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janeiro 31, 2006
Vá lá, pelo menos já arranjaram o mictório
Não teço nem rebato críticas ao Vasco Pulido Valente (agora devia escrever VPV, é assim não é?) porque acho coisa esvaziada essa do zurzir ou adular furiosamente indivíduos que escrevem sobre indivíduos e as suas ideias. Ou seja, o meu mundo regra-se de forma simples e económica: tudo se pode dizer uma vez, e depois concordar ou discordar, e até discorrer, justapor, acrescentar, contradizer - é informação nova, para quem gosta do género e se identifica com o tema; agora dizer do que se disse de quem o disse, comentar-lhe o carácter humano, investigar-lhe as contradições, insinuar do seus maus genes, escarafunchar-lhe o curriculum, isso é uma mera sopeirice intelectual. Não que ache isso grave. A sopeirice pode ser uma agradável condição de modéstia e fica com quem a tem, mas a verdade é que não é coisa que me ajude à disposição e fico atrofiado só de pensar, (e isso é que é grave), que posso parecer um intelectual assim. Por isso, do VPV este modesto blog não tem nada para assinalar. Do que lhe leio, por vezes gosto, e nada mais sei dizer sobre isso.
Também não vou papaguear o anúncio da sua entrada na blogosfera, (enfim, acabei de abrir uma excepção) até porque não me agrada tudo o que possa promover este éter digital enquanto réplica deferente (eu disse dEferente e não dIferente, infelizmente) do jornalismo/política português. Por trás deste espaço de palavras pode e deve haver mais para além disso, e na verdade lamento profundamente constatar que este nicho onde me assoalhei com o único intuito de dar que fazer aos impulsos da escrita, se veja cada vez mais circunscrito num espaço assoberbado das inférteis e ressabiadas investidas da guerrilha dos desmentidos, dos açoites intelectuais, das panaceias dos amigos, dos autojustificativos dos autoglorificados titãs da literatura e do jornalismo português, ou ainda desse titubear das notícias do mundo que já todos ouvimos reproduzidas no noticiário do trânsito da manhã. Venderam-me este condomínio como um espaço em que a grande virtude era justamente essa do preencher-se no “para além de”, e afinal todos os dias se monta aqui à porta uma “feira do relógio” com as comezices de sempre. E que chinfrineira, desde manhã até à noite, que já nem um homem dá conta do zoar do seu teclado!
A verdade é que já mal saio aqui desta assoalhada, e se o faço é com a cautela de ir ao encontro do que já sei, e gosto. Mas ainda assim, inevitavelmente, lá me deixo escorregar desprevenido por um link que me leva até ao meio de uma qualquer escaramuça de egos. Que gente tão desinteressante! Mas …
… mau, perdi-me! A que propósito é que vinha tudo isto ao caso? E o que é que o inocente VPV (pelo menos em termos blogosféricos) tem a ver com este desassossego todo? Ah, já sei! Bem, continuo sem encontrar relação, (talvez dos caminhos que tomei para lá chegar? Falo da paisagem da viagem e não do destino, enfim, do que me aprouver afinal). Mas ide ler isto que vale a pena.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:46 PM | Comentários (7)
“Actuação Escrita
Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever”
Pedro Oom (1926-1974)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:49 AM | Comentários (2)
janeiro 30, 2006
Olha, já se foram as baratas todas
Sempre é melhor que passar a noite a ver a RTP Memória, não? E se um homem não puder assumir as suas contradições como haveria de ganhar coragem para (se) escrever assim ao deus-dará, a alardear por tudo quanto é olhos a sua personalidade de trapos?
Eu até estou a pensar abrir uma Categoria ali ao lado, titulada de “encerradices” para lá poder arquivar e organizar as já largas dezenas de post’s em que solenemente me despeço ou anuncio interrupção daqui; afinal um estilo da casa já. Por falar nisso …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:29 PM | Comentários (7)
Uma boa razão para se ter um blog …
Será que um homem que dá por si acomodado no sofá às 3h da manhã de um dia do meio da semana de trabalho, e que ainda que morto de sono faz por seguir atentamente o desafio que se transmite na RTP Memória entre o Estrela da Amadora e o Sporting para o campeonato nacional de 1983, será que isso é coisa que reclame de cuidados terapêuticos especiais?
… é garantir que se evitam as alucinações nocturnas em frente da TV. E se é para espoliar horas de vida, ao menos que se as deixe lavradas em qualquer lado. E se houver falta de qualidade artística que se use a forma da letra. E em não encontrando murais que seja aqui.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:08 PM | Comentários (4)
E pronto,
Assim de momento não me ocorre mais nada para postar, confidenciar, mostrar, escarafunchar, suspirar, documentar, arquivar, ensimesmar, ajeitar, alombar, verberrar, esgaravatar ... caramba, é que não me ocorre mesmo o raio da palavra! (há tanto tempo já por aqui, quase mil post's e ainda não sei o que aqui ando a fazer)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:55 PM | Comentários (11)
Esclarecimentos sobre uma carambola no bilhar
Em serão recente esclarecia eu ao Bill (és tu a tacar agora) como é que fazia para responder no quase imediato aos comentários que aqui me deixavam (bela carambola pá). E explicava-lhe as estremenhas da coisa (a branca é a minha). Aquilo lá, de cada vez que alguém coloca um comentário faz saltar um mail na minha caixa de correio (isto cheira-me a capote). Ora, eu como tenho o Hotmail, aparece-me logo aquela caixinha azul a interromper o trabalho ae dizer que recebi mais um mail (aqui vai uma às três tabelas, tu controla-me esta coisa), e o resto é obviamente a curiosidade que o faz, que assim que pauso, lá vou eu ver o que ali têm a bondade de dizer. (olha, hoje acho que vai ser só até às 50 que não vai dar para chegar muito tarde) Depois, há sempre qualquer coisa para contrapor a quem simpaticamente por aqui deixa de sua justiça. “Ah”, interjeita ele (já viste, não se diz ‘interjeita’, mas então quem levanta uma interjeição, e assim sonora como a tua, faz o quê?), sem disfarçar a surpresa, “quer dizer que não passas o dia inteiro ali à espera que caiam comentários?!” (49! Estou à 'melhor', marca aí faz favor). Fiquei tão chocado por ele me achar assim tão disponível, tão arredado dos compromissos de homem da vida, que quis aqui estender esta confidência técnica aos demais leitores (pimba, toma lá pinhões, e agora vou mas é para casa dormir que amanhã tenho imenso trabalho e queria ainda escrever dois post’s e já se sabe que depois vêm os comentários e um homem quer estar em cima daquilo, que o Hotmail sempre demora um bocadinho a avisar das reacções dos comentadores …).
Desenroscámos então os tacos, guardámos o giz, e tudo junto na prateleira nº42 do costume, depois cumprimentámos o Sô Zé, fomos à nossa vida.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:49 PM | Comentários (16)
Excessos
As oportunidades mais raras, os ímpetos mais esforçados, os momentos mais desejados, saboreiam-se enquanto os sabemos enumerar. Não são muitos, não podem ser muitos, e há espaço para todos, e cada um se chama pelo seu nome, e traz até nós coisas próprias que degustamos calmamente, distinguindo-lhes as diferenças, evocando os incidentes, as coincidências, e as consequências, uma por uma, cada uma de cada vez puxando a outra por uma ponta que ainda não se perdeu e que as interliga, e que lhes reserva o seu espaço próprio nas nossas memórias.
As mesmas oportunidades, dêem-lhes frequência, os mesmos ímpetos, retirem-se-lhes as dificuldades, os mesmos momentos, banalizem-se estes, quadrupliquem-se, e tudo resulta numa produção massificada sem sentido, uma amálgama de coisas sem valor específico, uma mancha indistinta que já só alcançamos reconhecer e desejar no abstracto, … como um quarto repleto de brinquedos em excesso, alguns nem desembrulhados, sob o olhar enfastiado de uma criança mimada que deixou de saber brincar.
Claro que isto podem ser só as (minhas) memórias a tornarem-se velhas e ressabiadas, sem consentirem ver-se nos tempos por onde hoje ainda espreitam.
E claro que isto não tem nada a ver com o post de baixo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:19 PM | Comentários (0)
“Pedra Branca” – garimpeiros precisam-se !
(pequeno intróito apenas para sublinhar que este post só potenciará uma boa ingestão em pessoas com idade acima dos 35 anos)
Em tempos idos, talvez nas melhores caixas de comentários que tive oportunidade de frequentar, desenvolveu-se espontaneamente uma saudosista sessão de inventário das séries da nossa infância - memórias a preto-e-branco que nos deleitavam nas parcas oportunidades que se interpunham entre as duas miras técnicas da RTP. Certo é que, com as dicas de cada um à sua vez, aquilo se tornou um exercício imprevisivelmente prolífico: desde a “Pipi das meias altas” até aos “pequenos vagabundos”, passando por outras de que já nem me lembrava. Neste fértil arrolar ter-se-á então citado uma série de que apenas me recordo pela sua placidez, a cerca do quintal e a língua exótica em que era falada, e que dava pelo nome de “Pedra Branca”.
Largos meses depois, uma aqui eternidade portanto, recebo mail de um leitor que ao peregrinar por lá, e por esse motivo, me solicita de informação sobre a possibilidade de encontrar essa série em filme, ou/e qualquer outra informação relacionada que se possa prestar. Confesso que não faço a mais pequena ideia, e sou demasiado preguiçoso para grandes pesquisas, mesmo essas de só-clic, pelo que aqui o invoco com um apelo a quem possa ajudar.
ANEXO
Recomendando mais uma vez a quem se sinta identificado com os motivos deste post que arrisque esta surpreendente viagem ao passado, e apesar desta ligação, optei por transladar para aqui, por mero interesse pessoal, trechos do diálogo que está na origem destas memórias revividas. E isto porque os links e os destinos que indicam são perecíveis, e seria uma perda lamentável e irrecuperável se amanhã não pudesse comprazer-me no recordar deste enorme espólio de memórias televisivas. Ao João Pedro da Costa e aos comentadores aqui plagiados as minhas sinceras e assumidas desculpas pelo abuso. E segue extracto de comentários associados ao post em referência
Essa é uma das imagens que me marcou, mas para mim há outra ainda mais emblemática... a do Engº. Sousa Veloso a despedir-se na praia no seu programa "TV Rural".
