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dezembro 23, 2005

É quase Natal - que fazem logo vcs os quatro ?

Tinha acabado de me lembrar dele. Talvez fosse pela circunstância em si, aquele entre copos, ali impedido a meio da noite numa fila de carros que não se movia, junto ao Chafariz da rua do Século. Já não o via há imenso tempo, e esse folgar na noite em que agora me deixava ir, talvez fosse isso que mo tivesse trazido à memória. Mas mera coincidência, ou talvez não, lá estava ele, dois carros à minha frente, visivelmente num estado ainda mais desaconselhado que o meu, e sentado na capota, gesticulando ao som da música, bem no seu estilo exuberante e alegre. “F !!!”, e ele nada. Esgueirei-me do carro, três lugares atrás, e lancei-me cambaleando na direcção dele, quase eufórico, antevendo já a possibilidade de juntarmos as duas carraspanas noite fora, como nos bons velhos tempos. “F !!!” agora já em cima dele, reclamando-o por um braço, eu quase aos berros também. Por fim virou-se. Não era ele. O tipo trocado olhava-me com uns olhos ocos, da bebedeira certamente, mas também da esquivança de mim ali, desconhecido, ainda rindo, e a puxar-lhe pela manga. Mais do que a decepção de não o ter revisto, algo ali naquele confuso encontro me desconcertou. Acho que o facto de esperar encontrar-lhe a cara bonacheirona e num rompante dar com a face de um desconhecido, como se alguém o tivesse no último instante retirado dali, ou o escondesse sob uma máscara desconhecida. Não sei explicar exactamente porque me tocou tanto, talvez o súbito com que foi desvendada a carranca inesperada daquele bêbedo anónimo, a trocar-se pelo F, mas fiquei inquieto. No dia seguinte tinha-se morto numa moto contra um pilar.

Ele, como quase todos os meus mortos, fizeram-se sempre anunciar na véspera. Isto é inexplicável, bem sei, e nem tenho nem tento fazê-lo, mas é algo tão incontornável e tão inconfundível para mim, que nunca o poderei negar. Não se tratam de desvarios de um espírito desistido nessas alturas difíceis, fraquejando perante as amargas contingências do destino. Não, trata-se de uma íntima e convicta percepção de que eles foram trazidos por uma insondável razão ao meu espírito, antes de morrerem. Uma misteriosa sensação de que algo sorrateiramente escarnece de mim, a fazer-se quase inaudível, uma premonição suficientemente ligeira para que a ignore, para que me abstenha de desfazer esse nó que já está laçado, mas suficientemente evidente para depois vir a constatar não o ter feito. E há sempre um telefonema que calha fazer, mas que não se materializa num encontro por falta de folga de um de nós, ou um simples engano na fisionomia como naquela noite na rua do século, ou um almoço que subitamente me ocorre e que sugiro à última hora mas que tarde demais já não o encontra. E de todas as vezes teria sido tão fácil antecipar-me a essa madrasta da vida, inventar um qualquer pequeno detalhe que fosse o bastante para mudar as agulhas do destino, um ínfimo pormenor, mas bastante para estraçalhar de vez com essas abstrusas fatalidades. É por isso que eu sinto todas essas minhas mortes ainda mais súbitas e injustificadas do que o destino as quer fazer parecer. É por isso também que me sinto tão parte delas, a parte que ficou de as interromper.

Em todas essas vidas que vi partir, em todas elas, bastaria que eu franqueasse a pretexto da minha amizade qualquer outra oportunidade do que aquela que lhes ocorreu. Teria bastado um café. O café que hoje já não posso tomar com eles, onde, quem sabe, desastradamente lhes tentaria explicar, a conter-me dos seus risos trocistas, que estava ali com eles para que eles não estivessem ‘lá’. Ou simplesmente porque era quase Natal, um bom pretexto, como qualquer outro, para nos encontrarmos outra vez.

Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 23, 2005 11:17 AM

Comentários

Bom Natal, rapaz.
(O texto está uma delícia, mesmo sem renas sorridentes e trenós CTDi.)

Publicado por: sharkinho em dezembro 23, 2005 01:01 PM

Eu bem tento dizer que os teus textos são uma bosta, mas tu não deixas.
Espero que não te tenhas lebrado de mim hoje, se sim, aceito desde já o café só para que possas dizer aquilo que o não conseguiste das outras.
Bom Natal Eufigénio e gosto mesmo de ti porra!

Publicado por: Luna em dezembro 23, 2005 01:03 PM

Um bom natal tb para os dois, Sharkinho e Luna

Publicado por: Eufigénio em dezembro 23, 2005 01:07 PM

Nunca estamos preparados para essas notícias. Por mais que façamos.

Votos de um Natal muito feliz! E, não fosse correr o risco de fazer realçar o carácter intimista deste espaço - ah, adorei a lareira, é verdade! - estendia estes votos também ao resto da família :)

Publicado por: Jill em dezembro 23, 2005 01:32 PM

Não imagina como este post me toca, especialmente hoje. Obrigada. Um Bom Natal :)

Publicado por: zohia em dezembro 23, 2005 01:54 PM

Nem para as deglutir depois Jill (às notícias), por mais tempo que tenhamos.

Do natal, agradeço e retribuo, em meu nome e da família. [E nada receie, por mais que eu brinque e rebrinque com isto, este é um blogue intimista, é o meu bloco de notas, que por uma injustificável razão não me importo de tornar assim público, sobretudo se souber que do lado de lá há, muitos, como a Jill, que o sabem ler.]

Publicado por: Eufigénio em dezembro 23, 2005 02:21 PM

Talvez imagine zohia, e essa será apenas mais uma coincidência. Um bom natal para si tb, e para todos aqueles que quiser 'trazer' até ele.

Publicado por: Eufigénio em dezembro 23, 2005 02:24 PM

Não te lembres de mim que eu também não me vou lembrar de ti. :)

E agora tenho um "bom pretexto" para te desejar Bom Natal, rodeado de forma íntima, por todos os teus. :)

Publicado por: maria arvore em dezembro 23, 2005 02:42 PM

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