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maio 02, 2006
Alcoutim
Onde esquinam o Algarve, o Alentejo e a Estremadura espanhola há um rio sobre o qual pendem os voluptuosos cânticos das aves na compita do mais belo. Aí as margens são curvas e logo íngremes, fazendo da paisagem intermitente uma beleza de quase se tocar, tanto esta, de socalco em socalco, se nos acerca dos olhos. Mas para quem alcance vistas mais altaneiras sabe que o longe não é ali como o perto, que quando se lança para o horizonte se vão adoçando as suas arestas nos contornos morosos e inertes das planícies do Sul. Do topo de um dos morros, do lado de cá - onde os miúdos combinam agora que lá se montará casa com semanadas minuciosamente registadas - a vista balança por cima do braço de água, arriba nos morros da outra banda, alcança as terras por sobre estes, e assim se concentra lá longe nos últimos contornos antes do céu. É já noite, que o tempo aqui escorre depressa, e as cores tornam-se sombras, e as montanhas penumbra, riscando perfis em terras de Espanha. Nessa linha que ondula, outra se eleva, paralela, acompanhando socalcos e curvaturas, agora ali subindo para logo se quebrar mais à frente, e assim acidentada preenchendo o horizonte, cobrejando a natureza, dela distando exactamente um dedo se a este o reclinarmos com o braço estendido em mira. É um traço estranho esse que contorneia semi-elevado os movimentos das curvas ao fundo, quase inverosímil, avivado num riscado vermelho que não pertence aos azuis negros e sonolentos da noite. E estranha é também a sua intensidade, assinalando-se mais forte que tudo o resto, luminescente, mas ao mesmo tempo interrompido, tracejado. Vogam os olhos outra vez, vagarosos, que ali a noite e tempo são coisas macias pelas quais se deixam guiar. As interrogações são interregnos com que nos vamos deixando ficar, e as respostas, quando chegam, uma consequência de por ali nos demorarmos. E a cobra rastejante sobre a natureza, essa mesma que brilha encarniçada, vai se decifrando com vagar. São pontos que se alinham numa trajectória curvilínea, e esses pontos são luzes, umas que se atrelam nas outras, como se o mundo tivesse sido decorado com as lâmpadas de uma árvore de natal. Agora já não é mais a vista que alcança porque desse mister já se cumpriu, mas alguém que conclui: são luzes de sinalização, é o parque eólico da Estremadura de nuestros hermanos que se pintalga lá naquele fundo. E são centenas, talvez milhares, assim a tecnologia se instalando na noite, fingindo dormir nos contornos da natureza.
Do lado de cá, nada. Apenas nós, e de onde se espreita; o sítio onde se pousa e se alcança a natureza, essa terra que nunca se rendeu e que a tecnologia não abraça. O mundo visto daqui é orgulhoso e primitivo, a deixar-se ficar no que sempre foi, e nisso retendo os homens. Não os que partem (partimos) agora esbaforidos para as cidades do Norte, nem os outros cruzando rio com pressa de se deitarem do outro lado, mas aqueles que com ela ficaram para trás, que como ela pouco nisso se importam das cobras lacrimejantes, dos moinhos metálicos, ou dos contornos vermelhos de imitação. Uns vão ficando com a calma da terra, os outros partindo com a pressa do progresso, que aqui é só para ver, lá para viver. Assim, como de cada lado das margens do Guadiana, tão diferentes são Portugal e Espanha.
Entretanto eu perco-me entre as duas margens, querendo ser hoje esta, amanhã, do outro lado, aquela.
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 2, 2006 01:09 PM