Vejam lá, já agora alguém quer dizer que tambem via os "pequenos vagabundos" não?
E já agora só falta dizerem que estavam ali ao meu lado a comer pães com tulicreme e açucar!
JPC, essa coisa chamava-se "mira técnica". Na verdade nunca percebi bem porquê, porque não haveria de ser "mira filosofal" ou mesmo "mira aí que esta coisa já vai começar".
Abraços
E o Vasco Granja? Os desenhos animados acabados em koniec. :)
Acho que ficou tudo dito sobre a mira técnica. Eu também costumava olhar para ela, enquanto esperava pelos desenhos animados e pelas séries infanto-juvenis. Depois desapareceu a mira técnica e eu meti-me a fazer um doutoramento.
Tenho os "Pequenos Vagabundos", mas ainda só vi o 1º episódio, não tive tempo para mais. Ainda sabia a música de cor! Alguém se lembra dos "Garotos do 47A"? E do "Frank Spencer" que só fazia asneiras?
Mas, quanto à rtp: e a música de início e fim de emissão? :) Na altura, alguém até me convenceu que aquilo tinha letra. Se se lembrarem da melodia, encaixem lá estas palavras (se conseguirem): sim! vai começaaar, rtp! vai começaaar, rtp! vai começaree, vai começar!
(ah! e saudoso Vasco Granja Koniec... o raio dos bonecos nem se mexiam, mas aquilo era poesia animada pura!)
E quem se lembra dos "3 Duques"?
Esses são da geração pós-romântica, da Tv a cores.
Mas veio-me agora mais um à memória: "meina projnika klösse"? que ganda série espreitada lá do alto das escadas, na hora do óhóh.
E uma série de que não me lembro o nome e que dava ao fim da tarde, em que eles estavam sempre a dizer "kon kolea" ? era uma expressão mais complicada que esta mas a gente cá simplificava-a por o "c'valo q'cocheia".
As coisas que tu me puseste a reviver JPC ao sabado de manhã !!
A Vi tirou-me as letras do teclado mas eu volto a pô-las: 'Pedimos desculpa por esta interrupção. 'O programa segue dentro de momentos'. E o Vasco Granja, tb citado, com a sua respeitável pantera cor de rosa? q é feito dele? E o Verão azul, depois da Heidi, do Marco, da Abelha Maia. E a Casa na Pradaria...
Não estou é a lembrar-me da série Os pequenos vagabundos e sinto q algo me está a escapar, hum....não me lembro mesmo.
E o Bonanza, muito tempo antes?
lol, em vez de estarmos aqui com rodeios, mais valia e era mais prático dizermos a nossa idade uns aos outros ;)
vim só ver se o programa já tinha recomeçado, mas nada. deve ser de lá...
(lembram-se quando a emissão pifava e surgia invariavelmente a questão: "será de cá ou de lá"? uns palmadões no televisor para concluir rapidamente que era "de lá" :)
Quanto ao post: vias isso, porque era o que havia para ver toda a tarde. Até ao início da emissão. (ninguém tem saudades do tempo em que só havia televisão durante um punhado de horas por dia?)
Quanto aos comentários: esqueceram-se do Espaço 1999. Passei muitas aulas do 2º ciclo a desenhar aquelas naves espaciais tão aerodinâmicas...
E a Pipi das meias altas?
E o Verão azul?
Ana, o Franjinhas é o do Carrossel Mágico?
Lembro-me bem da série da Pipi. Não tinhamos tv e iamos ver para casa da vizinha.
Os Pequenos Vagabundos e a Laranjina C - acho que nunca conheci as duas experiências ao mesmo tempo - teria sido o nirvana.
E alguém se lembra por acaso daquela série com um cavalo falante, o Mr. Ed? Ainda me lembro da música do genérico: "A horse-is-a-horse-of-course-of-course-and-no-one-can-talk-to-a-horse-of-course..." (looooool)
E do "Cão Vagabundo" (bem, talvez não fosse este o título...), alguém se recorda? Ainda ecoam na minha memória alguns fragmentos da musiquinha do cão (que não falava tanto como o Mr Ed, mas era, em contrapartida, mais filosófico ;) ): "maybe tomorrow I wanna settle down, until tomorrow the whole world is my home..." (suspiro)
:o)))))
(recordo perfeitamente o cão vagabundo e a música, de facto, era espantosa - o genérico tinha planos do cão a passear na cidade, não era?)
E daquela série polaca (não me lembro do nome) passada na 2ª Guerra Mundial sobre 4 tripulantes de um blindado e do seu cão, um pastor alemão(!), há por aí alguém que se lembre? Já deve ter passado depois do 25-4.
Antes disso, gostava de ver o Comissário Maigret mas o do tempo do Jean Richard, não do Bruno Cremer que já é dos anos 80.
E VDGG? E...?
Colditz, claro que sim 1poucomais. O Fugitivo, o original; o Columbo com o Peter Falk; o Kung-Fu com o David Carradine...
A RTP já nao traz nada de novo...
Mas antes trazia, dai que a minha memoria televisiva encerra certos Holy-Graals, que nao sao mais que as perolas da minha infancia/adolescencia, a saber:
-Pequenos vagabundos
-Conan o rapaz do futuro
-Battlestar Galactica
-The A-Team (sem dobragem p favor...)
-Devlin Connection
-Derrick
-Zé Gato (sim, esse mesmo...)
E pra ja, chega de achas, toca a acender a fogueira...
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:33 PM | Comentários (22)
janeiro 29, 2006
E não é que neva mesmo !
Caros Bisnetos,
Deixo-vos por aqui o meu testemunho, deste outrora de onde vos escrevo, para vos dizer que hoje, no dia 29 de Janeiro de 2006, neva por Lisboa. O avô Diogo grita de óculos embaciados para o céu, e o avô Francisco pinga flocos esbranquiçados do nariz avermelhado enquanto se agita sem saber exactamente como poderá melhor desfrutar da situação. Os mais velhos lá vão sugerindo de sorriso comedido que se tratam de sinais inequívocos de que nos voltamos a aproximar do resto da Europa - que o deserto que vai comendo esta terra pelo Sul, a África por onde entramos inexoravelmente, anda hoje distante. E fica a neve, e viva a neve, splasshhhh
Um beijo para esse aí distante
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:10 PM | Comentários (18)
janeiro 27, 2006
Mais uma anedota do Diogo para a prosperidade posteridade postidade
(E que bem que sabem, ao fim da tarde de uma sexta-feira extenuada)
Pergunta o patife do elefante ao camelo:
- Oh amigo camelo, porque é que tens duas mamas nas costas?
- E tu engraçadinho, porque tens uma pila na testa?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:29 PM | Comentários (6)
A bela e o monstro
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:53 PM | Comentários (6)
janeiro 26, 2006
Ai ai ai ai
Quem me manda aos 43 anos
passar a manhã inteira a tratar de “fichas de não conformidade”?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:08 PM | Comentários (13)
Os ritmos do dia
Os minutos da manhã são quase sempre contados, e histéricos, e cheios da pressa de fazer tudo. Já os minutos da noite são arrastados, atrelados a momentos infinitos onde se acomoda a gelatinosa semivontade de nada fazer. Uns são horas, outros segundos. Nuns sobramos, noutros faltamos.
[ Nota pessoal em letra miúda (não permitida a leitura por terceiros): aligeirar este trecho por forma a que não pareça tão pretensioso. Talvez resulte se colocado entre texto narrativo. Ver por exemplo hipótese de inserir na história do “lavatório”. Já agora, acabar aquela treta. Textos que ficam a meio não estão com nada, é quase como um tipo em pujante adolescência estar numa tarde amena a esgalhar o patife e entrar subitamente a avó pelo quarto adentro à procura das agulhas de croché. São coisas que não chegam a acontecer, percebes Eufigénio? ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:55 PM | Comentários (2)
janeiro 25, 2006
Um pai deveria pelo menos servir para ensinar o filho a voar
- Não Francisco, deixa que primeiro seja eu a tentar.
- Pois, é sempre assim. Mas afinal a prenda é de quem?
- Oh filho, eu apenas quero perceber como se controla isto, depois posso ajudar-te e será mais fácil para ti.
- Mas porque não posso ser eu a fazer isso?
- Bem se insistes. Mas olha que vai dar chatice. Depois não te lamentes de o teres partido todo.
- É assim tão complicado pai? Então não percebo porque me ofereceu um avião telecomandado.
- Ao princípio pode não ser fácil, são muitos graus de liberdade. Estás a ver este manípulo aqui?, é para subir. E este outro é para tirar potência da esquerda ou da direita, fazendo com que ele curve.
- Já percebi. Posso então tentar?
- Francisco! Não sejas impaciente.
- E porque não posso eu aprender agora que já percebi como isso se comanda?
- Olha, se voltas a insistir muito eu passo-to para a mão já. Mas aviso que este é um brinquedo demasiado caro para te voltar a comprar outro. Vais dar cabo dele por causa das tuas birras e acabou-se, não há mais. Percebeste?
- Humm … está bem, fico a ver o pai então.
- Óptimo. Então repara como faço. Aqui ligam-se os motores das hélices. E oplá, já está.
- Nota que quase o sinto a querer largar-se da minha mão. Isso quer dizer que já terá sustentação. Agora nesta outra mão tenho de preparar o comando. Não é fácil, temos de chegar com o dedo ao manípulo da aceleração.
- E já o vai largar?
- Sim. Mas esta parte é delicada. Tens de lhe dar uma certa inclinação para que ele tenha uma tendência de subida, mas não demasiada para que não entre em perda. Entendes?
- Simmm. Mas isso voa ou não?
- Calma. O aeromodelismo exige muita tranquilidade e concentração. Ora vamos lá a ver. Hélices ok, boa inclinação, nota agora eu a dar-lhe potência, e aqui vai, oplá !!!
- Pai!
- Pai !!!
- Pai !!!!
…
- Boa tarde, estive aqui ontem, não sei se se lembra de mim?
- Claro, como está? Então o que o traz cá de novo?
- Olhe, queria saber se vendem peças avulso para este avião.
- Do que precisa exactamente?
- Assim à primeira vista será da zona do cockpit, da asa grande e da armação do trem de aterragem.
