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fevereiro 15, 2006
#$%! para o dia dos namorados e o seu valentim
O exercício que hoje aqui é trazido irá abordar a imprudência da juvenilidade, e os seus nefastos efeitos, se conjugados com efemérides (comerciais) públicas que exagerada e imprecavidamente trazemos para a nossa vida privada. Ressalto para aqui então, num mero desempenho especulativo, uma imaginada situação que localizaremos em redor das 3h ou 4h da noite de ontem, e cujo raio de acção não transcende sequer os contornos da protecção encefálica de um idiota que se entretém em prosseguir naquilo que sustenta ser o melhor paliativo para a desagradável situação em que se deixou envolver. Para melhor compreensão deste exercício teórico irei incorporar a pessoa do (idiota) narrador. Vejamos então.
A experiência da idade já não me deixa cometer certos erros, (o que me leva a adiantar que nunca poderia estar aqui a escrever isto, de olhos esbugalhados na penumbra solitária de uma noite malbaratada). Primeiro, não me deixo ir em modas cujas finalidades são a manipulação sentimental à custa de manifestações embeijocadas que se pretendem adornadas com algo de valor material que se consiga comprar apressadamente entre o trabalho e a chegada a casa mesmo que no comércio local. Depois, nunca me deito demasiado bebido. Se por desatenção isso suceder, (e falo de bezanas), o que é raro, prefiro afugentar qualquer réstia de embriaguês, antes de me deitar. E digo eu, é mais recomendável acordar cansado que ressacado.
Provavelmente se me tivesse visto na noite de ontem nessa situação, o que seria algo insólito repito, poderia dar-se até o caso de me propor blogar até às tantas da madrugada, e isso como estratégica opção para, através do exercício da concentração, amansar os níveis de alcoolémia que neste quadro de ficção me habitariam. Ora assim premeditaria eu que tal prática me entreteria o suficiente ao longo de um largo período de tempo, já que mesmo antes de premir a primeira tecla, teria de me haver com o exigente desafio de encontrar e alinhavar tema que se estimasse ver escrito. Alargava-se tal exercício para jusante, já que depois, (e estou ainda no domínio das suposições já se vê), tendo porventura desistido de tão desgastante exercício intelectual, me lançaria apenas e sem pejo no preceito mais fácil das actividades literárias, isto é, limitar-me-ia a traduzir em texto o que me varresse a cabeça.
É certo que, na situação em que me encontraria, isso de retratar os instantâneos pensares não me levaria muito longe, nem por muito tempo. Mas não esqueçamos a entretanto desabilitada componente senso-motora. Assim, para além do esparso tempo já cumprido com as pressuposições e suposições que esvoaçam à toa numa cabeça inebriada, ajuntar-se-ia ainda a parte mecânica, essa sim, um verdadeiro desafio de concentração. Tecla aqui, tecla ali, nesse tique-taque do bater das teclas como quem faz tiro aos patos aprestar-me-ia a dissipar mais uns minutos, quem sabe, talvez horas, antes de espiritual e intelectualmente me recompor com vista ao esparramanço no já quase deseperado leito. Mas antes do recomendado tempo se esgotar haveria de me haver com outros oportunos emprazamentos ( e aqui gostaria de recordar que continuamos a tratar a remota hipótese de me ver na situação atrapalhada que dá o mote a este texto, a qual, segundo a minha abordagem aconselharia a que extinguisse a bebedeira antes de me entregar ao revigorante – ainda que já inevitavelmente curto - sono). Seguir-se-ia um profundo exercício intelectual, o qual passaria essencialmente por me entregar ao esforço de não esquecer a palavra que pretendia enquanto a matraqueava soletradamente nas teclas já queixosas. E mais contratempos, como a estratégia recomendaria, se interporiam depois. Que já não a palavra que arduamente era escrita, também a frase que a albergava reclamava da minha atenção, que para que uma se manifestasse a outra teria de estender a passadeira da compreensibilidade.
E assim descrevo o estafado exercício de intelectualismo a que me entregaria, por força da minha presunção de que deitar, antes cansado que embriagado. Desta mera suposição apenas ressalvo o desenvolvimento retórico que até aqui me traz, posto que, tudo isto só viria ao caso se eu não tivesse juízo e idade suficiente para não me deixar enganar por um tal Valentim de quem nem sei o apelido, e que me faria adepto das práticas bacantes a meio da semana.
Mas não foi o caso, que eu não vou nessas modas nem cometo já esses imprudentes deslizes. O que aliás se prova no facto de este post aqui ficar editado nesta ensolarada tarde, e não a meados dessa tal noite que eu (de acordo com o acima explicado), teria de outro modo arruinado para curar a bebedeira. Dir-me-ão que ainda assim, nada impedia que este texto não tivesse sido escrito durante a cura que hipoteticamente retrato, sendo apenas agora publicado. Sim, claro que o poderia ter escrito ontem à noite mas, para isso, seria necessário que então estivesse em condições para escrever o que quer que fosse. Ou que pelo menos desperdiçasse já na madrugada várias horas de sono para escrever uma dúzia de linhas assim, quero dizer, como estas poderiam ter sido, mas não foram.
E sublinho: não foram, que de outro modo estaria agora a sofrer os castigos de uma tonitruante ressaca, que não estou. Pois que se estivesse a ser vitima de tão imprudentes actos na noite de ontem ser-me-ia impossível articular duas palavras, pelo que ainda menos saber escrevê-las. Ora isso implicaria que tudo isto teria de ter sido escrito ontem à noite, o que só se justificaria se eu me constatasse ébrio, o que não aconteceu. Repito, não aconteceu. E peço-vos apenas a delicadeza de não me questionarem sobre isto, do quando terei então escrito tal coisa que não hoje nem ontem. Que se há alturas na vida de um homem cujas lembranças se apagam não será certamente para que as forcemos a voltarem a ser o que nunca quiseram ser.
Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 15, 2006 03:42 PM
Comentários
Vinho tirado é vinho bebido.
Publicado por: bill em fevereiro 15, 2006 04:40 PM
Isshh que o mar hoje está bravo...
Calma rapaz
Publicado por: alyia em fevereiro 15, 2006 10:32 PM
Quem fiquei embriagada com esta prosa fui eu, que é um estado de alma que me dá riso compulsivo.
Se esse tal Valentim, que com esse nome só pode ser um sacana, provoca estas reações alérgicas, parece-me que deve ser canonizado.
Publicado por: maria arvore em fevereiro 15, 2006 11:12 PM
Eu ia dizer alguma coisa, penso... mas não consigo lembrar-me do que era.
Publicado por: cap em fevereiro 16, 2006 01:40 AM
e ao menos era tinto? :)
ou seria - supondo que tinhas bebido?
Publicado por: susana em fevereiro 16, 2006 03:57 AM
Oh Bill, se mo tiram como é que o bebo? Um desperdício é o que é.
Concordo Maria A., isto se o sentido do canonizado (= posto à frente de um canhão) for como o entendo
Cap, de um modo geral terei de concordar contigo
Tinto Susana, que o branco dá-me azia ... quero dizer, dar-me-ia, se o tivesse bebido, ao branco, ao tinto (esta coisa de escrever no condicional é complicada)
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 16, 2006 10:09 AM
a mim dá-me dor de cabeça. :D
Publicado por: susana em fevereiro 16, 2006 11:09 AM
:)
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 16, 2006 11:14 AM