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maio 26, 2006

Pré-aviso da obituação

Acabei de perceber que não tenho, nem nunca irei ter, uma cópia dos textos que aqui escrevi. Sou incapaz de os desenraizar deste espaço, vá-se lá saber porquê. Talvez porque recuse admitir que haja vida nas palavras, que isso seria presumir que nelas houvesse óbito. Ambos os casos, já se vê, são imagens aterrorizantes. Acontece que de alguma forma isso sobrevaloriza o fim do blog, pois faz com que a perda se torne ainda mais fúnebre. Deixar ficar por aqui, e com ele extinguir-se, tudo o que nele deixei, nutrirá, lamentavelmente, toda a ocasião, de maior solenidade. Já me estou a ver com declarações amarrotadas do nervoso em papéis na algibeira, e de fato e gravata … e com este calor que se avizinha ...

Não me parece por isso que lhe cometa o suicídio tão brevemente, pelo menos nesta estação canicular. Ou se o decidir não o hei-de anunciar a mim próprio. É provável que, abrandecido, se vá vestindo cada vez mais com espaços em branco, até um dia alcançar um estado comatoso, depois a morte súbita, sem pré-aviso, sem deixar vestígios. Provavelmente faltará saldar uma anuidade, uma qualquer imponderável falha interbancária, quem sabe. Será um óbito determinado por razões de natureza administrativa – assim, deixando-se apagar, será mais uma espécie de obituação. Nesse fim não terá então de haver uma vontade declarada - tal como no seu início não houve - e eu terei justificadas razões para não estar presente.

 

[ E um dia, à pergunta recorrente, já poderei retorquir: fechou? Olha, não faço ideia. Eu cá fui-me obituando e por isso já nem reparei ... ]

Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 26, 2006 11:06 AM