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março 31, 2006
Causas de óbito
- … porque os animais selvagens mesmo quando parecem mansinhos, nunca são domesticáveis.
- Mas há gente que tem panteras? Porque é que não podemos ter uma pantera negra?
- Diogo, para perceberes melhor... uma vez, um elefante que vivia num circo, e que há vinte anos era tratado pelo seu dono, um dia acordou com mau humor e …
- E que aconteceu?
- Matou-o. Se não me engano foi uma trombada.
- Ahhh. A sério?
- A sério sim. Percebes agora porque os animais selvagens mesmo quando parecem domesticados são perigosos?
- Pois. E morreu mesmo o senhor?
- Hum, hum.
- Oh mãe, e isso é que é morrer com uma trombose?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:01 PM
Disso da beleza que um dia se desnuda
Um dia, em remoto liceu, a mocita que mais agitava as hormonas masculinas fez correr pelos infalíveis vasos comunicantes femininos que me considerava um “rapaz muito interessante”. Assim, agraciado pela lisonja de tão escutada voz, (nesse absurdo, mais acentuado na etapa juvenil é certo, que faz escutar mais do que diz quem o diz, do que o que diz quem o sabe) subi de forma fulgurante no ranking de popularidade – secção “aquele há-de ser meu”. Desde então, e apesar de ainda desconhecedor da razão desse entusiasmo, não pude deixar de começar a sentir-me tacteado pelos olhares alheios sempre que cruzava o hall de entrada.
Nunca fiz nada sobre isso e com isso. Era tímido, rezavam as vozes femininas, enquanto os machos quase arriscavam colocar-me no limite da fama já duvidosa no que aos interesses pelo sexo oposto dizia respeito. Mas para a maioria era apenas parvo, do tipo “com aquela gaja tão boa a mandar-se descaradamente e ele …”. Se condescendia desinteressadamente (o marketing pessoal nunca foi o meu forte) em fazer valer-me das minhas razões, então era o descalabro completo: tentar explicar que me estava a marimbar para as hipóteses que tinha de “andar nos méles (expressão então em voga) com a gaja mais boa da escola e que era quase certo ser burra como uma pedra”, num círculo de malta que tinha por principal mister exorbitar a sua virilidade, era desgraça certa. Daí em diante uns chamavam-me “artolas”, outros mais ligeiros faziam constar da minha “panel…”, e os mais próximos enchiam-se de propriedades para me aconselhar prudentemente sobre a matéria. Mas mais agravava eu ainda ao explicar(me) que a popularidade, e sobretudo esse tipo de notoriedade imposta, era por mim mal digerida, e que nessas coisas do “olha este e olha aquele”, modalidade porque nutria baixo interesse, eu era mais como na tropa, “nunca ser o último mas também evitar ser o primeiro”.
Mas é evidente que naquela altura das descobertas de tão indomesticáveis prazeres, até as convicções mais sisudas se mostravam incapazes de resistir aos pequenos estertores da libido, bastando para isso acidental episódio e uma bela fêmea para deitar por terra essa coisa do encanto que se quer genuinamente correspondido. E por isso, lá fui restabelecendo o meu bom nome, embora involuntariamente, por culpa das irresistíveis oportunidades que ora ocorriam numa esplanada de café, ora numa sessão de cinema improvisada lá na escola, ora nas festas de sábado à tarde no clube de ginástica da freguesia … E foi assim, descuidadamente, que por essa época, e apesar de manter essa extravagância de (também) cuidar dos requisitos intelectuais das mulheres com quem me envolvia, fui vendo a minha masculinidade aos poucos ser recuperada na hasta pública. Mas a verdade é que desse tempo já quase não recordo lugares, nem caras, nem nomes. Tal arrogância valeu-me poucas memórias românticas.
O certo é que, (apesar dos voluteares diversos com que fui desafogando as explosivas carências da minha juventude), me fui mantendo convicto destes meus critérios, e por cada vez que me via sondado pelas particularidades da minha figura, assim mais rápido me afastava. A idade não me trouxe melhoras. Com o passar dos anos fui ganhando ainda mais certeza de que haveria de ter de esperar pelo menos até aos 30 anos, idade em que presumia que os meus “scores” físicos se fossem atenuando, para me investir na demanda de uma paixão sincera e correspondida e, naturalmente, isenta já desses artifícios da “boa parecença”. Infelizmente a barriga nunca me chegou a despontar de forma significativamente saliente, (como então antevia), mas em contrapartida o meu mau génio foi-se agravando, o que de certa forma compensou em “handicap” esta imponderável depreciação física. Não me arrependi nada deste esperar. Afinal estava certo. Até porque vim a descobrir nos contornos da idade que as mulheres mais interessantes são as que envelhecem melhor e, no meu caso, aquelas que mais nos querem.
