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janeiro 12, 2006
Uma modesta explicação científica sobre os tremores de terra (traz legendas e um destacável no fim sobre o king kong)
Primeiro era o pandemónio da pandemia
É impressionante como as nossas apoquentações são moldadas pela oferta e depois alimentadas pelo exagero desmedido das estratégias noticiosas. Há pouco mais de um mês era o pandemónio da pandemia das coitadas das aves engripadas. Bastava ler a blogosfera para perceber como todo o cidadão temia o seu fim próximo, provavelmente amarfanhado num canto de um hospital superlotado e incapaz de lidar com tamanho holocausto desta desventurada humanidade. Um mês depois já nem nos lembramos disso, já passou. Ou as aves terão morrido, ou nesta actual indiferença e na exaltação de antes haverá um desmesurado exagero. Ou então foi simplesmente uma notícia que foi espremida e que agora já não tem valor comercial.
Agora são os temores dos tremores
Assim se confirma. Pois agora o que está a dar nos atormenta (oh pobre raça humana que nem tempo tem para descansar entre tanta intempérie do destino) são os persistentes e prenunciadores tremores de terra que todos os dias ocorrem, e várias vezes por dia! Quais aves de bico emproado, que a coisa agora é muito mais grave, e vem do chão que nos sustém! E advirá daí o fim do mundo? Acabarei eu na próxima semana e ser sugado por uma frecha gigantesca da qual verte o gorgulhado magma? Aparentemente já pouco haverá a fazer, é uma fatalidade que se aproxima e que tem na comunicação social os seus pregadores iluminados. Lá se elencam os casos diários, bem identificados e quantificados; hoje foi na madeira, ontem foi por estas bandas, e discutem-se intensidades telúricas que a ver vamos quem as teve mais altas. E se os serviços noticiosos se esmeram com pormenorizadas listas de preocupações e o Richter e o Mercolli de repente se tornaram conhecidos de toda a gente, já os hebdomadários investem em peças de maior profundidade sobre o fenómeno dos abalos telúricos, são já os gigantismos tectónicos e daí se sulcam, se racham, se tremem ainda mais os nossos tormentos, os tremores para melhor associar ao caso em apreço. E pois que parece que a coisa acontece a cada 250 anos, e para isso já estamos atrasados e ai que ele vem aí e eu nem tenho a extensão da apólice do seguro da casa contra catástrofes naturais, o que pouco importará porque provavelmente depois do holocausto que há-de vir já amanhã nem companhia seguradora haverá já. É o fim!
E ainda há quem queira aligeirar a nossa desgraça
"Mas vejamos. Este fervilhar das profundezas do planeta é coisa que se vem manifestando só agora?” arriscam uns, mais incautos, nesta interrogação retórica. Pois, ninguém lê nas entrelinhas que o tempo já só dá para passar a vista nas parangonas. E além disso há em nós esta inexplicável e ancestral necessidade de vivermos permanentemente à beira de mais alguma desgraça. E olha até que bem que a nossa comunicação social nos sabe alimentar isso ein, lá dela não nos podemos queixar, que ao menos nos valha isso. E não venham agora cá suavizar a coisa. Importa é ver os telejornais da manhã, essa desgraça - e atenção que agora foi na Madeira - deu já fortito, com 3,5 na escala do Rico dizem e o picentro cada vez mais próximo, ai ai que ele vem aí!
Estes agora a querer explicar a missa ao padre
Não venham agora cá com artigos científicos de nomenclaturas esquisitas e gráficos cheios de setas que não têm interesse nenhum nem falam da estatística e dos possíveis mortos. E há lá paciência para ouvir aquela senhora com cara de cavalo, que se engasga a falar e que nem sei porque a deixam ir à televisão com aquela fraca figura explicar estas coisas que ninguém quer saber, porque se a gente a sente a tremelicar (eu ainda não senti, mas toda a gente diz que sim) escusam de vir cá enganar-nos com teorias, e além disso os jornais e as TV’s lá perderiam audiências e logo teriam de arranjar uma nova desgraça e ai que não há coração que aguente tanto. E o que essa senhora está a dizer (calcule-se) e alguns iluminados se atrevem a confirmar é que todos os dias, desde sempre, há vários abalos telúricos à face da terra, e insistem que designadamente nas proximidades desta nossa região, como se a gente não vivesse cá e fôssemos ceguinhos. E mais, ainda se atrevem a dizer que isso é bom. Já viram isto? A irresponsabilidade, a quererem enganar o povo em vez de o prepararem para o pior? Há-de lá isto compor-se com estas manias de ignorar as desgraças.
