe de sector coligia as faltas e entregava-as na portaria do matadouro, junto ao portão alto de ferro que se mantinha sempre fechado. Pouco depois passava então pela ‘porta do homem’ um indivíduo baixo, que todos os dias se empoleirava no vaso de cimento que ladeava a entrada. De lá começava a bradar com voz dada de importante por cima de uma boa centena de cabeças, assinalando as áreas que requisitavam voluntários. Era a vez dos homens da ‘jorna’ arriscarem a sorte de serem escolhidos.
(mas onde é que eu me meti? ... a continuar ... não sei é para onde)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:15 PM | Comentários (3)
O Matadouro de BeirolasI - A fábrica da carne
Onde hoje é parte do elegante bairro da Expo já houve um matadouro, o Matadouro de Beirolas, o maior do país diziam. E era de facto enorme. Só no seu edifício principal, onde se desenrolava todo o processo, trabalhavam mais de 1.500 pessoas.
Lá dentro encadeava-se uma sequência interminável de ofícios, onde cada homem se entregava a uma tarefa taylorista com que contribuía para o esquartejar, separar ou expedir das carnes. Olhando-a de frente, àquela fábrica, era possível presumir a azáfama que lhe ia por dentro. De um dos lados chegava distintamente o urrar desenfreado, já o pressentimento, dos animais que aguardavam em filas de camiões que se descarregassem para a morte. Do outro lado, no embarcadouro a nascente, notava-se o corrupio de vultos que arcavam a carne já preparada para dentro de camiões frigoríficos. Pelo meio, ao longo de 300 metros, podia-se então imaginar todo o evoluir do processo, cadências ritmadas de trabalho, calejadas já de indiferença para com a natureza desta lida.
(a recordar, a continuar, talvez hoje, ao serão)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:27 PM | Comentários (4)
maio 02, 2005
(para quem não sabe) Nem só de chapa se faz um carro
Voltávamos pelas 6h da matina do Alcântara-mar no meu insuperável 127, ainda naquela noite gabado, aliás os dois, que ao que parece os meus dotes, a forma como ali o mantinha domado, também era notada. Mas terá isso sido mais ao princípio da noite, que por aquela hora nem eu estava de merecer elogios, nem quem mos pudesse fazer estava já em condições para tanto.
Lá seguíamos em plena Av. Ceuta, - da qual aliás não se pode dizer que tenha um traçado sinuoso - a descrever uma curva suave, ligeiramente aberta para a direita. O M. lá atrás a recomendar que cortasse pelo lado de dentro para fugir às bandas sonoras. Logo a seguir já no ar, nós, o carro, a galgar uns pneus enchidos de cimento, que assim faziam assinalar as obras por estas bandas. Depois um baque, a dor do impacto, o estrondo, a aflição.
O carro virado de través, sem rodas no chão, segue com o polido do aço a escorregar por ali fora. Lembro-me como se fosse hoje, a imagem ao retardador, a não querer acabar, eu a ver o alcatrão a raspar-se por baixo das longarinas, ali mesmo ao lado da minha cabeça, e o carro a seguir sem abrandar pela estrada fora. E o lancil da divisória central a vir, assim de esguelha, bem apontado à minha cara, e alguém do outro lado, de lá de cima portanto, a fazer-se pesar para cima de mim.
Após uns bons 50 metros de rojo acabámos por parar com uma pancada já amortecida no passeio, eu a julgar-me rachado ao meio já. Mas nada. Apenas um silêncio esmagador, só cortado pelo cheiro lancinante da sucata que ali deixámos, a borracha queimada, o estalar do metal ainda, o odor do óleo quente do motor. E aí, de súbito o arrepio de que aquilo fosse explodir. Saí rápido, puxei a A. O último que se aprestava a sair por onde antes estava o pára-brisas era o M. Contagem feita, quase nem arranhões, a bebedeira curada num ápice.
Ele a compor-se e já eu o reclamava para que me ajudasse a pôr o carro outra vez sobre as 4 rodas, um empurrão apenas, antes que mais alguém passasse. Mas ele nada, nem me ouviu - partiu largado na direcção do local onde se dera o primeiro embate no alcatrão. Sigo-o com o olhar, naturalmente preocupado, quase o perdendo lá ao fundo no escuro da noite. Depois vejo-o baixar-se, aí eu já inquietado não fosse o dano ser de outra natureza. Eis que volta a correr. Vejo-lhe na mão um baloiçar do que parecia ser uma cobra. Já quase não tenho duvidas, aquele baloiçar é de coisa viva, e a enrolar-se nas pontas que se desprendiam da sua mão. E ele em passo acelerado, a voltar.
Agora já a acercar-se, e nós a interrogar-nos mutuamente sobre o que aquilo, assim tão importante, poderia ser, que cobra já não era, nem assim já ao perto poderia tratar-se de coisa viva. Uma borracha! Nem precisei de perguntar, que ele logo ali justificava. Ao que parece tinha batido com o carro na semana anterior, e calcule-se, tivera de pegar quase 15 contos pelo friso de borracha que fixa o pára-brisas. Pois, calcule-se, um exagero. Que quinze contos não era nenhuma ninharia.
O carro foi para sucata, a bebedeira acabámos por curá-la uns dias mais tarde, mas a borracha, claro, ainda lá a tenho.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:22 PM | Comentários (8)
abril 27, 2005
Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia - III
15 anos
Do depósito de garrafões também se vive
Há noite, antes da saída para Lagos, já quase um ritual, jogávamos nas sortes de quem ficaria com a missão dos garrafões, e quem, o outro, ficaria com as compras depois. Irritava-me o quase sempre me calhar a pior parte. Além de ter de madrugar, quase colando isso com o regresso da noite anterior, ainda me via incrustado de arranhões, mazelas que no fim do verão se haveriam de converter num estranho riscado branco sobre a pele bronzeada. Pelo meio-dia normalmente já tínhamos arrumado essas tarefas matinais e descíamos à praia. Eu na matina, a escapulir-me pela cerca dos fundos do supermercado, e o F., pouco depois, em tarefa mais nobre, a fazer-se abastado na caixa do supermercado. Não percebo ainda hoje como é que a inocente menina nunca desconfiou de nada, nem uma única palavra de desconfiança ou olhar de soslaio. De sorriso nos lábios, fazia a conta e ainda devolvia o troco que bom emprego teria ainda com as imprescindíveis imperiais. Terei de admitir que nesse aspecto o F. era mais dotado que eu, que lá contava da família grande, a justificar assim tanto garrafão a querer o dinheiro do depósito. E depois a ir por ali adentro e a voltar com a frutinha, pão, claro, a carne sempre, hoje sal, amanhã a margarina, mas de garrafões de água nem vê-los. Arte haveria nisso certamente para nunca ter sido questionado como entrava com 4 garrafões todos os dias, que ali das compras nunca se lhe viam sair. Enfim, eu fiquei com os arranhões, ele com a proeza.
Ainda hoje a água engarrafada que compro nunca vem em embalagens plásticas, e por isso me perguntam às vezes para quê tanto vidro, para quê tanto peso, para quê tanta procura por coisa já tão rara. Eu é que sei, que com os garrafões da água, numa dificuldade, também se pode sobreviver, pelo menos 15 dias, pelo menos no Algarve. Pelo menos, naqueles tempos podia-se.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:20 PM | Comentários (8)
abril 26, 2005
Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia - II
19 anos
O frigorífico e a importância de se prever onde guardar tais despojos
Todos os dias passávamos por ele na volta da praia, e dessa ocasião se fazia sempre tema de conversa. Ali, na penumbra da cave, fazendo-se notar pelo brilho do seu esmalte branco, como que a reclamar do abandono prematuro a que fora votado, assim o vislumbrávamos do cimo da rampa de acesso. Era enorme, talvez demasiado grande e velho aos olhos do dono que ali o encostara, do lado de fora, preterindo o seu devido espaço na arrecadação. E disso protestávamos, do desperdício, da falta que a nós faria.
Naquela outra noite regressávamos dos bares junto à beira-mar, subida fora. E foi assim, acidentalmente, que deparámos com o nosso velho conhecido num ângulo da curva. Luzia como sempre, agora reflectindo a luz amarela da iluminação pública. Dessa vez não nos entretemos a entaramelar a conversa do costume. Instintivamente entrámos pela cave adentro. Cinco minutos depois, vaidosos do nosso desempenho, saíamos de lá com a carrinha agachada pelo peso daquela alva presa.
Mais fácil fora carregá-lo para dentro da pequena “morris”, que mesmo à cota, ainda assim fazia-se caber por cima dos bancos rebaixados. Já nós, três, tínhamos de nos haver todos juntos nos dois bancos da frente, e nisso nos resignávamos. O pior veio depois, que não havia como nem onde o descarregar nessa noite. Na verdade também ainda não nos tínhamos confrontado com o destino a dar-lhe nos dias seguintes, que lhe faltava casa certamente, pelo menos sítio onde não arriscássemos perguntas familiares embaraçosas.
No dia seguinte lá seguimos para a praia, os três encavalitados nos bancos da frente da carrinha. Esta engordada com um enorme frigorífico que ocupava toda a parte de trás, escondido dos olhares alheios por duas toalhas de praia que agora nos faltavam para o que eram precisas. O orgulho da primeira noite começou assim a transformar-se em pequenos episódios desagradáveis, enfim, um transtorno. De dia, no pino do calor, já nos irritávamos uns com os outros, para ali colados em suor. À noite, eram as expectantes oportunidades de boleia que se viam goradas, ali, trocadas por aquela máquina obtusa.
Na terceira noite após a captura, depois de acesa discussão sobre quem deveria sair para dar lugar à Marta, decidimos que antes o frigorífico que a nossa efémera amizade de verão, que essa ainda assim nunca se enferrujaria. Voltámos ao mesmo caminho, e acabámos encostando a carrinha, já na cave, perto do sítio onde haveríamos de voltar a pousar o “frigas”.
Das poucas vezes que fui prestar contas à esquadra, aquela terá sido a mais insólita. Nós ali a notar o ar embaraçado do chefe de turno, a tentar descortinar a pena em que incorríamos no tentar devolver um electrodoméstico abandonado. E ele a ver-nos arrependidos, a aquiescer, que antes assim que continuar a passear aquele inútil frigorífico.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:36 PM | Comentários (11)
abril 25, 2005
De noite não convém perturbar o repouso das bestas de ferro
E aqui para informar que ficou concluída a história da bicicleta, lá em baixo, e que lá para baixo se arquivará. E esta só acabada (e a custo) porque isso acabou sendo reclamado pelo amigo MB, que por mim a deixaria assim, por se escrever. Espantosa a quantidade de histórias que começo sem lhes pôr um fim, como se só parte das memórias se quisessem avivadas. E o que falta contar, quando teimo em concluir, fica com gosto insonso, de coisa para terminar apenas, sem nada que acrescente. Será que se teme aqui o “fechar” de alguma coisa, e assim vê-la cumprida?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:34 PM | Comentários (2)
Memórias de um período revolucionário (1978)
Não que eu fosse do outro lado, que nem podia com esses outros de samarras e sapatinho italiano. Basicamente era do contra, embora naquela altura quem fosse do contra fosse obrigatoriamente dos outros. Mas eu nunca fui, nunca fui de nenhum, o que era uma forma de ser um bocadinho de todos. E por ali andava nas meias águas liberais, disponível assim para ganhar uns cobres a colar cartazes de diferentes cores, que nisso também havia ideologia, pelo menos para um miúdo de 15 anos. Mas daqueles não gostava, achava-os bárbaros.
Desde o tempo do Pinheiro de Azevedo a gritar “O Povo é sereno. O povo é sereno”. E a turba louca em direcção à rua augusta, pouco importada com o que ele dizia, com o que ele dissera, com as ovações que lhe dedicara antes, e depois a voltar em cavalgada, a fugir dos gases lacrimogéneos que a barravam lá do lado norte. “O Povo é sereno, o Povo é sereno”, e naquela catadupa a caírem, espezinhados, perdidos uns dos outros, agora todos em trote na direcção do rio, e ali sereno só o meu pai, abrigando-nos aos dois junto da estátua do D.José, que “isto já passa, fiquem aqui perto de mim”. E a multidão a trocar o passo, que dos lados do rio são agora os disparos da G3 da COPCON, e eles em magote a retrocederem, e o baque inevitável dos que ainda iam com os que já voltavam, e o Pinheiro de Azevedo a continuar “O Povo é sereno, o povo é sereno”. Foi por aí que deixei de gostar deles.
