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agosto 01, 2006

Ora repita lá outra vez Sôtor se faz favor

Lembro-me, de quando era miúdo, e em me vendo a braços com aquele tipo de actividade repetitiva e ‘irritativa’ (cortar a sebe por exemplo; o que pesavam os braços ao fim de algumas ramagens mais grossas), me treinava galhardamente para pensar que, de cada vez que iniciava nova investida, o fazia sempre pela primeira vez. Assim nunca esmorecia porque não antevia o que ainda me faltava, e o fulgor de cada impulso, inocente no que encontraria de cada vez, mantinha-se constante e vigoroso. Pois assim também o termo de tão pesado ofício, porque assim me fazia mais entretido, acabava por chegar mais cedo do que, se na inversa desta disposição, o estivesse sempre a ruminar. Resultava.

E há-de resultar agora. Bem me invisto hoje, já homem maduro, para recuperar tão ilusionista estratégia. Da técnica recordo pequenos passos com que agora me vou aos poucos instruindo, e que levam à negação do que acabei de vivenciar. Para já estou na parte em que já interiorizei nunca antes ter visto a cara daquele médico, e aparentemente pode resultar. Quase consigo acreditar ter saído da primeira consulta e não estar por isso a viver um dejá vu absurdo. Agora só me falta a parte em que vou fazer de conta que ele nunca me terá dito antes:“bem, parece que temos de fazer aqui uma pequena intervençãozita”. Não há-de ser difícil. Até porque seria absolutamente despropositado que o mesmo médico arriscasse sugerir a necessidade de uma intervenção cirúrgica que há pouco mais de um mês já teria realizado em nós pelo mesmo motivo. Há certamente incidentes da nossa realidade que não se podem repetir segunda vez como se estivéssemos a aparar a sebe do quintal. Sobretudo quando não somos nós que temos a tesoura da poda …

Publicado por Eufigénio Lagoa às agosto 1, 2006 06:35 PM