[ vem isto a propósito da tal musa do liceu, com quem acidentalmente me cruzei ontem … livra! Posso ter errado em muitas coisas, mas no que toca aos parâmetros da beleza acho que estava (estive sempre) certo. É que o peito poderá deixar de estar tão hirto com a idade, e umas folgas de gordura certamente rodearão as cinturas mais delgadas, mas apenas para quem nada mais tem com que encantar ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:58 PM
março 28, 2006
Grande Benfica!
Agora 'basta' ganhar em Camp Nou
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:38 PM
Mas, (e prosseguindo nesta coisa do velho que nos vai circundando)
há outros sinais que se perscrutam dos reparos domésticos. Dos mais frequentes recordo o “quem é que se esqueceu outra vez de deixar a vara a escorar a porta do pátio? Estou farto de dizer que assim aquilo ainda empena mais!”. E já noutras conversas ocasionais, mais ao serão, é ver ressaltarem em jeito distraído observações do género: “olha, parece-me que o gato está a ficar grisalho. E tão novo ainda?!” – e logo o desmentido a seguir-se, a trazer a razão de sempre: “Nada. Isso são teias de aranha. Terá é com toda a certeza andado pelo sótão. Por falar nisso, caiu mais uma parte do estuque, já viste?”. E eu a assentir, acabrunhado, com essa sempre e irremediada vetustez do lar.
Má sorte a deste imóvel. O pior que se pode desejar a casa centenária é que esta se aprisione por donos de modestos recursos, obrigados na resignação perante as suas maleitas. E com tanta gente tão folgada, dessa que acha pitoresco isso (isto) das casas velhas, logo haveriam de calhar (a esta minha) uns meros pelintras.
Enfim, que se avenha com o vozeio e o volteio dos miúdos. Que lhe baste nas almas que a habitam o que lhe falta de estuque.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:57 PM
Por entre a escova de dentes e a lâmina da barba
Durante a faina da manhã ouço-me exortar veementemente os miúdos para que “não arrastem a bilha do gás quando tiverem de abrir a porta do frigorífico se fazem favooor !!”. Foi recomendação tão estranha que por ali ficou a ecoar, que acabei por concluir que esta casa talvez ande a precisar de alguns cuidados de manutenção. Talvez.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:57 AM
março 27, 2006
“Break a leg”
Admiro as pessoas capazes de romperem com as rotinas, e que ao sufoco comezinho do dia-a-dia preferem o desconhecido. Admiro aqueles que não disfarçam o incómodo, que não ziguezagueiam em escusas, que conservam a lucidez suficiente e corajosa para saberem quando devem começar de novo e lançar-se por novos destinos. Admiro quem é capaz de enfrentar o estranho com a mesma segurança com que eu me movo no que me é familiar, e quando o faz, o faz com mais vigor ainda do que eu ostentei na primeira vez. Porque admiro as pessoas que depois das cabriolices que a vida nos reserva são capazes de aparentar a mesma pujança e a mesma expectativa de sempre. Porque usar assim a ilusão para contrariar a vida não é uma ingenuidade, é cultivar a resistência. É por isso que admiro aqueles que têm neles o fôlego para sempre mais uma braçada, e que olham para as encruzilhadas como mais uma oportunidade de escolha. Mas sobretudo admiro aqueles que sendo assim, temerários, inquietos, insatisfeitos, ousam recomeçar tudo de novo, uma e outra vez, tantas quantas forem precisas, [e já foram tantas(!)], com o mesmo olhar entusiasmado de sempre e o sorriso mais sereno do mundo.
(Dá-lhe … que eu estarei aqui, no mesmo sítio de sempre, a seguir orgulhoso essa inquietação que há em ti)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:53 PM
março 24, 2006
Para maiores de 40 anos
E para concluir conversa antiga aqui
(e agora só para a rapaziada: haverá aí alguém, com o mínimo de honestidade, na faixa dos .... vá lá, 38-45 anos, que seja capaz de afirmar que a rapariguita dos "pequenos vagabundos" não foi a sua primeira paixão platónica. ai, como é que ela se chamava mesmo?)
Já agora, depois de enxugar essa lagrimazita de comoção, sugiro que siga nesta viagem ao d'á muito tempo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:57 PM
Hoje às 19h não estou para ninguém
Ou melhor, estarei demasiado ocupado a roer as unhas e a fazer figas para que não me tenha enganado na táctica de corrida.
Só eu. Chegar aos 43 anos e andar maluco com isto do F1 MANAGER GAME ON-LINE! E a culpa é tua oh observador de aviões ...