E depois foi lá por Chelas também, lá onde se construía um bairro novo e para onde nós partíamos a passar a tarde, a ver a expropriações das casas, e todos os dias um novo episódio, quase sempre o mesmo. O “fascista, fascista”, e este a fugir, esgazeado, esfarrapado já, no ai acudam-me que sou pai de família, e a tropeçar, e a cabeça a sangrar já, a cara distorcida do pânico. E o povo a guerrear já pelo condomínio a ocupar, e o militante da LCI(?), a tentar arbitrar, que “camaradas há-de chegar para todos, não sejamos como eles”, e depois a recuar hesitante, com a reacção daquela gente, que tão logo se tentava o tirar da habitação que ainda agora tinha-lhes sido devida da acção do povo. E de vez a vez a tropa, chaimites, uns tiros de G3 para o ar, rapazes de bochechas coradas, aquietados, apenas a fazerem-se notar, a subir o queixo para aquela gente toda, não pelas razões que travavam, mas apenas pelo fulgor da juventude. E as mocitas a acercarem-se deles, se podiam subir, suba menina, suba, e então também vai ficar a viver por aqui. E a multidão a virar-se de súbito para os lados do rio que parece que por ali anda outro, “fascistas, fascistas”, a construírem andares com o dinheiro do povo, e já mais famílias a perguntarem onde, agora sem o militante da LCI que afinal também não era flor que se cheirasse. E eu não gostava daquela mole de razões, bruta, excitada, ladroeira.
Era contra, mas não era dos outros. O Xico era, eu era apenas contra. E a pintura do Lenine, enorme, ali todos os dias a ocupar a fachada do prédio, a rir para nós, e hoje, assim noite escura, a lata de tinta que até havia em casa dele. E agora a fugir pela azinhaga, e aquele gajo enorme, mas nós, dois, cada um para o seu lado. Foi o Xico, que só podia apanhar um de nós. E depois aquela gente toda enrubescida, a gritarem-lhe puto de um cabrão, fascista de merda, ficas aí até isso sair tudo. E ele lá em cima das escadas a limpar aquilo com a própria camisa, o tronco nu, vergado de vergonha, e aquela gente toda enraivecida, e um deles ao lado de mim a perguntar inflamado “e tu puto, porque é que estás a chorar, é teu amigo não?” e eu a olhar para ele, à espera dele, e os dois a voltar, já sem Lenine, já sem revolução, a dar tempo ao tempo, nós a crescermos e eles a envelhecerem, a ficarem por lá.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:48 PM | Comentários (13)
abril 24, 2005
Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia
17 anos
de Albufeira a Vilamoura
Atenção à lanterna !! Tens de apontar isso a direito caraças
Aii… com essst’s saaaltos toduuus … oh tosco mas nós já saímos da estrada, tu não vês que estamos a andar na berma caraças ??!
A lanterna meu !!! aponta mas é para o lado de dentro, ou queres que eu vá por ali?
Mas este gajo está a agarrar-se que nem me deixa apontar bem. Oh P. vê se te pões calmo pá!!
Deixem-me aqui, deixem-me aqui que isto vai dar merda
Aiii, mete-te pelo meio da estrada porra
E onde é o meio da estrada oh caramelo. Aponta mas é com a lanterna
Epaaaaaa, o que é aquilo lá á frente? Ai, ai, ai … deixa-me aqui caneco!
Calma, calma, não há-de ser nada. Vou parar, eu falo com o gajo.
Boa noite
Boa noite sôr guarda
Ora o que temos aqui? Não tem luzes não?
Pois, esta merda fundiu-se ali a meio caminho e tivemos de improvisar
Atenção á linguagem. E acha que vai bem assim, com risco de ser abalroado por um carro
Não tem problema, aqui o meu amigo vai a apontar com a lanterna. Eles vêem-nos.
Ah pois. ‘Tão e os capacetes?? Também se avariaram a meio caminho? Ora vamos lá ver …
Roubaram-nos sôr guarda, palavra de honra.
Roubaram os 3 capacetes foi?
Três? Mas sôr guarda eu só tenho dois capacetes?!
Nesse caso não percebo como vão três em cima da mota?!!! Quer-me explicar porque é que eu não posso passar uma multa por falta de três capacetes, já agora?
Oh sôr guarda, desculpe …
Ninguém está a falar consigo, eu estou a falar com o condutor.
Mas eu também sou condutor
Ai sim, aí atrás quase a cair da mota, é condutor do quê, quer-me explicar?
Bem. Eu sou o que põe as mudanças que o V., sentado assim como está em cima do depósito, não consegue chegar a elas.
Ah bom, assim está explicado porque vão 3 em cima da mota, um guia, o outro aponta a lanterna e o outro mete as mudanças … muito bem. Parece-me uma boa solução para ir para casa às 5 de manhã.
Pois Sôr Guarda, e…
Eu não pedi respostas
Mas sôr Guarda, eu posso explicar porque ….
Olhe, nem me explique nada está bem. Que eu nem sei como iria explicar ao chefe como é que passei 3 multas por falta de capacete a uma moto só. Ponham-se mas é a andar daqui embora.
Muito obrigado sôr guarda. Já agora podia dar aí um empurrãozinho, que isto custa a arrancar com 3 se faz favor?!
Meusss……
(naquela altura ainda havia xotas porreiros)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:12 PM | Comentários (5)
abril 18, 2005
De noite não convém perturbar o repouso das bestas de ferro
Voltava todos os dias com o fechar do bar, já noite lançada, onde se emprestava para ajudar a pagar dívida antiga - coisas da praia, do tempo do verão. Embora íngreme, o declive que tinha de vencer neste regresso era cumprido de bicicleta, que sempre melhor que o fazer caminhando.
A última ladeira fazia-se com a chegada, já no bairro onde morava. Era uma ruela estreita, não servindo outro destino que não o dos seus moradores, e que morria num pequeno largo, num plano mais elevado, no qual se encostava a sua casa. Os carros estacionavam ao longo daquela rampa de um dos lados apenas, e ainda assim com duas rodas sobre o passeio para deixar passagem.
Embora tivesse toda a largura da estrada desimpedida, galgava a subida por entre os carros estacionados e os muros das casas. Vinha nesse jogo desde que partira e não seria agora, quase dando-o por ganho, que desistiria. O punho da bicicleta e os retrovisores dos automóveis, à mesma cota, quase raspavam, e de todas as vezes um jeito no selim permitia que um ligeiro arco na trajectória corrigisse o erro já próximo. Exigia concentração que a tarefa não era fácil, mas nisso se constituía o desafio.
Já a meio, com o êxito parecendo óbvio, acabou por entrechocar com um dos retrovisores, o suficiente para o desequilibrar. Parado, perdido o desafio, com os pés no chão portanto, olhava para o raspão na mão sem conseguir disfarçar alguma irritação. Foi assim que reparou que a porta do carro estava entreaberta. Quando a fechou, pontapeando-a displicente, foi mais no pedir culpas do que na recomendação do gesto.
Preparava-se agora para reiniciar caminho galgando os últimos metros com o amargo da derrota mas interrompeu-se, como que a confirmar ainda estar parado. E contudo, o carro mexia-se. Lenta e suavemente, quase de forma imperceptível, só notado ali junto ao punho da bicicleta, ao lado do qual passava primeiro a pega da porta, depois já o retrovisor, num movimento mole e contínuo a deixar-se seguir para trás.
Quando compreendeu verdadeiramente a situação, lançou-se num ímpeto para a frente do carro, que a custo conseguiu estacar. Passados aqueles primeiros momentos de pânico, de imediato se deu conta do erro que cometera: acabara de se tornar refém da situação.
Mesmo que conseguisse fazer retroceder o carro até onde este partira, não tinha depois com que travar o automóvel. Além disso, se já mal conseguia evitar que este continuasse a descida, muito menos ensaiaria contrariá-lo. Rodou sobre si mesmo, com o cuidado de não relaxar a pressão que opunha ao carro, e sentou-se sobre o pára-choques, com as pernas tensas escorando-se no alcatrão. Enquanto assim reflectia aproveitando aquela posição de tréguas, já mais calmo, observava a situação em seu redor. O carro tinha as rodas trancadas para a esquerda, pelo que descreveria um arco suficientemente acentuado para não ser intersectado pela outra viatura estacionada abaixo dele, e contra a qual não o poderia assim deixar amparado.
Mas ao invés, a postura das rodas apontava para uma trajectória onde não vislumbrava obstáculos de que se pudesse servir, e mostrava um percurso de cerca de 20 metros até à suposta zona de embate, o muro do lado oposto da estrada, já lá bem mais abaixo. Irritado e envergonhado com a estranha situação em que se tinha deixado cair, deixou-se ficar uns bons 5 minutos assim, sustendo o carro através do seu encosto de costas sobre o mesmo. Sabia que não poderia ficar ali eternamente. Talvez aguardasse alguém que chegasse, embora àquela hora isso não fosse assim tão frequente. Poderia sempre gritar por ajuda, mas a situação já o envergonhava o suficiente, para ainda ter de passar por isso.
Sem o notar, ia dando algum alívio à força uniforme, obstinada, imprimida por aquela massa toda. Quando deu por isso, metade do automóvel já ocupava o meio da estrada. Apesar da situação se ter complicado, foi isto que lhe deu o mote para o desfecho que agora preparava. Bastaria então continuar a fazer descair a viatura, sustendo-a, até que esta se bloqueasse de encontro ao muro, cuidadosamente amparada, sem mazelas. É verdade que nessa posição o carro ocuparia toda a faixa. Mas então que fosse o condutor que por ali quisesse passar, que assim se vendo impedido iria tomar por sua conta o escarcéu todo, e logo haveria de aprestar-se alguém para o tirar dali. E por essa altura ele já estaria sossegadamente em casa, talvez ouvindo o alvoroço lá fora, e sorrindo malandro de toda aquela situação.
Olhou mais uma vez para um lado e outro, procurando o barulho de um carro, uma janela patrulhando a noite, um cãozito passeado antes da deita, mas nada. Era um bairro residencial no sossego de uma noite de um dia de semana. Confirmando de novo que teria de se haver sozinho, incomodado com toda a situação, começou a percorrer imaginariamente a trajectória do seu adversário. Faltariam ainda uns 15 metros até que o carro se imobilizasse de encontro ao muro, um ligeiro encosto, amparado por ele, pensava. A inclinação parecia ser traiçoeira, pois que na parte final se fazia mais acentuada. Teria aí de se entregar com maior empenho.
Decidiu-se então. Num ápice rodou o corpo de forma a encarar o automóvel de frente, preparado já para a liça que se avizinhava. Atravessava-se na frente da viatura, firmando-a de novo, agora esticado numa diagonal com os pés bem escorados no alcatrão. Teria agora de ir aliviando aos poucos aquela embirrativa inércia, deixando-a deslizar num movimento amansado, até que esta se imobilizasse no murete. E suspirava pelo desfecho de toda aquela bizarra situação em que se encontrava.
...
Sentia que as pernas o começavam a atraiçoar. As articulações, em particular os tornozelos, amassadas entre o peso do carro e o atrito do alcatrão, cresciam numa dormência que a ser estorvo. Era evidente nisso, nesse torpor ainda suportável, que pouco mais e haveria de ter de ceder. Além disso tinha fome, era tarde, e sentia-se cada vez mais ridículo na situação em que se encontrava. Era uma situação muito desconfortável, e por isso sabia que não poderia deixar-se ficar por ali eternamente à espera que alguém chegasse àquelas horas – não lhe via o desenlace e isso apoquentava-o cada vez mais.
Resolveu-se então em levar avante a sua estratégia. Cautelosamente, foi aliviando a pressão com que sustinha o carro, um pé de cada vez, folgando uma pequena passada, o corpo mantendo uma diagonal que mais facilmente o fazia escorar o peso do carro.
Os primeiros dois metros foram percorridos vagarosamente. O automóvel encontrava-se agora em plena faixa de rodagem. Quem ali chegasse haveria de estranhar este carro sem condutor, atravessado na estrada toda, levando na sua frente um miúdo, inclinado sobre ele, ofegante já, numa luta desproporcionada, quase épica por isso, mas com algo de cómico também. Assim, seguramente uma visão estranha.
O gesto com que ao princípio o foi folgando, embora embaraçoso, era um esforço controlado e nada exigente, em que apenas se exigia acompanhar a massa do carro, o fazê-la sustentável. Já agora, devido à crescente inclinação da estrada, notava que o carro se tornava cada vez mais pesado. Isso começava a fazê-lo sentir-se ainda mais cansado e inseguro. Enervado, porque antevia já não o conseguir, prestou-se a travá-lo de novo. Quando este se imobilizou, a muito custo já, tinha a noção exacta de que já não alcançaria mantê-lo assim por algum tempo. A situação tinha-se alterado bruscamente, ofegava, sentia-se no interregno de algo. Algo que não queria já antecipar mas que sabia, sentia-o fisicamente, ser uma inevitabilidade.
Já não se tratava de tomar uma decisão, mas de fazer parte de um episódio que não lhe cabia controlar. O carro começara a deslizar, e nisso empregava a sua inércia para se fazer tomar de cada vez mais velocidade. Estaria agora a uns 5 metros da parede para onde a frente do carro apontava. O seu corpo estirava-se já quase na horizontal, opondo-se impotente ao monstro metálico. Em todo o caso retardava-o. Imponente, o carro continuava a descrever a sua trajectória. Arfando, olhava para um e outro lado, já em desespero, mas nada, nem ninguém. Restava-lhe apenas tentar atrasar aquele embalo obstinado, atenuar o embate.
