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dezembro 28, 2005
Com cimento nos gestos e tijolos nos afectos
O amor não é algo impulsivo nem se alimenta de manifestações espontâneas. Nem é essa ilusão de que uma flor, um beijo ou esparsas declarações apaixonadas serão receita para o alimentar. O amor, aquele que se partilha, é cavado no terreno do dia-a-dia, onde mais do que julgamos sentir, é do que somos capazes de mostrar que verdadeiramente se importa. Esse é o amor de todos os dias, dos dias todos, esse que é coisa que não cresce, porque nele não há medida. Nele, somos chamados como operários, vigiando para que se mantenha, às vezes até reconstruindo uma parte aqui ou ali, num labor diário, atento e silencioso. Porque o amor não é uma empreitada que se constrói por uma ou outra vez, nada de assim tão importante e espampanante. Nem ninguém estará lá no fim para aplaudir tal obra. E também não é esse gesto com que nos esmeramos numa determinada altura, essa outra definição do gostar de alguém e de o poder manifestar, esse tão confortável e aprazível compromisso do “de vez em quando”. Estamos a falar de uma estrutura que continuamente se tem de recuperar, de rebalancear, com a argamassa dos dias que correm numa mão, e na outra, com tijolos fabricados dos pequenos gestos e pormenores no fim de uma tarde cansada, num serão imprevisto, numa noite mal dormida ou numa manhã estremunhada. É uma empresa invisível que lamentavelmente só valorizamos quando falhamos. E é um trabalho nos bastidores dos nossos afectos muito mais árduo e irreconhecido do que as orgias de uma noite apaixonada. O amor é o turbilhão de detalhes com que lidamos todos os dias, e que sobrevive porque somos capazes de nele ter por importante outro alguém para além de nós, e nos sentimos felizes assim. Mas nesse contínuo do que somos junto dos outros, nessa permanente reconstrução, nessa labuta dos pormenores do afecto … é tão fácil distrairmo-nos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 28, 2005 04:38 PM
Comentários
É, não é? E, no entanto, vivemos sempre a pensar que havemos de conseguir lidar com essa argamassa misteriosa... curiosas criaturas que somos :)
Publicado por: Jill em dezembro 28, 2005 08:05 PM
até me apeteceu dar-te um beijo pá! :) (um beijito na bochecha Eufigénia!)
Publicado por: lyra em dezembro 28, 2005 08:46 PM
Eufigénio,
depois de ler esta reflexão, pergunto-te: tu és mesmo gajo? :)
Ou dito de outra forma, se fosse possível clonar pelo menos esta parte de ti nos outros gajos, tanta gente conheceria o amor.
Publicado por: maria arvore em dezembro 28, 2005 11:34 PM
Simpáticas leitoras, este foi um desabafo. Não vos iludeis, enquanto homem eu não penso assim :) estava apenas a tentar uma remissão pública. E M. Arvore, é por essas que há quem diga que este é um blog de gaja ...rs
Publicado por: Eufigénio em dezembro 29, 2005 01:28 PM