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:39 PM
Agora deu-me para a auto-citação ( puro onanismo, alguém já disse )
... qualquer dia, quem sabe, com tanta presunção, e para melhor alarde, ainda criarei um blog.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:51 AM
março 23, 2006
“Um jogo de bola é só um jogo de bola. O futebol não é importante” (*)
Pronto, o homem perdeu definitivamente as estribeiras. Fica-me a memória dos tempos sãos, da fortuna em ter privado na amizade com ele (amigo de quem ainda sou, que o serei para o resto da vida, entenda-se), da sua eloquência (que ainda a tem) mas sobretudo do seu discernimento. Que grande homem, que grande homem que era!
… dizem que foi por causa de uma benquerença(**) qualquer, calcule-se.
(*) sic Maschamba
(*) benquerença: afeição, amizade, amor, benevolência, estima, cordialidade, simpatia – de acordo com o dicionário de sinónimos do “Word 2003”, service pack 2
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:03 PM
Comunicado
É com indisfarçável emoção que concluímos esta campanha que tanto sucesso angariou, dando por encerrados (ié, inibidos) os comentários a partir deste momento. Embora a gerência mantenha a obstinada interpretação de que um blog não é uma “casa de chá”, fontes próximas garantem que a mesma não terá ficado indiferente ao reencontro com os comentadores e aos seus simpáticos contributos. Assim, e embora se obstine em dizer que não alterará a decisão de “inibir os comentários, nem o amarelo do blog”, pede-nos a mesma que manifeste os sinceros agradecimentos e v. comunique que …
“essa história da etiqueta da resposta, da cortesia e tal ...
... esqueçam. É uma estafadeira.”
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:20 PM
março 21, 2006
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:50 PM | Comentários (82)
Blogambulando
[e para acabar de vez com (a história) dos comentários]
Afinal os trackback’s funcionam JPT; toma lá um tu agora. E sobre o tema com que me linkas, perdão, queria dizer elas (elas?), porque haveria eu de ter os comentários abertos, e assim obrigar-me a essa etiqueta do comentarismo com que ambos concordamos, se tu com muito mais propriedade que eu, fazes o obséquio de atender aos mesmos. Eis a forma ociosa de comentar: sobre este post, o que eu poderia desenvolver nos comentários, está aqui. E sublinho, reforço, o que tu sublinhaste e reforçaste, a propósito do uso dos telemóveis; acho mesmo que devemos insistir nisto juntos, aqui já entrelaçados neste ping-pong de hiperligações: façamos disto uma cruzada como aquela que a Catarina quer empreender contra a caca dos donos dos cães da caca.
Mas já que estamos nos comentários, permito-me responder também a ti Jorge Morais (um tipo quase te perde o rasto, assim sempre a saltar de casa, não te cansas de tanto mudar a mobília?). Pois quanto à razão da inibição dos comentários deixa-me esclarecer-te que não há melindre nem constrangimento por trás. Não arranjei nenhuma má empatia com a blogosfera nem muito menos com os meus sempre simpáticos comentadores. Aliás, orgulho-me de aqui guardar comentários que são verdadeiras pérolas. A decisão trata apenas de encontrar um modo mais ocioso de me relacionar com este espaço, mais próprio à minha disponibilidade, talvez até mais identificado com o exercício que quero dele tirar. Hoje, mais ligeiro nisto de vir aqui, uso d’um toca-e-foge que não seria possível se, abertos os comentários, me sentisse na obrigação de os receber e retribuir. Lá está a tal etiqueta. Mas adiantas: “Porque acho que o teu blog é um blog de discurso directo, onde há alguma interacção entre ti e as pessoas que te lêem.” Pois, talvez, talvez seja esse o único modo da escrita que consigo experimentar, e sairá assim, para alguém no lado de lá. Mas eu sou mau conversador Jorge Morais, são demasiadas as vezes em que faço perguntas das quais não espero respostas, e outras tantas em que me pergunto porque espero respostas.