- Ena, que grande trambolhão! Isso é que foi um baptismo de voo, ein?
- Pois, enfim … miúdos ainda sem experiência e
… Francisco, tu nem abres a boca!!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:59 AM | Comentários (9)
janeiro 23, 2006
Informamos
Que o bar se encontra momentaneamente encerrado
Caso o estimado visitante pretenda conhecer as restantes instalações queira seguir pela galeria da direita, a partir da qual poderá aceder aos diversos salões de exposição.
Reabriremos ao público assim que se der por concluído o processo de desbaratização em curso.
As nossas sinceras desculpas pelo incómodo causado.
A Gerência
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:11 PM
"Todos podem escolher o carro da cor que quiserem desde que o escolham preto"
Abro uma breve interrupção na interrupção deste blog para …
Depois de ler diversos comentadores da esquerda relativizar a vitória do Cavaco por este só ter tido metade do eleitorado português e mais uns míseros pózinhos, em vez de procurarem ler os sinais que o eleitorado (a maioria … allô?! Sabem o que é a maioria?) entendeu dar …
Depois de ter assistido incrédulo à vergonhosa e ressabiada atitude do Sócrates em avançar com a sua declaração (na qualidade de não interveniente directo nas eleições, note-se) no momento em que falava o segundo candidato mais votado …
Depois de ter verificado que, inacreditavelmente, todos os canais de televisão retiravam do ar a declaração do Manuel Alegre, para a ela sobreporem de forma cúmplice esse gesto vergonhoso do ressabiado secretário geral do PS …
Depois de ler vários (muitos) blog’s candidatos a estalactites políticas não se conterem de verberrar que a maioria dos eleitores que votaram CS são isto e aquilo e que não percebem como é que há gente que não pensa como eles, e mais isto e aquilo, coitados, e agora vão ver como é que vai ser …
Depois de todas estas “provas” democráticas dos políticos, das televisões, de alguma comunicação social escrita, e dos aspirantes a “opinion makers” que alimentam alguns blog’s …
Ocorreu-me um chavão muito antigo, do tempo do primeiro grande fenómeno da produção em série de automóveis (Ford T, creio), em que dizia assim um tal de Sr. Ford: “todos podem escolher o carro da cor que quiserem, desde que o escolhem preto”. A ‘ligeira’ diferença reside no facto de esses carros só os comprar quem queria, já a este tipo de distorção ‘democrática’ somos todos obrigados a assistir.
Votei Manuel Alegre, ou melhor, antivotei Soares, mas lamento profundamente que, por culpa disso, possa de alguma forma ver-me representado por este tipo de pensamento reaccionário, que só não o é porque vem dos meridianos da esquerda, essa zona que se arraiga na verdade, no verdadeiro espírito democrático, na tolerância, e no reconhecimento das outras vozes … bardamerda para isto tudo!
… Envergonhadamente, fecho agora a interrupção da interrupção deste blog.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:28 PM | Comentários (9)
janeiro 19, 2006
Voto de Castidade
Ainda agora ao chegar do almoço vinha com um desejo – talvez não deva dizer tanto, vinha com um desassossego miudinho - de ler um belo de um texto. É uma rotina como outra qualquer, como a do cafézinho por exemplo, um simples estímulo que se nos entranha, um intervalo de que se lança o mote para enfrentarmos o resto do dia. E era mesmo só isso, um texto que mexesse comigo, uma coisa que me espantasse, ou algo que me levasse lá para algures no corrupio da imaginação de alguém. Nada que precise ser inatacável na forma literária nem coisa que tenha de evoluir em grandes espirais de conteúdos metafísicos. Apenas um texto simples, um sorriso na boca, e toca de seguir em frente já saciado
… mas hoje não encontrei nada
Quando assim é, sobra-me sempre a oportunidade de ler isto aqui, onde escrevo. O mesmo anseio afinal que procuro lá fora - e repito – talvez fraca literatura, provavelmente um conteúdo mediano, mas um montinho de texto que me dê agrado ler, a trazer coisas de lá d’antes, ou resquícios desta manhã, ou mesmo o que nunca chegou a ser mas que acabou por ser o que fui, e que por isso me dão gozo rever depois. Ou seja, como dizia ainda agora, texto simples, um sorriso na boca, e toca de seguir em frente já saciado
… mas também aqui nada, nem aqui encontrei nada
Poderia sempre arriscar novos mundos, alargar fronteiras, mas eu não sou homem para grandes voltas. Gosto de acender o cigarro na esquina do costume, espreitar a montra empoeirada de onde já conheço os lugares das coisas, e sobretudo não gosto de perder a minha casa de vista. Nunca aspirei a alcançar coisas novas, prefiro investir-me nas coisas que tenho e talvez melhorá-las. Mas por isso mesmo, do hábito, sei que há um tempo certo, ou melhor, sei haver uma batuta que não é minha apesar de ser ela quem marca os ritmos do que aqui deixo. Mas ultimamente vejo-me confuso enquanto leitor e autor: como se um pudesse (tivesse de) produzir o que o outro quer ler; como se um sem o outro não tivesse razão de ser; como se a avidez de um pudesse ser compensada com o ritmo desenfreado do segundo. E disto
… sobra o vício, e fica o vício apenas, que nada é, e nada fica para ler
É já o metabolismo vicioso da escrita que se impõe, e já todos os pretextos servem para satisfazer a contabilidade das palavras. Algo que já não se importa do que seja legível, algo que apenas se quer fazer texto, já, e nem interessa qual. Esta é uma rotina de que já não me desenlaço e que produz para a saciedade do que quero ler. Acabam-se assim os tempos do deleite, aqueles em que um texto se lê porque primeiro quis ser escrito. E já não retiro encantamento disso, essa modorra que
… é sobretudo escrever para o vício de o querer ler sem o ter
E por isso, agora, interrompo-me no texto, aqui, nos textos, cá. Não haverá mais cadência nem calendário, nem esse desejo incontrolável de ver correr a escrita, mas apenas o prazer (que tem de o haver) de escrever o que se tiver de escrever. Determinarei que a escrita será o intervalo, e que nunca mais olharei para o resto do tempo, do blog, como o intervalo entre a escrita. É isso. Todos os impulsos são o que não se espera, e é isso a escrita também. Trocarei a ordem das coisas que por um absurdo tomou conta de mim: fica por mim proclamado que aqui já não há texto, que aqui não existe um blog, a não ser que por mero acaso e indómita vontade um texto se tenha de cumprir.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:10 PM | Comentários (3)
janeiro 18, 2006
Hormonas, ‘after-shave’ e conselhos a mais
Chego estremunhado ainda do acordar e já ele se apoderou da casa de banho. Não está a lavar os dentes com o poupado pingo de pasta de dentes, nem sequer a tirar cirurgicamente as ramelas da noite como costuma fazer com cada um dos polegares. Na verdade não se trata de nenhum dos volteios forçados da higiene infantil que servem apenas para satisfazer a contabilidade das recomendações paternas. Contudo, a actividade em que se concentra é-me tão familiar que ao princípio nem lhe acho estranheza. Já só quando lhe dou um encosto para ganhar a beira do lavatório e o revejo na imagem reflectida no espelho é que me apercebo então do que se ocupa. E a lâmina que usa é minha.
À surpresa ainda a sustenho, à inexplicável vaidade ainda a camuflo, mas já às progenitoras recomendações não as consigo amordaçar: … e que não deve usar a minha máquina, que há o problema dos contágios das dermatoses. Naturalmente, ele pouco acata. Acima de tudo está embaraçado por se sentir assim minuciosamente observado nesta lide que o chama para coisas que ainda lhe são estranhas, e que assim, comigo ali espreitando de sorriso arqueado nos cantos da boca, ainda mais lhe expõe a renovada puberdade de todos os dias com que agora se tem de haver. Dou comigo sendo ele, há muito tempo, embaraçado de ver assim espiolhados os primeiros pêlos, e logo a receber conselhos. Irrito-me desta repetição que me tem agora do outro lado, e lamento este vício de pai conselheiro que se liberta incontrolavelmente de mim. Cauto agora, procuro sair dali da forma mais subtil que me é possível fechando atrás de mim a porta da casa de banho, suavemente, como se pudesse assim apagar vestígios da minha trapalhona presença.
Afinal, há coisas mais importantes do que os problemas superficiais da pele … Mas mais uma vez retorna o macho orgulhoso de o ver chegar ao ‘clube’, e de lá do fundo do corredor ainda grito: “usa o aftershave que está aí do lado esquerdo”. E assim incontinente ainda ensaiava mais uma recomendação: “e faz sempre a barba de cima para baixo, no sentido dos pêlos”, mas já esta fui a tempo de a travar na garganta. Há coisas que é preciso deixar que um homem aprenda sozinho, e outras que nunca aprenderá por mais que se recomendem,
… por exemplo, que não deve partilhar a máquina de barbear, ou ainda, que se um dia o vir fazer ao seu filho deverá ficar calado - que há coisas em que um homem prefere descobrir a/por si mesmo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:28 PM | Comentários (12)
Ponche

E então? se não me apetecer almoçar não almoço ! Ora ...
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:00 PM | Comentários (2)
A brincar com areia ein ?

Falling Sand
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:36 PM | Comentários (1)
(A)boné(cado), mas …
O boné que me ofereceste
diz até que é recomendado pela casa real britânica STOP
Percebo porquê: é impermeável por fora e não há chuva que nos chegue,
e por dentro com lãzinha, um conforto que não há frio que incomode STOP
Pu-lo no domingo; fiquei fã daquilo e já não quero outra coisa STOP
O pior é quando o tiro e fico com o cabelo acachapado
e com um risco marcado ao redor da cabeça STOP
Todos dizem que pareço chegado das berças
e que finalmente a minha verdadeira natureza se revela STOP
Ainda tento contrapor que não, que até tenho um blog, e que aquilo até reforça
a excentricidade própria de um intelectual como eu STOP
E eles riem-se STOP RETICÊNCIAS
Agora tenho de andar sempre com aquilo na cabeça
e sujeito a ouvir dizer que não tenho educação STOP
Sacana, tu já sabias no que isto ia dar STOP DE EXCLAMAÇÃO
Da próxima vez que te sentires desconfortável nas tuas opções de indumentária evita alargá-las aos teus amigos STOP
O mínimo que posso esperar de ti agora é um fixador para o cabelo STOP
Sem abrilhantador, de preferência STOP E FECHO DO PARÊNTESIS
E a ver vamos se ainda vou a tempo de suavizar
a fricção conjugal que tua prendinha já provocou STOP FINAL PARÁGRAFO IRRITADO
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:59 AM | Comentários (11)
janeiro 16, 2006
Hoje aprendi mais uma palavra nova: Onanismo !
