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novembro 29, 2005

Retratos

É doce, bonita, dá mimos a nós todos e diz que o mimo não estraga, agora anda sempre cheia de frio, cozinha coisas óptimas mas obriga-nos a comer salada, é muito alegre, outras vezes não e diz que quer ficar sossegada, tem uns olhos que ficam pequeninos e muito brilhantes quando às vezes olha para nós, e uma boca grande que dá uns beijos muito macios, às vezes irrita-se mas depois esquece num instante as coisas que a chatearam, deixa-nos fazer mais coisas que o pai, e às vezes esquece-se do que a gente tinha para fazer e nós podemos brincar mais um bocado, quando vai ter com o pai e ele está a escrever no computador ficam lá os dois a rirem-se das coisas que ele escreveu e olham muitas vezes para nós e entre eles e voltam a olhar para nós e nós nunca percebemos porquê, quando precisamos de pedir alguma coisa é a ela que pedimos porque é mais fácil, quando estamos cansados enroscamo-nos nela e ela diz que somos as melhores coisas do mundo, e o pai abana a cabeça com ar chateado mas achamos que deve ser só a brincar

Ele ri menos que a mãe, e tem mais rugas, gosta mais de andar na rua e nós gostamos de ir com ele e a mãe fica a dizer porque azar tem uma casa só de homens, todos gostamos de rugby mas ele já não joga porque diz que está velho e no outro dia quando jogou connosco ficou a coxear imensos dias, nós ainda achamos o pai muito forte embora não seja muito grande, faz palhaçadas e diz coisas com graça quando está mais descontraído, mas quase nunca chega descontraído a casa, só depois, às vezes, o Francisco está tramado porque é ele que o ajuda nos estudos e é muito severo, e é o pior de nós a jogar o Fifa 2005 e depois fica irritado quando perde e diz que não precisamos andar a fazer risinhos esganiçados lá porque ganhámos, é bom para nos tirar duvidas, e tem jeito para arranjar coisas em casa mas está sempre a dizer que nunca tem tempo, arranja só mais ou menos, as únicas coisas que sabe cozinhar bem é o esparguete maluco e os cachorros ao domingo, a mãe diz que ele está amuado quando passa muito tempo sem dizer quase nada, mas depois quando começa a falar outra vez ri-se imenso e diz que gosta muito de nós, quando ele diz que jogámos bem ficamos mais orgulhosos do que se for a mãe a dizer, e está sempre a dizer-nos para lavarmos bem a pilinha, também gostamos dele mas ralha mais do que a mãe

Olha Eufigénia, ficaria muito mal se eu propusesse que trocássemos de fato, digamos, aí até ao Natal? Depois eu voltava a vestir o mau feitio e essa minha mania da disciplina e devolvia-te a indulgência, o sorriso e os mimos para tu usares outra vez. Um mesinho, que tal? Prometo não estragar

Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 29, 2005 03:08 PM

Comentários

gostei principalmente de "ele tem mais rugas" e "mas ele já não joga porque diz que está velho e no outro dia quando jogou connosco ficou a coxear imensos dias" :))))

Publicado por: Luna em novembro 29, 2005 04:00 PM

Não sei que piada tiras daí Luna, a decrepitude de um pobre homem, assim despida pelos filhos, dá vontade de rir? ai ai

Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 04:24 PM

:-D

(uma delícia de post)

Publicado por: Jill em novembro 29, 2005 09:47 PM

Este era um post traumático, pelo que não percebo os sorrisos das suas comentadoras

Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 10:23 PM

Não vejo o porquê do trauma.
Só vejo amor :))

Publicado por: Karla em novembro 29, 2005 10:36 PM

amor? eu vejo as fraquezas de um pai mortal postas a nu de forma leviana e premeditada. Já não é simpático saber-me no segundo degrau da escala de popularidade lá em casa, agora ainda dizer-se que amuo e que não sou grande, tenham paciência

Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 10:39 PM

Tanto amor!...
São todos uma delicia :)

Publicado por: sofia em novembro 30, 2005 12:03 AM

Então e a parte de "quando ele diz que jogámos bem ficamos bem mais orgulhosos do que se for a mãe a dizer"??

Eu cá só fico orgulhosa quando recebo um elogio se quem o faz é alguém que admiro/gosto/etc

Quanto ao grau de popularidade, olhe... tivesse filhas, e tudo seria ao contrário (a minha mãe que o diga!) ;-)

Publicado por: Jill em novembro 30, 2005 10:36 AM

São as nossas cobertas para o frio Sofia ...rs

Jill, tocou de facto num ponto nada desprezível esse. E só não rejubilo porque receio que a mãe, que teimo em imaginar leitora deste blog, posso não achar muita graça. Mas de facto isso é assim, e eu posso senti-lo pela mesma forma que ansiava e inchava com um elogio que viesse do meu pai.
(quanto às filhas, eu querer ... bem, é melhor ficarmos por aqui ... o quadro de pessoal do nosso estabelecimento saíu um bocado desiquilibrado de facto)

Publicado por: Eufigénio em novembro 30, 2005 11:10 AM

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