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março 04, 2006
Que eu parto e tudo o resto morre (*)
(*) como na última primeira vez
A realidade, incrédula
desenforma-se
e já quase nada,
mero anúncio da memória.
Depois nem isso,
nem sonho, nem vestígio
As coisas – esse tudo,
esse tanto que fizemos,
inelutáveis
deambulam agora
na velocidade ignorada
de um meteoro perdido
Eu parto
E tudo o resto,
tão incrivelmente importante
Afinal morre
A lembrança,
essa esmorece
como quem vai debandando,
cada vez mais vaga,
ao fundo,
já foi
Uma chave range
e cerra-se a sala,
desmazelada
da ébria festa
que súbita
acabou
E parto
deixando a incerteza
se no que foi
fui
[Há no exercício da poesia muita inocência arrebatada, despavor até. Que inventar significados induzidos e deixar que estes lavrem nos outros a noção que temos de nós, já para além das palavras, isso é enorme arrojo, tanto mais que é arte que bafeja a poucos. Escrevinhá-la é quase ter a certeza do risível, e mesmo assim não lhe resistir. Vestindo a pele, arrisco, e deixo o elogio à coragem de quem ousa assim, tão absolutamente, deixar-se despir na sua poesia - na maior parte das vezes, sabendo que é um corpo desfeiado (por si) aquele que assim expõe. Que não é nos bons poetas, mas nos sofríveis, que as palavras assim escaqueiradas se manifestam no irresistível exercício de quem sente essa necessidade, quase compulsiva, de se fazer, de se sentir devassado.]
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 4, 2006 03:15 PM