Palavra de honra que não sabia que tal palavra tratava desta nobre arte do alívio. Onanismo soa bem, mas para ser franco via o termo mais relacionado com um indivíduo introspectivo e com acentuadas tendências solitárias. (Bom, a verdade é que não andava assim tão longe do seu significado).
Tenho que inaugurar esta minha nova ferramenta cultural. Ora deixa cá ver :
"Ter um blog é Onânico!"
Quê? Onânico não se diz? Então mas um tipo que se “onana” não é “onânico”? Então, suponhamos que eu tenho um blog e que quero manter o nível elevado a que sempre habituei os estimados leitores, e quando quiser referir-me a um punhet… tipo que por exemplo escreve para depois se comprazer a ler a(s)si(m) mesmo, como é que faço? Mas … então para que serve esta palavra nova? É só para escrever títulos interessantes? ...bahhh
PS: acabaram de me confirmar que se pode dizer Onana sim senhor, e que até parece que é daí que vem a expressão "Onana nas alturas" ... nas alturas estão a ver ... eheheh... que bela graçola... ehehe ... não ??? ...!!!
Mais um PS: Ceeeerto! Simmm, prometo, já não posto mais hoje. Sim, nem enquanto me sentir assim ! mas a sério não teve mesmo graça nenhuma? Estou a estragar o quê?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:37 PM | Comentários (27)
janeiro 14, 2006
BnO
Ontem acabou a série de post’s que mais me arrebatou nesta minha experiência da leitura blogosférica. Por isso aproveito para deixar aqui o melhor conselho que já foi arriscado neste sítio (em particular para a rapaziada): Leiam-na toda !
Ao autor, obrigado Vasco Barreto ... E agora vou ficando para o resto.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:43 AM | Comentários (0)
janeiro 13, 2006
Pensamento do dia * - sobre o humor
* Para ser mais preciso: pensamento a seguir ao almoço – é importante referi-lo
O humor é universal! É talvez mesmo a única forma de expressão humana capaz de se manifestar para além (e não obstante) da imperceptibilidade dos diferentes idiomas dos homens.
(falo do humor nato, do que se baseia na realidade conceptual, e não daquele mais falacioso que se socorre enfaticamente do significado das palavras)
É para além disso a manifestação de inteligência que tem efeitos mais imediatos e mensuráveis em nós.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:08 PM | Comentários (23)
Não, Eufigénia, não !!! Não leias o post dos tremores de terra ainda. Já leste? ohhh
Pois não, eu sei, mas não era intenção minha fazer alguém de parvo, é por isso que estou a corrigi-lo mas este editor anda avariado … 
E sim, claro que este blog não é para disparatar. Sim claro que vou continuar com as historietas dos miúdos
Aquilo só foi para ali em rascunho, ia já corrigir. Não, absolutamente, olha ia agora mesmo escrever uma história muito engraçada sobre dilúvios. Achas que não? Mas ... pronto, está bem. De qualquer forma o que for só será ao fim da tarde 
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:45 AM | Comentários (5)
Talvez tenha exagerado no tamanho
ali do post debaixo (nem eu o consegui ler até ao fim). São demasiados estrépidos intestinais, odores flatulentos e tremelicanços telúricos ... devo ter levado com o epicentro na cabeça e nem dei pelo agitar do sismógrafo.
E este blog não está a ficar nada simpático, nem pelo conteúdo nem pelo tom. As minhas desculpas. Vou já penitenciar-me
Um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post deve ser curto deve ser um post
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:30 AM | Comentários (7)
janeiro 12, 2006
Uma modesta explicação científica sobre os tremores de terra (traz legendas e um destacável no fim sobre o king kong)
Primeiro era o pandemónio da pandemia
É impressionante como as nossas apoquentações são moldadas pela oferta e depois alimentadas pelo exagero desmedido das estratégias noticiosas. Há pouco mais de um mês era o pandemónio da pandemia das coitadas das aves engripadas. Bastava ler a blogosfera para perceber como todo o cidadão temia o seu fim próximo, provavelmente amarfanhado num canto de um hospital superlotado e incapaz de lidar com tamanho holocausto desta desventurada humanidade. Um mês depois já nem nos lembramos disso, já passou. Ou as aves terão morrido, ou nesta actual indiferença e na exaltação de antes haverá um desmesurado exagero. Ou então foi simplesmente uma notícia que foi espremida e que agora já não tem valor comercial.
Agora são os temores dos tremores
Assim se confirma. Pois agora o que está a dar nos atormenta (oh pobre raça humana que nem tempo tem para descansar entre tanta intempérie do destino) são os persistentes e prenunciadores tremores de terra que todos os dias ocorrem, e várias vezes por dia! Quais aves de bico emproado, que a coisa agora é muito mais grave, e vem do chão que nos sustém! E advirá daí o fim do mundo? Acabarei eu na próxima semana e ser sugado por uma frecha gigantesca da qual verte o gorgulhado magma? Aparentemente já pouco haverá a fazer, é uma fatalidade que se aproxima e que tem na comunicação social os seus pregadores iluminados. Lá se elencam os casos diários, bem identificados e quantificados; hoje foi na madeira, ontem foi por estas bandas, e discutem-se intensidades telúricas que a ver vamos quem as teve mais altas. E se os serviços noticiosos se esmeram com pormenorizadas listas de preocupações e o Richter e o Mercolli de repente se tornaram conhecidos de toda a gente, já os hebdomadários investem em peças de maior profundidade sobre o fenómeno dos abalos telúricos, são já os gigantismos tectónicos e daí se sulcam, se racham, se tremem ainda mais os nossos tormentos, os tremores para melhor associar ao caso em apreço. E pois que parece que a coisa acontece a cada 250 anos, e para isso já estamos atrasados e ai que ele vem aí e eu nem tenho a extensão da apólice do seguro da casa contra catástrofes naturais, o que pouco importará porque provavelmente depois do holocausto que há-de vir já amanhã nem companhia seguradora haverá já. É o fim!
E ainda há quem queira aligeirar a nossa desgraça
"Mas vejamos. Este fervilhar das profundezas do planeta é coisa que se vem manifestando só agora?” arriscam uns, mais incautos, nesta interrogação retórica. Pois, ninguém lê nas entrelinhas que o tempo já só dá para passar a vista nas parangonas. E além disso há em nós esta inexplicável e ancestral necessidade de vivermos permanentemente à beira de mais alguma desgraça. E olha até que bem que a nossa comunicação social nos sabe alimentar isso ein, lá dela não nos podemos queixar, que ao menos nos valha isso. E não venham agora cá suavizar a coisa. Importa é ver os telejornais da manhã, essa desgraça - e atenção que agora foi na Madeira - deu já fortito, com 3,5 na escala do Rico dizem e o picentro cada vez mais próximo, ai ai que ele vem aí!
Estes agora a querer explicar a missa ao padre
Não venham agora cá com artigos científicos de nomenclaturas esquisitas e gráficos cheios de setas que não têm interesse nenhum nem falam da estatística e dos possíveis mortos. E há lá paciência para ouvir aquela senhora com cara de cavalo, que se engasga a falar e que nem sei porque a deixam ir à televisão com aquela fraca figura explicar estas coisas que ninguém quer saber, porque se a gente a sente a tremelicar (eu ainda não senti, mas toda a gente diz que sim) escusam de vir cá enganar-nos com teorias, e além disso os jornais e as TV’s lá perderiam audiências e logo teriam de arranjar uma nova desgraça e ai que não há coração que aguente tanto. E o que essa senhora está a dizer (calcule-se) e alguns iluminados se atrevem a confirmar é que todos os dias, desde sempre, há vários abalos telúricos à face da terra, e insistem que designadamente nas proximidades desta nossa região, como se a gente não vivesse cá e fôssemos ceguinhos. E mais, ainda se atrevem a dizer que isso é bom. Já viram isto? A irresponsabilidade, a quererem enganar o povo em vez de o prepararem para o pior? Há-de lá isto compor-se com estas manias de ignorar as desgraças.
Aqui entro eu, com as minhas modestas explicações científicas
"Bem, nem tanto ao mar, nem tanto à terra” – esta contemporização em tom doutoral mas relativamente descontraído, sempre me pareceu bem para começar qualquer coisa - ou melhor, e para adequar à situação em apreço, nem maremoto nem terramoto, digo eu. O que parece que aqueles senhores cientistas querem dizer creio poder ser explicado de uma forma bem mais acessível. Desculparão o caso do boneco comparação que aqui trago, mas foi o melhor que arranjei, apesar de não ser coisa que se cheire, o que compreenderão melhor mais adiante. Ora vamos lá tentar perceber porque afinal são bons estes pequenos desafogos das entranhas da terra e porque eles ocorrem tão frequentemente, e desde sempre, e não apenas desde que a comunicação social se lembrou de os “vender”.