E nada disto afinal é assim tão importante. Escreve-se, tira-se disso prazer, e tudo o resto, os templates, as hiperligações, os comentários e as estatísticas, são apenas invólucro para a razão elementar de ter um blog. Hoje assim, amanhã de outra forma, as regras mudando, a incongruência a ressaltar em cada post, até ao dia em que se deixará de ter prazer em aqui escrever, e se o fará provavelmente noutro sítio qualquer. O resto, o que rodeia isso, é acessório. O próprio blogocírculo de onde nos dependuramos é algo suplementar, um espaço onde, se o quisermos, não temos de nos obrigar abrigar. Quando tacteio por entre blog’s (já menos, agora) leio coisas fabulosas, e outras que são completamente inócuas e gratuitamente agressivas (às vezes até muito bem escritas), na maior parte das vezes por culpa daquilo que assim tão bem descreve com a argúcia a que nos habituou a Mª Marques do Azul Cobalto: “Piu piu & cia: A blogosfera contribui, de forma exemplar, para a validação das teorias pavlovianas. Ainda que a campainha toque por acaso. “
Nuns desejo poder afirmar a minha admiração, nos outros sinto uma quase irresistível vontade de mandar o seu autor às urtigas. Não o fazendo, em nada se reduz o efeito dessa escrita. Ou seja, ter e não ter comentários, nada disso é afinal importante no prazer do que se escreve, e do que se lê.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:36 PM
março 20, 2006
Das vantagens de não ter caixa de comentários
É poder escrever um post cheio de pseudo-referências machistas (como esse aí de baixo) e não ter de me apoquentar na hora da publicação com receio de ser devorado pela indignação alheia.
[ Posso bem poupar-me assim à ingrata tarefa de tentar justificar ser este uma honesta lamúria e não um bramido gutural de cromagnon, até porque isso, sendo sincero, é indefensável. (Já me basta o desencanto de me saber hoje capaz de discutir com propriedade o nome das várias marcas de cremes e até argumentar por que é que o D’Aveia é mais recomendável que qualquer outro. Não preciso de expor a minha intimidade ainda mais para além do razoável) ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:53 PM
E ainda por cima o raio do creme é caro que se farta
Título alternativo, (escolher o que mais convier):
Das cosméticas e do seu impacto nos pêlos do peito
Há uns meses atrás era um tipo normal, acho. Não ligava muito ao corte de cabelo e no espelho só me olhava para fazer a barba. Ainda assim julgo que tinha um aspecto saudável, quase normal, não fosse uma pequena coisita branca na ponta do nariz. Segui então conselho e fui à dermatologista. Hoje falta-me um naco de carne que me encova a ponta do nariz, e se bem que não seja particularmente vaidoso acho isso desagradável e dispensável (já perguntei se não me poderiam voltar a pôr a tampinha branca que não fazia mal a ninguém). Inquietações estetas? Nada disso, falo das consequências concretas que esse detalhe passou a ter na minha vida e na minha própria identidade. Acontece que hoje tenho de pôr todos os dias um cremezinho para cuidar daquilo. Deste pequeno pormenor da higiene matinal decorre então que acumulo um atraso diário de cerca de 5 minutos que se manifesta em todos os meus compromissos matinais, dado que tenho dificuldade em recalibrar essas actividades mas, mais grave, ganhei um pânico até então insuspeitável ao horror das “coisinhas, que temos de ver isso melhor” da pele, dessas que todos os dias escrutino nas mais variadas zonas da minha epiderme.
Mas esses são os efeitos mais visíveis, porque aqueles que verdadeiramente me inquietam manifestam-se no meu lado mais íntimo, quando me lambuzo com aquela cremalhada toda ao mesmo tempo que repito para comigo mesmo, “eu não sou abichanado, eu não sou abichanado, eu não sou abichanado”.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:13 PM
Egotismo
Estou cansado de lidar com (o medo d’)a morte. Não a minha, mas a dos outros, que é essa que me esvazia a vida. Não quero ser imortal, gostava era que tudo/todos à minha volta fossem eternos, pelo menos até eu acabar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:01 PM
Porque ontem foi dia do pai
E porque cada vez me sinto mais pai, e mais filho, e nisso mais eu, aqui republico:
"O dedo mindinho arqueado, o mesmo movimento das mãos … ontem, num gesto distraído do Diogo, reencontrei-o. São cada vez mais as vezes em que o descubro nos miúdos. E é como se olhasse para as duas partes da minha vida – para o mundo onde fui filho e para esta nova vida que construo agora com os seus netos – e ver nuns o outro. Será isso ser homem, ser a parte que os une. E poder ser pai e filho, unindo estes dois mundos, … já é bastante para o que eu quero da minha vida."
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:05 AM
A maior afronta
que se pode fazer a um blogger, desses mais fundamentalistas e convencidos , é dizer-lhe que “devias voltar a pôr os comentários activos …fica mais giro aquilo”. Subitamente, desvanece-se a ilusão de que o blog na sua matéria essencial valia apenas pelas palavras que nele se depunham, essas que são criação exclusiva do seu autor, eu. Basta apenas esta casual insinuação, relevando a importância do que até então se julgava acessório, para deitar por terra o mais presunçoso ego da escrita.
E isso claro levanta um dilema: é que sem vaidade não há blog que resista.
