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fevereiro 07, 2006

Artes e Ofícios, (ou conjugando: a técnica do desenrasca)

Foi ao Francisco que coube acabar o banho aos gritos. Enrijece dizem, tentei dizer-lho, mas ele não fez caso. Ultrapassado este incidente - e depois de lhe seguir as lamúrias pelo corredor fora e que insinuavam vagamente que por miserável sorte estas coisas do destino o escolhiam sempre a ele - lá avanço para o esquentador. Nada que me inquietasse. Afinal já não era a primeira vez que me havia com aquele bicho. Para além disso, enfrento sempre qualquer avaria ou incidente doméstico com doses reforçadas de “o pai sabe arranjar tudo”. Impante, empinei-me então no banco elevando-me à altura do piloto. Nem tudo são desvantagens com as coisas velhas. Se por um lado sucumbem com mais frequência, também é verdade que as suas avarias são cada vez mais facilmente diagnosticáveis, pois que em cada intervenção se alarga sempre um pouco mais o leque de  “operações técnicas” que temos à disposição assim proporcionadas pelas marteladas abordagens empíricas que vamos experimentando. O esquentador é, nesse aspecto, de entre todos os electrodomésticos, o meu maior aliado. É aquele que mais frequentemente desfalece e que mais vezes me faz brilhar.

São tantas as vezes que se tornou quase uma rotina ouvir-me chamado de lá da cozinha por culpa de mais um espasmo do seu cansaço e velhice. Basta atentar no tom enfastiado e prolongado do chamamento para me munir das ferramentas necessárias ainda antes de lá chegar. Faço-o sem queixumes ou atrasos, diria mesmo, até com algum orgulho convenhamos, que não é todos os dias que um marido e pai se pode fazer de salvador da pátria, e estas coisas dos curativos nas avarias sempre ajudam a realçar o insubstituível território de um homem. Voltando ao teatro de operações, e recordando que me encontro sobre uma banqueta olhando com ar entendido e confiante para o piloto apagado: preparo-me então para aplicar a sucessão de técnicas que quase invariavelmente conduzem ao sucesso na resolução de tal imbróglio. Assim as descrevo:

  1. A primeira acção, passa por uma valente sopradela sobre o piloto. Este sopro deve ser aplicado enviesadamente por forma a tanger o orifício, libertando-o assim de qualquer impureza que se lhe tenha agarrado. Nada. Passo então à segunda fase.
  2. Enquanto com uma mão primo o botão de acendimento, com uma chave de parafusos dou duas ou três pancadinhas no tubinho de cobre. Embora não saiba que designação alguém deu aquele delicado tubo, compreendi um dia que ele conduz ao sensor térmico que por segurança obstrui a chama caso não detecte o calor que o deveria abraçar. Estes toques que imprimo já com um certo à-vontade, costumam aproximá-lo, na sua folga, o suficiente do piloto para que o problema fique sanado. Não foi o caso.
  3. Passo então ao terceiro passo. Aqui não escondendo já alguma inquietação, uma vez que os meus recursos se começam a extinguir. Esta consiste numa intervenção mais radical e também de maior brio técnico. Desmonto a carnagem do esquentador por forma a ter uma área de trabalho mais liberta. Na verdade não é absolutamente obrigatório que o tenha de despir assim, mas a verdade é que isso me faz desfrutar da vantagem de impressionar eventuais observadores sobre o meu discernimento em matéria tão sofisticada. É aqui que entram as limas das unhas da Eufigénia que se consomem a um queixoso ritmo lá em casa. Absorvidamente entrego-me então a umas raspadelas. Uma aqui, outra por ali, e piloto, sensor, e todos os restantes picoletes que me sugerem ter alguma função importante são assim alisados até que apresentem um ar luzidio. Isto vou acompanhando de explicações técnicas (que por esta altura já não costumam ter ouvintes) que explanam a importância do retirar o carvão que por esses sítios se acumulam. Sendo esta última operação mais complexa e de maior impacto, é também aquela cujo êxito conduz a maior regozijo, pois esta evitará o cabo dos trabalhos que é recorrer a serviços externos.

Mas desta vez nada resultou. Ferido nos meus méritos, mas consciente da delicada situação, (e logo a um fim de semana), solicito ainda que relutantemente os serviços de um profissional.  (Benditos cartões de crédito que trazem uma série de pechisbeques agarrados que normalmente nem nos lembramos). Ao final do dia lá chega o técnico, esfalfado, e fazendo-se acompanhar de algum falatório habitual: “Hoje ainda não parei, nem almocei. É sempre mais no Inverno, é sempre mais frequente isto e a gente sem mãos a medir” e os desabafos e confissões depois, “Não sou técnico certificado de gás mas já faço disto há 14 anos. Anda aí gente cheia de diplomas que não sabe nem metade do que eu já esqueci”. Aí está o verdadeiro know-how português pensei, o “desenrasca” continua a ser o atributo profissional mais honrável. Mantenho-me ali à parte, atento, pretendendo aprender e ampliar os meus dotes neste domínio que até então era só meu. Para meu uso futuro, e para que não soçobre amanhã ainda mais a boa reputação angariada, eis como passo a descrever a operação que testemunhei:

A julgar pelo expedito técnico não são necessárias muitas nem sofisticadas ferramentas. Com ele faz-se acompanhar de uma caixa do tamanho de um estojo de lápis que abre embora de nenhuma das ferramentas se apreste a fazer uso, pelo menos para já. Retira a carnagem do esquentador. Até aqui nada de novo, eu segui exactamente os mesmos passos do “colega” e até arrisco alguma intimidade nisso falando do mau jeito dos camarões que o seguram. A cavaqueira inicial entretanto dá lugar a um ar sério e compenetrado. Nem parece manifestar o mínimo interesse na descrição que lhe vou fazendo. Concluo portanto que a fenomenologia e o diagnóstico não é uma abordagem relevante para este mister.  Noto que nem tão pouco experimenta o acendimento, preparando-se para evoluir directamente para a acção de reparação. Experimento algum orgulho ao constatar que nisso temos abordagens semelhantes.

