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junho 05, 2006
Garfadas pedagógicas. Ou nem isso. Mas esparguete.
Sua calor por todo o lado. Nós lá fora no abrigo do toldo pedinchando as aragens descuidadas que se esgueiram ao fim da tarde – como se o dia assim fugisse, silvando ao de leve - ventos térmicos, dizem. Come-se uma bolonhesa – mimos da mãe. O calor traz disparates já se sabe, embora seja coisa que só o género masculino é capaz de reproduzir em todo o seu esplendor a fazer fé nas palavras da mãe. Rola a conversa.
- Oh pai, eu sou alfacinha não sou?
- Humm, quase Diogo, Quase és.
- Quase??? Mas então eu não nasci em Lisboa?
- Nasceste. Mas com os banhos que te recusas a tomar …
- Ohhh. E que tem isso a ver?
- Alguma coisa. Na verdade nunca poderias ser exactamente uma alface.
- Porquê?
- Porque esse pivete …talvez couve … snif snif … Sim, quase alface, mas mais couve.
Cava-se um amuo profundo. Já do outro lado da mesa se arreia esganiçada a risada que entremeia um “Oh coitadinha da couvinha de Bruxelas”. Eu sorrio, contrariado, quase arrependido da graçola. Disfarço com olhos de faísca sobre o irmão. Atrapalho-me, e vou inventando para mim que se pretendiam no gracejo intentos pedagógicos. Felizmente não houve tempo para mais: soa um “oh Zé, francamente” e interrompe-se o riso, calam-se as minhas interjeições de “vá lá Diogo”, e o vento pousa completamente. Nesta folga, viro agulhas para o mais velho. Distribuindo.
- Pronto, agora vamos ter de gramar com os histerismos do alho francês.
- Alho francês? Quem? eu?
- Tens razão. Alho francês não. Talvez mais rabanete. Esse repolho que tens em cima da cabeça e que teimas em não desbastar tem mais ar de folhas de rabanete!
E pronto. Trocam-se papéis. Arrufos de onde vinha jactância, a euforia da contrapaga de quem se folga agora da humilhação já vencida. “ahhh, olha o rabanete, ahahhh”, e a coisa assim a alternar-se. Duas garfadas, a conversa a desenvolver-se mais macia já, talvez sobre o Rock in Rio que ouvimos dali do pátio, e a tachada de esparguete e esgotar-se.
O outro lá foi ao banho antes de se deitar, e este já me pediu dinheiro para cortar o cabelo amanhã. As bolonhesas cá da casa, assim saboreadas em família, são sempre muito conversadas e estimulantes. A gente lá vai cavaqueando, entre duas garfadas, e assim se dando a entender.
Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 5, 2006 12:05 PM