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março 10, 2006
O homem em diferido
- Mas quando vais tu parar? Não queres vir deitar-te!?
Aquilo que tinha começado por um pequeno alheamento dele transformara-se nos últimos dias numa casca autista onde ele mergulhava para não mais sair. Desesperava em tentar trazê-lo de volta ao aconchego da sua casa, para próximo dela e dos miúdos, onde aliás ele sempre se sentira bem. Até agora.
- Eufigénio? Eufigéniiiiioooo!! …
Subitamente ele imobilizou-se. Um silêncio profundo invadiu a sala, de onde apenas zumbia uma respiração de ciclo apertado que fora treinada por ele para acompanhar o ritmo das teclas. Depois virou-se, rodando custosamente o pescoço embotado na sua direcção.
Não conseguiu reprimir o choque que a invadiu. Acabara de ter a certeza de que nunca mais o reaveria, pelo menos enquanto homem, enquanto ser com características analógicas. A cara tinha-se deformado, e apresentava agora um contorno rectilíneo, quase quadrado. Os olhos haviam perdido as pálpebras e adelgaçavam-se, ganhando altura, quase numa linha vertical onde agora lhe corriam a uma velocidade diabólica os zeros e os uns com que descompilava as imagens que processava. A boca quase tinha desaparecido, agora inútil, e apenas com alguma atenção se notaria o pequeno orifício, ali mantido como opção para ser utilizado por um periférico – em ocasiões muito especiais talvez um jack para ligar um microfone. Tinha também um sinal novo, na fronte esquerda, e isso aparentemente humanizava-o um pouco. Mas quando se aproximou reconheceu tratar-se do símbolo da Microsoft com as três bandeiras multicolores tendo por baixo algo escrito em letra miúda que julgou ser “Intel inside”, embora o não pudesse garantir.
Ainda assim conseguiu notar-lhe naquela esfíngica expressão um pequeno trejeito de desagrado. Nada de muito notório, apenas um reclinar dos ombros, como quem lamenta apenas o contratempo, a interrupção que o obrigará a recomeçar algo - não importa o quê - de novo. Depois ele voltou a recurvar as costas, e viu-o clicar no símbolo do “Word”. Quando este se abriu ampliou o tamanho das letras para que isso não trouxesse dúvidas de que ela o ouviria, e escreveu: “Já vou, é só colocar mais este post” . E acrescentava, agora já matraqueando naquele ritmo desvairado feito de muito hábito, “hoje vai sair um post intimista. Vou fingir que jantámos todos à mesa e que languidamente escutámos as trapalhadas do Diogo a contar o dia na escola.” Estranhava-lhe tanta confidência. Normalmente destas coisas dele só o sabia em diferido, quando mais tarde lia o seu blog. Isso fez alimentar-lhe alguma réstia de esperança e instintivamente aproximou-se dele até que as suas pernas se tocassem ao de leve. As mãos dele encresparam-se de imediato. Desenlaçou-as, estalando os dedos antes de acrescentar, invulgarmente hesitante, os últimos dígitos: “Sempre ajuda a matar saudades”. Depois partiu, pela Internet fora, esquecendo já a promessa de há pouco, como todos os dias acontecia. (de manhã cedo logo se desculparia com o primeiro post do dia)
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 10, 2006 10:46 AM