Aqui entro eu, com as minhas modestas explicações científicas
"Bem, nem tanto ao mar, nem tanto à terra” – esta contemporização em tom doutoral mas relativamente descontraído, sempre me pareceu bem para começar qualquer coisa - ou melhor, e para adequar à situação em apreço, nem maremoto nem terramoto, digo eu. O que parece que aqueles senhores cientistas querem dizer creio poder ser explicado de uma forma bem mais acessível. Desculparão o caso do boneco comparação que aqui trago, mas foi o melhor que arranjei, apesar de não ser coisa que se cheire, o que compreenderão melhor mais adiante. Ora vamos lá tentar perceber porque afinal são bons estes pequenos desafogos das entranhas da terra e porque eles ocorrem tão frequentemente, e desde sempre, e não apenas desde que a comunicação social se lembrou de os “vender”.
A analogia da bufa (*)
(*) estrépito controlado produzido pela saída de ventosidades do ânus
Ao que parece, a origem desta catástrofe que certamente nos há-de levar a todos amanhã tem a ver com gases, (enfim, pressões), que se formam no interior do planeta. Introduzamos agora o nosso exemplo comparativo (já ides ver onde quero chegar): suponhamos que estamos muito bem instalados no cinema, bom filme, a sala cheia, e que de repente começamos a sentir um ligeiro acachoar dentro de nós, um ténue desconforto que vai subindo e descendo mas que começa a emitir alguns ruídos embaraçosos. Pois nesse mesmo instante, lá fora, também os gases do planeta estarão a cozinhar-se, borbulhando cada vez mais na sua enorme barriga redonda que abriga as nossas árvores e animais. Estais a seguir? Voltemos então à nossa cadeirinha no cinema; aquilo que era antes um pequeno desconforto começa a transformar-se numa já incomodativa dor de barriga, ligeiras picadas ainda assim superáveis. Nesta altura pensamos se não deveríamos sair por um pouco para nos irmos aliviar à casa de banho, ou nem tanto; bastaria chegar ao corredor que a esta hora não está lá ninguém, disfarçar com o ver as horas no relógio e pimba, rápido retornaríamos para a penumbra do cinema. Pois os entusiasmos do planeta (voltamos ao fenómeno telúrico portanto) também é assim que o vão inchando, e este, tal como nós, impede-os por decência de saírem logo. Em nós fica uma dorzinha que se sustém ainda, já na terra estes gases enclausurados começam a agigantar-se numa pressão perigosa. Na tela do cinema vê-se agora o King Kong a tropeçar num comboio e a bater com a cabeça num silo de cimento e toda a gente se ri sem ter a mais pequena noção do arrepiante fervilhar lá fora ou da dor (agora cada vez mais notória) que me apoquenta a barriga. É forçoso que tentemos dar ar àquela coisa. Mas como o fazer se não queremos perder esta cena agora? Mas os estragos que o animal faz no filme e os risos que recebe do lado de cá são tão ruidosos que isso nos dá uma ideia (é aqui que entra a história da bufa): E se nós, através de um apertado controlo do abdómen deixássemos sair um pouco dessas ventosidades e assim aliviássemos as nossas entranhas daquela pressão? Íamos aliviando aos poucos, evitando sempre que aquilo fizesse barulho, uma bufa domesticada por assim dizer, um pequeno pfffff que ninguém ouviria no meio de tanto estrilho estereofónico. E depois era esperar que esta não trouxesse o fedor para que a nossa companheira do lado não desse por isso, o que seria um desastre. E se esta é sempre a parte que nos constrange nesta brilhante ideia, pois também o mundo se envergonha dos seus gazes o que julgais, e por isso os conserva por vezes ao invés de ir libertando essas bufazinhas que não fazem mal a ninguém. Mas nós mais encrespados com a coisa, mais aventureiros também, lá acabamos por deixar escapar cautelosamente uma lufadinha. Quase se sente o ar folgar por entre as cuecas. Saiu bem! Silenciosa, sem rasto, e com um odor perfeitamente disfarçável. Cá fora, ao mesmo tempo, algures no arquipélago açoriano o mundo larga também, agora já menos envergonhado e contido, uma pequena bufadela. Nem a SIC, nem a TVI, nem as RTP’s dão por isso e a pressão assim também se alivia. Já nós deixamos escapar outra, claramente satisfeitos e orgulhosos desta mestria no controlo das já mais desafogadas entranhas. Ele lá fora faz-se o mesmo nas Maldivas. Depois mais uma, e outra, e finalmente, já o macaco gigante se desfalece agarrado à antena do Empire State Building, regozijamo-nos de nos sentirmos como novos. Nada que nos envergonhe que o que não se vê e não se cheira é como se não existisse. E neste momento nós e o mundo somos um só, em plena harmonia gástrica. Mas infelizmente, menos mestre que eu, ter-se-á o mundo deixado descontrolar lá para os lados do Algarve. Uma flatulência um tudo nada mais sonora, mas o suficiente para os noticiários portugueses se encherem de notícias. O filme acaba, e enquanto eu me levanto reconfortado e o planeta se compraze de se sentir mais desafogado, o povo em escarcéu arruma as suas coisas na cave e actualiza os seus seguros de vida e da casa.