[não, não se trata de um anúncio de retorno aos comentários. Será quando muito uma desastrada justificação para a baixa actividade que aqui se vai fazendo sentir, uma temporária quebra de confiança fulgor - chamemos-lhe assim.]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:35 AM
março 16, 2006
Falta de mãozinhas é o que é
Caramba, agora que tenho aqui isto tudo engalanado com belas cores
... falta-me o tempo para nele escrever!
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Ai se fosse há 25 anos atrás
até para rolar folhas entre os dedos sobrava tempo
Olá malta, olhem que vcs estão quase na mesma! 
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:30 PM
março 15, 2006
Olha
Descobri agora mesmo que a sala de jantar
vai muito bem com as novas cores deste blog
e ambos estão por servir
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:46 PM
A nação está salva!
[Larguem os salva-vidas e não empurrem que eu estava primeiro]
Lotação: 100.000 (fundamentais primeiro)
A pandemia aviária aqui na esquina do ocidente não devastará muito: pelo que se conta, estará assegurada a vacina contra essa tal da gripe a 100 mil portugueses “fundamentais”. Nós, quais descendentes de Noé, conscientes do peso que recaiu na nossa escolha, levaremos a pátria às terras do futuro e nela honraremos todos aqueles que representamos.
Bem … , dizem-me agora que não é “nós”, que é só “eles”! Certamente haverá lapso aí que prestes espero ver esclarecido; um absurdo, já que não conheço ninguém mais fundamental do que eu. Ou isso, ou, sem mim, estamos perante um processo de engenharia social que se baseia nas mais cínicas tendências nazis.
Além desse lapso abismal, ocorre ainda a ausência de um saudável romantismo, esse que já no “titanic” fazia troar o cavalheiresco grito: “As mulheres e as crianças primeiro!” Não é que concorde com o conceito, que o cavalheirismo não é coisa que se reclame na hora de salvar a pele, mas se estamos perante um exercício darwinesco, pergunto-me se não terão esquecido as bases essenciais da descendência.
Dois erros técnicos lamentáveis então. O primeiro, terem-me deixado de fora dessa mão-cheia de eleitos, já que sem mim entre os escolhidos não há futuro que faça sentido. O segundo é a falta de membros do sexo feminino, o progressivo abichanar, a esterilização do país futuro, por (quase certa) falta de cavalheirismo cotas femininas nesses ‘fundamentais’ eleitos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:58 PM
Obras
Trincou-se o lábio, mudaram-se agulhas, e tiraram-se os comentários deste blog. Agora foram o grafismo e as cores. Gestos mais adestrados e um novo fato de fina talha.
E dá-lhe um ar mais intelectual … pode ser que agora até aprenda a escrever, e me deixe em paz.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:19 PM
março 14, 2006
Questões menores da educação menor
É opção de cada um ter comentários disponíveis ou não os ter. Mas se os há, obriga-se quem os dispõe, dentro das normas da boa educação, a responder, se estes evocam ou convidam a essa resposta. Até concedo que não o faça, que os deixe para os leitores, desde que isso como regra generalizada. O que não tolero é a petulância e o snobismo daqueles que a este respondem e ao outro (gente menor, incómodo até, ou talvez mero intrometido a desbotar no nível do diálogo), a esse outro ignoram. Todos os complexos de superioridade me irritam profundamente, mas esta atitude magestática de reservar os comportamentos de resposta só “entre iguais”, este desprezo ostensivo por quem nos dirige a palavra fazendo uso da prerrogativa arrogante de responder a quem apenas se quer, isso confesso que me enfurece. Estes incidentes com egos obesos, quando sucedem na vida real, só acontecem comigo uma vez. Não vejo porque nos blogues deva ter outro tipo de disposição sobre o assunto.
Que não se declare a inocência investindo que isto dos blogues não é a mesma coisa que o cara-a-cara, como se do lado de lá houvessem apenas antenas emissoras accionadas por um misterioso ‘zingromé’ de vocábulos. Pessoalmente não vejo diferença; em ambos os casos há gente dos dois lados, e aqui até talvez mais tempo, maior reflexão, os comportamentos podem ser mais tratados e cuidados. Tudo isto, esta coisa dos novos modos comunicacionais, do inédito, do ‘imprecedente’ que ainda não encaixa nos quadros da cortesia, só me faz lembrar a boçalidade (e desculparão, pois sei que critico situação mais ou menos generalizada) de alguém que partilhando uma refeição comigo se interrompe e me empurra para o lado, por vezes minutos a fio, para entabular uma conversa sobre coisa nenhuma no telemóvel. Bem sei que quando éramos pequeninos não haviam destas coisas sofisticadas e que ninguém nos pôde por isso ensinar os comportamentos convenientes … mas que diabo, a boa educação e o respeito é algo que tem muito de bom senso, e para gente inteligente não é preciso que venha na cartilha.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:41 PM
Morrer lambido pela primavera
O sol empanturrando-se nas pálpebras. O fastio da sopa de peixe a escorregar amolecida nas mãos pousadas sobre a cava do volante. E as linhas rectas da estrada engolindo horizontes pasmados, toque-toque, ritmos entorpecidos a zunirem traiçoeiros ruídos de sono. Assim se segue rolando pelo meio da primavera, arriscando, literalmente, a vida.
