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fevereiro 01, 2006

E entretanto o mundo gira e avança … e eu, eu também, eu também

O telefone toca. Nada sugere que interrompa o labor administrativo, mas é preciso mão que o segure. Suspendo então distraidamente a caneta entre-dentes. De um lado a conversa resolve-se, do outro enjeito a papelada que tenho pela frente. Concluídas estas etapas quase simultaneamente restabeleço as tarefas anteriores. Mas antes vejo-me avançar com a mão na direcção da boca e agarrar de novo a caneta, entre o indicador e o médio. O trabalho prosseguirá então. Nesse preparo bato então com ela duas vezes na borda do cinzeiro, pretendendo escorrer-lhe a cinza, e por lá a deixo depois a repousar. Mas o telefone toca agora de novo. Ao invés de me anunciar mantenho-me calado, enquanto escrevinho o bocal. Entretanto vou ditando, de olhos fixos na folha de papel o texto que pretendo escrever a um colega de trabalho

… ???, acabo de reparar neste perturbante distúrbio, e enquanto coço o tampo da mesa, e já num esforço de comportamento mais vigiado, tomo a recomendável decisão de fechar a loja por hoje. Agarro na mala do portátil, ponho-a na cabeça, despeço-me da porta, e saio dali para fora a caminho de casa. Mas depois estranho a penumbra. E era suposto estar a caminhar em vez de estar assim anichado. Apercebo-me que me baralhei de novo em algum lado, e isso irrita-me. Saio então do armário do arquivo morto, volto ao gabinete e retiro a caneta do cinzeiro. Agora sim, tudo está no seu lugar. Procuro enfiar o agrafador na algibeira, pois bem sei que está frio lá fora. Nunca tinha notado ser tão difícil esta tarefa do final do dia, e incomoda-me que ela me leve tanto tempo; o tempo é dinheiro. Por falar nisso amanhã não me posso esquecer de tratar da questão do barulho do candeeiro de que já muita gente se queixou. Respiro fundo e acalmo-me, afinal, não há razão para tanta agitação. Vem-me à memória aquela letra que diz que “se o macaco gosta de bananas eu gosto de ti”. De facto não tem sentido que sacrifiquemos a nossa saúde e a nossa vida só para que tudo se resolva mais depressa. Mas ainda assim procuro ser rápido, pois não gosto de fazer esperar ninguém e há dois dossiers de cartão canelado que aguardam já impacientemente à porta de olhos esbugalhados e fitos em mim. Reparo agora nela, na porta, e estranho: aquela porta ali com quatro pernas metálicas, quase juraria que era um tripé com rótula ao meio. Assim sendo não sei como lá iremos caber todos. Mas que importa isso, aqui tudo muda, são os tempos, e não havemos de ser nós que iremos ficar para trás.

Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 1, 2006 04:23 PM

Comentários

Esta ficção é inspiradora.:)

Ser responsável, é viver, não é?... ;)

(este naco está muito bem esgalhado)

Publicado por: maria arvore em fevereiro 2, 2006 12:41 AM

Ficção Maria ?

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 2, 2006 10:50 AM

A ficção está
- na esferográfica a que se escorre a cinza,
- no "despeço-me da porta",
- no "enfiar o agrafador na algibeira, pois bem sei que está frio lá fora.",
- nos "dois dossiers de cartão canelado que aguardam já impacientemente à porta de olhos esbugalhados e fitos em mim. ",
- n'"aquela porta ali com quatro pernas metálicas, quase juraria que era um tripé com rótula ao meio. ",
mesmo que seja assim que vejas os teus dias de trabalho. :)

Publicado por: maria arvore em fevereiro 2, 2006 08:51 PM

E esqueceste-te do:
"mantenho-me calado, enquanto escrevinho o bocal"
"vou ditando, de olhos fixos na folha de papel o texto que pretendo escrever"
"enquanto coço o tampo da mesa"
"na mala do portátil, ponho-a na cabeça"
"Saio então do armário do arquivo morto"
"se o macaco gosta de bananas eu gosto de ti”
e, mais importante que as outras:
"aqui tudo muda, são os tempos, e não havemos de ser nós que iremos ficar para trás"
Mas é por tudo isso que indicas que continuo a achar que foi o exercício mais neo-realista que já aqui tentei

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 2, 2006 09:02 PM

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