Enquanto se deixava arrastar, colocou a cabeça por baixo do ombro direito, de forma a poder ver o espaço que ainda faltava percorrer, a medir a situação. Aí a uns dois metros teria o lancil do passeio, onde agora se sentia chegar com os pés, e estes a tentarem-se aí fincar. Depois seria um metro e meio de passeio talvez, e finalmente o muro. Era-lhe impossível usar mais tempo o socalco do passeio, e recolocou os pés, já por cima dele. Daqui a pouco seria o rodado do automóvel que o encontraria, ao lancil. Imaginava a reacção do carro a embater no passeio: era alto o lancil, a velocidade ainda não muita, talvez por ali se estacasse afinal.
Mas tinha dado folga demais, irremediavelmente, naqueles últimos metros. O carro embateu no passeio secamente, viu-lhe ainda as suspensões a trabalhar, o capot agachando-se, quase resignado. Quase se regozijou do fim ali, mas as molas tensas resfolegaram de imediato o movimento contrário, e agora era o capot que ganhava altura, quase se suspendia. O carro encavalitou-se, aliviando o peso das rodas, e num esticão estas galgavam o passeio.
Tudo aquilo se desenrolava milimetricamente, como se estivesse a assistir a um filme em câmara lenta. Ocorreu-lhe em determinada altura sair da sua frente, deixá-lo seguir já, mas sem ele como presa. Aí o carro terá ainda embalado mais, embestado, com ele prostrado, a ouvir-se dizer repetidamente com voz derrotada “não! não! não!”. Depois foi um enorme estrondo, um barulho que se perpetuava, seco da massa, dobrado do metal da chapa, e ainda o grilado dos vidros dos faróis a partirem-se. À sua frente, toda aquela amálgama se explodia no ar, exagerando, clamando a vitória. Depois nada, um absurdo silêncio apenas.
Nem esperou para medir os estragos, num impulso e logo ali agachado junto da bicicleta, do outro lado da rua. Umas persianas eram abertas com espanto, mais abaixo as luzes de um hall acendiam-se inquietas, ouvia as portas uma-por-uma a serem destrancadas. Nem hesitou. Quando por fim ouviu as primeiras vozes lá ao longe já ele arrumava a bicicleta atrás da casota.
Da janela da sala ainda conseguia ver quase toda a rua, o seu enfiamento, e lá ao fundo os contornos do carro, uma mancha escura, impedindo o cinzento da estrada. E à sua volta uma turba de gente, gesticulando, arriscando opiniões certamente, mas ninguém para ali apontando. Era tarde, tinha fome, tinha sono, e sentia-se derrotado. Não conseguia compreender este acaso, porque raio haveria aquilo de acontecer consigo, numa noite mole como as outras, ele no vir da rotina de todos os dias, porquê aquela besta a pedir-lhe o medir forças, e a deixá-lo assim, sem discernimento. E isso inquietou-o a noite inteira.
Na manhã seguinte, ainda cansado da falta de sono da véspera, aprestou-se para fazer o percurso inverso. Descia a rua e ia já confirmando o muro meio derrubado. Mais um pouco, já mais perto, e conseguia ver no chão, por baixo dele, os restos de vidros, borrachinhas e tiras metálicas que por ai se espalhavam. Lá mais ao fundo, no canto da rua, encostado ao sinal de trânsito, conseguia ver um pára-choques desencaixado. E lá seguiu cabisbaixo, hoje mais cansado que lhe doíam ainda as pernas. E lamentava-se de agora ter de fazer o percurso a pé. Que a bicicleta, essa iria tentar vendê-la lá no bar, e talvez assim a ressarcir o resto da dívida.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:45 AM | Comentários (6)
abril 13, 2005
O muro (1970)
(Enquanto os "Olivais" não chegam, aqui vou deixando)
O muro onde abancamos nos intervalos das brincadeiras e que ladeia a entrada do prédio é, do lado oposto, muito alto. Mais alto que o meu pai. Para se olhar para ele lá debaixo, por onde se sai da cave, tem de se esticar o pescoço todo para trás.
Acho que foi o Miguel quem teve a ideia. Como é ele o mais velho está sempre a ter estas ideias que eu acho servirem para nos ir mostrando quem é o chefe do grupo. Nem hesitou. Num instantinho foi parar à relva, rebolando-se para amortecer a queda. No resto da tarde, um por um, desafiados, todos foram saltando o muro. O Paulo trincou o lábio e foi a correr para casa, em choro. Foi o herói da tarde. Olho para as gotas de sangue que ficaram na calçada e desejo que não seja nada de grave. Ele é o meu melhor amigo.
Já está quase na hora do lanche, e já saltaram quase todos. Só falto eu. Mas a altura assusta-me. Ao princípio ainda tinha deste ou daquele palavras de incitamento, mas agora começo já a sentir a troça deles. Já sei o que vai acontecer a seguir - que sou o bebé do grupo, que assim nem sequer devia poder fazer parte do bando, que sou sempre quem os deixa ficar mal. É quase verdade isso. Mas é porque sou o mais novo, muito mais novo. Tenho quase menos 2 anos que o que vem a seguir, o Tiago, que já vai já fazer 9 anos.
Estou inseguro, e magoado. Apetecia-me agora não estar ali. O meu irmão, o único que me podia ajudar, pôs-se do lado deles, também ele rindo de mim. Sinto-me muito sozinho. E com uma enorme raiva por não o ver tomar o meu partido. Bastava-lhe que contasse como ontem eu tinha feito frente à malta do Lote C, e talvez eles reconsiderassem. Mas ele nada disse, juntou-se a eles. Estou furioso com ele. Isso nota-se e serve para ele cochichar qualquer coisa, lá no meio do grupo. Sei que é sobre mim – oiço os risos - mas não sei o que ele disse. Estou afastado uns dois metros deles, uma distância agora intransponível, por isso, o que eles falam, torna-se ininteligível para mim. Sinto-me mesmo muito sozinho.
Chegou a hora do lanche. É a minha última oportunidade, mas mais uma vez não consigo. Aquilo é muito alto, é alto demais para mim. Começamos a destroçar. Eu retorno para casa sob um insinuante coro de troça. Estou envergonhado e sinto-me frágil. Mordo o lábio para não chorar, que isso ainda agravará mais a chacota que já sinto sobre mim. Agora o alívio de chegar a casa. A Srª Bia pergunta-me porque choro enquanto me dá o lanche. Mas eu estou chateado, não respondo. Não respondo a ninguém. E está-me a custar imenso estar ali, a tomar o lanche com o meu irmão. É dele que esperava auxílio. Eu ainda sou muito pequeno, e ele já é grande. Devia estar do meu lado.
...
A minha mãe está enfurecida. Nem repara a força com que carrega no algodão. Ardem-me imenso os joelhos, e assim ela não está a ajudar nada, mas nem me atrevo a queixar. Pergunta-me insistentemente sobre o que me passou pela cabeça para ir lá abaixo já ao cair da noite e atirar-me daquele muro altíssimo. E que se me tivesse aleijado a sério? Assim, sozinho, quem haveria de dar comigo? Eu ainda tento explicar que era uma aposta, nada mais me ocorre para explicar a importância que aquilo tinha cá dentro de mim. Mas ela não percebe as minhas palavras, não percebe como aquilo foi importante para mim, nem tem orgulho em mim. E ver-me assim tão insuflado ainda a encoleriza mais. Dobra-me o castigo. Sorrio indisfarçavelmente - àquele castigo sinto-o como o reconhecimento da minha façanha. Está furiosa. E eu não lhe consigo explicar que gosto muito dela, que me sabe muito bem tê-la ali a tratar de mim. Que nestas alturas ainda gosto mais dela.
O meu irmão está lá ao fundo, a ver televisão. Mas sei que olha pelo canto do olho. Também agora ele finge que não é nada com ele. Que nada sabe do assunto. Sei que ele agora me admira um pouco, mas também sei que nunca mo dirá. Eu não vou dizer aos nossos amigos que saltei, estou chateado com eles, mas queria imenso que ele lhes contasse isso. Mas sei que ele não o vai dizer. Agora que já me sinto melhor (e não precisei dele para nada), já só me falta acertar contas com ele, ele vai ver - quando sair desta cadeira, vou directo ao quarto e escondo-lhe o comboio que ele tanto gosta. E não lhe vou falar pelos menos durante 2 dias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (15)
fevereiro 25, 2005
Batatinhas congeladas? Bahhh ... as coisas que nós pensávamos!
Há pouco, a interpor o jantar com a futebolada (ah grande Sporting, ah que grande jogatana). Entretanto chegam os pratos pedidos, o odor quente a lembrar-nos da fome, a disputar a nossa atenção. Pouco depois a Eufigénia comenta, talvez com o propósito de nos aproximar ao talher:
- Que belas batatas. Estas são a sério, das genuínas!! - Abstraído, acabei a provar uma, tacteando-a com os dedos, que os olhos, esses presos na tela grande. Noto-me a assentir, mas achar aquilo estranho sem saber porquê (genuínas?). A expressão, depois a minha anuência, ficam-me como um despropósito. Impulsivamente lanço-me a rebobinar. Cinco anos, dez, vinte, vinte e cinco anos …
Estávamos por ali, no quarto da P., a acabar a tarde, longe ainda de acabar aqueles tempos de estudante que nos deixavam assim, entretidos a acabar a tarde assim. A irmã tinha acabado de chegar do primeiro ano matrimonial, vinha de um território nórdico e de um marido repórter. De férias de ambos, presumia. As nossas atenções viravam-se naturalmente para as suas histórias daquelas terras vickings tão distantes que quase místicas. Falava-nos de hábitos estranhos, agora, pormenores culinários. E desabafava
- … Mas o pior nem é isso. O pior é mesmo a comida. Aquela gente nem sabe cozinhar.” - E perante a nossa interpelação no olhar, calada, para não interromper
- Aquelas matronas suecas comem sempre o mesmo e compram sempre tudo feito. Vejam lá o ridículo, até as batatas fritas compram já descascadas!” Aí ninguém se conteve em largar um “Ãhh??”. E lá continuou detalhando
- A sério! Eles compram as batatas já descascadas, e congeladas. A única coisa que sabem fazer é pô-las a fritar, e mesmo isso … aliás, tudo aquilo é congelado.”
Pensarmos que aquele era um país bem mais avançado que o nosso, - e no que isso nos sugeria a probabilidade de tal representar, melhor, antecipar, o nosso futuro - e vermo-nos ali a comer batatas congeladas era inconcebível, ridículo até. Não alcançávamos a imagem de um belo bitoque ali esgalhado na molhança já usada da frigideira, que não viesse acompanhado daquelas batatinhas semi-queimadas-semi-cruas, cortadas pelo defeito e com aquele seu saborzinho de coisa que cresceu na terra. Era uma imitação tão surrealista que cada vez ríamos mais desprendidamente. Provavelmente alguém terá arriscado fazer humor ao antever-nos dali a 25 anos a lançar elogios por trincarmos uma batata frita das “nossas”. E ríamos do absurdo. Outro terá até imitado dentro desse registo de humor a nossa expressão a comentarmos espantados "- Que belas batatas. Estas são a sério, das genuínas!!”.
O que a gente ria naquela altura. Do que a gente ria naquela altura.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:20 AM | Comentários (6)
fevereiro 14, 2005
Um "115" para este lanchinho por favor
A propósito deste post, e da atrapalhação humorada da Catarina, veio-me à memória um episódio da minha juventude, dramático mas caricato. De facto o pânico tolda-nos muitas vezes o discernimento. E se bem que em adultos, por culpa dos acidentes e incidentes da vida que vamos acumulando, nos tenhamos de alguma forma treinado para lidar com isso, quando ainda jovens, é natural que ocorram cenas tão caricatas quanto esta que agora recordo.
Teríamos aí uns 13-14 anos, idades sôfregas, em que as tardes pareciam intermináveis e a fome insaciável. Foi pela combinação destes dois factores que acabámos por alternar as nossas brincadeiras de todos os dias, na rua, com faustosos lanches em que nos esmerávamos não apenas na deglutição, mas também na confecção. Aliás, creio que em determinada altura esta terá sido mesmo a nossa actividade mais importante, ou pelo menos, encarada mais a sério. O deleite com os lanches era tal que rapidamente nos fizemos mestres da cozinha. Já não nos bastavam as carcaças com manteiga, nem mesmo se depois polvilhadas com “Milo” a fingirem-se de chocolate, nem já com o açucareiro generosamente despejado por cima considerávamos agora razoáveis estas variantes que durante anos nos haviam bastado. Não, os nossos lanches exigiam já um nível de sofisticação tal que aquele que não trouxesse consigo alguma arte culinária fatalmente se veria ostracizado daqueles repastos. Devo ainda dizer, para que melhor percebam a enorme avidez que por ali andava que na maior parte das vezes recorríamos ao estratagema de lanchar em casa de um, até sermos escorraçados da cozinha, para logo de seguida nos fazermos falidos de fome em casa de outro e assim repetirmos a dose. Com aquelas hormonas não havia fome que se saciasse ou gula que se atenuasse.
