« | Entrada | Que eu parto e tudo o resto morre (*) »
março 02, 2006
A “razão” repousa onde a quisermos descobrir
Chego a casa e encontro-a a dormir no sofá. Aproximo-me. Cautelosamente. Seria embaraçoso que ela despertasse e me visse este olhar d’agora. E escusável. Sei que se isso acontecesse iria ainda acicatar-me mais a fúria com que horas antes ali a tinha deixado. Mas algo em mim não resiste, algo em mim não lhe resiste. Ajoelho-me ao seu lado e aproximo-me ainda mais. Quase lhe toco a respiração.
Deixo-me assim ficar, sobre os seus olhos fechados, e depois seguindo-lhe as rugas que deles divergem, lendo-a. Cada uma dessas linhas lavra um tempo, pessoas, episódios, troços do passado que revivo, onde a encontro, e onde ela me vê. São traços dela que são já meus também, que é um passado cada vez mais partilhado e prolongado que assim se sulca. Nenhum passado é igual nem de igual se conta cada passado. O que foi, só o é pela forma como hoje o sabemos transportar. Continuo a seguir-lhe esse raiado que lhe nasce dos cantos dos olhos, e o passado que percorro nele, a forma como o conta, é um passado preenchido, sereno, bastante. Olho-o e compreendo como seria inconcebível pertencer a outro passado que não este que se escreve assim sulcado nela. Olho-a, e compreendo que é ela quem eu quero que desenhe o meu passado - que as suas rugas, mais que as minhas, o sabem contar com contentamento.
Depois desço para a sua boca, e aí me perco mais um tempo. Aqui não é o passado que repousa. Os seus lábios falam-me do futuro, do que ainda temos para sorver, da carne e do desejo, do que agora sinto por eles e do que tanto quero deles amanhã. São generosos, carnudos, vivos. Percorro lentamente com os dedos as suas curvas adormecidas - a linha de cima, arqueada, depois a de baixo, saliente - e sigo tacteando o desenho desse viver sereno, intenso, capaz de sussurrar subtilmente o que tantas vezes me falta ao fim do dia. Contorno-os até tocar o arrebique de felicidade que volteia os seus cantos. Ali onde as duas linhas se tocam, no exacto ponto onde se forma o seu sorriso, é ali onde mais que tudo quero que se abrigue a minha vida. Que não há nada hoje, nada que conheça, que me fale tão veementemente do futuro onde quero estar.
Rio. Rio agora de mim: acabo de determinar que o meu amuo, desta vez, por mais esta vez, acabou. Que importa toda a razão do mundo, e as minhas iras, se dela tenho os seus lábios.
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 2, 2006 12:51 PM