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março 10, 2006
A verdade para ser escrita, tem de ser esculpida com suavidade e contar coisas que se possam vestir. É isso que lhe dá a credibilidade probabilística. Não importa a sinceridade do que escreve, mas tem de ser possível tocá-la. A autenticidade só existe se o leitor se puder sentar sossegadamente a desfolhar um-por-um cada episódio desses que também pode tomar como seu, e assim poder partilhar com o autor esse orgulho de ambos serem quase-anjos, banhados em elogios mútuos por entre as folgas de dois parágrafos. Já essa outra, feita de turbilhões, de hipopótamos com cornos e devaneios cósmicos, isso é pura ficção rebentada das entranhas. É a ‘mentira’ que se quer recatada. Que as coisas reais são bonitas e devem poder ser de todos. A realidade é uma escrita fisionómica, simples, que fala de coisas aconchegantes, com palavras a desenharem a ilusão do que julgamos ser. O resto não tem leitores, nem tem quem o escreva. É (o resto da) mentira que já ninguém quer.
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 10, 2006 01:23 PM