Estes nossos dotes, tinham sido treinados de forma esmerada e especializada, embora não se constituíssem em mais do que 3 ou 4 alternativas ao lanche. Foi por essa altura que me especializei no bolo de bolacha que ainda hoje sei fazer e vejo gabado, pois pudera. Era tal o gosto que tinha pelo mesmo que depois de feito o escondia com sovinice na arca frigorífica ao abrigo dos meus 5 irmãos. Ainda assim, numa tarde era bem capaz de o devorar todo, por vezes sem mesmo dar tempo a que este absorvesse o refrigério necessário para a sua consistência. Numa tarde comia-o sozinho e por inteiro, e nem por isso menos pronto para o reconfortante jantar que se avizinharia. Essa guloseima era a arte com que eu me apurara e que naturalmente partilhava naqueles lanches de grupo. Mas havia outras.
Estou a lembrar-me por exemplo que outro, o M. creio, se tinha especializado em fazer açúcar caramelizado. Bem sei que é coisa simples, mas ali a arte estava nas proporções do açúcar com a água, ou melhor na desproporção. Havia que abusar no açúcar de tal forma que o caramelo final nunca chegasse completamente a endurecer. (é isso que se chama de ponto de rebuçado?). Depois era só esperar pelo tempo certo (mais uma vez a técnica), deitar aquilo sobre o tampo de pedra da cozinha, chegar para junto os bancos e as colheres, e regalar-nos com aquele visco delicioso durante um conversado lanche.
Recordo que o F. se tinha especializado em ovos mexidos. Também aqui nesta arte aparentemente simples havia ciência, e muita. Os nossos ovos não eram iguais aos outros, e se bem que a técnica tivesse sido descoberta por mero acaso, muito nos orgulhávamos dela. A sua manufactura pressuponha uma intencional hesitação, para desta forma repetirmos com rigor o processo original, pelo qual, por mera casualidade, tínhamos descoberto tão apetitoso resultado. Assim, primeiro vertíamos o ovo como se o quiséssemos estrelar, depois, quando as suas claras começavam a esbranquiçar, mexíamo-lo rapidamente para que o mesmo resultasse numa mistura deliciosa entre as claras e a gema, entre o branco e o amarelo. Esta arte só podia ser executada na cozinha do F. pois era ali que se encontravam umas frigideiras de barro, estas suporte essencial para a nuance pretendida naqueles ovos com que depois encharcávamos os pães.
Pois bem, ou porque era isso que nos tinha apetecido inicialmente nessa tarde, ou porque muito provavelmente já tínhamos sido escorraçados de outras cozinhas (escusado será tentar descrever o estado lastimoso em que normalmente deixávamos as cozinhas, pelo que as repetidas retaliações das nossas mães tinham de ser geridas com parcimónia de entre as várias casas disponíveis), foi em casa do F. que aportámos o apetite desse dia.
Apesar das nossas preocupações quase profissionais nestas lides, nem por isso deixávamos de estar receptivos a alguma inovação. Foi assim bem acolhida a sugestão que alguém, creio que o irmão do F. trouxe de novo. Arriscámos experimentar então nova ementa. Esta variação passava por ser qualquer coisa como uma massa que se levaria ao óleo a fritar, para depois se fazer rolar em tanto açúcar quanto a conseguíssemos recobrir. Admito que o resultado final viesse a ser parecido com uma fartura, ou um churro como também se diz. Nunca o pudemos confirmar de facto.
Enquanto se preparava a massa deixáramos o óleo a aquecer, que se queria bem quente, ao que ele nos dizia. Depois, enquanto fazíamos os rolinhos continuámos a deixá-lo a ferver, aqui já por distracção. Entretanto borbulhava já, e nós continuávamos a preparar uma travessa inteira, com o devido vagar, com aqueles rolinhos que se haviam de fritar. O óleo zumbia. Nada que achássemos estranho. E lá emprestávamos os nossos cuidados culinários, com tanta calma quanto se queria, e abusando do facto de ali por casa, naquele momento, não haver nenhum adulto importuno.
Finalmente o J., o irmão do F., aquele que trouxera a receita, preparou-se para executar a parte mais complexa e que certamente lhe traria alguns créditos em futuras lancharadas. Pleno de confiança, com um ar exageradamente solene ia explicando a técnica enquanto deitava a uma vez todos os rolinhos que tínhamos acabado de arredondar. Assim que despejados estes, o óleo, que já de si se queixava borbulhando de tanto calor que lhe houvéramos dado, de imediato cresceu até verter para fora da fritadeira, respingando e zumbindo com uma raiva descontrolada.
A seguir tudo se desenrolou tão rapidamente que aqui o conto em três linhas. Assim que a espuma de óleo chegou junto do bico do fogão, de imediato ressaltaram labaredas. Nessa altura o nosso pânico era já mais que muito. Andávamos ali nos “ai, ai e agora” e já um mais expedito tinha agarrado num jarro com água e num gesto desembaraçado tinha deitado com ela para cima do óleo. Escuso de dizer o efeito que isso teve. Em dois segundos as labaredas daquela combustão precipitada chegaram ao tecto. O desacerto era de tal ordem que enquanto uns refilavam com o que tinha sido mais prestimoso, os outros corriam de um lado para o outro sem nada saberem que fazer. Entretanto os painéis de plastiglex da chaminé começavam a incendiar-se e contaminavam toda aquela atmosfera com um fumo negro e espesso. Tudo fora de controlo.
Finalmente alguém se lembrou que o melhor seria chamar os bombeiros - “alguém que telefone para o 115, rápido !! ”. O F. encaminhou-se então despachadamente para o telefone, eu seguindo-o solidariamente. De auscultador na mão, quase prestes a discar o número, ele hesita, olha para mim e pergunta: “Sabes qual é número do 115?”. Entretanto o fumo começava a alastrar pela casa inteira, e o barulho já ameaçador (e que gritos tem o fogo!) tinha afastado os outros da cozinha. Solícito, rapidamente retorno para junto deles e pergunto “Alguém sabe qual é o número do 115? depressaaaa”. Estávamos todos tão desesperados, tão imprestáveis, que quando o M. respondeu “Ó pá, vejam na lista telefónica caraças, e não se demorem. Rápido!!!”, o achámos com um enorme sangue-frio.
No dia seguinte, enquanto constatávamos que ainda assim aqueles churros apenas tinham custado afinal pouco mais do que o estuque do tecto da cozinha e uma pintura em algumas assoalhadas, e apesar do ar compadecido que tentávamos junto dos adultos, ainda ouvíamos entre nós alguém a rir baixo “qual é o número de telefone do 115? Qual é o número de telefone do 115? …eheheh”
NOTA: Naquela altura o número 115 era um número universal que se prestava para qualquer tipo de emergência. Mais tarde foi mudado para o 112, este vocacionado ao que creio só para atendimento de urgência médica. Quer isto dizer que se tiverem um incêndio durante o lanche é mesmo aconselhável irem procurar o nº tel. à lista.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:25 PM | Comentários (9)
fevereiro 05, 2005
Um bando de miúdos e um burro na cidade
Era um burro velho e manso, com umas enormes pestanas, que algum de nós se lembrou de baptizar de Celestino. Desde o dia em que o encontrámos passou a fazer parte das nossas tardes, talvez durante umas duas semanas, não mais. Mas duas semanas, naquela altura, naquela idade, naquele verão, era imenso tempo. Um dia, no balanço que normalmente se fazia ao jantar lá em casa, acabei por referir que “estivemos a passear com um burro”, meio a medo de que mo viessem a proibir, meio excitado por me atrever a contá-lo. Mas eles sorriram, achando graça a tanta imaginação. Tornou-se assim um lugar comum ao jantar, eles perguntando sobre o “e o burro, hoje”, eu lá contando os últimos episódios. E depois eles entreolhavam-se, sorrindo. E lá fui desembrulhando a história, todos os dias um pouco. Confiava-lhes que o tínhamos encontrado num baldio, e identificava o lugar com rigor, ali perto de casa, sítio comum num bairro em construção. E todos os dias eles ficavam a saber um pouco mais do burro. Sabiam que se chamava Celestino e normalmente era já assim que me interrogavam no inicio da conversa, “então e o Celestino, está bem?”. E desenrolava-se mais um pouco daquela história, ouvida atentamente quando lhes contava como todos os dias o íamos buscar a uma estaca, e como ele já nos tinha ganho confiança, seguindo-nos, já nada renitente como da primeira vez. Perguntavam-me se ninguém achava estranho, andar assim com um burro em plena cidade. Eu não lhes percebia a estranheza mas sempre lhes ia confidenciando que por acaso naquele dia tivéramos de fugir a um polícia que nos chamava ao longe, e de como tínhamos conseguido esconder o Celestino por trás do prédio da drogaria. Eles escutavam tudo com algum encanto, deliciando-se nos pormenores, no nexo que todas as descrições faziam, naquela história de um burro com um bando de miúdos numa cidade que todos os dias se prolongava um pouco mais. “E que come ele” perguntavam. Aí interrogava-me também, pois que nós pouco lhe dávamos, mas que com certeza o dono, o homem que o tinha preso lá na estaca, no baldio, havia de tratar dele, quando nós por lá o deixávamos ao fim da tarde. Por vezes a minha mãe achava-nos algum exagero já, “que também não é preciso andar com o frasco de mercurocromo atrás, que podem bem brincar sem essas coisas”. E eu lá lhe explicava que era para curar uma chagazinha que o Celestino tinha por baixo da perna esquerda. Acabava por condescender, sorrindo, com avisos de cuidado. Naquele verão, todas as tardes a seguir à escola lá íamos buscar o Celestino, e com ele passávamos aquelas horas que se estendiam até ao lanche. Ele seguia-nos já naturalmente, dando as mesmas voltas, quedando-se quando nós nos sentávamos em alguma escada, seguindo-nos as brincadeiras com a cabeça, e por ali ficava no ócio connosco, com aquele olhar meigo, tendo-nos como companheiros. Depois vinha o lanche, outras obrigações, e lá o íamos deixar preso à estaca de novo, já com saudades, inquietos pelo dia seguinte. Uma noite viram-me tristonho, e já na sobremesa questionaram-me. “Foi o Celestino dizia-lhes, já lá não está. Tenho medo que tenha morrido”. E eles entreolharam-se, inquietos, sabendo-me magoado: “deixa estar, olha porque não passam a brincar com leões, ou veados, hás-de ver que hão-de encontrar outro bicho”. Nunca mais voltámos a ver o Celestino, aquele burro velho e meigo, e as conversas ao serão acabaram por deixar de o trazer, de perguntar por ele. Ainda hoje me lembro dos seus olhos tristonhos, aquelas pestanas enormes, a mansidão com que matava as horas da tarde connosco. E ouvia os meus pais contaram aos amigos, aos meus tios, da imaginação com que eu durante dias a fio, trouxe o Celestino para as conversas da mesa. Nunca os contradisse, nem mesmo em adulto. Afinal, que importância teria ser fantasia ou realidade. Hoje, quando por lá passo, já não há baldio nenhum, nem um bando de miúdos e um burro. Há apenas pressa.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:46 PM | Comentários (5)
fevereiro 02, 2005
O nosso “Palácio do Beato"
Luna, cá descobri o texto a que exageradamente o MB se referia. Remonta este ao ano de 2002, quando encontrámos a casa onde agora vivemos. Esta cartinha propunha-se não só fazer a apresentação “técnica” da casa, mas também exaltar os justos e merecidos agradecimentos ao empenho que de todos os lados sentimos para podermos vir a ter aquele como o nosso tecto.
Porque também visava implicar à força algum voluntariado para a mudança da mobília, no seu final aludíamos (hoje reconheço que um pouco irreflectidamente) a um convite para sermos visitados nesta nova paragem. Mal sabíamos então que esse simples gesto iria acabar por se ver sucessivamente inflacionado nas conversas de amigos, até se transformar numa prometida festa de inauguração deste nosso “palácio do beato”.
E não é casual que aqui refira este pormenor, pois incumprida essa promessa - e envergonhadamente aqui o reconheço - temos vindo a ser vítimas de permanentes insinuações e impropérios daqueles que assim se viram defraudados da expectativa de uma festa de arromba. Prova disso é o comentário que o JPT, um dos nossos mais acirrados e persistentes censores, acaba de fazer no post imediatamente antes deste (abaixo transcrito), e isto já 3 anos depois.
"pois, pois, mas isto tudo parece-me é desculpas (de maus pagadores) para a ausência de uma verdadeira festa de inauguração do Paço Oriental (finais de Junho? assim para o início de Julho?). O Eufi (meu Deus, ao que se chegou) arruma a casa e lava as pegadas na parede"
- JPT
[E segue então texto original, longo já se vê, que a casa é grande]
"Este ultimo terço da nossa vida, temos andado a saltitar por Lisboa, sempre na esperança de encontrar o berço desejado para a família, mantendo o sonho de um dia a fortuna nos sorrir, e então sim, desafogados, podermos finalmente arrumar a nossa mobília para o resto da nossa vida.
Ao primeiro rebento criámo-lo para os lados do Rato. O segundo, 3 anos depois, sorria roliço para os seus biberões no bairro de S. Miguel. Presentemente, aos dois, temo-los feito espigar lá para as bandas do Campo Pequeno. É curioso, quando os temos, aos filhos, as etapas das nossas vidas começam a delimitar-se pelo nascimento de um, depois outro, depois a escola, e assim sucessivamente vamos criando os nossos degraus da memória. No nosso caso, poderíamos fazer o mesmo acerca das casas que habitámos.