Breve explicação do fenómeno, agora por absurdo
Breve explicação do fenómeno, agora por absurdo
Ficámos entendidos? Será que me fiz explicar bem com o boneco? Ora vejamos o que aconteceria no caso oposto. Admitamos que educadamente nos conteríamos até ao limite de sustermos os incomodativos vapores que se formavam no nosso esparguete intestinal. Pois. Já se sabe o que aconteceria, num momento em que afrouxássemos dele a nossa atenção, ou num esgar de dor que nos fizesse perder o controlo dos músculos abdominais (não sei o nome dos outros que fazem aquilo ficar muito fechadinho) - e provavelmente isso iria acontecer no cena do beijo em que o filme se cala e há um silêncio deleitado na sala - e lá ribombaria por toda a sala o enorme traque! Incomodados, todos os olhos se interromperiam do filme e iriam fixar-se em nós. Ficaríamos sem ver o final do filme, e sem dignidade nenhuma. Se o mundo seguisse a mesma pudica opção, não haveria noticiários a falar de pequenos abalos telúricos todos estes dias, mas num desses dias (porque não amanhã, sexta-feira 13?), quando acordássemos, teríamos duas toneladas de escombros por cima de nós, por culpa do enorme traque que tinha sido dado ao largo das Berlengas.
Acompanharam tudo? Então a lição a retirar é esta: As bufas bem treinadas não fazem mal a ninguém, os tremorzinhos de terra são nossos amigos … e não comprem jornais nem liguem a televisão durante a próxima semana! Depois passa.Moral da história
(o destacável do King Kong fica para outro dia, que por uma razão que não merece aqui ser explanada tive de sair antes do final do filme, altura em que terá o mesmo sido distribuído)
Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 12, 2006 09:15 PM
Comentários
Olá Eufigénio amigo! Eu apanho o barrete e enfio-o até à cintura, ou até mais um bocadinho abaixo...
Não tenho colaborado na blogosfera com a sensação do momento porque tanto morrer de gripe das aves como morrer de sismo é mau porque é morrer mesmo e se calhar sofrer muitíssimo até ao último suspiro. Mas ando mal, a ver tanta gente a morrer de cancro, com idades muito próximas da minha. Mas até morrer, seja lá de que causa for, hei-de andar por cá, a entreter os dias e procurarei fazer o que gosto, sabendo, porém que as limitações vão chegar e vou ficar como os outros: ou velhos ou doentes, inevitavelmente tristes!!!
Publicado por: madalena em janeiro 12, 2006 11:26 PM
E dizia a senhora, coitada, achando-se cheia de razão:
"Ainda bem que só são tremores de terra, se fossem sismos era muito pior."
Publicado por: Santa Cita em janeiro 12, 2006 11:35 PM
Olá Madalena,
Compreendo isso perfeitamente, mas por isso mesmo acho que é mais uma razão para nos gastarmos até aos últimos "cartuchos", e já agora que não sejam de pólvora seca.
Santa Cita,
Talvez as diferenças de definições estejam na sonoridade e quem sabe, no tb no odor
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2006 12:17 AM
:))) Como a expulsão destes ares pode ser poética.
Publicado por: maria árvore em janeiro 13, 2006 01:34 PM
ai Maria A., que tu já vês coisas que eu não escrevi :)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2006 02:33 PM
Com todo o respeito, é porque leio braille. :)
Publicado por: maria arvore em janeiro 13, 2006 08:07 PM
está explicado ... apanhaste os buraquinhos que apareceram aqui no blog e confundiste o recartilhado com uma estrofe
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2006 09:46 PM
Reading your blog and I figured you'd be interested in knowing that earthquakes are already out of date!
The big blog issue right now is phone taps! So, we're interested in inviting you to visit us at:
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Maybe you'll find something useful for yourself.
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Publicado por: Anonymous em janeiro 13, 2006 10:26 PM
(olha este a julgar que ainda me ensina alguma coisa)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2006 10:30 PM
olha fui lá ... e agora assustaste-me com os wiretaps caramba
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2006 10:43 PM
LOL!!!
Publicado por: cap em janeiro 13, 2006 11:04 PM