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novembro 11, 2005

Silêncio, que se está a preparar a intervenção num seminário

(ai que já não estava habituado a estas coisas … que stress!!)

[Olha vem para aqui mesmo, que no blogue leio melhor]

O E-Learning (formação-a-distância), um simples mal-entendido ou uma oportunidade que se esvai?

O E-Learning, a expressão em si, veste-se desde logo com os significados habituais de tudo o que nos chega pela Internet. E esses excluem-no quase compulsivamente da hipótese de ser encarado como uma solução ‘séria’ para a formação, se não por parte de todos os agentes de formação pelos menos dos mais conservadores, estes a maioria.

Começa por ser algo ‘demasiadamente’ acessível – de casa, de onde se quiser, agora ou mais logo a seguir ao jantar, quando eu quiser e me der mais jeito – e o simples facto de se vislumbrar nisso o acesso ao conhecimento de forma tão disponível vendida, remete-nos logo para um quadro de reserva e desconfiança. Afinal, a aprendizagem é um processo complexo e custoso, e que dificilmente é credível se não for alcançado à custa de algum sacrifício pessoal, se possível extraído até do nosso espaço familiar e da nossa disponibilidade pessoal. Pensar que é o estudante/formando quem decide quando e no que se quer aperfeiçoar, e que nos arriscamos a certificá-lo disso sem sequer lhe vermos a cara, é algo que a maioria dos agentes de formação não está preparada para reconhecer.

E depois há este meio por onde ele emerge. A verdade é que nos habituámos a olhar para a Internet como um espaço de distracção, da deambulação indisciplinada através de um vasto conteúdo informativo, de ócio e vício também, longe por isso de poder constituir e competir como um ambiente sério de aprendizagem. Estas plataformas que se oferecem por via da Internet, concorrendo com sites pornográficos, com motores de pesquisa que nos levam para onde já nem sabemos onde estamos ou porque estamos, onde nos distraímos com chats, e blogues (esta fica bem aqui), e outros instrumentos de lazer deriva dos nossos dias, tudo isso constituindo um excesso fútil e dispersivo de informação, é algo que está longe de constituir o ambiente circunspecto, concentrado e controlado que a formação exige.

E, nesse E-Learning, há ainda a questão da sua denominação inglesa. E sabemos bem o quanto isso para a maior parte de nós é visto como uma intrusão, como se nos quisessem impingir estrangeirices, como se a formação, e designadamente a sua componente comportamental, pudessem ser supríveis por supositórios informáticos importados sabe-se lá de onde. Como se as complexas etapas da aprendizagem pudessem ser substituídas por módulos de navegação on-line cobrados com cartões de crédito. Tudo isso só pode ser fruto de quem não lida, como nós, pedagogos com dezenas de anos de experiência, com os complexos processos de aprendizagem, e não revê neles a importância que o formador, centro do processo, ocupa no contexto presencial, sim, presencial, da mesma. E lá vêm as tiradas do costume como aquela: “ o que eu ouço esqueço, o que eu leio lembro, o que eu faço aprendo”. E claro que deixamos ficar outras por dizer, como a outra: “Quando os ventos de mudança sopram, uns levantam barreiras, outros constroem moinhos de vento”, que aqui não viriam a propósito.

E pronto, ficam assim lançadas as bases da desconfiança por parte de muitos dos agentes de formação. E mais uma vez, (e aqui coloco apenas como hipótese) o preconceito, e a questão vocacional, tendem a deixar de fora uma oportunidade para inovar. E mais uma vez, os processos de aprendizagem, e os seus agentes, obstinadamente, e reclamando-se dos seus pressupostos, menosprezam as oportunidades e as características que as ‘novas’ tecnologias arrastam, essas mesmas que arrastam os ‘novos’ formandos até elas.

Está criada a cisão. Os impulsionadores do e-learning, aqueles que ainda hoje detêm uma significativa fracção do mesmo, orientados para objectivos de mercado mais do que para as lógicas da aprendizagem, são na sua grande maioria organizações flexíveis, montadas num contexto vocacional estranho à formação, com uma dimensão transnacional e assentes em estruturas de trabalho virtual, e que têm como pilares da sua competência a produção de suportes multimedia e a gestão de grandes plataformas informáticas. Nessas organizações faltará combinar para além das facilidades tecnológicas que tão bem implementam as noções fundamentais do conhecimento da aprendizagem, a pedagogia, a experiência e o saber acumulado. Terá sido a falta destes predicados que levou durante alguns anos há baixa penetração do E-Learning, por quanto este continuava a ser ‘vendido’ como uma solução (digo bem, solução) concorrente da formação presencial.

Estas valias encontram-se do outro lado, do lado das organizações de aprendizagem instaladas, aquelas que detêm o saber e os modelos da aprendizagem, e que os tratam no contexto presencial, com base num saber acumulado milenar, e aparentemente imutável. Estas são por natureza organizações rígidas e conservadoras, que padecem do preconceito e da pouca permeabilidade para abraçar a mudança. E também estas, por isso mesmo, foram responsáveis pelo baixo índice de sucesso do E-Learning, justamente porque não o conseguiram e não quiseram assimilar. O E-learning tem assim sido vítima do simplismo do “é só meter a ficha”, essa perspectiva do negócio informático que hoje invade todos os domínios da nossa sociedade, e que em alguns casos o descredibiliza enquanto solução formativa, mas também do conservadorismo das organizações que lidam com o desafio da aprendizagem, e que por entre lamentos sobre a baixa adesão à formação (e lá vem a estatística a enunciar que são apenas 6% os activos que em Portugal a ela recorrem e blá blá blá), se continuam a mostrar quase imunes à mudança e ás alternativas de que dispõem e que podem construir.