Certo é que pesaram sempre variados motivos para esta deriva do nosso ninho: a primeira casa, esplêndida, corroía-nos de não ser nossa e exigir rendas cada vez mais insustentáveis para pagar a outros algo que sentíamos cada vez mais nosso. A segunda era abrigo emprestado - que logo haveríamos de definir a nossa vida, e os tempos que passávamos não estavam para brincadeiras por culpa de outras histórias que nada têm a ver com o tema imobiliário que aqui me traz. Não desejo isso a ninguém: viver, comer e dormir em paredes estranhas, é como acampar na vida de outra pessoa, e por tempo indefinido desabitarmos o nosso passado, e estancarmos a trajectória do futuro, em troca de uma mesa e uma cama. O terceiro não era bem terceiro, era mais um segundo e meio de tão pequeno se nos mostrava. Mas com raça, com tanta raça que, apesar de ser alugado e tão pequeno, nos foi fazendo esquecer que nos servia apenas de passagem. E por lá ancorámos por mais de 4 anos, até hoje.
Talvez porque os quarenta que tão próximo se acercam já gritem na nossa vida um desejo sedentário, ou apenas porque nos achamos no direito de ser cidadãos comuns, começámos a exigir dos nossos destinos uma casa à qual nos pudéssemos aportar sem provisório, temporário ou comprometido intuito.
E assim, quais navegantes do antigamente, lá fomos alimentando o desejo, ou melhor, a procura de casa própria. Mas, ai sorte malvada, mudaram-se as vontades mas nada alterou as nossas capacidades. Nem por distracção do destino, ou por mero acaso da sorte, nem tão pouco por justa-paga dos nossos esforços profissionais, a nossa conta bancária deixou de ter aquele seu ar elegante e moderado, se é que me entendem. E se bem que nunca nada tenha faltado a esta família, nada que pelo menos consideremos importante, certo é que só de falar em tal investimento ouvíamos as nossas moedas chocalhar de tão farto riso.
Contas feitas, os tostões inventariados, a solidária ajuda de quem nos quer bem, e talvez conseguíssemos manter este nosso alento da primavera. Mas é por estas alturas que os desejos se desdobram; parte deles continuará a repousar etéreo sob a forma de sonho, pois por outras datas virá de novo a ser chamado; a outra parte, a que sobra, define-se sob a forma de realidade, no frio contorno do que é concretizavel. Quando se quer comprar uma casa, é com essa parte que nos temos de haver.
E o que a realidade nos trazia era um quadro esmagadoramente definido, cínico, esvaziado já dos esfusiantes e inconsequentes desvarios iniciais: Um apartamento, num bairro que nunca seria o nosso, num prédio de 6 andares preenchido com camadas sucessivas de gente ataviada com gravatas anónimas, aportando uma honrada sala de 20 m2, com a TV a um canto a cantarolar baixo por causa dos vizinhos, a mesa de jantar recolhida esperando visitas para então desalojar os sofás, os champôs, desodorizantes e pastas de dentes eterna e desesperadamente à procura de um incabimentado armário na esconsa casa de banho. Lá em baixo o carro, com o seu dístico de residente, finalmente latejando a sua raiva de 5 voltas ao quarteirão. Enfim, este complexo de classe média, confrontando-se com o que se auspiciava, de tão pouco que era ... ia mortalizando a nossa alegria inicial.
Que dizer!? Era pois preciso procurar, eu nada procurei. Soluções para a nossa bolsa havia-as espalhadas por Lisboa, com áreas relativamente económicas, eu não as queria. O nosso futuro passava inevitavelmente por uma casa própria, cuja posse me deveria fazer feliz, eu andava triste.
Pois bem, este desejo de encontrar a nossa casa foi por isso transformando-se em angústia, por razões que creio perceberem já. E de casas não vi nem uma.
Entretanto, como desde há 14 anos, cruzava os invariáveis caminhos do casa-trabalho, trabalho-casa ( gente como eu já não existe – sou um monogâmico profissional). Numa dessas idas, por estranhos desígnios que desconheço, pois nem sequer era fácil encontrá-lo, lá descobri aquela placa. O facto de ela ter sido lá colocada nessa mesma manhã – vim a sabê-lo depois, tornava tudo ainda mais premonitório. Um letreiro mal escrito sobre uma fachada cinzenta, empinado numa varanda do 1º andar - para o vislumbrar seria necessário olhar através da janela do tecto do carro, em plena condução. E apesar disso, algo me forçou a rodar o pescoço para a ver, escarranchando-a, gritando-a quase, pois foi assim que a encontrei ! Desanimado por estes dias com o que projectava poder vir a ser a nossa futura casa, dois meses depois de assumirmos esta mudança da nossa vida, e sem nada ter procurado, eis que tropeço lá para os lados do Beato, numa daquelas coisas que a vida nos põe pela frente, e que nos fazem acreditar no destino.
E finalmente eis-nos no que verdadeiramente interessa, a nossa casa. E é ela que vos quero mostrar, pois como todas as coisas que nos acontecem de significativo, reforça-nos o paladar se efusivamente contadas aos amigos. Mas não tenho daquelas sony digitais que com tantos bytes encharcam os nossos mails. Por isso terão de se contentar com uma resumida e objectiva descrição técnica:
Ao ritmo do dia, pois muito a casa vive da luz, assim se conta ela.
O Sol, pela sua fachada de oriente nasce lavado pelo rio, e assim cristalino da manhã se derrama para dentro das três varandas. Essa é a face da casa que nos atrai quando o dia se levanta, e na qual alojaremos os nossos quartos.Debruçarmo-nos sobre ela, é fugir do reboliço da cidade que se passa lá longe, por detrás de nós. Acorda-se, e ainda na cama as ramelas da noite nos é dado lavar pelo fio do Tejo ao fundo ... acorda-se bem naquela casa.
Mas sobra ainda em tão luminosa fachada uma assoalhada para fazer escorrer o dia ao longo de três outras partições, divididas generosamente por paredes altas, até encontrar do lado oposto uma sala mais ampla. O dia corre, o sol desenvolve a sua trajectória e a tarde vai-nos puxando para esse outro lado da casa. É nessa assoalhada maior que nos anicharemos no Inverno, à beira de uma lareira, que aí irei construir. No final do dia, é também por esse lado que o Sol se espanta, e enquanto se dissolve em sombras no logradouro acederemos ao pátio, prazenteiro lugar que acresce à casa, por essa sala. Mas se tão pouco nos aprouver deixar o recato da sala, deixaremos que seja a portada que por aí abriremos a trazer-nos um pouco do dia, fazendo ainda de maior aquilo que em tamanho nos basta.
Agora, ao fim da tarde, o declinar do dia traz de volta o Sol, mais cansado mas não menos bonito, pintando-se pelos 5 metros de alto daquelas paredes, e assim retorna teimoso, pela casa dentro, percorrendo as oito abusadas assoalhadas, agora em sentido inverso.
Depois chega o crepúsculo. E que melhor hora haverá para se compreender uma casa com mais de um século? As histórias que tem para nos contar, inaptos, apenas as sentimos em forma de tranquilidade. Raça, cachet, boa traça, tudo não passam de adjectivos que nós - perecíveis humanos - aplicamos quando sentimos que uma casa tem vida própria, mas não o ousamos referir por temor do ridículo.
Mas não é só pela especialidade desse momento que o findar do dia é hora desejada. De tanto tamanho de casa ainda nos sobra um sótão. Não um sótão qualquer, mas o sótão, o sótão que foi copiado dos sonhos. Que dizer daquele madeirame todo, entrelaçado no seu jeito antigo, engaiolando assim o telhado da casa. Pois convém saberem ainda que, o dia que nasce com o Sol e o Rio, naquela casa, é ali que se deve ver morrer. Enquanto não conseguir impor-lhe janelas, não o poderei sentir encharcado com a torrente do Tejo que ao fundo lhe desenha o horizonte. Por isso, contentar-me-ei em saber que do outro lado, está uma das vistas que fazem de linda Lisboa, esperando, mais tarde ou mais cedo, pelos nossos olhos.
É assim o nosso palácio, cheio de Luz, de Lisboa, de Tejo ... e nós dele!
E perguntam vocês agora: “Mas este tipo passou-se de vez, ou está só convencido que é poeta ?” As duas e uma outra justificam tanta prosa: Era só para dizer que, finalmente, quando quiserem passar lá por casa, beber um café, cigarrear uma conversa ou cravar um jantar, digam qualquer coisa pá !
Agradecimentos aos arquitectos, advogadas, decoradoras, doutores da banca, e outros entes familiares que em sorte e oportunamente nos calharam no meio deste reboliço de obras, empréstimos, conservatórias, finanças, e sei lá quê mais (e nós sempre com a mania de que fazem falta médicos na família) ...
Agradecimentos não menos àqueles que nos ajudaram a transformar velhos anseios em palácios, e a referência vai para aqueles que têm por exótica profissão andarem a ver passar aviões, e em especial suas mães ...
Agradecimentos finais para todos aqueles que, não o sabendo, ainda nos hão-de ajudar a carregar com a mobília às costas."
Maio de 2002
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:40 PM | Comentários (15)
janeiro 29, 2005
Entre estudante mandrião e astuto criminoso – parte 1/3
Ainda um estudante honrado, embora já adepto da sornice
L á, na instituição onde me formei era identificado por um número mecanográfico, o 26607. Não um nome, nem uma alcunha, apenas um lugar nas pautas. Poderia agora devanear sobre a relação pedagógica que (nunca) tive com aquele Instituto, ou sobre a diferença entre formar, ensinar e apenas seleccionar. Ou ainda sobre o aviltamento de se fazer esta selecção apenas com base no princípio da exaustão física e psicológica, ignorando por absoluto as capacidades intelectuais de quem assim se viu prematuramente expurgado das suas aspirações profissionais, precoce e desonestamente derrotado.
Mas não o vou fazer, não vou falar desta escumadeira ostracista que ousou transformar os 150 alunos ainda envoltos na auréola do mérito de se verem aí seleccionados, orgulhosos de se saberem assim entre os mais promissores do ensino técnico nacional, capazes e pujantes intelectualmente, em pouco mais de 40 escanzelados, socialmente inaptos, psicologicamente falidos, inseguros, raivosos e deformados diplomados. Exagero? Raiva? Talvez. Afinal eu fui um dos sobreviventes, é natural por isso que não aborde a questão com muita objectividade.
E não vou falar sobre isso porque, precisaria de muitas linhas, de opróbrios que me valessem, e porque não é isso que aqui me traz agora. Para o efeito consideremos que de lá, conservo o título, o número, a medalha, e esta sensação de … bem, passemos então à história que aqui venho recordar.
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P or estratégia (*) ou desajustamento, todas as cadeiras daquele curso eram difíceis, e nisso faziam-se competir, quais concorrentes no ranking de alunos a si aferrolhados.
(*) Recentemente, agora lidando com o meio docente, vim a ouvir da boca de um professor catedrático uma explicação indesmantelável para este absurdo grau de severidade - e faço notar que estamos a falar de um regente de cadeira. Justificava-me ele então que o incongruente de tudo isto era o facto de os Departamentos verem as suas dotações orçamentais proporcionais ao número de discentes. Quer isto dizer que a pujança, a dimensão, a influência de cada um dos departamentos na Universidade se fazia sentir pelo número de formandos que em cada ano lectivo se notavam inscritos nas suas cadeiras, e para o qual contribuía naturalmente o número de reprovações do ano anterior… o resto do raciocínio deixo-o para vós, que a mim até me arrepia prosseguir.
Mas ainda assim era possível classificá-las por níveis. As piores eram os cadeirões a que eu chamava os “vórtices de gente”, pois neles faziam confluir estudantes do primeiro ao quinto ano, tal era o grau de intransponibilidade. Vi bastantes colegas deixarem-se desesperar nesses degraus mais custosos, insistindo, investindo as suas capacidades de forma obsessiva, e depois terem o cobro de tal esforço, um ano estafado, desperdiçados outros compromissos, os académicos e também os pessoais. Eu, quando encontrava esses cadeirões, apostava em estratagema contrário, ignorava-os, e espraiava o meu esforço pelas outras cadeiras, estas mais acessíveis, alcançando um razoável grau de aproveitamento. Aos cadeirões logo os veria, em segunda época provavelmente.
Aliás, desde cedo tinha percebido que me era favorável investir em esforço num período concentrado de tempo, durante o qual hibernava para casa da minha avó de quarentena para os exames, e assim usufruir do restante ano para outros “amores” que não apenas o dos compromissos académicos. Esta minha estratégia permitia-me assim conduzir-me numa vida de juventude suficientemente libertina para ser considerada normal, e daí recolher resultados medianos, estes suficientes para as minhas (pouco ambiciosas) pretensões académicas. Folgava-me durante o ano, para me investir somente em períodos próximos dos testes e exames, e esta sempre me pareceu escolha justa e acertada. E assim lá fui escorregando, patinando, saltando, ultrapassando, superando, tropeçando, enfim, lá fui resolvendo o meu repto académico, pé ante pé.