A analogia da bufa (*)
(*) estrépito controlado produzido pela saída de ventosidades do ânus
Ao que parece, a origem desta catástrofe que certamente nos há-de levar a todos amanhã tem a ver com gases, (enfim, pressões), que se formam no interior do planeta. Introduzamos agora o nosso exemplo comparativo (já ides ver onde quero chegar): suponhamos que estamos muito bem instalados no cinema, bom filme, a sala cheia, e que de repente começamos a sentir um ligeiro acachoar dentro de nós, um ténue desconforto que vai subindo e descendo mas que começa a emitir alguns ruídos embaraçosos. Pois nesse mesmo instante, lá fora, também os gases do planeta estarão a cozinhar-se, borbulhando cada vez mais na sua enorme barriga redonda que abriga as nossas árvores e animais. Estais a seguir? Voltemos então à nossa cadeirinha no cinema; aquilo que era antes um pequeno desconforto começa a transformar-se numa já incomodativa dor de barriga, ligeiras picadas ainda assim superáveis. Nesta altura pensamos se não deveríamos sair por um pouco para nos irmos aliviar à casa de banho, ou nem tanto; bastaria chegar ao corredor que a esta hora não está lá ninguém, disfarçar com o ver as horas no relógio e pimba, rápido retornaríamos para a penumbra do cinema. Pois os entusiasmos do planeta (voltamos ao fenómeno telúrico portanto) também é assim que o vão inchando, e este, tal como nós, impede-os por decência de saírem logo. Em nós fica uma dorzinha que se sustém ainda, já na terra estes gases enclausurados começam a agigantar-se numa pressão perigosa. Na tela do cinema vê-se agora o King Kong a tropeçar num comboio e a bater com a cabeça num silo de cimento e toda a gente se ri sem ter a mais pequena noção do arrepiante fervilhar lá fora ou da dor (agora cada vez mais notória) que me apoquenta a barriga. É forçoso que tentemos dar ar àquela coisa. Mas como o fazer se não queremos perder esta cena agora? Mas os estragos que o animal faz no filme e os risos que recebe do lado de cá são tão ruidosos que isso nos dá uma ideia (é aqui que entra a história da bufa): E se nós, através de um apertado controlo do abdómen deixássemos sair um pouco dessas ventosidades e assim aliviássemos as nossas entranhas daquela pressão? Íamos aliviando aos poucos, evitando sempre que aquilo fizesse barulho, uma bufa domesticada por assim dizer, um pequeno pfffff que ninguém ouviria no meio de tanto estrilho estereofónico. E depois era esperar que esta não trouxesse o fedor para que a nossa companheira do lado não desse por isso, o que seria um desastre. E se esta é sempre a parte que nos constrange nesta brilhante ideia, pois também o mundo se envergonha dos seus gazes o que julgais, e por isso os conserva por vezes ao invés de ir libertando essas bufazinhas que não fazem mal a ninguém. Mas nós mais encrespados com a coisa, mais aventureiros também, lá acabamos por deixar escapar cautelosamente uma lufadinha. Quase se sente o ar folgar por entre as cuecas. Saiu bem! Silenciosa, sem rasto, e com um odor perfeitamente disfarçável. Cá fora, ao mesmo tempo, algures no arquipélago açoriano o mundo larga também, agora já menos envergonhado e contido, uma pequena bufadela. Nem a SIC, nem a TVI, nem as RTP’s dão por isso e a pressão assim também se alivia. Já nós deixamos escapar outra, claramente satisfeitos e orgulhosos desta mestria no controlo das já mais desafogadas entranhas. Ele lá fora faz-se o mesmo nas Maldivas. Depois mais uma, e outra, e finalmente, já o macaco gigante se desfalece agarrado à antena do Empire State Building, regozijamo-nos de nos sentirmos como novos. Nada que nos envergonhe que o que não se vê e não se cheira é como se não existisse. E neste momento nós e o mundo somos um só, em plena harmonia gástrica. Mas infelizmente, menos mestre que eu, ter-se-á o mundo deixado descontrolar lá para os lados do Algarve. Uma flatulência um tudo nada mais sonora, mas o suficiente para os noticiários portugueses se encherem de notícias. O filme acaba, e enquanto eu me levanto reconfortado e o planeta se compraze de se sentir mais desafogado, o povo em escarcéu arruma as suas coisas na cave e actualiza os seus seguros de vida e da casa.
Breve explicação do fenómeno, agora por absurdo
Breve explicação do fenómeno, agora por absurdo
Ficámos entendidos? Será que me fiz explicar bem com o boneco? Ora vejamos o que aconteceria no caso oposto. Admitamos que educadamente nos conteríamos até ao limite de sustermos os incomodativos vapores que se formavam no nosso esparguete intestinal. Pois. Já se sabe o que aconteceria, num momento em que afrouxássemos dele a nossa atenção, ou num esgar de dor que nos fizesse perder o controlo dos músculos abdominais (não sei o nome dos outros que fazem aquilo ficar muito fechadinho) - e provavelmente isso iria acontecer no cena do beijo em que o filme se cala e há um silêncio deleitado na sala - e lá ribombaria por toda a sala o enorme traque! Incomodados, todos os olhos se interromperiam do filme e iriam fixar-se em nós. Ficaríamos sem ver o final do filme, e sem dignidade nenhuma. Se o mundo seguisse a mesma pudica opção, não haveria noticiários a falar de pequenos abalos telúricos todos estes dias, mas num desses dias (porque não amanhã, sexta-feira 13?), quando acordássemos, teríamos duas toneladas de escombros por cima de nós, por culpa do enorme traque que tinha sido dado ao largo das Berlengas.
Acompanharam tudo? Então a lição a retirar é esta: As bufas bem treinadas não fazem mal a ninguém, os tremorzinhos de terra são nossos amigos … e não comprem jornais nem liguem a televisão durante a próxima semana! Depois passa.Moral da história
(o destacável do King Kong fica para outro dia, que por uma razão que não merece aqui ser explanada tive de sair antes do final do filme, altura em que terá o mesmo sido distribuído)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:15 PM | Comentários (11)
Post-it
Era uma coisa sobre bufas no cinema … mas agora, escapou-me a estrutura da coisa … fica a ideia a ressoar (a ‘ressoar’ liga bem, não esquecer de fazer esta associação), mas vai-se o texto … estrondos? … ah, já recordo, era sobre terramotos e tal … já só me falta lembrar de que abalos queria falar e em que cinema se davam traques … e falta tempo … era isso, o tempo, os sismos e a desvairada sonoridade largada em plena cena de suspense no cinema, e como tudo tem a ver umas coisas com as outras (esta parte tem de ser bem explicada e sem cair no grotesco) … a coisa está quase! … mas agora não posso, ora onde íamos nós, ah, relatório de validação, isso!
(Guardar isto em guião para logo. Onde … oh, aqui mesmo, pimba!)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:07 PM | Comentários (2)
Mais um sismo sentido ao largo da Madeira
As notícias pormenorizadas
e uma elucidativa explicação científica
aqui, em breve,
que agora não há tempo para isso.
(Oh Krassimir, passa aí esse madeiro para escorar este lado da parede!)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (2)
janeiro 11, 2006
Piscalações
- Oh pai, que oscilação tão grande!
- Onde? Não sinto nada.
- Ali, no céu. Vê?
- No céu? O céu treme?
- Não, mas as estrelas piscam. Mas não vê aquela oscilação de estrelas?
- Onde? … ahhh, constelação!
- ‘Tá bem, constelação, pronto. Mas as estrelas piscam na mesma!
(adaptação livre de coisa de irmã em tempos idos e das trapalhices recentes de um descendente)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:12 PM | Comentários (6)
Nova Lisboa / Huambo
Há muito tempo, o meu pai foi chamado para a “guerra”, pela terceira vez. Das outras duas vezes ficara pela metrópole, mas desta feita convocavam-no para Angola. Nenhum de nós percebia porque alguém queria tão insistentemente um capitão miliciano com um bigode bonacheirão e uma orla de seis filhos atrás. Quando em 1971 - um ano depois de ter partido - nos chamou para junto dele, percebemos finalmente que para além do fato verde e da boina que usava contrariada e desajeitadamente nada mais o ligava àquilo que lá longe se passava no mato. Fomos viver para uma cidade calma onde a guerra não entrava. Era um mundo diferente onde as águias pairavam rente à janela e em vez de galinhas se viam pacaças e macacos à beira da estrada e lá mais para dentro, diziam-nos, até leões. E haviam também uns gafanhotos gigantes com uns bizarros chifres esbranquiçados, quase do tamanho de uma mão adulta, que nós orgulhosamente guardávamos como troféus em frascos de vidro. Na escola pública onde andava, a um quarteirão de distância, conheci as gentes de lá. Éramos apenas três europeus, talvez melhores alunos, não sei, sei que mais poupados às reguadas que tentávamos amenizar com mezinhas à base de rabo-de-cavalo e azeite que se conjuravam e aperfeiçoavam na nossa clandestinidade de vítimas. O mais velho da sala era quase homem, e dizia-se que teria colocado duas batatas nos hercúleos bíceps que todos os intervalos ostentava para grupos de admiradores embasbacados, no que sempre acreditei. O meu maior amigo era um africano com mais 3 anos que eu e que me ensinou a dar saltos mortais e me defendia sempre das emboscadas no recreio. Lembro-me que um dia saltei do telhado do refeitório e desde aí deixei de ser o “puto branco”. Com eles passei a demorar-me mais depois das aulas e foi assim que conheci a “outra parte” da cidade. Quase sempre pó, senzalas e uma enorme liberdade que eu não sabia explicar e que ia muito para além do “brincar na rua”. O ar era mole e húmido, e a terra parecia tocar o céu e espraiar-se indolente até ao infinito. Em frente do edifício onde morava havia uma igreja onde todos os domingos me confessava de andar à pancada com os meus irmãos e de lá saía sobriamente desculpado. Quase todos os adultos que conhecia da messe dos oficiais não me pareciam ter nada a ver com aquela guerra que se dizia travar-se lá mais para leste. Aí onde vivia haviam alguns miúdos brancos e mimados que estavam proibidos de sair das cercanias e que nos invejavam a liberdade que nos era dada. Deles, com eles, lembro-me vagamente e apenas das tardes que passávamos assoberbados de um rádio-amador com que nos maravilhávamos a escutar o mundo inteiro. Aos 8 anos, aquele parecia-me ser o sítio mais aprazível e de maior liberdade do mundo. Foi lá que me apercebi de como a terra era tão grande. Fiz lá a 3ª classe e depois voltei. Para este mundo pequeno e encafuado.
Hoje, inesperadamente, as paredes deste escritório ruíram, e o mundo ficou outra vez maior.
[ Oxalá fosse assim o mundo (o de hoje, o desse tempo), como os olhos da criança que o viram. Oxalá eu não tivesse crescido, e ele comigo, a destapar-se aos poucos, a tornar-se cada vez mais inteligível, e mais pequeno, mais mesquinho e estropiado ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:35 AM | Comentários (10)
janeiro 10, 2006
Hoje andei a leste
Este humor eslovaco …
Drubrigadnia
(Diálogo)
- Bragandis gravafa zurpreke frasap!
(- Vou arrancar a faca do teu olho!)
- Bradav Izurk!
(- Uma parte corporal da senhora de reputação duvidosa tua ascendente directa!)
