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junho 05, 2006

Questão de fôlego

Escrever é como mergulhar de apneia. A princípio é fácil. Primeiro lançamo-nos na vertical, o fôlego sustém-nos e o profundo atrai-nos. Tentar cinco a sete metros, com o  fundo ao perto é o ideal, mas com águas transparentes. Sai a primeira frase. Mesmo que lá não cheguemos, poderemos sempre deliciar-nos com esse planar que nos envolve no que nos rodeia, a sentir na pele que não há cimo nem baixo. O fôlego começa a ir-se. Começamos a investir ideias, coisas sem terminação, apressadas. Sentimos o pulsar do coração, e a água começa a ser-nos mais pesada. Já não nos sentimos parte dela, mas a parte que ela quer tomar. Mas tencionamos ficar ainda. Agora teimamos escrever qualquer coisa, ou acabar o que quase começámos. E assim arriscamos deixar-nos naquela suspensão por mais um pouco, e essa coisa que queremos escrever está quase em nós. É um mero, enorme!, é um mero que agora nos prende a atenção, com olhos redondos, rente ao fundo. Mas já não há fôlego. Justamente agora, quando queríamos ali ficar a (escre)vê-lo. Ainda arriscamos afundar-nos um pouco mais, quase rabiscamos a frase de forma completa. Há uma embriaguez quando nos atrevemos a arriscar o limite da nossa respiração que nos faz escrever mais depressa. Mas, a partir dali, definitivamente, não há fôlego que aguente. Ou ficamos, e mergulhamos num texto desconexo sem olhar para trás, sem ligar às reservas que já não temos, ou regressamos de imediato. Voltamos. Nada justifica que fiquemos nas palavras, que só elas - nós sucumbidos - de nada valem. E já na superfície, engasgados com a água que nos entrou nos bofes, lá vamos gesticulando. Falar, agora, é impossível. Nem eles ali perceberiam o desagradável que é ter quase algo para dizer, e não saber. Ficar a um fôlego de o poder dizer. É por isso que ninguém fala do que sente quando está no fundo do mar. Assim se escreve, e se cala. Tem-se tanto para dizer sem saber. Escrever é também assim, não escrever. Ás vezes é como se houvesse um limite de tempo para a nossa respiração. Sem perceber porquê, zarpamos para cima, expelindo no ar as letras desconstruídas, tudo ali misturado numa agitação de bolhas de ar e pressa de chegar.  Escrever é na maioria das vezes assim, quase, e acabar por não o fazer. Um mero enorme que nós quase tocámos no fundo do mar, mesmo antes de nos faltar o fôlego.

[ Percebes porque escrever um livro é para mim um projecto de suicídio? Ninguém escreve com garrafas de oxigénio. Ou se sabe suster a respiração, ou subitamente deixamos de perceber que estamos ali, no fundo de tudo, a ver um mero. Além disso, quando mergulho não o faço para contar, mas apenas para estar ali. E um livro é um mero; prefiro sabê-lo no fundo do mar, e sempre que mergulho, não o saber contar.]

Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 5, 2006 03:36 PM