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dezembro 02, 2005
Um pastel de nata demasiado viscoso
Ontem, enquanto tentava disfarçar o terror de tragar mais um incomestível bolinho sob o olhar atento e enternecido da minha avó e preparava já os meus óbvios e abismados elogios, lembrei-me dele, do T, e daquela inesquecível cena de antanho, numa festa de anos, num 8º andar lá do bairro.
As festas de aniversário naquela altura eram usufruídas como oferendas de fartos lanches e pouco mais. Serviam essencialmente para guarnecermos a barriga e forrarmos os bolsos com reservas que transportávamos depois tão rápido quanto possível para a rua, onde, aí sim, se desenrolava toda a acção relevante. Claro que essa voragem arrasadora com que nos apetrechávamos, nunca permitia grandes hesitações sobre o que nos vinha à mão, e depois à boca, e por vezes daí vinham agruras.
Ocorria assim por vezes uma ou outra vítima mais desprevenida ver-se surpreendida com um pedaço menos tragável do festim. Fora aqui ao T, moço expedito, a quem coubera a má sorte de inaugurar os pastéis de nata, os quais, aparentemente, nem para os nossos pouco exigentes palatos teriam proveito. E lamuriando-se de tal azar, atrapalhava-se no inventar a melhor forma de se aliviar do estorvo de tal carga. Angustiado, rodava a cabeça de um para o outro lado em demanda de esconderijos, e depois, em passo matreiro, cirandava pelos sítios menos conspícuos da sala com o propósito de se poder desfazer de forma desapercebida do intragável pastel, esse acidente gustativo que entretanto o impedia de prosseguir no repasto.
Entretanto o horroroso bolo - quase por inteiro ainda, a menos de uma interrompida dentada - escorria-se na sua mão. Tentou largá-lo primeiro num canto de uma mesa baixa, mas logo lhe saíram à atenção um “oh menino que não se faz isso à comida”. Depois num outro flagrante, e logo pela mãe do aniversariante, repreensiva, a olhar para o montinho de smarties com que o tentara esconder ao lado das limonadas. Afinal, aquela operação de descarte, tão vezeira e pacífica de se resolver normalmente, fazia-se agora um incomodativo e frustrado contratempo. Nada lhe estava a sair bem, e o borrachoso pastel de nata, tão rápido quanto se aliviava da mão que o segurava, assim voltava, de cada vez mais esbodegado e pegajoso, de cada vez mais incomodativo.
Por cada tentativa que arriscava para se folgar de tal contratempo, logo um adulto lhe saía a caminho. E por isso, da vez seguinte, mais olhos o policiavam, e mais árdua se tornava essa sua tarefa. Ora, posto isto, até o desembaraçado T teve de capitular, já receoso que tantos flagrantes pudessem vir a constituir-se em mais provas da sua grosseria, mais tarde, junto da sua progenitura. Assim, e vendo-se alvo desta apertada vigília, depois de mais duas ou três trajectórias cruzadas pela sala com que ainda supôs iludi-los, acabou por se acercar de novo junto de nós, que entretanto nos agrupáramos junto ao enorme envidraçado da sala. Lá se foi acomodando à roda que ali fazíamos, escolhendo o lado do vidro para, encostado, se deixar indolentemente ser visado pelas nossas observações e risos trocistas. Vencido, cerrava nas mãos que agora se cruzavam nas suas costas o mal de todo o seu incómodo, e por ali se deixava ficar, cabisbaixo, deglutindo estoicamente a chacota que cada vez se tornava mais ruidosa, mas mantendo negar-se a fazer o mesmo com o estuporado pastel de nata.
Sustinha-se assim este hilariante ambiente quando subitamente todo este alvoroço se viu interrompido por um enorme estrondo. Um estrondo forte, um shmaaacck primeiro, que depois se perpetuou por uns instantes em vibrações mais roucas, e que distintamente provinha do local onde estávamos, junto à janela. Saltam alguns de nós para o lado, assustados, e quedam-se todos os restantes confrades. Todo o festejo, por um momento, se interrompe. De todos os lados provinham olhares perplexos, que incidiam sobre nós. Ainda hoje me rio desbragadamente ao recordar a cena: Um silêncio profundo. A mãe do H fitando-o furiosa, e o T, enrubescido, a balbuciar baixinho, a desculpar-se inutilmente de que não tinha reparado que a janela estava fechada. A cara dele, enrubescida de vergonha, e por trás dela, numa descida pegajosa da qual se iam soltando pequenos nacos de creme, o pastel de nata a escorrer lentamente ao longo da enorme vidraça, largando um viscoso rasto amarelo.
O T. é hoje homem importante numa dessas multinacionais da alta-fidelidade, pelo que acredito que tenha tido mais sorte do que a que lhe sobrou naquela tarde. Ou talvez tenha descoberto que até as pequenas batotas requerem que se estude bem o terreno em nosso redor. Volto aos dias de hoje. Constato que ainda tenho o borrachão na mão. Depois olho carinhosamente para a minha avó e, num único impulso, engulo o borrachão que me tinha sido oferecido, e de imediato o chá todo, a uma só vez. Custa menos o sacrifício de um “humm, que delícia” do que a trigésima tentativa de lhe explicar que não gosto daqueles bolinhos duros feitos com aguardente. Até porque aqui onde me encontro, não há janelas nem vidraças, felizmente.
Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 2, 2005 12:35 PM
Comentários
Pois é... Mas a ternura com que são feitos ( e oferecidos) compensa tudo o resto :-)
Estou aqui a (tentar) acabar um trabalho muito chato e muito me ri com a história do pastel de nata - obrigada, Eufigénio!
Publicado por: Jill em dezembro 2, 2005 02:03 PM
Ora essa Jill. Eu estava aqui a (tentar) acabar um trabalho muito chato e muito me ajudou escrever a história do pastel de nata.
(Há sabores que o nosso palato nunca esquece)
Publicado por: Eufigénio em dezembro 2, 2005 02:06 PM
Esta escrita doce tem tanta nata de ternura que tem o feito terapêutico de a vida até fazer sentido :).
Publicado por: maria arvore em dezembro 2, 2005 08:37 PM
a escorrer pelo vidro abaixo M. Arvore, com as letras viscosas a pegarem-se aos dedos. são quase sempre assim os pequenos pormenores não é?
Publicado por: Eufigénio em dezembro 2, 2005 11:10 PM
é tão bom ler estas tuas recordações...raro o momento que não rio à gargalhada, pois pela maneira como as descreves, parece que lá estávamos também.
Publicado por: Luna em dezembro 2, 2005 11:52 PM
Excelente texto meu amigo, a fazer lembrar em mim histórias similares da minha infância.
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em dezembro 3, 2005 09:38 PM
Luna e Zecatelhado,
Todos nós temos pasteis de nata estragados algures no nosso passado, essa é que é essa.
(embora acredite que alguns tivessem tido mais jeito e felicidade para se desfazerem deles que os outros)
Publicado por: Eufigénio em dezembro 5, 2005 05:53 PM
Socorro!... O weblog também anda a tragar coisas como o halobicho?...
Publicado por: maria árvore em dezembro 6, 2005 10:38 AM
M. Arvore, explique-se por favor!!
Publicado por: Eufigénio em dezembro 6, 2005 10:40 AM