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janeiro 19, 2006

Voto de Castidade

Ainda agora ao chegar do almoço vinha com um desejo – talvez não deva dizer tanto, vinha com um desassossego miudinho - de ler um belo de um texto. É uma rotina como outra qualquer, como a do cafézinho por exemplo, um simples estímulo que se nos entranha, um intervalo de que se lança o mote para enfrentarmos o resto do dia. E era mesmo só isso, um texto que mexesse comigo, uma coisa que me espantasse, ou algo que me levasse lá para algures no corrupio da imaginação de alguém. Nada que precise ser inatacável na forma literária nem coisa que tenha de evoluir em grandes espirais de conteúdos metafísicos. Apenas um texto simples, um sorriso na boca, e toca de seguir em frente já saciado

… mas hoje não encontrei nada

Quando assim é, sobra-me sempre a oportunidade de ler isto aqui, onde escrevo. O mesmo anseio afinal que procuro lá fora - e repito – talvez fraca literatura, provavelmente um conteúdo mediano, mas um montinho de texto que me dê agrado ler, a trazer coisas de lá d’antes, ou resquícios desta manhã, ou mesmo o que nunca chegou a ser mas que acabou por ser o que fui, e que por isso me dão gozo rever depois. Ou seja, como dizia ainda agora, texto simples, um sorriso na boca, e toca de seguir em frente já saciado

… mas também aqui nada, nem aqui encontrei nada

Poderia sempre arriscar novos mundos, alargar fronteiras, mas eu não sou homem para grandes voltas. Gosto de acender o cigarro na esquina do costume, espreitar a montra empoeirada de onde já conheço os lugares das coisas, e sobretudo não gosto de perder a minha casa de vista. Nunca aspirei a alcançar coisas novas, prefiro investir-me nas coisas que tenho e talvez melhorá-las. Mas por isso mesmo, do hábito, sei que há um tempo certo, ou melhor, sei haver uma batuta que não é minha apesar de ser ela quem marca os ritmos do que aqui deixo. Mas ultimamente vejo-me confuso enquanto leitor e autor: como se um pudesse (tivesse de) produzir o que o outro quer ler; como se um sem o outro não tivesse razão de ser; como se a avidez de um pudesse ser compensada com o ritmo desenfreado do segundo. E disto

… sobra o vício, e fica o vício apenas, que nada é, e nada fica para ler

É já o metabolismo vicioso da escrita que se impõe, e já todos os pretextos servem para satisfazer a contabilidade das palavras. Algo que já não se importa do que seja legível, algo que apenas se quer fazer texto, já, e nem interessa qual. Esta é uma rotina de que já não me desenlaço e que produz para a saciedade do que quero ler. Acabam-se assim os tempos do deleite, aqueles em que um texto se lê porque primeiro quis ser escrito. E já não retiro encantamento disso, essa  modorra que

… é sobretudo escrever para o vício de o querer ler sem o ter

E por isso, agora, interrompo-me no texto, aqui, nos textos, cá. Não haverá mais cadência nem calendário, nem esse desejo incontrolável de ver correr a escrita, mas apenas o prazer (que tem de o haver) de escrever o que se tiver de escrever. Determinarei que a escrita será o intervalo, e que nunca mais olharei para o resto do tempo, do blog, como o intervalo entre a escrita. É isso. Todos os impulsos são o que não se espera, e é isso a escrita também. Trocarei a ordem das coisas que por um absurdo tomou conta de mim: fica por mim proclamado que aqui já não há texto, que aqui não existe um blog, a não ser que por mero acaso e indómita vontade um texto se tenha de cumprir.

Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 19, 2006 03:10 PM

Comentários

Grande epicurista. :))
O meu descanso é o prazer que sentes em escrever, porque imagina que apesar da compulsiva necessidade de escrita que tenho, não gosto de me ler e venho para aqui movimentar os meus olhos leitores como numa sessão do cinema-paraíso.

Publicado por: maria árvore em janeiro 19, 2006 03:58 PM

Não gostas quê? olha, olha ... Deus dá nozes a quem não tem dentes!

Publicado por: Eufigénio em janeiro 19, 2006 06:43 PM

Mas que brincadeira de mau gosto vem a ser esta? Eu dou-te a desbaratização!!!
Aproveita bem o fds, descansa, passeia, come chocolate, que na 2ª eu venho cá ler material novo.
Já agora, obrigadinho pela parte que me toca no elogio da linha 8. :/
(depois admirem-se que me vá MAJ-BAMG)

Publicado por: cap em janeiro 20, 2006 11:50 PM

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