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M as havia um tipo de cadeiras que se manifestavam mais complexas de gerir, porque não era possível adiá-las, nem ter-me por ausente delas. Essas cadeiras obrigavam a trabalhos práticos, que não muitos, mas custosos. Aqui a estratégia era necessariamente diferente. Fossem estes trabalhos individuais ou colectivos, eram desenvolvidos com um grupo de colegas, o mesmo sempre. O princípio era simples, tratava-se do princípio da especialização. Cada um de nós fazia-se conhecedor de uma matéria em particular, e resolvia assim os percalços de todos, quando os trabalhos incidissem nesse seu domínio. Era um pacto interessante, em que cada trabalho calhava alternadamente a apenas um de nós, aliviando os outros do mesmo, senão apenas para preparar a sua defesa, e só quando este a implicasse. Era um método interessante, especialmente para um ardiloso cábula como eu.
Pois bem, a mim tinha-me calhado em ‘sorte’ o trabalho de “Calculo numérico”. Aparentemente nada de muito grave, embora aquilo se baseasse numa linguagem de programação execrável e inútil – o Fortran IV (bem sei, linguagem científica, etc, que me desculpem então os puristas). Só que a minha missão começou a revelar-se mais complexa à medida que me fui apercebendo das condições que dispunha para a sua realização.
Na primeira metade dos anos 80, a Universidade técnica mais faustosa do País, dispunha de condições informáticas primitivas. (Devo fazer justiça e lembrar-vos que os micro-computadores eram por essa altura objecto de visitas de estudo, e o Spectrum ainda se estava por revelar - é curioso notar que estamos a falar de há pouco mais de 20 anos atrás). Pois bem, os trabalhos de programação, ali, eram trazidos em caixas cheias de cartões perfurados até junto de um guichet a que pomposamente chamavam de “centro de cálculo”. Este, ao que se dizia, tinha um dos mais bestiais monstros do processamento informático em Portugal, e que até com irmão – exagerava-se com orgulho – na própria NASA. À janelinha assomava sempre um tipo de cara enlutada, (admita-se, escravo humano da máquina), que recolhia o nosso trabalho, devolvia uma senha e voltava para dentro sem um resmungo ou esgar. Nesse repente, pouco ou nada vislumbrávamos daquela gigantesca máquina que se alimentava com um apetite voraz dos cartões entregues. Normalmente, só no dia seguinte, nos era dado o resultado de tão prodigiosa mastigação. As tão desejadas listagens do programa e os resultados da sua execução.
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A parte mais custosa deste trabalho não residia contudo aqui, nesta fase em que o trabalho era finalmente processado, mas sim na perfuração de cartões que a antecedia, processo quase fabril e que explico de seguida.
Sem redes informáticas nessa altura, nem tão pouco microcomputadores, era necessária tecnologia que permitisse levar os nossos imberbes algoritmos até ao colosso informático, e por alguma via, destes o fazer alimentar. Para isso, as instruções de programação eram passadas, linha a linha para cartões perfurados, os quais, por leitura óptica eram assim interpretados pelo monstro. Tratava-se de facto de um processo mecânico, costureiro. O dedilhar sobre as teclas de uma ferrugenta espécie de máquina de escrever, permitia punçonar os cartões. Estas perfurações, codificadas, dispunham então à sua tradução. Cada instrução era trauteada num cartão, e estes, arrumados em baralho de cartas de forma não indiferente, formavam a lógica sequencial de um programa, ao ser lidos. (Como me vejo velho na estupefacção daqueles, aqui mais novos, ainda não acreditando que a um fascículo de cartões também se pudesse chamar de programa)
Mas o trabalhoso de tudo isto não era apenas este mister “jacquardiano” do picanço, do qual não conseguíamos disfarçar o rubor – nós, futuros engenheiros de um futuro parido já da electrónica que viria – de nos vermos servis de uma tecnologia herdada do séc. XVIII. É que para aqui se chegar, a esta tão arcaica programação, era preciso ultrapassar uma série de ‘nuances’ logísticas, que no seu cerne se deviam na razão de existir uma maquineta por cada 500 alunos daquele estabelecimento. Eram milhares de alunos, todos eles coincidindo-se na urgência do trabalho, no final de cada semestre. Disponibilizar 10 perfuradoras de cartões a tanta gente, e tão desesperada, era submeter a prova extrema de civismo até o mais urbano estudante. Tormentoso não era apenas aquele trabalho de teclagem, quase tecelagem, mas sim o conseguir lá chegar.
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E ra por isso fundamental ter uma equilibrada constituição no grupo de trabalho, cada um ocupando-se de diferentes competências. A começar por alguém com elevada capacidade de persuasão, e depois um outro elemento de grande disponibilidade física para quando o primeiro falhasse na sua argumentação, estes dois trabalhando em equipa. Finalmente, depois de alcançado o posto de trabalho, vinha o operador à cena, indivíduo que se queria pleno de destreza, de preferência sem ambiguidades para com as teclas, e com um invejável grau de resistência, quase hercúleo, pois que não raras vezes um trabalho era começado ao serão e só se terminava por altura do almoço do dia seguinte.
Aqui as coisas complicavam-se para mim, pois recordo que me encontrava sujeito a um pacto de grupo, este fazendo-me agente exclusivo deste trabalho, pois que noutros já havia folgado. Tinha de trajar assim as várias figuras que se alternavam até ao sucesso de toda esta façanha, e sozinho. Disputei pontos de vista, empurrei e fui empurrado, acalmei à direita, e excitei impropérios à esquerda, durante largas horas fiz-me valer de múltiplos argumentos, estoicamente, até me ver próximo da maldita perfuradora. Mas aí já não absolutamente só.
Horas antes tinha chegado até junto de mim, com aquele passo miúdo, timidez de nem se fazer ouvir, a L. Na altura estava justamente fazendo valer o meu lugar na bicha e gritando que me estava marimbando para aquela argumentação de lugar aos mais velhos. Ela tão franzina, nem a notei no meio dos vitupérios. Por fim, com a sandes pela frente dos meus olhos, lá se fez notar. Dizia que vinha a recado do J., um dos meus colegas de grupo, e que ali me trazia uma sandes para mitigar tanta hora de abstinência. Mal a conhecia, tinha-a visto de facto acompanhar o J. aqui ou ali, mas nada mais. Naturalmente fiquei-lhe reconhecido, e fiz-lhe sentir isso. Talvez por isso, julgava eu então, ela lá se ficou por perto, fazendo companhia, pouca é verdade, que ela tímida e eu sorumbático.
--//--
Q uando dei por ela de novo, insistia que trataria daquilo, que eu não me preocupasse, que ela estava habituada e eu precisava era de ir descansar, que já se via que nem olhos tinha para as teclas. Fiquei abismado com tanta amabilidade. Aproveitei-a, sentia-me de facto incapaz para o que quer que fosse. Curioso agora rever que, apesar de tanta generosidade, nem assim lhe ganhei simpatia.
Ainda por lá passei uma ou duas vezes naquela noite, creio que por me sentir abusivo. Depois, convidado a isso várias vezes, acabei por me ir deitar. No dia seguinte logo me daria(deu) a senha da entrega dos cartões lá no “centro de cálculo”. Fiquei a agradecer, fiquei de agradecer também ao J., e lá fui ao descanso.
E foi assim que conheci a L. Desengane-se o leitor se julga que daqui se seguirá uma história de amor ou amizade. Pois que tão invulgar é a forma como a conheci, o exagero da disponibilidade, como inédito é o fim da história, se bem que hoje veja ambos os momentos entrelaçados. Esta não é história de amor, e talvez espante se disser que quando muito será história de terror.
(continuará)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:48 PM | Comentários (8)
janeiro 25, 2005
Memórias numa sala de espera
Há quanto tempo não ficava assim, brincando com o tempo, apertando as pálpebras de encontro ao sol, admirando-o pelo vermelho forte com que ele as pinta por dentro. Depois cerro-as com mais força, e distraio-me a ver-lhes as estrelinhas a cirandar no vácuo das órbitas, naquele fundo quente e encarniçado. E depois estas, aliviadas já da pressão ficando só piquinhos, até tudo voltar a ficar vermelho outra vez …

… é bom fechar os olhos assim, e ficar a ver o vermelho apenas. "Ãhh, ... sou eu sim, humm ... desculpe mas acabei a passar pelas brasas, já posso entrar? Como está Sôtor ... é, é este molar outra vez"
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:19 PM | Comentários (10)
janeiro 20, 2005
Alguém viu as nossas minhocas ?
Vêm estas memórias a terreiro (termo bem próprio para a história que se segue) depois de um comentário que em trocadilhos de juventude ali fazia com o JPT. Recordava que:
“A última vez que ofereci os meus préstimos foi aos jovens agricultores que acabaram em banheiros de praia lá para os lados de Sta Cruz. Era mata de eucaliptus e nós aos pares, um de serra eléctrica na mão o outro segurando a vítima. Pois o bronco que comigo emparelhava, faz-me um lanho que vai calça, vai pele e quase ia tudo. Fico branco , "mas...mas..." ainda balbucio, de tronco na mão. E ele impávido, "desculpa aí. Olha ali outra".”
Diverti-me tanto a recuperar esta situação com as outras partes que lhe sucederam e a repescar cada um dos seus episódios, que aqui me incito a contá-la, agora por completo.
Estávamos naquela idade em que a nossa condição civil se começava a dividir em 2 facções no grupo de amizades, os que começavam a trabalhar, e os que continuavam a estudar. Os primeiros lamentavam-se de se verem precipitados para uma vida de obrigações, os segundos invejavam os primeiros pela independência que assim atingiam, alcançando ao mais cedo aquele grande anseio da nossa adolescência: a emancipação. Havia ainda uma terceira facção, mais diminuta, a dos que começavam a casar, mas esses não justifica aqui fazer notar. Primeiro porque só bastante mais tarde, quando acabámos por juntar a nossa condição à deles é que voltámos a partilhar os mesmos programas, e depois porque esta história está muito longe das fraldas que por aquela altura eles deveriam estar a manipular.
Pois bem, três de nós, aqueles que se encontravam na primeira condição, com elogiado empreendorismo, decidiram associar-se num projecto agrícola. Estávamos na altura dos subsídios à agricultura (nesta fase os de semear, só depois vieram os de arrancar), e a sua condição juvenil ainda favorecia mais as condições de candidatura e empréstimos.
Tinham decidido implantar o projecto lá para os lados de Torres Vedras, aparentemente por ser zona que lhes era comum além de que, como é sabido, é área de bons solos. O local escolhido ficava perto da praia de Sta Cruz, e se refiro a praia para além da localidade, é porque esta não será indiferente ao desfecho da história.
Arranjaram o dinheiro, arranjaram o terreno, mas não tanto a vontade de arrancar. Foi por essa altura que solidários, nós, os outros, ainda amamentados, investimos os nossos préstimos na preparação do terreno. Até porque aquilo que eles já viam como obrigação, nós víamos como diversão e a oportunidade para entremear com um mergulho na praia, e uns bons copos ao serão. Foi nesta fase que ocorreu o incidente que eu comecei por contar.
Terreno preparado, ainda sem cultivo, e já se construía uma casa. Por essa altura eu já estranhava os fins de semana prolongados por Lisboa, mas era consistente o argumento de que sem casa não havia base sólida para permanecer muito tempo, e sempre se bebia uns copos entre gente amiga, que na arte de pedreiro de pouco poderiam por lá servir.
Ao que me recordo era um projecto hortícola. Floresceu, lentamente, mas lá foi dando uns pezinhos de alface. Coisa pouca. E o pior parece que era mesmo escoar os viçosos produtos, que nas feiras de horticultura eram enxovalhados, escorraçados, apedrejados até, pois que ao que constou aquilo não era meio muito permissivo. Mais tarde, quando decidiram investir noutro tipo de produtos, lá foram confessando a uma só voz, e nisso eram solidários, que essa história de acordar às 4h da manhã, no meio da serra, no pino do Inverno, para ir vender meia dúzia de cestas no mercado abastecedor, era coisa demasiado dura para agricultores de tão elevado nível social.
De cada vez que eu lá ia, a “obra” tinha mudado, ou porque se tinham chateado com o fornecedor, ou porque afinal dava pouco retorno, ou porque requeria pequenos trabalhos de construção civil e o pedreiro não havia meio de cumprir. Certo é que aquilo não justificava tanta gente, e tanto encargo, pelo que, não sei precisar quando, entre os 3 teriam combinado que fariam a coisa por turnos. Dois retornariam a Lisboa, sendo que o outro por lá ficaria, mais de guarda do que de afazeres que nunca havia assim tanto para trabalhar. Mas este acordo era válido só para o Inverno e os frios agrestes. Pois, que no verão era ver as pranchas de surf e de bodyboard empilhadas ao lado das enxadas.
Mas não se pense com isso que era projecto abandonado. Na altura própria, que certamente não foi no verão, lá decidiram avançar com mais um projecto. A julgar pela cultura da região, era coisa garantida. Morangos. Novos empréstimos, as estufas para montar, todas aquelas estruturas, os sofisticados aparelhos para controlo do ar e temperatura, os autómatos programáveis com que desde logo me fizeram técnico especialista. Enfim, desta vez era um projecto sério.