Bem sei que a semeadura do anteontem agradece de lá do pátio, e que por lá se empinam agora os nados caules nessas vigorosas alavancas de luz, e que outros mais velhos sobrevividos do inverno avivam e agitam os tons vivaces da nova adolescência. Mas isso são razões do lazer, do além-dever, do mundo e do prazer, da natureza com que brinco e das minudências do fim do dia.
Esse sol que lá desejo, e até aqui se amanhã, é o mesmo que hoje não era tão preciso, assim de lâmina atravessada na garganta de um velho náutilo da estrada. Que já prestes estive morrendo, ali que ai quase me desaguava naquela luz. Eu, o primeiro sobrevivente da primavera.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:26 PM
março 13, 2006
A verdadeira noção do valor literário de um blog ocorre …
... quando o seu autor descobre que o post mais lido de todos, aquele que ainda hoje atrai a grande maioria dos seus leitores, e por uma margem avassaladora, é este!
E posto isto,
Sexo na mata
Gajas (morenas, loiras, carecas, …) mas nuas
Descubra como aumentar seu pénis sem dor (crédito Bes)
Cunilingus (nunca percebi a parte do “cu”)
A minha fantasia sexual com uma ovelha
Mamas (garantia de 3 anos para atmosferas de 1 bar)
Cavaco (esta também deve dar qualquer coisinha nos próximos quinze dias)
Sexo anal e vegetal
Pamela Anderson (faltam-me nomes … faltam-me nomes) Catarina Furtado (antes de estar grávida)
semeemos a ilusão.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:57 PM
O Golf e a terminologia inglesa no momento de ‘tacar’
Sou demasiado orgulhoso para ser um caddie, mas tenho um swing pouco ambicioso para poder ser um golfer. Não quero chegar ao green atrás de ninguém, mas também não quero levar comigo alguém atrás. É isto assim, no golf, como na vida, teimo em não querer vestir as personagens que fazem parte da acção - umas porque me desmerecem, as outras porque receio desmerecê-las. Resta-me a esplanada, nas margens do faraway. Pode-se tirar partido do golf olhando-o apenas, garanto.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:01 AM
março 10, 2006
7 - 5
... 7 - 6, com este.
(hoje estou convicto de que postarei mais que tu!)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:44 PM
Escrever é um acto solitário
(sobretudo quando se inibem os comentários)Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:42 PM
Estudo de mercado
Considera o período entre post’s o mais adequado?
Quanto ao teor do conteúdo, prefere um tom ligeiro ou com um piquinho?
Os textos são demasiado extensos e espessos ou deverão ser mantidas as vírgulas todas?
Sobre o seu autor, entende que este se passou de vez, ou que apenas está a passar por um período de ficção?
Acha que o seu blog deveria ser linkado mais vezes dentro das habituais trocas comerciais da blogosfera?
Ou, caso não tenha um blog, (e ainda assim), acha que o autor devia contar mais histórias da v. infância comum?
Ou em não o conhecendo, acha que o autor deveria realçar as suas visitas e enobrecer a sua fidelidade?
O que melhoraria neste blog: A coluna da direita, o boneco no cabeçalho ou o lettering?
Como o considera a este blog? Superior ou ao nível do Abrupto?
Promete que volta cá, caso o autor corresponda às suas propostas?
(Favor enviar respostas em papel de 25 linhas reconhecido notarialmente)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:34 PM
Que horror !
Isto está a ficar um espaço neurótico!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:49 PM
A verdade para ser escrita, tem de ser esculpida com suavidade e contar coisas que se possam vestir. É isso que lhe dá a credibilidade probabilística. Não importa a sinceridade do que escreve, mas tem de ser possível tocá-la. A autenticidade só existe se o leitor se puder sentar sossegadamente a desfolhar um-por-um cada episódio desses que também pode tomar como seu, e assim poder partilhar com o autor esse orgulho de ambos serem quase-anjos, banhados em elogios mútuos por entre as folgas de dois parágrafos. Já essa outra, feita de turbilhões, de hipopótamos com cornos e devaneios cósmicos, isso é pura ficção rebentada das entranhas. É a ‘mentira’ que se quer recatada. Que as coisas reais são bonitas e devem poder ser de todos. A realidade é uma escrita fisionómica, simples, que fala de coisas aconchegantes, com palavras a desenharem a ilusão do que julgamos ser. O resto não tem leitores, nem tem quem o escreva. É (o resto da) mentira que já ninguém quer.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:23 PM
O homem em diferido
- Mas quando vais tu parar? Não queres vir deitar-te!?
