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março 14, 2006
Morrer lambido pela primavera
O sol empanturrando-se nas pálpebras. O fastio da sopa de peixe a escorregar amolecida nas mãos pousadas sobre a cava do volante. E as linhas rectas da estrada engolindo horizontes pasmados, toque-toque, ritmos entorpecidos a zunirem traiçoeiros ruídos de sono. Assim se segue rolando pelo meio da primavera, arriscando, literalmente, a vida.
Bem sei que a semeadura do anteontem agradece de lá do pátio, e que por lá se empinam agora os nados caules nessas vigorosas alavancas de luz, e que outros mais velhos sobrevividos do inverno avivam e agitam os tons vivaces da nova adolescência. Mas isso são razões do lazer, do além-dever, do mundo e do prazer, da natureza com que brinco e das minudências do fim do dia.
Esse sol que lá desejo, e até aqui se amanhã, é o mesmo que hoje não era tão preciso, assim de lâmina atravessada na garganta de um velho náutilo da estrada. Que já prestes estive morrendo, ali que ai quase me desaguava naquela luz. Eu, o primeiro sobrevivente da primavera.
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 14, 2006 06:26 PM