Projecto quase acabado e comecei a ouvir uns zunzuns de que a coisa se calhar não se concluiria. Que cada vez eram maiores os custos. Que seria necessário contratar pessoal, pessoal esse que não havia. E se bem que perguntasse se eles os três não se bastavam, logo obtinha que eles eram investidores, empresários agrícolas, com outras funções de responsabilidade que não andar na monda. Certo é que tiveram de abortar o projecto. As estruturas levantadas, o material ali a monte, a terra a começar a ser preparada, mas não havia tese que justificasse que se prosseguisse no projecto.
Entretanto novo verão se avizinhava. E se aquele mister não lhes dava para o encargo, já o veraneio era bem melhor. Sol, praias, gentes e eles ali de calção vermelho, prontos a acorrer. Até nisso funcionavam em equipa. Enquanto um cumpria a espinhosa missão de por ali ficar a torrar debaixo da sombrinha, os outros lá arriscavam mais uma onda, o mais desenvolto ensaiando já um cutback que tanto maravilhava as hostes.
No final do verão começou então a adivinhar-se o projecto seguinte, que aquilo era demasiado encargo bancário para se desistir. A ideia parecia interessante, e na altura estava a proliferar em Portugal, e particularmente naquela zona. Minhocas. Nem mais. Ao que parece era um negócio em expansão, que tinha como compradores os americanos, e a estes nunca chegava o que houvesse. Para quem como eu perceba menos destas coisas, devo adiantar que não se tratava de vender minhoca mas tão somente a baba e a caca que elas produziam, e que, ao que parece, dá um dos adubos mais ricos que há, e que por sinal era pago a peso de ouro. Para além disso, as infra-estruturas - se bem que inacabadas - que tinham erigido para os morangos, serviam que nem uma luva às condições necessárias para esta nova cultura.
A parte mais problemática era mesmo a compra das minhocas. Esta tinha de ser feita junto de uma cooperativa, que impunha preços exorbitantes, resultado de um monopólio que abarcava não apenas a venda das ditas, mas também o escoamento da sua caca. Do que me lembro ainda, cada “cama” de minhocas orçava em mais de um milhar de contos, e quase afianço que na altura terão arriscado investir 2.500 contos naquele ambicioso projecto. Assim, após as férias, ou a cessação das obrigações de verão, será mais correcto dizer, lá avançaram para mais este novo empreendimento. Renascidos de motivação.
Depois de algumas visitas, fui-me apercebendo que este projecto trazia imensas virtudes. Retorno fácil, mercado em alta, aproveitamento de quase todas as estruturas que tinham sido abandonadas do projecto anterior e, mais importante que tudo, requerendo atenção mínima e trabalho quase nulo. Com efeito, pouco mais era preciso do que uma rega diária por forma a manter a terra húmida, o suficiente para que as minhocas ali se gostassem de estar. Depois presumo que seria necessário algumas operações especiais, para recolha de caca tão valiosa, mas a essas nunca cheguei a assistir.
Como referi, era projecto que lhes vestia que nem uma luva. Mantinha inalteráveis os ciclos de vida a que se tinham habituado, permitindo-lhes manter com a assiduidade de sempre as idas a Lisboa, as surfadas, e todas as outras actividades paralelas, bastando um para tratar da lide diária, esta simples como se vê. Até á primavera a coisa correu de vento em popa, depois o calor começou a apertar. Com ele um maior cuidado no tratamento dos estimados e profícuos bichos, mas também um mais alto uivo que se fazia ouvir de lá debaixo, da praia, das ondas, e naturalmente das gentes amigas, delas mais que deles. Ainda assim foram mantendo a coisa tanto quanto se podia manter.
Eu por essas alturas andava sempre em exames, e quando não, fugia a sete pés para outras bandas, normalmente o Algarve, ou senão outros lugares que apesar de oferecerem menos poiso, traziam a vantagem da maior distância e da novidade. Nesse ano, só voltei a falar com eles já em Setembro. “Então, e as minhocas?”. No meio do silêncio constrangido algum mais afoito lá foi dizendo “Esquecemo-nos de as regar”. Longe de perceber o que se pretendia dizer ainda me voluntariei: “Anda lá que eu dou-te uma mãozinha”. Um deles, um menos sorumbático: “Já não é preciso. Fugiram”. “Como assim, fugiram?”. E eles já sem paciência para continuar a conversa “Sim, fugiram porra! Desorganizámo-nos ... esse cabrão aí esqueceu-se de as regar 3ª e 4ª feira, e quando lá fomos já lá quase não havia nada. Acabou-se!”
Percebi imediatamente o que tinha espoletado. Achei mais próprio naquela altura deixar espaço para eles resolverem o problema. Até porque ter de reconhecer que nem para pastar minhocas um gajo serve, não deve ser coisa fácil. Hoje já se conseguem rir um pouco dessa história, e aparentemente todos eles encontraram ofícios menos trabalhosos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:14 PM | Comentários (22)
janeiro 17, 2005
Enriquecer dá um trabalho do caraças
A propósito deste post lá nas marés altas da vague que nos fala de um serviço de “cravanço” por telemóvel … dei por mim a recordar um projecto que em adolescente andei a apurar com um amigo e que visava … ficarmos ricos.
Tinha o essencial para ser bem sucedido, já que se baseava numa ideia muito simples: lançar um apelo a uma pequena contribuição, mesmo que simbólica, mas alargado a muita gente. Na altura não havia internet nem tão pouco multibancos, o que exigia que as pessoas despendessem algum esforço para fazer um pequeno depósito junto de qualquer balcão, ou alternativamente, conforme sugeríamos, através dos serviços do CTT para endereço postal criado para o efeito. Para estimular a acção nos destinatários, mais do que a empatia com a nossa causa, a carta teria de ser fortemente apelativa.
Trabalhámos absorvidos por este projecto durante largo tempo, obrigando-nos mesmo a interromper o campeonato de futebol no “Spectrum”. A peça fulcral, aquela em que mais investíamos, era naturalmente a mensagem que chegaria ao contribuinte anónimo. Esta, simples e honesta, referiria que éramos dois jovens e atinados estudantes, que entendiam que teria todo o sentido acharem-se ricos agora, e não apenas em fase avançada da vida, (note-se a evidente constatação de que de alguma forma estávamos convencidos de que algum dia o seríamos). E continuávamos, explicando que com o contributo de cada um, por pouco que fosse e quase sem nada custar, seria possível cumprirmos agora com a boa ventura que o futuro mais tarde ou mais cedo nos legaria. E mais à frente continuávamos no mesmo tom … pois que uma boa alma, não se vendo afortunada, certamente se aliviaria em saber que outras o terão sido, e se boa alma, insistíamos, certamente se regozijaria em saber que para isso tinha podido contribuir … e seguia o resto, ajudando o leitor a melhor se perceber beneplácito. Investíamos convictos na sinceridade como trunfo, certos de que esta colheria a simpatia necessária.
Algumas semanas depois, entendemos que a mensagem não poderia ser já mais retocada. Experimentámo-la junto de alguns amigos, e apesar do olhar incrédulo (a que não ligávamos) lá fomos colhendo destes “que a coisa estava bem escrita”, e depois uns “mas” para ali inaudíveis, pois que nós já retornados ao nosso projecto. Chegávamos então ao folheto, este pronto para dar à estampa, custeado com as semanadas que vínhamos acumulando.
Foi na fase de operacionalização que nos deparámos com um pormenor logístico de não somenos importância: para que este projecto pudesse apresentar retorno financeiro, não seria possível suportar os portes de envio. Só nos restaria então nós mesmos visitarmos as caixas de correio dos futuros accionistas da nossa felicidade financeira. As da vizinhança apenas não chegariam. O target teria de se alargar ao bairro inteiro. Mais meticulosos, confirmámos que nem assim. Teríamos mesmo de considerar os limites da cidade, ou talvez um pouco mais. E ainda assim, segundo as nossas contas, este já vasto universo não nos traria garantias de que (e tudo isto justificado com taxas de resposta, níveis médios de contribuição, etc) alguma vez na vida não nos víssemos obrigados a trabalhar, apesar deste esforço em que nos investíamos.
Este rigoroso estudo de impacto prolongou-se durante mais algumas semanas, antes de, com enorme decepção, nos obrigarmos a abandonar definitivamente a ideia. Afinal, deveriam haver formas mais fáceis (ainda que menos dignas) de enriquecermos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:52 PM | Comentários (3)
janeiro 04, 2005
A fabulosa história de um pardal meu amigo
Éramos ainda moços, e todos os seis ainda por lá vivíamos, em casa dos meus pais. O sótão era forrado de cortiça o que fazia com que no pino do sol, na canícula, quase queimasse por lá. Não era definitivamente lugar para arriscar passar por essas alturas, mas numa casa cheia de miúdos todos os recantos eram aproveitados como refúgios, e terá sido isso provavelmente que terá levado um de nós, mais desavisado, a por lá se tentar. Certo é que de lá veio com um pardalito num alvoroço vozeado.
Ainda sem penugem, naquele tom rosáceo de quase embrião, a cabecita ainda bamba, teria horas de vida, não mais, e cabia na cava da mão de uma criança. Poucos minutos teria por lá resistido certamente. O mesmo calor que o empurrara para a traiçoeira sombra do sótão, seria aquele que o sufocaria, não fosse a irrazoável ideia de uma criança subir àquelas bandas.
O restante dia foi uma excitação de conjecturas, bercinhos improvisados com o cesto do pão, do ora experimenta isto, ora tenta lá aquilo. O passarito nem se tinha de pé. Lá consultámos que a melhor forma de o alimentar seria a miolo de pão molhado. Nada. Pacientemente, um por um, lá fomos dando de comer ao bico. Pouco, mas algo, o bichanito lá se ia esforçando. Alguém nos explicou depois que teria sido impossível que ele o fizesse de mote próprio, pois aquelas membranas azuladas de transparente, ainda fechadas, dificilmente se deixariam entreabrir para um esgar sequer.
Pernoitou em farripas de algodão, e com as luzes acesas que (acreditávamos nós) o acautelariam. No dia seguinte parecia outro. Batia asas sofregamente, o bico aberto reclamando a insistência de mais comida, e os olhitos já semiabertos, brilhantes de saúde. Era notória, apenas seguindo as horas do dia, a forma quase visível como crescia.
Ao terceiro dia já lhe vislumbrávamos penugem por todo o corpo, ainda matizado de rosa, mas já uma camada macia e felpuda. Um verdadeiro pompom nas mãos das crianças que éramos. Era impressionante a forma como este bichanito se entregava ao carinho, e como que por mistério, parecia comunicar connosco. Pode uma coisita daquelas parecer que ri e pede por mais?
Na manhã seguinte apanhámos todos um susto. Nada, do pardal nem vestígios. Mas foi susto de pouca dura. Era ave canora definitivamente, e de bons genes. Era improvável não ouvir tal estribilho por baixo da mesa da cozinha. E era também impossível que ela lá não tivesse ido parar com tanto pulo frenético. Além de comunicadora e sorridente, era folgazona. E começou a andar pela casa fora, de colo em colo, de pulo em pulo. Não posso precisar, mas creio ter sido por este dia que arriscámos mudar-lhe a dieta alimentar. Primeiro estranhando, acabou deliciado com a alpista que roubámos aos periquitos, esses já sem graça nenhuma. Bichos que deviam em inteligência a um pardalito de 3 dias, nunca mais nos apeteceram.
Nesta quarta vez, para enorme tristeza dos mais novos, foi numa gaiola que passou a noite. Ele nem por isso se sentindo abatido, a julgar pelo chilrear que até largas horas (das nossas) foi ouvido. Nunca ninguém acordou tão cedo e tão rápido como nessa semana. Numa família com 6 crianças tudo é disputado, seja com louvável desportivismo, seja mesmo à estalada.
Por isso, na manhã do 5º dia, acordámos todos com os passarinhos, literalmente. E era vê-lo cada vez mais emplumado, trazendo-se até às nossas mãos. Esqueci-me de o dizer, mas em todos estes dias tínhamos o sacrifício da escola, que a par do “tens de dormir” nos interrompia a companhia do passarinho. Quando voltávamos, pouco depois do almoço, já ninguém ia brincar para a rua, como sempre era habitual. Ficávamos por ali, ora um ora outro, disputando a sua atenção. E nessa tarde foi uma loucura. As penas, ainda que curtas, já lhe permitiam desastrados voos, o bastante para percorrer 2 ou 3 metros de cada vez. E foi aqui que aquela coisinha de nada nos encantou a todos, os nossos progenitores incluídos. O bicho dava como sua aquela família, e sentia-se tão à vontade que pulava de ombro em ombro, dando mordidinhas nas nossas orelhas. Um deleite que por ali volteava e nos enchia a todos de carinho.
