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fevereiro 08, 2006

E podia ser tão fácil

A realização de um homem não depende do que ele atingiu. Isso será o seu compromisso, importante certamente - daí advirá parte da sua auto-satisfação, e é provável que daí também granjeie algum reconhecimento. Mas isso tão só não constitui a equação essencial desta vida, e de nada vale se a esse pacto for alheia a felicidade, essa qualidade com que gastamos cada minuto de cada dia, que é isso afinal que conta quando de todos eles tivermos usufruído.

Centrar os nossos anseios no que se pretende alcançar, fluir na vida permanentemente em prol de objectivos esmiuçados, pode resultar num dano irreparável: pode cegar-nos ao ponto de nos impedir de a fruir. E por um absurdo inexplicável, este lapso tende a ser mais frequente à medida que ganhamos experiência como homens, pois nisso nos vamos comprometendo cada vez mais, não tanto connosco e com a nossa felicidade, mas com os outros e com as convenções (tantas vezes irrelevantes) que vamos estabelecendo.

Todos nós nascemos com uma carga de felicidade enorme, é algo que vem connosco e que é patente enquanto somos crianças. Mas é quando crescemos, quando nos abrimos ao mundo, quando este entra por nós adentro, que de alguma forma teremos de guerrear para a manter. E nesta liça esquecemos muitas vezes que a felicidade, aquilo que conta, quase sempre não vem de fora, e é quase sempre uma coisa simples que está ali à nossa mão.

A realização de um homem, para ser tangível, não pode deixar de fora o impulso que se esconde em cada instante que vivemos, e que treinamos para dominar, que aprendemos a esconder em detrimento duma missão ilusória que desempenhamos. Na maior parte das vezes acredito que esta se alcança pela capacidade simples de em determinado momento fazermos o que realmente nos apetece. Mas conseguir ser por vezes imune aos constrangimentos e compromissos que vamos amontoando ao longo da nossa vida (pública) não é fácil. E no fim constata-se que é muito mais difícil ser um homem feliz, praticando a impulsividade, do que um homem resolvido armado de tenacidade.

Também creio que por vezes, para se ser feliz, é exigida muita coragem e, talvez, também um pouco de egoísmo, daquele que não faz mal e que nos ajuda a olhar para dentro.

(E agora fechava aqui o estaminé e ia ali até à esplanada do Campo das Cebolas beber umas bejecas …contigo. Esse seria o meu impulso de felicidade hoje)

Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 8, 2006 11:28 AM

Comentários

Tens toda a razão, nem sempre é facil manter a determinação de se ser feliz. Mas vale a pena.

(e contribuía já um bocadinho mais para a minha felicidade relendo tudo outra vez, devagarinho, mas como tenho aqui tanta, tanta coisa para fazer, vou deixar para mais logo - também é bom ter umas "reservas" :) Até logo e obrigada por uma escrita tão bonita)

Publicado por: Jill em fevereiro 8, 2006 05:44 PM

lá está Jill, os compromissos. Ai ai :)

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 8, 2006 09:54 PM

:) touché...!! Mas deixa lá que eu depois desforro-me ;)

Posso dizer outra vez que gostei mesmo muito deste texto, que tanto me dá que pensar, e que agora que o li com um bocadinho mais de calma, ainda gostei mais? :)

Publicado por: Jill em fevereiro 8, 2006 11:16 PM

podes, mas confesso que isso me deixa um bocado acanhado ...rs

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 8, 2006 11:46 PM

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