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abril 06, 2006

Cacos

Insistentemente, caem-me letras por todo o lado. Oiço-as distintamente, e sobretudo nestes dias em que não as quero, em que não tenho tempo para elas, tornam-se ainda mais barulhentas. Enquanto se alvoroçam na queda arranham ruídos de pontas aguçadas. (Os “r”, mais retorcidos, são os piores). Outras vezes interrompem-se cedo demais e sei que terão ficado presas em galho de neurónio cansado, provavelmente num balouçar desesperado, assim a verem-se limbo, que nem ideia, nem coisa que já não é. Mas quase sempre seguem o mesmo caminho até se depositarem já detritos, aqui mesmo, na base da nuca. E tudo se repete permanentemente. Enquanto brotam em ritmo alucinante novos resíduos com pontas reviradas de coisa ortográfica, já outros se amontoam no fim da queda (esta moínha que sinto tão bem) no cemitério das coisas que hoje não tive tempo para pensar. Acidentalmente há algumas que ainda se enrolam em outras, duas, três às vezes quatro letras - noto-lhes o estrídulo mais inteligível - são sílabas, quase formando palavras. Mas nada mais que isso: mero silvo silabário, repentes que nem chegaram a acontecer, interjeições de pensamentos.

É assim comigo, quando a inspiração agoniza. Nunca morre de uma vez só. Vai se deixando estraçalhar aos poucos, amontoando-se depois - cadáver - em cacos de letras.

Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 6, 2006 01:44 PM