« sponsored by Playboy | Entrada | Cacos »
abril 04, 2006
‘Oh meu tenente, oh meu tenente, um passo atrás e dois à frente’
Regresso a pensar nos miúdos, que queria ver com eles o jogo do Benfica com o Barcelona, e depois o Sporting, o título em causa, e é já o mundo todo cheio de coisas importantes que vou estimando. As prestações da casa vão subir, dizem, e quanto? E lá sigo, trauteando a calçada, absorto, contando as bocas de incêndio, sete desde ali do café do sr. Zé, e sigo folgado, a acabar a folga, essa parte em que fico sem nada que fazer, e fico só com o que tenho cá dentro. As acácias estão cheias de folhas amarelas e já é primavera, que diabo. É intervalo de qualquer coisa, talvez almoço, deve ser, é sempre almoço quando dou por mim a desviar-me da caca dos pombos e a amaldiçoar os silos das farinhas que os sustentam. E lá sigo de novo cogitando sobre o futuro, de novo. Rememorizo as coisas que ainda ontem esqueci, que assim brinco como todos os dias com as expectativas que lanço para amanhã que ontem foi hoje. Olá boa tarde, nem o vi, desculpe. Pronto, interrompi-me, mas pouco importa que já estou chegando. Deve ser por isso que me ocorre o provir da conta bancária, como quem de súbito regressa a este caminho de santiago. Chegar, voltar, interromper-me, é sempre duro. Há coisas que não evoluem apenas com reflexões, há coisas que nos prendem. Não percebo o que quero dizer com isto mas sei que é assim. E sigo já, nesta ancoragem a terra firme, ou melhor, subo, subo as escadas porque estou finalmente chegando ao local de trabalho. Ainda não ajeitei o nó da gravata, ainda tenho tempo, ainda tempo para assentar no telemóvel dois compromissos próximos - dos que não são de natureza profissional nem são minudências do dia-a-dia doméstico - casamentos, IRS, computador dos miúdos, essas coisas. Assento-os sempre no telemóvel, que hão-de voltar com folga para as tratar, no bip-bip do costume (vivemos com tanta coisa a repicar à nossa volta caramba), coisas que assim tão tenho de me lembrar. Entretanto chego. Chego de onde ainda agora parti, de onde parto todos os dias, a mesma caca dos pombos, as bocas de incêndio, os comes do sr. Zé. É bom sentirmos rotinas e compromissos quando não sabemos exactamente o que fazer com o tempo. Outras vezes não. Mas agora voltei, ‘engenheiro’, ‘tosco’, ‘tão pá’, ‘senhor director’, visto o fato que serve a todos e recomeço. Recomeço sempre que começo por aqui: sento-me à secretária e escrevinho duas ou três acauteladas notas sobre os afazeres improrrogáveis da tarde, nos habituais post-it’s amarelos. Pronto. Olho em frente. Trabalha-se lá ao fundo. Subitamente percebo o meu atraso. Sou sempre o primeiro e o último, e embora seja assim quando faço intervalos para almoço, eu nunca almoço. Sigo, siga. apresto-me agora a abrir o Outlook, que de lá hão-de troar (e os alarmes de novo, o ar saturado de avisos, sempre), uma meia dúzia de solicitações, hoje talvez mais, que é dia de planning.
Mas, incompreensivelmente, desorganizo-me. Logo agora que estava a tomar nota de tudo! Nesta altura já deveria ter retomado as coisas do dia e por isso há já quem olhe para mim à espera de me ver prestável para despachos. Mas não. Um imponderável laivo ainda perdido da hora de almoço ressalta fora de tempo: tenho de dar prioridades a esta vida, o meu futuro não se pode escrever assim tão facilmente num ‘blackboard’, ou pelo menos, eu tenho de ser mais que giz que risca. Amanhã, já decidi, não vou anotar nada, vou apenas vogar. E para me fazer mais peremptório nisso puxo da folha A4 que tenho aqui sempre à mão, e escrevo em maiúsculas esta determinação nos “to do” de amanhã. Não vá eu esquecer-me também disso.
Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 4, 2006 02:52 PM