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dezembro 28, 2005
A idade é os dias que se atravessam para chegar onde hoje queremos estar
Há dias em que me sinto um velho rezingão que desesperadamente procura encobrir a vergonha de ter uma criança à solta dentro de si. Sai voz grossa e sensaborona.
Noutros é a criança que me domina e que brinca descarada com os novelos das sisudas barbas brancas que ficaram encarceradas em mim. E saem risinhos e arrepios.
Neste pulsar de personagens devo certamente estar eu, ora novo ora velho, com a idade a fazer-se de impulsos, como quem nunca quererá saber exactamente os anos que tem.
Riem os mais arredados e lastimam os mais chegados, desta avaria que tenho, que não faz de mim a média destas duas criaturas que sou.
De concreto, apenas as velas que se apagam todos os anos. Uma que é posta a mais, outra que surripio e oculto nos confins da minha idade.
Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 28, 2005 06:38 PM
Comentários
E é hoje esse "fatídico" dia das velas somadas/subtraídas?
Quererás tu (não)dizer que estás de PARABÉNS?
Publicado por: cap em dezembro 28, 2005 06:58 PM
Não é nada hoje Cap. Nem estou a tentar (não) dizer nada. Apenas que a passagem de ano, aí a vir, é afinal o ano que passa ou não?
'tás a ver, passagem de ano, os anos a passar, idade, a gente a fingir que nem liga, enfim, aquelas associações que servem para um gajo escrever disparates, só isso.
Abraço
Publicado por: Eufigénio em dezembro 28, 2005 07:10 PM
Eu acho que é essa dualidade que faz com que continuemos a saber apreciar a vida: uns dias pelos olhos da criança que teima em permanecer; outros dias pelos do adulto que parece prevalecer; mas as duas perspectivas a complementarem-se.
Pessoalmente, tenho a sorte (ou a ilusão) de cada ano apreciar mais a vida, mesmo que muitas coisas más aconteçam - às vezes são as coisas más que fazem com que saibamos como é bom ter as coisas boas e com que saibamos sorrir-lhes daí para a frente.
Nesta perpétua aprendizagem. Mas sempre em descoberta, pois não há respostas finais. E ainda bem, senão era uma monotonia, não era? :)
Publicado por: Jill em dezembro 28, 2005 08:13 PM
começo a desconfiar que alguem faz anos hoje... começo pois.
Publicado por: lyra em dezembro 28, 2005 08:54 PM
Mas os dois em conflito Jill, o velho que se agasta das piadinhas que ouve do miudo, o miudo que se acabrunha dos conselhos poeirentos do velho, quando somos um cá fora e o outro por dentro, não é tanto um complemento, é, pelo menos comigo, uma fractura de dentro para fora. Mas enfim, é como diz, sempre dá para nos sentirmos surpreendidos por nós mesmos.
Eu, com tantas insinuações tb já começo Lyra. Depois diz-me onde é a festa se entretanto descobrires.
Publicado por: Eufigénio em dezembro 28, 2005 11:17 PM
Avaria é não escolhermos quem somos, digo eu.
E conforme está o mar, assim manobramos o barco dos dias.
Devo insinuar que a vida são 2 dois, onde cada um não é apenas mais um?
Publicado por: maria arvore em dezembro 28, 2005 11:50 PM
Eu não estava a dizer que era fácil! Apenas que do inevitável conflito, por vezes (quase) doloroso connosco próprios, entre o velho e o miúdo como diz, surgem por vezes os aspectos mais interessantes - como se da luta connosco próprios (dessa fractura que se produz) nascesse algo melhor do que nós, que nem sabíamos onde tínhamos escondido.
Às vezes acordo de manhã e penso "olha, quem é esta?" - só que às vezes é com agrado e outras vezes é com um sublime desespero...
Enfim, reflexões de fim de ano (e cartas de amor), quem as não tem? :) Mas gosto das suas.
Publicado por: Jill em dezembro 29, 2005 10:40 AM
Parabéns, pá! :-)
Quanto a essa de ficares resingão, deve ser um problema da nossa geração. A minha mulher disse-me que eu estava a ficar parecido com o Walter Mathaus. E parece-me que tem razão... (por acaso gosto do Mathaus!)
:-)
Publicado por: Marco Oliveira em dezembro 29, 2005 12:04 PM
E como não contenho a dúvida existencial de afinal qual é o dia e afinal os dias são o que fizermos deles, tomá lá beijos e abraços!
Publicado por: maria arvore em dezembro 29, 2005 01:25 PM
Jill, isso é bom, mas é preciso ter essa humildade para o reconhecer, nem todos a têm, nem todos lidam bem com isso, eu pelo menos não.
Publicado por: Eufigénio em dezembro 29, 2005 01:37 PM
(velho) amigo Marco, (novel) amiga M. Arvore,
Um tipo já não pode lamuriar-se da idade que lhe institucionalizam logo os parabens ... mas por quem sois, assim, a querer-me fazer mais velho?!
Publicado por: Eufigénio em dezembro 29, 2005 01:39 PM