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janeiro 11, 2006
Nova Lisboa / Huambo
Há muito tempo, o meu pai foi chamado para a “guerra”, pela terceira vez. Das outras duas vezes ficara pela metrópole, mas desta feita convocavam-no para Angola. Nenhum de nós percebia porque alguém queria tão insistentemente um capitão miliciano com um bigode bonacheirão e uma orla de seis filhos atrás. Quando em 1971 - um ano depois de ter partido - nos chamou para junto dele, percebemos finalmente que para além do fato verde e da boina que usava contrariada e desajeitadamente nada mais o ligava àquilo que lá longe se passava no mato. Fomos viver para uma cidade calma onde a guerra não entrava. Era um mundo diferente onde as águias pairavam rente à janela e em vez de galinhas se viam pacaças e macacos à beira da estrada e lá mais para dentro, diziam-nos, até leões. E haviam também uns gafanhotos gigantes com uns bizarros chifres esbranquiçados, quase do tamanho de uma mão adulta, que nós orgulhosamente guardávamos como troféus em frascos de vidro. Na escola pública onde andava, a um quarteirão de distância, conheci as gentes de lá. Éramos apenas três europeus, talvez melhores alunos, não sei, sei que mais poupados às reguadas que tentávamos amenizar com mezinhas à base de rabo-de-cavalo e azeite que se conjuravam e aperfeiçoavam na nossa clandestinidade de vítimas. O mais velho da sala era quase homem, e dizia-se que teria colocado duas batatas nos hercúleos bíceps que todos os intervalos ostentava para grupos de admiradores embasbacados, no que sempre acreditei. O meu maior amigo era um africano com mais 3 anos que eu e que me ensinou a dar saltos mortais e me defendia sempre das emboscadas no recreio. Lembro-me que um dia saltei do telhado do refeitório e desde aí deixei de ser o “puto branco”. Com eles passei a demorar-me mais depois das aulas e foi assim que conheci a “outra parte” da cidade. Quase sempre pó, senzalas e uma enorme liberdade que eu não sabia explicar e que ia muito para além do “brincar na rua”. O ar era mole e húmido, e a terra parecia tocar o céu e espraiar-se indolente até ao infinito. Em frente do edifício onde morava havia uma igreja onde todos os domingos me confessava de andar à pancada com os meus irmãos e de lá saía sobriamente desculpado. Quase todos os adultos que conhecia da messe dos oficiais não me pareciam ter nada a ver com aquela guerra que se dizia travar-se lá mais para leste. Aí onde vivia haviam alguns miúdos brancos e mimados que estavam proibidos de sair das cercanias e que nos invejavam a liberdade que nos era dada. Deles, com eles, lembro-me vagamente e apenas das tardes que passávamos assoberbados de um rádio-amador com que nos maravilhávamos a escutar o mundo inteiro. Aos 8 anos, aquele parecia-me ser o sítio mais aprazível e de maior liberdade do mundo. Foi lá que me apercebi de como a terra era tão grande. Fiz lá a 3ª classe e depois voltei. Para este mundo pequeno e encafuado.
Hoje, inesperadamente, as paredes deste escritório ruíram, e o mundo ficou outra vez maior.
[ Oxalá fosse assim o mundo (o de hoje, o desse tempo), como os olhos da criança que o viram. Oxalá eu não tivesse crescido, e ele comigo, a destapar-se aos poucos, a tornar-se cada vez mais inteligível, e mais pequeno, mais mesquinho e estropiado ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 11, 2006 11:35 AM
Comentários
Pois, mas o tempo, esse chato, às vezes destrói tantas recordações bonitas!
Um @bração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em janeiro 11, 2006 01:13 PM
É bem verdade zecatelhado, e só para as substituir por coisas sem importância nenhuma
Publicado por: Eufigénio em janeiro 11, 2006 03:20 PM
Parece-me que esta história mostra que os olhos de criança, para além de recordações, são o cimento que nos constrói e que, até hoje, deixa ver o mundo maior. Percebe-se o mundo "mais pequeno, mais mesquinho e estropiado", porém, sabes que ele se move. ;)
Publicado por: maria arvore em janeiro 11, 2006 07:41 PM
É bom deitar as paredes abaixo de vez em quando, não é? E ver outros horizontes.
Nunca estive em África (ainda!), mas a minha melhor amiga aos oito anos era também angolana e através dela tive a sorte de conhecer um pouco do que era/é esse "outro mundo" - faz bem transpor fronteiras. Sobretudo se o nosso mundo fica depois alargado de forma duradoura.
Publicado por: Jill em janeiro 12, 2006 12:40 AM
Muito viajado, sim senhor!... do leste, directamente para Angola; tu não descansas um pouco?
(voltei...)
Publicado por: cap em janeiro 12, 2006 12:57 AM
Mª Arvore: E contudo, nós nem sempre, com ele! (teoria excêntrica)
Mas Jill, há naquele mundo, não falo do que é visto pela criança, falo de áfrica agora, na forma como a terra se vê/faz grande, algo de especial que nos faz pensar como somos pequeninos, e mesmo assim, o mal que lhe temos feito.
Sabes CAP, as memórias são um forma bem económica de se viajar ;)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 12, 2006 10:24 AM
Sem dúvida, Eufigénio, sem dúvida... é incrível como se pode fazer tanto mal ao abrigo de motivos tão absurdos.
Publicado por: Jill em janeiro 12, 2006 11:37 AM
Gostava de entrar em contacto com as minhas antigas amigas de Angola/Huambo. Colégio Adamastor em 1974/75. Hoje vivo em Genebra e não tenho contactos com o pessoal de Angola... a não ser os meus papagaios cinzentos. Até Bréve. Didi
Publicado por: Didi Esterer em março 13, 2006 06:49 PM
Ola efigenio, eu tb brincava na messe de oficiais em Nova Lisboa, onde os meus pais trabalhavam, mas em 71 tinha 4 anos
Publicado por: Paula P em agosto 31, 2006 12:00 AM
"(...)Era um mundo diferente onde as águias pairavam rente à janela e em vez de galinhas se viam pacaças e macacos à beira da estrada e lá mais para dentro, diziam-nos, até leões.(...)"
...Tudo isto em Nova Lisboa, em 1971!?... Será que não foste viver para as imediações do Parque Zoológico da Cidade?
Pois eu nasci e vivi 20 anos em Angola -- até 1975 em Nova Lisboa -- e confesso que bicharôcos daqueles que referes na tua estória, só os vi, em liberdade, a muitos Kms de distância da cidade... ou então em cativeiro, no Parque Zoológico local!!
(Ahahahah)
Publicado por: Surukuku/Austrália em setembro 1, 2006 05:46 PM