Um minuto depois, munido de uma chave de fendas, tira o bloco do piloto para fora. Três gestos e ei-lo desmanchado em cima do balcão da cozinha. Eu nunca o houvera arriscado com receio que saltassem de lá molas e parafusos de afinação, pelo que me agrada saber que a partir de agora já poderei estender as minhas intervenções em domínios mais complexos e certamente impressionáveis ao meu pequeno pecúlio de admiradores (na verdade é só um; aparentemente acima dos 13 anos estas lides já não impressionam ninguém).

Sou interrompido pelo técnico: “Por acaso não me arranja uma agulha? ”. O pedido é-me estranho, “Uma agulha?”. Satisfeita a bizarria observo-o agora, executando gestos que até então considerava  inimagináveis assim associados a este tipo de intervenções especializadas. Ele é dos que trinca a língua quando se vê com uma agulha na mão. Passa-a de trás para a frente através do orifício no topo do piloto, enquanto balbucia qualquer coisa que entendo ser uma explicação. Certamente terá notado o meu espanto e até desacreditação de o ver ajudar-se com tão impróprias ferramentas. Dois sopros, e mais uma vez a agulha a fazer-se passar de um lado para o outro. Depois bate com a peça no bordo do balcão e aponta para um montinho minúsculo de impurezas, “vê?”. Mas nessa altura já pouco lhe ligo. Aos meus olhos aquele homem ficou desacreditado.

Mas a injúria maior, aquilo que retirou a réstia de dignidade do ofício que até então concedia partilharmos, veio a seguir: “Por acaso não tem aí forza?”. Já não queria acreditar. Fi-lo repetir três vezes o pedido, por incredulidade mas também para o obrigar a expor-se ainda mais no seu propósito. Depois certifico-me junto da Eufigénia. “que não, que no fogão não usamos forza”. Ele encolhe os ombros achando isso estranho, quase sugerindo a minha má vontade, depois olha em redor e improvisa. “Dá-me licença que use aqui um pouco deste detergente líquido”. Assenti, mostrando já indiferença e decepção para com os seus propósitos. Enquanto bombeia o detergente para dentro do tubinho, vai batendo com o mesmo na borda do balcão e soprando-o insistentemente. Depois passa-o pelo fio de água que deixou a correr e volta a repetir as operações. Faz tudo isto com ar desenvolto e confiante. A forma delicada como agarra na peça entre dois dedos mantendo os restantes esticados e lança sopros enérgicos sobre o orifício manifesta uma experiência já adquirida de há muito tempo.

Terminadas estas operações, volta a encaixar o mecanismo, dá uma varridela com uma trincha sobre o queimador e coloca a carnagem de novo. Dois cliques e aí está o esquentador a funcionar. Demorou exactamente 12 minutos. “São 14 euros então se faz favor. O senhor não paga a deslocação, vantagens do serviço X”. Ficara tão desconsolado com ele que estive quase para me armar em engraçado e perguntar se não me descontaria no preço os materiais utilizados. Reconsiderei a tempo. Além disso, se por um lado me sentia ultrajado em verificar que tudo aquilo não passaram de operações de carácter amador tão equivalentes às que eu usaria, por outro lado reconhecia facilmente as inolvidáveis vantagens de ter testemunhado toda a execução anterior.

Doravante nunca mais precisarei de recorrer aos serviços externos, tão incómodos e tão nefastos para a minha credibilidade familiar. E isso tem um valor inestimável. Da próxima vez que o estafado esquentador decidir fazer das suas já terei oportunidade de alargar o âmbito da minha intervenção. E já não para desenrascar, dessa vez será um desempenho profissional, devidamente munido de agulhas de coser e detergente liquido.

Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 7, 2006 11:26 AM

Comentários

Ou forza! ;)

Publicado por: sofia em fevereiro 7, 2006 12:07 PM

O que eu me delicio com estas descrições de procedimentos... :)

Publicado por: Jill em fevereiro 7, 2006 12:49 PM

Forza aparentemente não usamos Sofia. Mas champô, champô também deve dar

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2006 12:49 PM

Este blog cumpre, entre outras, a função de manual de bricolagem Jill, como sabes. E tem sido de inestimável valor. Do mesmo já recolhi bons ensinamentos sobre a colocação de azulejos, armação de toldos ou mesmo extracção e recolocação de sanitas. Curiosamente todos estes ofícios, aqui se conlui, têm um procedimento comum: chamar quem sabe.

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2006 12:53 PM

Aprender com os mestres... :)

Publicado por: cap em fevereiro 7, 2006 05:51 PM

Ai, o que eu me rio sempre com estas aulas de bricolage.

Tenho de agradecer-te por isso e também, porque depois desta lição, com agulhas e detergente líquido, sinto-me completamente pronta para me aventurar nesse território de homens, olarila! ;)))

Publicado por: maria arvore em fevereiro 7, 2006 11:10 PM

Aí vcs os dois: poderão sustentar que eu ás vezes exagero um bocadinho, o que nem é verdade. mas neste caso asseguro-vos que se trata de uma transcrição literal do episódio. E os tiques dele, o brio com que expunhas as técnicas do desenrascança?! :)

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 8, 2006 12:51 AM

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