- Brasdig framat?
(- Mas porque não?)
- Izub gravafa serpt bragantis prozien, isdig forkuk gravafa!
(- Se me arrancas a faca do meu olho, fico sem olho!)
- Gravafa brik dev sirt!
(- O olho já está furado!)
- Brud ivare zorba.
(- Deixa-me reflectir primeiro.)… é de arromba. E vai já ali para os links !
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:05 PM | Comentários (4)
Ainda o Miguel StrogonofStroganoff e a sua Natasha tradutora
Afinal parece que não passou tudo de um mal-entendido, com desculpas já trocadas.
E mais, aqui está a prova de que um bom insulto, mesmo que devido à ininterpretabilidade (traduz lá isto Pavlov) da gíria, pode levar-nos até um bom espaço de humor. Ora vejam lá o primor disto.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:16 PM | Comentários (8)
Ai Pavlov, Pavlov
Alguém poderá fazer o favor de traduzir o que se segue ? É que acho que este homem anda a dizer coisas pouco recomendáveis sobre mim, mas eu não sei se me hei-de irritar muito ou só mais ou menos?
E enquanto não apanho a retroversão, e isto vai ficando um Drubrigadnia de surdos, aqui segue para ti também: “Bradav Izurk! ""Baika sedrok afrusborg ark vorsdrune mirk berzud brolg Undisho Mair. Puk atreuk comento niet kurten sobrugni, mirk avorish katork virtonem zapata 'Bradav Isurk'. Autoren niet vorsdrune, misha niet vorsdrune: votta Natasha disho asproina sobrugni potok 1:00 pm - 1:00 am. votto brolg newta niet bugun farish. Baika sedrok afrusborg!"
PS:
Pelo menos fiquei a saber que em língua de arranhar “Apenas mais um” = “Undischo Mair”
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:40 PM | Comentários (16)
O perfeccionismo
Cumpra-sePublicado por Eufigénio Lagoa às 10:11 AM | Comentários (2)
O rigor da profissionalização
Ando a escrever post’s muito extensos. Já li algures que a arte de blogar recomenda textos curtos pois caso contrário nem serão lidos. Tenho de ter mais contenção. Isto é mesmo coisa minha, ainda no …
Clanckkk ! ...
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:09 AM | Comentários (7)
A origem de todos os males ?
O amigo CAP com as suas fabulosas capacidades mnésicas lá me foi recordando qual terá sido de facto o meu primeiro post, se bem que na altura involuntário, ocasional e fruto da hospitalidade de blog alheio.
Ora se aqui que se faz acervo de tudo quanto escrevo é legítimo que o traga até cá, assim o desenterrando da simpática guarida que lhe deu o JPT, no seu Maschamba, quando a 8 de Junho de 2004 (abusivamente, note-se) elevou tal comentário a post. E reza assim:Rock in Cambodja
" Pois aqui estou eu para prestar o meu testemunho. E não contido, farei o retrato fiel do “Rock in Cambodja”, para os emigrados daí. O pior não foi o Cambodja, que aí nós, os Olivalenses, até somos muito miscíveis ... glórias das pedradas e alianças entre tribos. E era ver a atalhar caminho pelo meio do bairro J. …lá ia eu todo lampeiro: vamos em frente, não há que ter medo, é nem olhar para o lado, que estas beiras conheço eu. Há muito tempo que não sentia assim tão espampanante a minha (ainda que franzina) masculinidade. Mas dizia eu, o pior não foi o Cambodja, foi o que eu achava antes e achei depois de lá ter ido. E como sou o único que deve ter tal opinião, irei resguardar-me no recato do meu anonimato, pois “Zé” não será como é óbvio o meu verdadeiro nome, até porque de “Zé” ninguém se chama.
O que eu achava (pequena nota sobre o evento): Uma Patranha ! Irritou-me logo de princípio essa coisa de se colarem a causas humanitárias, e de tornarem aquilo um evento do estado. Causas humanitárias ??? 2% das receitas líquidas(!), podendo chegar a 5% (?). Vão fazer humor negro para outro lado!!! E pronto, achei que a dar qualquer coisinha, antes ao arrumador aqui á frente, que ao menos a esse sei para onde vai o dinheiro. Mas no último instante, nas últimas horas, casal amigo viu-se com 2 bilhetes a mais e com enorme esbanjo de amabilidade. E lá fomos.
O que eu achei (pequena nota sobre o cartaz): mas aquilo era um espectáculo dos anos 80, ou apenas uma exposição de seres embalsamados? Mas falarei apenas do Sting, que foi o que com expectativa vi, pois o resto do cartaz terei sempre hipótese de encontrar num desses arraiais que aí vêm por estes dias de santos. Havia lá um Carlos Sainz (acho que não era Carlos mas era Sainz de certeza), que devo poder ver de novo ali na tendinha mesmo em frente à casa dos bicos que por esta altura lá se encontra montada a vender superbocks quentes e farturas frias. Ora sobre este ícone (e volto ao ex-polícia) leio hoje nos jornais que ele apenas tocou o imprescindível. Opinião de quem certamente não esteve lá, ou então estava naquela coisa branca, a 1 kilómetro de distância, que tinha o nome distinto de Tenda VIP, e onde se vendiam vaidades mas certamente não se ouvia música. Aquilo até corria bem, uma mole de 100.000 pessoas, bom som, apesar do vento que varria o vale pelo lado oriental. Às tantas entrou o Roxanne (pela reacção diria que toda aquela gente há-de ter estado no Restelo, naquele memorável concerto dos Police - enfim, admito que nem todos tenham tido a sorte de assistir ao show erótico no final, dançado por entre os arames, com que nós fomos agraciados, mas mesmo tirando isso, foi daquelas recordações que se guardam). Fiquei na expectativa de ver entrar o refrão, luzes sobre o público, era ver pular, pular….pular, uma massa inacreditável de cabeças, floresta de braços no ar, pensamentos estranhos e dispersos “e agora se largassem aqui uma …”, varrido de imediato pela orgulhosa sensação de que de facto a gente até somos muitos e “venham de lá os espanhóis”. Mas aqui é que as coisas complicaram! Olho para trás, e que vejo? 200.000 patas batendo desenfreadamente no solo. O pó levantando-se numa enorme nuvem, de todos os quadrantes do recinto. O vento soprando, metódico, fraco o suficiente para não dispersar aquela nuvem cremosa, disciplinadamente empurrando-a na nossa direcção. Aos poucos uma espessa nuvem, daquelas que nos deixam o nariz em bola e os olhos a fazerem lama no canto, eleva-se e vai sendo empurrada de mansinho, justamente de encontro ao palco. Vejo-a passar por cima da minha cabeça. Juro que vejo a cara do Sting encher-se de pânico. Segunda vez o refrão, a mesma coisa. Claro que a seguir o gajo cantou um swing, e depois outro. Ainda puxou umas rockadas pelo meio. Mas quando saiu não foi por ter cantado o imprescindível como os jornais contam, saiu corrido pelo pó.
Mas houve um final do melhor que já vi até hoje…. Eheheh. Ora bem, o homem acaba, o cartaz diz-nos que ainda aí vem o Abrunhosa. Começo a pensar que aquilo será a noite de glória para o gajo do bigodinho. Já viste, o gajo a fazer voz grossa para 100.000 pessoas? mas logo vou adiantando para quem comigo está que o melhor era o tipo entrar logo, logo. Meio dito, meio feito. Assim que nos viramos para a porta, intenção declarada de sair, constatamos que todos, mas todos mesmo, se encontravam virados na mesma direcção. Lá em cima olhei para baixo, e por detrás da manada, ainda pude ver a plateia, cheia…. de copos de plástico. Li hoje que foi um belo concerto, com mais de 15.000 pessoas. Enfim, podia ter sido pior!
E pronto, aqui tens a minha crónica, propositadamente ácida para te tirar a pena de por cá não teres estado. Muito melhor que aquilo foi a festa do Sonyman na sexta. Casa bonita, gente amiga cada vez mais cota cada vez mais igual, anfitriões do melhor. Essa sim, perdeste."Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:30 AM | Comentários (19)
janeiro 09, 2006
Acabo de escrever o post debaixo e surge-me uma questão curiosa:
Quantas vezes terei eu já aqui escrito neste blog “ palavra ” e “ memória ” ?
Há uma coisa funda na minha natureza que me leva a viciar-me com tudo, essa carambola de ritmos cada vez mais apertados, até que a trajectória gasta de tanto passar sobre si mesma, sem ter mais para onde ir, se (me) acabará por resumir a um ponto já só trémulo. Será fastio, este compasso que se repete esgota assim.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:30 PM | Comentários (2)
O forro com que embalsamamos as memórias
Saber e não querer
Tive uma guerra com o lavatório lá de casa que muito gostaria de guardar aqui. Tem tudo para ser uma daquelas histórias que mais tarde me aprazeria reler. Sei até os exactos termos em que a iria descrever, mas percorre-me uma preguiça tal que cada palavra que teria de enfrentar, em vez de se fazer impulso, haveria de parecer um projecto laborioso de retórica, e os contornos de cada uma das suas letras, ao invés de uma hábil pincelada, reclamariam antes o horror de um minucioso exercício de relojoaria. Tenho pena, mas não creio que assim a venha a registar para breve. Depois, provavelmente, e porque é insignificante, esquecê-la-ei. Será mais uma neste sítio que é cada vez mais um cemitério das histórias que não cheguei a escrever.
Ora, deixemo-nos de coisas. A verdade é que um homem quando escreve é porque gosta de o poder ler depois, e nada mais.
Querer e não saber
Podem-se dar vivas à tecnologia, e badalarem-se os teclados entusiasmados que quase escrevem sozinhos e os ecrãs TFT com as placas gráficas mais rápidas que a luz, que nada disso me persuadirá. Bom mesmo seria deixarmo-nos ir ficando, a prolongar um serão mastigado no bordo da lareira tecido em boa companhia, e devagarinho, deixando-nos interromper com os travos de uma doce aguardente, lá ir escrevinhando as palavras numa morna conversa, calmamente, até ao último ponto parágrafo. Depois sem pressas, já no fim da noite, passávamos junto da mesinha do telefone e recolhíamos umas folhinhas amarelas meio amarrotadas, já com “o resumosinho”, para guardar.
