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março 31, 2006
Disso da beleza que um dia se desnuda
Um dia, em remoto liceu, a mocita que mais agitava as hormonas masculinas fez correr pelos infalíveis vasos comunicantes femininos que me considerava um “rapaz muito interessante”. Assim, agraciado pela lisonja de tão escutada voz, (nesse absurdo, mais acentuado na etapa juvenil é certo, que faz escutar mais do que diz quem o diz, do que o que diz quem o sabe) subi de forma fulgurante no ranking de popularidade – secção “aquele há-de ser meu”. Desde então, e apesar de ainda desconhecedor da razão desse entusiasmo, não pude deixar de começar a sentir-me tacteado pelos olhares alheios sempre que cruzava o hall de entrada.
Nunca fiz nada sobre isso e com isso. Era tímido, rezavam as vozes femininas, enquanto os machos quase arriscavam colocar-me no limite da fama já duvidosa no que aos interesses pelo sexo oposto dizia respeito. Mas para a maioria era apenas parvo, do tipo “com aquela gaja tão boa a mandar-se descaradamente e ele …”. Se condescendia desinteressadamente (o marketing pessoal nunca foi o meu forte) em fazer valer-me das minhas razões, então era o descalabro completo: tentar explicar que me estava a marimbar para as hipóteses que tinha de “andar nos méles (expressão então em voga) com a gaja mais boa da escola e que era quase certo ser burra como uma pedra”, num círculo de malta que tinha por principal mister exorbitar a sua virilidade, era desgraça certa. Daí em diante uns chamavam-me “artolas”, outros mais ligeiros faziam constar da minha “panel…”, e os mais próximos enchiam-se de propriedades para me aconselhar prudentemente sobre a matéria. Mas mais agravava eu ainda ao explicar(me) que a popularidade, e sobretudo esse tipo de notoriedade imposta, era por mim mal digerida, e que nessas coisas do “olha este e olha aquele”, modalidade porque nutria baixo interesse, eu era mais como na tropa, “nunca ser o último mas também evitar ser o primeiro”.
Mas é evidente que naquela altura das descobertas de tão indomesticáveis prazeres, até as convicções mais sisudas se mostravam incapazes de resistir aos pequenos estertores da libido, bastando para isso acidental episódio e uma bela fêmea para deitar por terra essa coisa do encanto que se quer genuinamente correspondido. E por isso, lá fui restabelecendo o meu bom nome, embora involuntariamente, por culpa das irresistíveis oportunidades que ora ocorriam numa esplanada de café, ora numa sessão de cinema improvisada lá na escola, ora nas festas de sábado à tarde no clube de ginástica da freguesia … E foi assim, descuidadamente, que por essa época, e apesar de manter essa extravagância de (também) cuidar dos requisitos intelectuais das mulheres com quem me envolvia, fui vendo a minha masculinidade aos poucos ser recuperada na hasta pública. Mas a verdade é que desse tempo já quase não recordo lugares, nem caras, nem nomes. Tal arrogância valeu-me poucas memórias românticas.
O certo é que, (apesar dos voluteares diversos com que fui desafogando as explosivas carências da minha juventude), me fui mantendo convicto destes meus critérios, e por cada vez que me via sondado pelas particularidades da minha figura, assim mais rápido me afastava. A idade não me trouxe melhoras. Com o passar dos anos fui ganhando ainda mais certeza de que haveria de ter de esperar pelo menos até aos 30 anos, idade em que presumia que os meus “scores” físicos se fossem atenuando, para me investir na demanda de uma paixão sincera e correspondida e, naturalmente, isenta já desses artifícios da “boa parecença”. Infelizmente a barriga nunca me chegou a despontar de forma significativamente saliente, (como então antevia), mas em contrapartida o meu mau génio foi-se agravando, o que de certa forma compensou em “handicap” esta imponderável depreciação física. Não me arrependi nada deste esperar. Afinal estava certo. Até porque vim a descobrir nos contornos da idade que as mulheres mais interessantes são as que envelhecem melhor e, no meu caso, aquelas que mais nos querem.
[ vem isto a propósito da tal musa do liceu, com quem acidentalmente me cruzei ontem … livra! Posso ter errado em muitas coisas, mas no que toca aos parâmetros da beleza acho que estava (estive sempre) certo. É que o peito poderá deixar de estar tão hirto com a idade, e umas folgas de gordura certamente rodearão as cinturas mais delgadas, mas apenas para quem nada mais tem com que encantar ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 31, 2006 04:58 PM