Aquilo que tinha começado por um pequeno alheamento dele transformara-se nos últimos dias numa casca autista onde ele mergulhava para não mais sair. Desesperava em tentar trazê-lo de volta ao aconchego da sua casa, para próximo dela e dos miúdos, onde aliás ele sempre se sentira bem. Até agora.
- Eufigénio? Eufigéniiiiioooo!! …
Subitamente ele imobilizou-se. Um silêncio profundo invadiu a sala, de onde apenas zumbia uma respiração de ciclo apertado que fora treinada por ele para acompanhar o ritmo das teclas. Depois virou-se, rodando custosamente o pescoço embotado na sua direcção.
Não conseguiu reprimir o choque que a invadiu. Acabara de ter a certeza de que nunca mais o reaveria, pelo menos enquanto homem, enquanto ser com características analógicas. A cara tinha-se deformado, e apresentava agora um contorno rectilíneo, quase quadrado. Os olhos haviam perdido as pálpebras e adelgaçavam-se, ganhando altura, quase numa linha vertical onde agora lhe corriam a uma velocidade diabólica os zeros e os uns com que descompilava as imagens que processava. A boca quase tinha desaparecido, agora inútil, e apenas com alguma atenção se notaria o pequeno orifício, ali mantido como opção para ser utilizado por um periférico – em ocasiões muito especiais talvez um jack para ligar um microfone. Tinha também um sinal novo, na fronte esquerda, e isso aparentemente humanizava-o um pouco. Mas quando se aproximou reconheceu tratar-se do símbolo da Microsoft com as três bandeiras multicolores tendo por baixo algo escrito em letra miúda que julgou ser “Intel inside”, embora o não pudesse garantir.
Ainda assim conseguiu notar-lhe naquela esfíngica expressão um pequeno trejeito de desagrado. Nada de muito notório, apenas um reclinar dos ombros, como quem lamenta apenas o contratempo, a interrupção que o obrigará a recomeçar algo - não importa o quê - de novo. Depois ele voltou a recurvar as costas, e viu-o clicar no símbolo do “Word”. Quando este se abriu ampliou o tamanho das letras para que isso não trouxesse dúvidas de que ela o ouviria, e escreveu: “Já vou, é só colocar mais este post” . E acrescentava, agora já matraqueando naquele ritmo desvairado feito de muito hábito, “hoje vai sair um post intimista. Vou fingir que jantámos todos à mesa e que languidamente escutámos as trapalhadas do Diogo a contar o dia na escola.” Estranhava-lhe tanta confidência. Normalmente destas coisas dele só o sabia em diferido, quando mais tarde lia o seu blog. Isso fez alimentar-lhe alguma réstia de esperança e instintivamente aproximou-se dele até que as suas pernas se tocassem ao de leve. As mãos dele encresparam-se de imediato. Desenlaçou-as, estalando os dedos antes de acrescentar, invulgarmente hesitante, os últimos dígitos: “Sempre ajuda a matar saudades”. Depois partiu, pela Internet fora, esquecendo já a promessa de há pouco, como todos os dias acontecia. (de manhã cedo logo se desculparia com o primeiro post do dia)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:46 AM
março 04, 2006
Blogambulando
Os parabéns. São 3 anos que se celebram num dos melhores espaços da blogosfera (antecipados, porque estarei por longe nesse dia – e aqui junto-me ao próprio autor desta memória inventada, o Vasco Barreto, já que é ele quem começa por cometer a heresia de anunciar antecipadamente o seu aniversário). Incontornável, mesmo sem a “bola nos olivais” …
A vergonha. Repito, a vergonha. A evidência de que este mundo virtual está longe de ter regras. A voracidade com que se alapam na caixa de comentários de um blog que se interrompeu pela razão mais dramática de todas, para ejacularem gracinhas e discorrimentos palermas. Tanta falta de discernimento, de sensibilidade, tanta vaidade e brutalidade. E não há ninguém que acabe com isto!?
O feminino. Sim, reconsidero, há escrita feminina. Nada dessa que resvala na fanática obrigação de se diferenciar, e na compulsiva necessidade de reclamar ao sexo feminino a superioridade, aqui vítima das suas próprias grilhetas, nas palavras que escrevem queixumes. Falo da escrita das palavras aveludadas, dos sentidos insinuados, dos ritmos da respiração que só das mãos de uma mulher podem brotar. Ela sendo no “como” diz, nisso mais que dizendo!
