junho 14, 2006
145
Dos cheiros
O mundo para mim era morfológico, uma mera mistura de cores e formas, algo absolutamente físico. Hoje, inesperadamente, voltei a descobrir-lhe a dimensão dos cheiros. Ando maravilhado a juntá-los às minhas antigas memórias dos sítios, dos espaços, das folhas, do velho e do novo, do calor nas pedras, do pólen preguiçoso, do silêncio da canícula, da areia escaldante, da água salgada, da praia toda, aos poucos vou juntando esta colecção de cheiros e destapando ‘lugares’ passados que deixara de compreender, e depois, de visitar, justamente por ser incapaz de lhes associar os cheiros. O mundo dos cheiros é fantástico, algo que eu já esquecera, e que agora faz com que tudo se pinte de novo, como se, entre a objectiva realidade com que vejo e via as coisas que me rodeiam, lhes juntasse agora uma dimensão onírica, um adamascado que dobra o significado de tudo o que nos rodeia. Mas não é só o de hoje que se acrescenta com a recuperação dos cheiros, é também o que foi, o que foi lá muito distante, do tempo em que eu ainda tinha olfacto. Há nisso dos cheiros algo de substancial para as memórias, algo que agora se vai destapando a pouco e pouco, e nisso vou descobrindo as memórias que guardava, muitas delas já só quase vestígios, alguns restos minerais sobrados, e que agora recomponho, como quem revisita o que, sem este elixir dos cheiros, havia perdido. No fundo, os cheiros são a dimensão do mundo que faz as nossas memórias mais próximas e autênticas, e que ao concreto do que hoje nos rodeia o decora até que (o belo também) pareça um sonho.
E da ansiedade
Entretanto não fumo há 145 horas. Precavi-me ao ficar sozinho por estes dias. Não que tenha partido para longe, mas faço-me longe quando eles estão perto. É a única forma de não os tornar vítimas deste processo brutal de desintoxicação. Quando estiver curado logo ‘volto’.
Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 14, 2006 01:14 PM