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dezembro 19, 2005
A emproada hipocrisia das palavras
Às vezes ignoramos o quanto as nossas palavras se afastam do que realmente pretendemos dizer. Depois, inesperadamente, e sem nos apercebermos, vemo-nos transportados para o centro de um conflito, cujo cerne é um combate que se trava já na esfera da dialéctica, onde as bojardas são um presunçoso apuro do vocábulo, e o requinte dos significados que agora arremessamos indignados, e as nuances que deveriam ter sido subentendidas, tudo agora nada mais é que munições para ganhar esse absurdo da razão.
Tudo em nós se transforma em verbo, e embalados pela glote voraz com que teimamos em dizimar os outros, nem damos porque somos para além da ira já só domicílio das palavras que já esquecemos. E depois é já tarde. É sempre já tarde demais. Um qualquer abstruso orgulho impede-nos de corrigir tal equívoco - as palavras, orgulhosas, tomam de vez conta de nós, e reclamam-se de mais valor do que o afecto e a consideração que temos por aqueles a quem as dirigimos.
E quando mais precisamos delas, as palavras - até então tão grandiosas e instruídas - incapazes de se vestirem de humildade, afinal, abandonam-nos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 19, 2005 05:33 PM