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dezembro 09, 2005
ou dito por quem sabe: de bom e de vilão todos temos um pouco *
* Somos feitos de fragmentos que chocam entre si, pequenos asteróides em órbitas incoerentes, trechos de um passado que teimamos em juntar ao redor de uma enorme ilusão egocêntrica
Repartíamos o orgulho de termos tirado a melhor nota. Dele não sabia nada a não ser que viera do Douro interior para fazer por cá o exame nacional e que agora que soubera as notas lá voltaria para ajudar o pai nas vindimas. Estendia-me que ainda assim se demoraria mais dois dias pela metrópole, que mal conhecia, e que bem podíamos … quando me pediu o telefone, pensei que não tinha nenhum sentido que nos viéssemos a encontrar, mas não lho disse. Dei-lhe o primeiro número que me veio à cabeça.
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Na frente corríamos todos que nem loucos. Quando o vi atrasar-se, com um corpinho ainda mais miúdo que o meu, e a ser envolvido por aquela multidão furiosa, estanquei o passo e fiz-me ao seu lado. Ainda levantei a voz enquanto o escondia por trás das minhas costas … depois levei com uma paulada na cabeça, e passei a gozar da fama dessa ousadia.
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Por duas vezes me perguntou se aquela revista ordinária que estava caída no quintal não era minha. Por duas vezes lhe disse que não. E avançava que tal descuido e com irmãs mais novas por ali sempre a brincar … e eu mantinha que não. Sabia quase as páginas de cor. Nunca me ocorrera que pudesse rebolar do telhado para onde a tinha atirado. Por duas vezes me perguntou, e por duas vezes renunciei a consenti-lo. A fúria da minha sexualidade adolescente tornou-se uma prática obscura e condenável, e durante anos culpei-o a ele.
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Escutava no quarto ao lado o estertor das chineladas. Ainda me corriam as lágrimas puxadas da zona das costas onde antes ele me enfiara uma biqueirada. Tudo começara por uma teimosia minha, ele a fazer-se de irmão mais velho e eu como sempre a desafiá-lo. Ouvia-o agora em choros aflitos ali ao lado e ainda me ocorreu intervir, dizer que a culpa era também minha. Em vez disso, deixei-me ficar consolado com um sorriso traidor.
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Quando jovem tive um barco à vela. Aparelhei-o e desaparelhei-o vezes sem conta. Numas zarpei, nas outras olhei o mar e fingi ter perdido a palamenta.
( e agora, Eufigénio, já podes fazer de pai virtuoso se ainda assim o entenderes)
Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 9, 2005 11:20 AM
Comentários
Esta manta de retalhos dói. Somos todos assim (bela chapada na cara, logo de manhã).
Publicado por: catarina em dezembro 9, 2005 11:18 AM
Ai se doi Catarina!
Mas doi mais se nos esquecermos de seguir a "posologia" de pais ... uns dias sem tomarmos estas capsulazinhas e começam logo a fazer-se notar estes inquietantes sinais com que exigimos a outros o que nunca fomos nem seremos capazes de ser.
Publicado por: Eufigénio em dezembro 9, 2005 11:34 AM
O bom, o mau e o vilão!
Publicado por: bill em dezembro 9, 2005 11:43 AM
Mas olha que eu hoje não acordei nada com cara de Clint Eastwood Bill; abrevia para dois
Publicado por: Eufigénio em dezembro 9, 2005 11:45 AM
é por isto tambem que gosto de te ler. Sente-se uma alma aqui dentro. Por detrás das palavras. E sim ´génio, somos feitos de fragmentos que chocam entre si.
Publicado por: lyra em dezembro 9, 2005 11:56 AM
Almas Lyra? não sei ... expurgos certamente
Publicado por: Eufigénio em dezembro 9, 2005 12:00 PM
Nota-se uma certa sensibilidade no teu acordar de hoje.
Publicado por: bill em dezembro 9, 2005 12:15 PM
Bill, vai lá ao Maschamba ver se estou lá
Publicado por: Eufigénio em dezembro 9, 2005 12:30 PM
Ora ainda bem que me acordas!
O difícil é manter o balanço no choque dos asteróides para que as mossas no espaço não sejam muito grandes.
Compreender os outros não é não lhes exigir mais do que a nós próprios?
Publicado por: maria árvore em dezembro 9, 2005 01:02 PM
não haja dúvida, alma sensível, com prosápias de morredoira
Publicado por: jpt em dezembro 9, 2005 01:05 PM
M. Arvore, sinceramente acho que não. Compreender os outros é deixar que eles encontrem o seu próprio limite, talvez ajudá-los, mas nunca empurrá-los para o que nós fomos, ou mais grave, para o que nós não fomos.
(aplaquei alguma gagez - repetição - que havia no teu comentário ... espero que não te importes)
JPT, Um tipo vem lá da tua tertúlia e dá-lhe para isto, já viste? ou como o estilo esconde o resto ...
Publicado por: Eufigénio em dezembro 9, 2005 01:53 PM
Ora ainda bem que me acordas!
O difícil é manter o balanço no choque dos asteróides para que as mossas no espaço não sejam muito grandes.
Compreender os outros não é não lhes exigir mais do que a nós próprios?
Publicado por: maria árvore em dezembro 9, 2005 02:22 PM
M. Arvore, mas tu tens para aí um robot de repetição? acabei de apagar cinco comentários teus (deixei o original), e agora cai-me mais um ? ... ou será que haverá simbolismo nisso?
Publicado por: Eufigénio em dezembro 9, 2005 02:25 PM
"Compreender os outros é deixar que eles encontrem o seu próprio limite"
E com os nossos aprendemos essa tarefa de "ajudar" os outors
(sempre a crescer Eufigénio - são os fragmentos que construimos)
Publicado por: sofia em dezembro 9, 2005 03:16 PM
E quem não se relê (dolorosamente, por que não?) nestas linhas? Podem mudar os personagens, os pormenores, mas quem não terá memórias assim, que preferiria se calhar não ter, mas que também tanto nos ensinaram no fim de contas sobre quem somos, quem éramos, quem queríamos ser e em quem afinal nos tornámos? Com sorte, foram estes pequenos episódios que nos acordaram para o que verdadeiramente interessa na vida e acabaram por fazer de nós pessoas melhores.
Publicado por: Jill em dezembro 9, 2005 05:15 PM
Primeiro, eu queria pedir desculpa pela repetição do servidor que usei. Eufigénio, até podias ter apagado todas as repetições que o único simbolismo subjacente era o da minha raiva contra a máquina que não me mostrava que estava a postar os meus comentários.
E se calhar não me expliquei bem. Não exigir aos outros o mesmo que a nós, é não os fazer à nossa imagem e semelhança, entender as suas diferenças. Por isso, concordo com o que disseste: compreendê-los só pode ser ajudar a ser quem são no seu próprio caminho.
Publicado por: maria arvore em dezembro 9, 2005 08:03 PM