Aliás, quase podemos generalizar, já que encontramos estas duas ‘forças’ quase sempre em contra-mão no processo da inovação e da implementação de novas tecnologias: de um lado o olhar pragmático, a inovação, a tecnologia, a displicência para com os conceitos que tratam, a orientação para o negócio, a agilidade, e em muitas das vezes o sucesso; do outro a experiência, a intransigência e o imobilismo de processos, a mais-valia da actividade, os conceitos, o alinhamento com a ética da actividade e o menosprezo para com os resultados da acção, o esforço e a advogância da razão; de um lado as novas gerações, do outro as gerações que ensinam, de um lado os que são de livres de escolher, do outro os que se lamentam das escolhas dos outros, de um lado o moderno, do outro o antigo. E vem a propósito um velho ditado (ficam sempre bem nestas coisas) que reza assim: “O mestre deve escolher o que diz, mas é quem ali está para o ouvir que escolhe a pedra em que se senta” – (bem, na verdade inventei-o agora, mas será que pega se disser que foi do Confúncio? Mal sabia o desgraçado quantos palavras já puseram a serem ditas pela boca dele).

Compete hoje às organizações e agentes de formação serem capazes de olhar para o E-Learning como algo que pode enriquecer a sua resposta. E esta questão nada tem a ver com a quebra dos conceitos pedagógicos, com as complexas infra-estruturas de informática, nem com disputas de mercado, como tanto se apregoa por aí. É possível as organizações tradicionais de formação integrarem harmoniosamente o e-learning nas suas respostas nos seus ciclos de formação presencial, seja durante (o blended learning) ou após a mesma (post learning) e com isso poder contribuir fortemente para algumas das grandes lacunas e lamentações dos nossos dias: permitir percursos/respostas de formação personalizados, alargar o raio de acção (geográfico) das organizações de formação, possibilitar mercados transnacionais, obviar os custos e o sacrifício de deslocações que tantas vezes é argumentado na renúncia à formação, emagrecer custos de concepção de conteúdos, criar ambientes altamente eficazes de partilha de know-how, potenciar novas formas de trabalho nas empresas que servem, etc, etc, etc. Para isso é fundamental que se deixem os preconceitos para trás, que se estude este fenómeno numa perspectiva de impacto na eficácia, e sobretudo que nos deixemos da leviandade de olhar para esta realidade a preto-e-branco, sem ser capaz de, com criatividade, de lhe encontrar novas matizes. . Entretanto o E-learning vai tomando inexpugnavelmente o seu espaço nos nossos dias. E poderá fazê-lo em disputa com os agentes tradicionais de formação ou através deles. Compete a estes decidir se este fenómeno é uma mera ameaça pueril ou um contributo para adequar os sistemas formativos à realidade dos nossos dias.

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Bem, a coisa se calhar até nem está mal … para introdução. Agora só falta mesmo é preparar a intervenção e deixar-me de discursos bacocos …

… enfim, levar o portátil para casa, o powerpoint ali à mão. Ai seca, começar tudo de novo !!!

Lá se vai o fim-de-semana. Também, quem me manda a mim só começar a pensar nisto numa 6ª feira, e logo a seguir ao almoço?! : (

Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 11, 2005 06:15 PM

Comentários

Quase me deixavas Confúcio também, mas lembrei-me do currículo do tigre de dentes-de-sabre.

Publicado por: cap em novembro 11, 2005 06:30 PM

Rgnau !!!

(vai ser um fim de semana a miar essa é o que é)

Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 06:41 PM

Gostei... sobretudo da citação de Confúcio ;-) Já pensou em começar a fazer concorrência ao venerável personagem? Acho que tinha futuro!! :-)

Coragem para fazer o resto e bom fim-de-semana! (e, se o consola, não será o único a ter de trabalhar durante esses dias supostamente consagrados ao descanso...)

Publicado por: Jill em novembro 11, 2005 08:34 PM

Obrigado Jill, conta ter isso (coragem) e se possivel um pouco de inspiração do nosso venerável amigo confúcio. E já agora, bom trabalho para si tb

Publicado por: Eufig~enio em novembro 11, 2005 09:24 PM

A seguir vem o plano para motivar os agentes tradicionais de formação a integrarem o E-learning?... :)

Boa sorte para a apresentação! :)
E não te esqueças de pôr os ditados a entrar letra a letra, muito rapidamente, porque a tradição já não é o que era. ;)

Publicado por: maria arvore em novembro 11, 2005 10:07 PM

A seguir vem uma longa e trauteada lenga-lenga a justificar porque é que eu me passei para o lado do inimigo ;)

Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 10:46 PM

Eufigénio,
E-Learning? Onde é que eu já ouvi isto... Vou ver se volto amanhã ler o texto com mais atenção.
Por agora, se não levares a mal, faço apenas um pequeno comentário à tradução: e-learning (Formação-A-Distância).
Formação-À-Distância seria mais e-teaching. Learning será mais Aprendizagem, e E-Learning, como diminutivo de Electronic Learning, será Aprendizagem Electrónica, que é uma parte do chamado Distance Learning (Aprendizagem à/a Distância). Nota: o a/à tem a ver com a forma olissiponense/não olissiponense de traduzir o conceito...

Publicado por: Jorge Morais em novembro 13, 2005 08:03 PM

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