Mas que diabo, nem tudo o que se diz se pode contar. Sobretudo quando não é o que se diz que importa, mas o momento que degustamos para o dizer que não se deixa embalsamar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:15 PM | Comentários (3)
Olha o novo DN !!! Olhá bela capinha do DN!
Ao ver o destaque que merece a nova maquilhagem do DN - e de como esse pormenor (que diria ser de pouco relevo mesmo para um leitor de jornais) é transversal e comum a quase toda a blogosfera desta manhã - compreendo melhor como eu, cidadão comum e aprendiz de trovador nos tempos livres, pouco tenho a ver com isto. É cada vez mais evidente, pelos temas das discussões entre blogues, pelo conteúdo quase comum (e às vezes tão enfastiadamente repetido), pela verve, pelos códigos, pelas encrespações, pelo estilo profissional da escrita dos seus autores, que esta blogosfera, pelo menos a mais conspícua, tem as suas raízes e interesses na comunicação social e na política.
É também por isso que me rio quando dizem que este é um formato próprio dos espaços individuais, habitado por escritores amadores que com a sua escrita caseira, (quase sempre pretensiosa), versam conteúdos intimistas. Talvez já tenha sido, talvez. Que gente dessa, diletante, desinteressada, tirando o prazer da ilusão que a escrita só por si lhe dá, inventando assuntos sem lhe ocorrer falar na notícia da manhã ou no candidato da noite passada, gente dessa já só vive nas longínquas margens anónimas deste espaço, que é cada vez mais a versão alternativa da comunicação social e da política on-line.
Ver a lista dos post’s do dia faz-me recordar quando em miúdo ouvia os ardinas no sinal luminoso da Av. de Roma, apregoando a primeira página do jornal ainda fresquinho da manhã.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:30 PM | Comentários (16)
[ Não sei se posso dizer que tenho um blog favorito, tal como seria difícil eleger “o” autor da minha preferência … mas sei é que há uns onde passei mais tempo do que em qualquer outro ]
"Vou indo
O meu texto favorito:
mas que raio é que estou eu aqui a fazer?Por aqui, leia-se Nova Zelândia, claro. Já cheguei.
Tá imenso calor e há imensos cangurus e também uns ursos brancos polares sentados em cima de uns glaciares. Os cangurus vêm comer à mão, vendem-se uns saquinhos de pipocas especiais para cangurus, com molho de atum e natas. Os ursos têm uns chapéus, são panamás, e na fita está escrito dont feed the bear, mate, oh-i!. Há umas barraquinhas giras onde se vendem bebidas geladas com palhinhas, creio que têm vodka dentro, mas não tenho a certeza. O homem que me atendeu era albanês e não falava inglês, mas tinha tatuada no braço a seguinte frase: ou me pagas ou levas nos cornos. Em português, donde concluí que é bem capaz de ter percebido quando lhe perguntei ó meu cabrão onde é que se pode mijar aqui? (era a frase que vinha no livro O Tuga em Férias, cortesia do suplemento de um jornal que li no avião, pensei que seria uma boa primeira abordagem às nuances da cultura maori, se o português faz parte do plano de estudos e essas coisas), porque iria jurar que me respondeu minha ganda cabra vai mijar para a puta que te pariu, mas foi entredentes e nessa altura, quando vi brilhar aquela boca dourada (ai Corto, a faltinha que me fazes, desde que partiste no teu veleiro branco pelo mar pintaste a minha vida de transparente...) percebi que era albanês. Estendeu-me um copo de plástico transparente e apontou para um placard pendurado na barraquinha, ao lado dos crocodilos de borracha e eu paguei o dólar que me pedia. A palhinha era azul escura (como o mar que nos separa, ai Corto, a faltinha que me fazes...) e a bebida transparente (como a vida), donde seria vodka, pois de gin não se tratava por não cheirar a perfume barato de galdérias suburbanas. Afastei-me, porque estavam a chegar dois dos ursos e, pelo ar sedento e transpirado, creio que a barraquinha terá fechado cedo.
Dei umas voltas pelas outras barraquinhas, mas tirando os dentes dos atendedores, era tudo mais ou menos o mesmo e aproveitei para comprar uns recuerdos. Mas não me recordo do que eram e perdi o saco quando virei a esquina e tropecei no coral reef. Não sabia que começava logo ali, à saída da rua das barraquinhas depois do aeroporto. Mas quando me voltei, a esquina tinha desaparecido e, no lugar dela, estava um hangar com uma porta aberta. Lá dentro, pilhas e pilhas de folhas brancas (ai Corto, tão pálidas como as velas do teu veleiro, esse que vi partir, embrulhada no xaile roxo das viúvas das marés...), perguntei a um canguru para que serviam, mas ele não me disse nada, ninguém me liga nenhuma desde que fiquei transparente...mas depois percebi quando vi os tucanos a dobrarem as folhas com os bicos. Em duas, depois em quatro, depois um chapéu e depois é só puxar as pontas...
Havia barquinhos com um toldo de um lado, ou com dois, um de cada lado. Escolhi um só com um toldo, pois não quero apanhar sol na cabeça. Visto que sou transparente no resto não faz mal. Agora vou navegar até ao fim do coral, depois lá diante mando outro postal.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:11 AM | Comentários (2)
janeiro 08, 2006
Bons conselhos: Porque é que não se deve arranjar o nosso próprio toldo quando prevemos ir comer o melhor bacalhau com todos
Porque é provável que tenhamos esquecido de fazer uns furinhos nas telas para que escoa a água da chuva, e depois acabamos por arriscar inventar uma solução que passa por usar uma broca para o perfurar de baixo para cima, obtendo uns razoavelmente arredondados orifícios, que logo de seguida bordejamos com um fio de cola de contacto de 6 seg para que os seus contornos não esgarcem, e no preciso momento em que estamos a fazer esse debrum de cola por cima de nós observamos de raspão um fio da mesma desprender-se da bisnaga, primeiro formando-se gota mole mas depois a cair vertiginosamente na direcção da nossa cara, e
… porque acabaremos inevitavelmente num momento de pânico a limpar os dentes com acetona (!), e mais tarde, ao jantar, a desperdiçar lamentavelmente (com o palato todo encarquilhado) o melhor bacalhau que hoje se faz à face da terra.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:59 PM | Comentários (2)
janeiro 07, 2006
Hoje acordei assim
A família toda já se escapuliu para a rua, e com ela os berros de pavor e as lágrimas lançadas sobre esta minha agrura. À volta deles, lá fora, ter-se-á ajuntado um rol de gente, pois ouço-lhes o alvoroço das intenções e sugestões que lançam sobre o caso. Pouco me importa. A única coisa que verdadeiramente me interessa é comer. Já quase não me lembro do degustar do candeeiro da mesinha de cabeceira que ainda agora devorei. Quase todo o quarto já foi trincado, há estilhaços por todo o lado, e a fome não abranda. Ouvem-se agora sirenes. Mas de nada mais quero saber para além da cómoda, ali ainda, luzidia, a despertar-me o apetite.
Sinto-me cada vez mais forte, mas há esta voracidade desesperante que me leva a tragar tudo antes que possa tirar disso qualquer prazer. Há um rasto de serradura que deixo, enquanto evito pensar no momento próximo em que esta dentadura, à madeira preferirá os carnudos afectos.
... Nunca tinha reparado naquele quadro. Que bela moldura …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:10 PM | Comentários (9)
Marés
Na enseada de S. José o Sol filtra-se com uma suavidade de calor manso. Por vezes, a sua cava do meio enche-se subitamente de uma água cálida, e tudo ali se torna um sítio aprazível onde veraneiam as memórias, por breves instantes. Umas nadam, outras divertem-se na linha d’água, outras simplesmente se deixam ficar indolentemente deitadas sobre as pequenas dunas que formam o seu bordo.

Depois, abruptamente, tudo se enxuga, e as memórias, apressadamente e em magote, voltam para dentro. É assim que se fazem as marés na enseada de S. José, súbitas, inesperadas e irrefreáveis.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:25 PM | Comentários (7)
janeiro 06, 2006
Escolhas estratégicas: a menina dos (três, eram só três) fósforos
[ … ao jantar falávamos sobre a dificuldade de escrever em grupo]
- Eu também não gosto. E além disso despacho-me melhor sozinho. Ainda no outro dia fizemos uma composição sobre uma lenda à escolha e como estava sozinho acabei vinte minutos antes dos outros que só discutiam e não escreviam nada.
- E depois, aproveitaste para melhorar o texto?
- Não, a professora deixou-me ficar a ler o Harry Potter.
- Mas é isso que te digo sempre Francisco, não basta só o que se conta, também é importante como se conta. E isso requer tempo.
- Mas eu revi.
- Pois
- Oh Pai, mas eu escolhi a menina dos fósforos.
- E?
- E … eram só três fósforos!!
Às vezes, a preguiça é uma arte
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:49 AM | Comentários (8)
janeiro 05, 2006
(Vamos lá com calma …
que nisto de combater os vícios há que ter a noção exacta das nossas limitações. Primeiro vou deixar de fumar, só depois acabarei com o blog. Uma coisa de cada vez!)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:20 PM | Comentários (13)
Ora tomem
De: “Locuaz”
“Recordo-me de ser miúdo e de cada vez que abria a boca a minha mãe me corrigir os erros gramaticais e o meu pai ironizar com a razão do que eu dizia. Obrigado por me ter dado esta oportunidade de aqui dizer algo, ao abrigo de tais críticas. Posso agora? Pai !!! Vês como é?! aqui e para toda a gente ouvir: eu sei bem o que digo!!! Eufigénio, pedia-lhe o favor de corrigir os erros que aqui possa encontrar (mas não diga nada à minha mãe).”
Antes de mais deixe-me agradecer-lhe estimado “locuaz” a ousadia que lhe é devida ao desfraldar esse seu génio e assim dar um contributo primeiro e decisivo para a nova linha editorial - mais ecléctica já se vê - deste blog.
