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dezembro 17, 2005
Parto e fico, para começar de novo e continuar
Isto seria um espaço de ficção onde banharia a minha vontade de escrever, sem fidelidades para com a realidade que vivo, nem tiques de franqueza, e apenas tendo por argumento a fantasia que me aprouvesse criar. Foi por isso que o vesti com anonimato, para o desprender de qualquer compromisso para comigo, para também eu, enquanto homem, me poder descomprometer dele.
Mas isso acabou também por arrastar uma outra perspectiva para além desse inventar (d)na escrita, à qual, por alguma razão obscura, tanto pertenço. Assim, oculto da realidade, das gentes que me conhecem, de mim, poderia também nele depositar coisas do indivíduo que sou na vida, e nas vidas dos que me rodeiam, sem pejo de me falar demais, assim livre para me escrever do que quisesse.
Tudo aqui faria parte de uma personalidade inventada, da qual, só eu, na posse de faculdades exclusivas, poderia extrair essa minha realidade, da ficção, ou misturá-la se assim me aprouvesse. A receita parecia excelente: amalgamar um espaço imaginário, anónimo, com a terapia da verdade, (afinal, os dois motes mais fortes que me impulsionam para a escrita), sem me sentir preso a correntes de sinceridade, e ao abrigo de um pseudónimo que esconderia nos confins da Internet a minha intimidade.
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Entretanto, provavelmente a inevitável vaidade, fez com que este espaço se tornasse conhecido por quem me cruza na vida real, de perto e até de longe. De alguma forma isso condiciona-me - por mais coragem que me imponha, pois que é disso que se trata.
Quando me sinto olhado através do que escrevo, como sendo isso parte de mim, perco a liberdade com que o possa fazer. Tudo o que aqui escreva passará a fazer parte do juízo que os que me conhecem têm sobre mim. Nisto, surgem os constrangimentos habituais, e a escrita desimpedida que aqui me poderia ‘acrescentar’, com que ensaiaria extrair outras coisas de mim, acaba por ser afinal a imitação daquilo que julgo se espera de mim na realidade.
E depois há a outra parcela, a do Eufigénio, o tal que era livre de escrever e fantasiar o que lhe aprouvesse, sem condicionamentos de carácter, sem caras que se revelassem de ambos os lados da escrita. Mas há muito que este deixou de ser um pseudónimo para se alimentar da minha própria personalidade. Mesmo para com os leitores que não conheço na vida real também com eles estabeleci já um compromisso, ser eu. Deste personagem que inventei para a escrita já só resta o nome, nem sei aliás porque ainda o mantenho assim fantasiado. A verdade é que ele me imita tão fidedignamente, e se constrói de tal forma sob a minha realidade, que inventá-lo hoje é distorcer a minha própria personalidade, e escrevê-lo é violar a minha intimidade.
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Isto seria um espaço de ficção, e de confissão. Mas o exercício de liberdade que primeiro ansiava transformou-se aos poucos numa coisa prosaica e constrangida com que me sinto compelido a manifestar apenas o que se espera que eu seja, ou algo assim tão frivolamente próximo da realidade. Este tornou-se um espaço onde ainda obtenho prazer em escrever, mas onde já estou preso ao que sou.
Vou criar outro blog, tentar de novo, esconder-me lá ao fundo, onde possa reinventar tudo. Este deixarei para ser assim, uma plácida e generosa imitação do que sou.
JNF
Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 17, 2005 01:12 PM
Comentários
Reconstrua-se, pois, noutro sítio - faz bem à alma!
(E, com um pouco de sorte, talvez lá vá parar, também por acaso, tal como vim aqui... quem sabe? ;)
Best wishes!
Publicado por: Jill em dezembro 17, 2005 03:26 PM
O meu receio Jill: serei eu capaz de lidar com esta dupla personalidade blogosférica? A ver vamos ...
Publicado por: Eufigénio em dezembro 17, 2005 03:32 PM
depois avisas qual ou nem por isso?
Publicado por: Luna em dezembro 17, 2005 03:59 PM
Luna, sugiro leitura atenta das entrelinhas mais grossas.
Publicado por: Eufigénio em dezembro 17, 2005 04:08 PM
A experiência, pelo menos, há-de ser interessante! :)
Publicado por: Jill em dezembro 17, 2005 04:20 PM
Ano novo, vida nova, para uma escrita desimpedida? :)
Segue em liberdade que é o essencial do prazer.