Ao sexto dia na casa era pássaro adulto. Desajeitado mas já ufano. E se dúvidas houvessem a forma como se movimentava por dentro da casa tirava-nos de tais incertezas. Era tal o encanto que acho que ninguém tinha pensado até então o que iríamos fazer com ele, dado que a gaiola estava fora de questão. Mas impunha-se uma decisão, por parte dos adultos. As paredes começavam a estreitar demasiado os seus voos. E com as penas tinha-lhe nascido a ansiedade de voar, de se experimentar. Nessa noite, ao serão, os meus pais tentaram palavras explicadas para explicar aquilo que para nós, tendo sempre explicação não se queria ver explicado. No dia seguinte teríamos de o libertar. A casa começara a tornar-se uma enorme gaiola, e embora fosse evidente que era ali que ele se sentia bem, pois que aquela era também a sua única realidade, todos sabíamos que o inevitável teria de acontecer.
Na manhã seguinte, conforme combinado de véspera, todos fomos assistir à sua soltura. Na parte de trás da casa, no pequeno quintal, havia um canteiro que se atravessava a quase toda a largura, e onde por aquela altura um bandozito de pardais costumava poisar e por ali andar na picadura. Deixámo-lo por lá perto. os outros fugindo, ele ficando. Depois lá volviam, desconfiadamente, retornando ao que andavam, a medir a nossa distância. Um barulho e lá partiam todos, ele quieto. Voltavam de seguida. Com aqueles ímpetos de vaga, o bando foi-o tentando no ritmo daquele vai e vem. Até que deixámos de saber qual era ele. Lá partimos então uns para a escola, outros para o trabalho, todos baralhados nas sua emoções.
Também nós julgámos que assim se teria finado esta história bonita. Mas ela quis-se lenta, em jeito de despedida. Pela tarde, não resistíamos a assomar à janela, tentando identificá-lo no meio daquela turba cinzenta. Os mais novos insistindo que era o da esquerda, os mais velhos aproveitando o gozo para disfarçar o desconsolo de nem tão pouco se terem despedido dele. A tarde escorrendo-se, e sempre um de nós dizendo “olha ele, olha ele”. O sol esmorecia, o lusco-fusco convidava a pardalagem a partir, como em todos os dias. Aos poucos fomos sentindo o silêncio que deixavam. Um-a-um lá se faziam seguir uns dos outros. Depois víamo-los lá pelo céu, por cima dos choupos em frente da casa, numa última curva de voo, esticando as asas antes de se ficarem por algum ramo para pernoitar.
Alguns já lá, outros agora partindo, os mais indolentes ainda ficando. Este tráfego durou talvez uma meia-hora. Depois acabou. Recolhemos também nós, cabisbaixos. Mas depois, súbito voltámos, estranhando aquele piu-piu que ainda se fazia ouvir. Procurámo-lo com os olhos … e confirmámo-lo junto a um arbusto! Poderia nem ser ele, mas era certamente ele. Aproximámo-nos e ele deixando-se estar. Um dedo esticado e truca, o familiar pulinho para cima da mão amiga. Nem queríamos acreditar. Este filho, tal como nós, depois da brincadeira, findo o dia, tinha voltado para dormir.
Com redobrada alegria lá gozámos a sua soberba companhia naquele imprevisto serão. Provavelmente por o sabermos, desta vez sim, como o último. Na verdade não o foi. Mas apenas por um ou dois dias mais esta cena se repetiu. Depois não voltou mais para se recolher. Nem por isso deixávamos de o visitar, todos na certeza de que ele seria um daqueles que todos os dias pousavam ali no canteiro. E todos os dias apontávamos um mais afoito.
Esta foi uma história terapêutica, contada hoje cá em casa - talvez por isso, reconheço, com um excessivo toque sentimental - mas à parte algumas lembranças mais desfocadas e que tive de ajustar, não lhe acrescentei nada de significativo. Hoje mantenho o espanto daqueles dias, pela capacidade de adaptação e pela pujança do ciclo de maturidade do pardal que por lá cresceu, mas sobretudo pelos indizíveis sinais de afectividade que se estabeleceram entre nós e um simples pardalito recém-nascido. A sua lembrança voltou-me agora mais viva com este episódio do ouriço. Tenho alguma pena que os meus filhos não tenham podido desfrutar desta experiência tão especial, como aquela que eu ainda hoje conservo do pardal que por lá aprendeu a voar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:28 AM | Comentários (11)
novembro 21, 2004
"Os pequenos vagabundos"
Hoje não havia nos Olivais Shp Center,
mas amanhã vou comprá-lo à FNAC

E já agora ...
Sente-se nostálgico ?
Tem idade próxima dos 40’s ?
Faça AQUI um exercício revivalista !
Não se esqueça de ler os comentários,
que aquilo é tudo gente documentada.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:32 PM | Comentários (9)
outubro 31, 2004
A “bilharada”
Esta não resisto a contar, mesmo sendo “puxadinha”. E o facto de ainda não saber quem escreve este Blog, ou o que quero fazer com ele, deixa-me mais descomprometido para a contar. Embora se tenha passado há mais de 4 anos, revisitou-me agora, e desta vez quero guardá-la.
Todas as semanas lá vamos ao bilhar. Um serão calmo, relaxante, e que acaba quase sempre pela meia-noite. Tudo muito conveniente para quem tem de trabalhar no dia seguinte.
Take 1
Mas às vezes não. A geometria do bilhar recomenda-nos concentração, o cigarro vem logo a seguir – ou para quem deixou de fumar, a cigarrilha. Juntem-lhe um café e naturalmente, um digestivo, normalmente um wiskie. Por vezes são dois. Quanto baste e convenha. Naquela vez terão sido 3 ou 4, não dei por isso. Quando assim é, acabamos a juntar mais um copo, no bar mesmo ao lado - simpático, com música ao vivo. Por lá emparelhamos ao balcão para negociar mais uma hora. Conversa de fim da noite. Quase sempre ficamos por aí. Á uma da manhã estamos em casa, controlando o limiar do estado razoável para quem acordará cedo no dia seguinte.
Take 2
Mas às vezes não. A música estava boa, o ambiente agradável, a conversa corria, já sem precisar de nós. Fomo-nos com o bar trancado, aí pelas duas da manhã. Ou melhor, ficámo-nos; à porta parados, continuando a conversa, a disposição, e quase jurando que a comentada cantora ainda por ali estava a bramir-se. Bastou vir a primeira proposta: “- Olha lá, não te apetece dar mais umas tacadas? Snocker Club !” – sem sequer esperar resposta – “Ainda está aberto, creio.”
Nesta altura nem me ficaria bem desconvencê-lo. A certeza de que aquilo não demoraria a fechar, dava-me o conforto que precisava naquela posição. Este programa levava-me a casa no seu fim e por isso parecia-me suficientemente autocontrolado. Seria no máximo mais uma hora e depois cama, como seria prudente e natural.
Take 3
Mas às vezes não.‘Tava-se bem. Além disso o PB queria comprar o taco mais artilhado que lá estava, e havia que experimentá-lo bem. Uma coisa linda, de Grafite, com o punho cravado de cornucópias, e com a etiqueta menos generosa da vitrine. Mas não tinha massa, não era equilibrado, e a jogar era uma merda. Fartei-me de lho dizer, mas ele olhava para o taco, fazendo mira com os olhos já encaramelados e dizia: “- Mas é lindo!”. Ainda hoje se mostra, resplandencente, lá pela casa onde jogamos o bilhar, o mais bonito de todos, fútil e preterido, coisa luxuosa que apenas serve para nos lembrar aquela noite. Eu afinal … afinal eram igual número de imperiais, depois wiskies e finalmente aguardentes. Que lhe poderia dizer? Aliás, já estávamos na fase em que nada do que se diga é muito relevante, quando muito servirá apenas para iniciar uma série de risadas ébrias.
Take 4
4 da manhã, de novo na rua, o taco de bilhar orgulhosamente oscilando na mão dele. Com mais uma aguardentes em cima o meu convencimento de que estava tudo controlado tinha-se agravado. O PB mostrava outra disposição e, convenhamos, outro equilíbrio, bem mais oscilante que o meu. Podia não saber já exactamente onde estava, mas sabia muito bem ao que vinha.
“-‘Bora aí a um bar novo que abriu ali ao pé do rio.”
“- Epá não. Até aqui ainda vou, tudo controlado. Amanhã reunião a começar, não dá para grandes falhas (…) Humm… mas como se chama essa coisa?”
“- ‘Limonada Club’. Fui lá no outro dia, é giro. Eu faço questão de pagar pá” – nestas alturas o PB é completamente emocional; há que estar preparado para as cargas de 90kg com que nos distingue.
“- Na, na, na … amanhã tenho de acordar cedo! (…) No máximo só uma hora, entãooo.”
Como sempre acontece nessas situações, transportámo-nos nas mãos dos santos. Só isso poderá explicar porque nunca nos lembramos dos trajectos nestas ocasiões. E só isso poderá explicar como é que tínhamos conseguido chegar ali, conduzidos pelo PB, o carro deixado com uma fresta para respirar dos vapores etílicos. “São 10 Euros com bebida incluída, claro”. O PB com gestos enunciáveis, de carteira na mão, fazendo questão em cumprir o que prometera. Eu, já naufragado de encontro à porta de entrada, contradizendo-o, contradizendo-me “- Recuso pagar à entrada!”. Mas por essa altura já ele se tinha ido para dentro, com a minha entrada na mão, comigo atrás
Take 5
Às 5.30h da manhã lá estava eu a escarafunchar a fechadura do prédio, semidescaído nos degraus, mas com aquele ar afidalgado de quem se compõe da intoxicação para entrar em casa. Aparentemente a minha noite tinha acabado. Lembro-me de ainda ter fixado o despertador para as 8.30h, instintivamente. E lembro-me que ainda me preocupei, submergindo à bebedeira: “A ver se o gajo chega bem a casa. Com a bezana q’estamos!!?”. Depois o mundo foi engolido por um negro voraz, absolutamente profundo.
Take 6,7,8 ... apoteose final
Encontrei-o no ressacado fim da tarde desse dia. Eu lamentando-me de ainda me ter forçado a ir trabalhar. Ele lamentando-se de o não ter feito. Os dois de caras vincadas e olhos escondidos do sol. Resmungos á beira da mesa do café. Foi aí que fiquei a saber que afinal a noite ainda não tinha acabado, pelo menos para ele. Ouvi-o estupefacto primeiro, depois ainda mais estupefacto, por razões que já compreenderão.
“- Mas tu sabes o que me aconteceu ontem, depois de te deixar em casa?”– e a partir daí começou a revelar-me, passo-a-passo, o que se desenrolou depois de eu ter desmaiado na cama.
“- Não me apetecia ir logo para casa, e ainda fui ao “Lix”.Beber o último copo, percebes?”. Este homem é o meu herói ! “- ´Tava-se porreiro e acabei por encontrar uma amiga minha, que já não via há muitos anos e…”
“- Quer dizer que chegaste lá pelas 7 da manhã não??”– onde é que estes tipos vão buscar forças.
“- Nada disso! Oh pá … depois fui levar essa minha amiga a casa.” Eu já começava a desenrolar o resto da coisa: “- Ah bom. Não chegaste sequer a tua casa afinal”
“- Espera meu! Acabámos por ficar ali no carro, por baixo do prédio dela e conversa puxa conversa acabámos aos trambulhões lá dentro.”
“- Ali no carro? Este gajooo …”
“- Oh pá, nem me digas nada. A meio da coisa ouço uns dedos batucar no vidro. Eram os Xotas." – Nesta altura eu já respingava café misturado com risos. No estado em que o via contar-me a cena, era sem dúvida pouco próprio, mas era absolutamente incontrolável. "- Acabámos na esquadra numa cena indescritível. Os gajos julgavam que ela estava a render. O resto podes calcular tu.” – tentava imaginar a cena. Depois da noite com que o tinha deixado, acrescentando-lhe os copos seguintes, adiantando o relógio em mais algumas horas, deve ter sido de facto coisa dura. Mas hilariante. “- Aquelas bestas !!! Estive lá 3 horas. Ameacei que a minha irmã era advogada, mas de nada me serviu. Formalidades e prepotências.”
Em resumo, tinha chegado a casa pelas 11h - faço ideia como. E contava-me ele, cada vez mais sorumbático, o fogo-de-artifício com que se deu o desfecho dessa noite. Parece que quando chegou a casa estava louco por ir à casa-de-banho …
“- Agora vê tu a minha noite !! Vê bem. Chego à sanita, puxo o fecho para baixo, coisa para fora, pronto para derramar dois litros de álcool …”
“- Pois, não há melhor que essa mijadela”– dizia solidário, perante uma conversa que em meu entender se detalhava agora desnecessariamente.
“- Não estás a ver. Eu a sentir aquilo a vir, tipo tromba d’agua. Nem conseguia olhar com o sol a bater-me nas fronhas, a querer despachar o mijo para ir cair na cama…”- preparem-se para a apoteose final “- E aquilo a vir a vir. Depois cada vez mais quente, mais quente e … Splasssshhhhhh … a casa-de-banho toda inundada de mijo Pá!! Vê lá tu que nem tinha reparado … eu … tinha aquela merda ainda posta!!”
…
E agora digam-me, acham que eu podia inventar esta história ???
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:20 AM | Comentários (4)