O espanto. Foram ultrapassadas há uns dias as 100.000 visitas (de acordo com o contador mais exigente). Talvez no mês passado, nem o terei notado. Aliás, faço gala nisso de não querer ligar a audiências, de não engalanar essa vaidade que contradiz os propósitos que tão insistente e excessivamente tenho aqui apregoado sobre o que me leva a escrever em público. Mas que diabo, 100.000? É um púlpito demasiado alto para as costumices que aqui se jorram. E assim quantificado, leva-me a pensar que sou muito mais desavergonhado do que alguma vez me julguei!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:33 PM
Que eu parto e tudo o resto morre (*)
(*) como na última primeira vez
A realidade, incrédula
desenforma-se
e já quase nada,
mero anúncio da memória.
Depois nem isso,
nem sonho, nem vestígio
As coisas – esse tudo,
esse tanto que fizemos,
inelutáveis
deambulam agora
na velocidade ignorada
de um meteoro perdido
Eu parto
E tudo o resto,
tão incrivelmente importante
Afinal morre
A lembrança,
essa esmorece
como quem vai debandando,
cada vez mais vaga,
ao fundo,
já foi
Uma chave range
e cerra-se a sala,
desmazelada
da ébria festa
que súbita
acabou
E parto
deixando a incerteza
se no que foi
fui
[Há no exercício da poesia muita inocência arrebatada, despavor até. Que inventar significados induzidos e deixar que estes lavrem nos outros a noção que temos de nós, já para além das palavras, isso é enorme arrojo, tanto mais que é arte que bafeja a poucos. Escrevinhá-la é quase ter a certeza do risível, e mesmo assim não lhe resistir. Vestindo a pele, arrisco, e deixo o elogio à coragem de quem ousa assim, tão absolutamente, deixar-se despir na sua poesia - na maior parte das vezes, sabendo que é um corpo desfeiado (por si) aquele que assim expõe. Que não é nos bons poetas, mas nos sofríveis, que as palavras assim escaqueiradas se manifestam no irresistível exercício de quem sente essa necessidade, quase compulsiva, de se fazer, de se sentir devassado.]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM
março 02, 2006
A “razão” repousa onde a quisermos descobrir
Chego a casa e encontro-a a dormir no sofá. Aproximo-me. Cautelosamente. Seria embaraçoso que ela despertasse e me visse este olhar d’agora. E escusável. Sei que se isso acontecesse iria ainda acicatar-me mais a fúria com que horas antes ali a tinha deixado. Mas algo em mim não resiste, algo em mim não lhe resiste. Ajoelho-me ao seu lado e aproximo-me ainda mais. Quase lhe toco a respiração.
Deixo-me assim ficar, sobre os seus olhos fechados, e depois seguindo-lhe as rugas que deles divergem, lendo-a. Cada uma dessas linhas lavra um tempo, pessoas, episódios, troços do passado que revivo, onde a encontro, e onde ela me vê. São traços dela que são já meus também, que é um passado cada vez mais partilhado e prolongado que assim se sulca. Nenhum passado é igual nem de igual se conta cada passado. O que foi, só o é pela forma como hoje o sabemos transportar. Continuo a seguir-lhe esse raiado que lhe nasce dos cantos dos olhos, e o passado que percorro nele, a forma como o conta, é um passado preenchido, sereno, bastante. Olho-o e compreendo como seria inconcebível pertencer a outro passado que não este que se escreve assim sulcado nela. Olho-a, e compreendo que é ela quem eu quero que desenhe o meu passado - que as suas rugas, mais que as minhas, o sabem contar com contentamento.
Depois desço para a sua boca, e aí me perco mais um tempo. Aqui não é o passado que repousa. Os seus lábios falam-me do futuro, do que ainda temos para sorver, da carne e do desejo, do que agora sinto por eles e do que tanto quero deles amanhã. São generosos, carnudos, vivos. Percorro lentamente com os dedos as suas curvas adormecidas - a linha de cima, arqueada, depois a de baixo, saliente - e sigo tacteando o desenho desse viver sereno, intenso, capaz de sussurrar subtilmente o que tantas vezes me falta ao fim do dia. Contorno-os até tocar o arrebique de felicidade que volteia os seus cantos. Ali onde as duas linhas se tocam, no exacto ponto onde se forma o seu sorriso, é ali onde mais que tudo quero que se abrigue a minha vida. Que não há nada hoje, nada que conheça, que me fale tão veementemente do futuro onde quero estar.
Rio. Rio agora de mim: acabo de determinar que o meu amuo, desta vez, por mais esta vez, acabou. Que importa toda a razão do mundo, e as minhas iras, se dela tenho os seus lábios.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:51 PM