(eu vou ler muito, muito, muito, até encontrar a impressão digital da tua escrita ;)
Publicado por: maria arvore em dezembro 17, 2005 08:04 PM
novel amigo JNF,
assim como quem muda de casa e oferece objectos de que já não precisa aos amigos, será que posso herdar o nick «Eufigénio»?:))))
Publicado por: josé quintas em dezembro 18, 2005 12:03 AM
Também eu já pensei nisso e... quem disse que essa hipótese não é já uma realidade? ;)
Publicado por: cap em dezembro 18, 2005 01:56 AM
Caro José Quintas,
Este blog ainda irá continuar a escrever-se, e ainda é preciso quem o assine, mesmo que esse seja o incontrolável Eufigénio. Que eu apenas herdei a parte da fantasia que ele, exibicionista, não quer. Em todo o caso não vejo porque ele não possa dar um jeitinho onde e quando for preciso. Dispõe. Já agora tira-lhe o "U" que está a mais.
JNF
Cap,
Nem tenho dúvidas ...
Publicado por: Eufigénio em dezembro 18, 2005 12:16 PM
M. Árvore, sabes que isso será como procurar uma agulha num palheiro não é? além disso, mesmo que a encontres, poderá sair-te uma agulha torta. E para além de mim, não creio que seguir essa esquizofrénica alternativa traga grande interesse. Mas da tua lupa confesso que receio.
Publicado por: Eufigénio em dezembro 18, 2005 12:19 PM
De certeza que te descobrirei "por aí".
Amigão;
Antes da tradicional pausa para a quadra Natalícia, queria enviar-te os meus votos de um SANTO E FELIZ NATAL.
Que tudo o que sonhas se realize.
Aquele @bração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em dezembro 18, 2005 12:24 PM
Pois foi mesmo nas entrelinhas grossas que li, além do mais não sei só as entrelinhas, quando leio...é tudo.
Não vou andar de lupa à tua procura, mas mais tarde ou mais cedo alguém te descobrirá ou te farás descobrir, é a moeda de troca da blogosfera, ficas pouco tempo escondido!
Publicado por: Luna em dezembro 18, 2005 02:16 PM
Não creio.
Não creio.
Publicado por: Eufigénio em dezembro 18, 2005 02:58 PM
Este nunca foi apenas mais um blogue, digo-o eu com a propriedade de quem te leu com deleite (e com debolachas também, que às vezes eram lençóis que um gajo até dividia a leitura em capítulos).
Obrigado, pá, pelo empenho e pela generosidade destas palavrinhas todas que nos ofereceste.
Foi um privilégio partilhar a "tua" blogosfera nesta web de coincidências.
As mesmas que poderão, quem sabe, juntar-nos de novo no caminho virtual...
Publicado por: sharkinho em dezembro 18, 2005 10:02 PM
Vou ter saudades!
Talvez a gente se encontre por aí!
Um beijinho a cada um dos membros da família Eufigénio Lagoa!
As festas também acabam. Às vezes, altas horas, mas acabam. As corridas acabam na linha da meta!
Nos espectáculos cai o pano. Tudo tem fim. E eu tenho pena que assim seja. Mas aceito. Um abraço ainda!
Publicado por: madalena em dezembro 18, 2005 10:11 PM
Mas anda tudo a querer fazer-me a cama??? quem disse que a loja ia fechar? Ora atentem lá no último parágrafo: "Vou criar outro blog, tentar de novo, esconder-me lá ao fundo, onde possa reinventar tudo. Este deixarei para ser assim, uma plácida e generosa imitação do que sou."
Não vou, não fecho e não vou. E não se fala mais nisso ! ... ora
Publicado por: Eufigénio em dezembro 18, 2005 10:28 PM
Ah, e já agora aproveito para informar que quando for para fechar a loja simplesmente deixarei de postar, sem arriscar qualquer aviso prévio. Já me chegam as duas vergonhosas situações anteriores em que anunciei com a devida pompa e emoção o fim deste tasco e o fechei ... durante prái 3 dias!
Publicado por: Eufigénio em dezembro 18, 2005 10:30 PM
Pois eu não lhe digo que os leitores andam distraídos?? Aqui está a prova provada - só com o banner mesmo (agora já tem de pôr dois!)
Publicado por: Jill em dezembro 19, 2005 01:48 AM
:) ... era lá eu capaz de acabar com este antro de comentários fabulosos
Publicado por: Eufigénio em dezembro 19, 2005 01:51 AM