Quanto à sua reflexão: sim. Eu também acho que é bom usar isto como saco de boxe, embora pela razão do tempo, (em suma: o desgaste a que estes invólucros de pele enchidos de areia são sujeitos), já deva este estar roto quando lhe desferir tal soco. E também estou em crer que a razão principal porque se cria e usa um blog é justamente essa, a de podermos alardear os nossos recalcamentos fazendo-os ouvidos por muitos mas sem que ninguém nos interrompa. Todavia, convém que os saibamos traduzir numa razoável moldura literária, (como aliás alcança o seu substanciado texto) pois só assim faremos dos nossos cochichos reflexões, e das nossas lamentações longínquos trechos de memória.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:56 PM | Comentários (5)
janeiro 04, 2006
Vá lá
Se toda a gente tem um blog colectivo, e até há uns que têm “o correio dos leitores”, porque é que eu não posso ter a v. preciosa participação: flores, couves, beterrabas, sequóias, pinheiros mansos, um diversificado e verdejante reflorestamento neste período de maior sequeiro que atravessa aqui este serviço das notícias do interior.
(embora seja da minha autoria, este post é uma adenda ao anterior não se propondo por isso corromper a estratégia editorial aí definida)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:45 PM | Comentários (6)
Recolha de Donativos
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:50 PM | Comentários (14)
O difícil princípio do entendimento
Para os outros, primeiro somos apenas as palavras que proferimos. Só depois passamos a ser também o significado que se traduz delas. Para os outros, já só muito depois, seremos sobretudo aquele que profere a palavra, esse já para além ela.
Para nós, perante os outros, tudo se passa na ordem inversa.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:55 AM | Comentários (0)
janeiro 03, 2006
Momento à LaPalice
Verdade científica
Há mais coisas que começam do que as que acabam
(não acreditem nessa coisa da entropia)
Verdade natural
Há mais coisas que se calam do que as que se dizem
(até mesmo nas mulheres)
Corolário somativo
Algumas coisas acabam porque se calam muitas vezes,
mas muito mais coisas começam quando - ainda que pouco- são ditas
(eu também não estou a ver bem onde quero chegar mas ainda um dia me darão razão)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:20 PM | Comentários (5)
Semi-homem
As relações entre bloggers estabelecem-se entre blogs. Se não forem relações que lhes chamem outra coisa. Mas o que quer que lhes chamem, deixam de ser legítimas quando um dos bloggers presume coisas do outro sem sair deste contexto (o único que conhece) das palavras inventadas. Sejam essas escritas com verdade ou não.
As relações entre as pessoas que conheço teço-as na vida real. E essas são relações de corpo e alma. Mas essas relações podem enviesar-se se alguém cometer a ingenuidade de me ajuizar por aquilo que aqui escrevo, sob anonimato, ou não, como se eu fosse isso tudo, ou apenas só isso. E seja isso verdade ou não.
Aceito juízos sobre mim (não falo do Eufigénio) por parte de quem me conhece. Assim como aceito críticas ao que escrevo do lado de quem me lê. Confundir as duas coisas é uma enorme deslealdade. É restringir-me a uma das minhas dimensões. É além disso tirar-me a capacidade comunicacional. É afogar-me em palavras que me tornam mudo.
Escrever é uma inquietação bastante (nem boa nem má) para que não seja preciso arranjar-lhe novos limites. E torna-se insustentável pensar que ao fazê-lo estaremos a ser ajuizados pelo que somos. Porquê? Porque as palavras são uma ilusão, e uma habilidade que por mais que dominemos, por mais que a possamos fazer parecer, nunca conterá em si a nossa dimensão emocional. E como homem tenho o direito de ser julgado sem destrinças.
Se me for possível eu escrevo, gosto de escrever. Se quiserem poderão ler-me aqui, e eu acho que gosto que me leiam. Mas para o mais, deixem que me manifeste junto de vós no mesmo contexto em que o fazem junto de mim. É uma proposta honesta não é?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:20 PM | Comentários (8)
Sim, sou eu. Aqui revelo o meu mister (e se me doem os costados de tanta alavanca!)
Prendas quase nunca as tive porque era logo a seguir ao Natal. Convivas também não que era logo antes do reveillon para onde já tinham partido. Em pequeno, o meu dia de aniversário esteve sempre associado a um momento de auto-compaixão. Mais tarde, já adulto, adaptei-o a uma espécie de cerimónia asceta, consignada à reflexão. É por isso que a data mais importante para mim é o dia a seguir ao meu aniversário que recordo sempre como o dia da maior ressaca do ano. E regava este ritual com tal esmero, que na noite seguinte, para onde quer que me virasse, ainda via o ribombar de foguetes por todo lado e o mundo inteiro cantarolando pelas ruas.
Mas um dia, já com melhores posses monetárias, acabei por concluir que uma boa aguardente não dá ressacas assim, e tudo se desvendou, para meu espanto. A verdade é que por culpa da falta de convivas, me envolvi num exercício transcendental onde acidentalmente me auto-instrui para o desempenho de um ofício, do qual, por mero acaso, tinha acabado de ser dispensado um tal Dionísio (que tinha andado a brincar com coisas sérias com um tal de Midas). Foi assim que me vi contratado para junto do contingente dos deuses, e aí colocado na secção dos ciclos, acasos, sortes e infortúnios, lugar aliás de grande responsabilidade. A mim cabe-me todos os anos rodar o relógio do Universo no dia 31 de Dezembro, e é por isso que um dia antes me é lançado tal alarme. Lamento um pouco que nessa ilusão das superstições, dos rituais pagãos, das passas e dos braços entrelaçados, ninguém entre a Austrália e esta terra por onde deambula a minha parte terrena tenha noção que esta festa na passagem do ano só acontece porque o mundo aguarda que eu celebre na véspera mais um aniversário, antes de se comprazer em terminar mais um ciclo. E continuo sem prendas nem convivas nesse dia, mas pouco importa. Nós que marcamos o ritmo do Universo temos horror ao conspícuo, pois preferimos manipular todos esta intrincados mecanismos resguardados da vaidade e da ostentação para melhor nos concentrarmos neste rigoroso trabalho cosmo-mecânico. Que fabricar isso a que chamais de destino é coisa de grande responsabilidade e requer uma atenção e dedicação desmedida. E louve-se também o trabalho dos meus colegas pois que até hoje ainda ninguém nos pôde acusar de alguma vez ter encontrado o futuro avariado por falha na engrenagem dos acasos ou desgaste excessivo num dente da cremalheira que faz as estações.
Nota: revelada a minha verdadeira identidade neste momento de fraqueza devo, por questões de ética, informar todos os leitores deste blog de que não poderei dar um jeitinho no euromilhões nem intervir por interesse próprio ou alheio em qualquer outro pormenor de 2006. E agora com vossa licença, Poseidon chama-me de lá do fundo, parece que está com um problemazito ali para o lado das baleares.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:05 AM | Comentários (18)
janeiro 02, 2006
As duas melhores prendas de Natal *
Elejo:
- Os 3 saquinhos de sementes e o sacho que os meus filhos me deram – a anos-luz das meias e jarras e livros e camisolas e velas e (quer dizer, essas também foram boas mas, enfim, não digo mais posto que este já não é um blog anónimo junto de alguns familiares)
- O Age of Empires III que lhes dei – aquilo é uma loucura e os miúdos ficaram todos contentes; até tem um modo de jogar on-line; hoje tenho de os deixar experimentar o jogo; eles hão-de adorar aquilo
… que querem, comecei por fazer a instalação, depois era só perceber como aquilo se jogava para lhes dar umas dicas e depois, enfim, talvez me tenha entusiasmado um bocado. Já passei 8 dias naquilo quem diria, ein? É que aquilo também é um pouco difícil de assimilar logo, bem se vê. Mas amanhã (hoje se calhar ainda não que tenho uma contenda para acabar), mas amanhã prometo que os deixo jogar.
* Nota exclusiva para a vertente de album de família deste blog: Diogo, eu sei que a v. prenda não foi de natal. Mas eu não queria estar aqui a dizer que também fazia anos, percebes. A mãe disse-me que se um dia lesses isto poderias ficar magoado por eu ter confundido as datas, mas eu disse-lhe que o importante era que percebesses que tinha gostado mesmo muito da prenda e que vai ser giro ter no quintal uma prenda que todos os dias está diferente, como nós.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:00 PM | Comentários (4)
Os meus (já não) “links”
Há outras vias, mas os links que registo neste blog são os que mais uso para navegar nas minhas leituras. Coloco-os aqui quando prevejo que sejam pouso regular, galhos de uma gigantesca árvore por onde gosto de ‘passarar’. Ás vezes faço-o com alguma leviandade é certo, digamos que são sítios que coloco sob observação, mas outras é já pela utilidade (consagrada) que refiro acima.
Já quando os retiro ajo com muito mais fundamentação, e há até alguma solenidade nessa decisão. Sei exactamente que esses são sítios que não quero continuar a frequentar. Raramente isso acontece por perda de qualidade (literária ou outra). É quase sempre pelo mesmo motivo: são blogs que caíram nas trevas, no negrume da maledicência persistente, a viciosa necessidade de criticar de forma permanente e exclusiva os outros, sem espaço para mais nada. Mas não é só porque me sinto traído e irritado de cada vez que acorro a um novo post, é apenas porque nada justifica que perca o meu tempo a ler coisas intelectualmente empobrecidas e de onde não devo esperar nada de original, independentemente de estarem bem escritas. (Lamentavelmente, algumas dessas verborreias vêm de gente que escreve muito bem na blogosfera - um profundo desperdício de talento é o que é!)
O que traz fiabilidade e coerência à minha lista de links enquanto road map dos meus devaneios de leitura não são os que lá estão (e que estão lá muito bem), nem os que ainda não estão mas virão a estar … são os que de lá saíram.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:22 PM | Comentários (7)
Cada um com o ‘reveillon’ que prefere
- Eufigénia, não estás a ouvir? Parecem foguetes lá para os lados do rio … tu queres ver que …
- Espera aí que eu vejo aqui na televisão … Xiii, é meia-noite e meia já.
- Humm, e como fazemos, vou buscar a garrafa de espumante?
- Oh, se calhar … já agora. Mas é seco não é? Senão não vale a pena que não bebo.
- E achas que telefonamos agora aos miúdos, ou logo tratamos disso amanhã?
- Humm … depois, agora estou numa parte entusiasmante do filme …
- Ok, agora também não me apetece nada interromper isto aqui
- … Oh Eufigénia
- Sim?
- Bom ano.
- Bom ano também para ti.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:07 AM | Comentários (13)