« Já que aqui se trata de amor sexo, | Entrada | Um blogue é isto »

novembro 07, 2005

O amor é … uma construção com cal e reboco,
ou uma noite de sexo em que a gripe se me pegou

[ Há uns dias li algures na blogosfera o tão costumeiro cântico do amor. Este fazia-se vincar por uma estrofe da Rita Lee: “Amor sem sexo é amizade, Sexo sem amor é vontade”. Vou lendo essas explosões de paixão, e acabo por ficar sempre acabrunhado, eu que continuo sem entender o que é isso do Amor. ]


Não percebo o amor, nem o ostento. Percebo o que é ter alguém a nosso lado, por quem cresce permanentemente a amizade e a admiração. E percebo o que é sentir por ela uma inesgotável vontade de sexo – sim, sexo puro, saciedade, troca de fluidos, orgasmos, as carícias que o envolvem, deleite – confesso, não conheço outro sexo, nem consigo neste incluir o ‘amor’ mas tão só esse fervor animal. Serei um amante incompleto, eu que não declaro o amor. Eu que apenas sei identificar a afeição e a carnalidade que nos move todos os dias ao encontro do outro. Eu que apenas sei que divido a minha vida com a única pessoa com quem quero, e tenho sexo com a amante que desejo. Nada nisto me transcende. É uma construção com cal e reboco. Uma dualidade simples e quase tangível de afectos e desejo. E isso já eu percebo.

Já do amor, esse que se sussurra, e que se escreve engalanado em versos, o amor que se jura, o amor que se envergonha do estrito prazer carnal, essa abstracção que se agita e que me confunde, dele pouco sei. Sei que tê-lo, ao ‘amor’, como a definição (exigência) de uma relação ... é uma incauta maneira de nos tentarmos explicar, e incauto é já querermos explicar-nos - Declamamos algo que é maior que nós, e gritamos a dois esse grito que não tem som, talvez até receosos, como quem teima em lançar para longe o seu fim, lá nesse dia onde a paixão, esse “amor/desejo” de hoje, se acabará por consumir.

Não percebo o ‘amor’, nem preciso dele para exclamar a relação que tenho. Pode ser que ele esteja mesmo aqui. Que o veja entre duas coisas simples, como esta gripe que agora sinto e que bebi dela numa noite de sexo, e esta outra, a satisfação que encontro em mim por poder imaginar que assim a tirei (à gripe) um pouco dela. Entre o desejo e o afecto, o meu amor não consegue ir além disto. Nem corre o risco de um dia o não ser.

Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 7, 2005 02:00 PM

Comentários

Estás apenas a ser modesto. Eu bem vi a chispa no olhar... chama-lhe nomes... :)

Publicado por: sharkinho em novembro 7, 2005 02:07 PM

Era a gripe amigo tubarão, era a gripe dela.

Publicado por: Eufigénio em novembro 7, 2005 02:09 PM

Ora aqui está muita "food for thought"...! Tenho andado a pensar precisamente nestas questões, pois tenho exactamente a mesma dificuldade nessa definição do supostamente intangível. Obrigada por exprimir tão bem por palavras aquilo que só tenho conseguido estruturar em pensamentos e que me assalta tantas vezes ultimamente.

Ah, e, já agora, bem-vindo de volta, já tinha muitas saudades de o "ler"!! :-)

Publicado por: Jill em novembro 7, 2005 04:02 PM

:)
The Man is back on track! ;)


(Isso será, talvez, um crime capital para os hedonistas de hoje em dia, mas estou contigo - menos na gripe)

Publicado por: cap em novembro 7, 2005 08:03 PM

Ainda bem que voltáste!

Amor é uma palavra e serve para o que se quiser. Talvez a usemos para termos a ilusão que em algo nos transcedemos e, como apontas, fazer um esconjuro da efemeridade.

Em vez de dizê-lo, será mais prático fazer algo que nos satisfaça e satisfaça o outro. Pode-se sempre usar uma fórmula de sucesso que vi neste teu post:
«Eu que apenas sei que divido a minha vida com a única pessoa com quem quero, e tenho sexo com a amante que desejo.» ;)

Publicado por: maria arvore em novembro 7, 2005 08:49 PM

Eu é que agradeço o comentário Jill, que isto de assim me deixar escrever sem o lirismo conveniente que adoça o amor, pode dar ares animalescos ... e assim amparado é mais simpático

Não verdadeiramente backed (?) é mais só um espirro, enfim, coisas de gripe amigo CAP

Amor é uma palavra que se gasta ainda antes de ser dita M. Arvore, não concordas?

Publicado por: Eufigénio em novembro 7, 2005 10:41 PM

Pois... amor... cheguei a um ponto em que sinceramente acho que não sei amar, mas também pode ser porque o amor é só uma palavra...bonita para colocar nuns versos...

Publicado por: Teresa em novembro 8, 2005 09:27 AM

bill...?

Publicado por: jpt em novembro 8, 2005 11:34 AM

Teresa, o "amor" palavra é só isso, o outro, é aquele que nos levanta essas interrogações. Quanto a mim nada têm em comum, ou melhor, terão em comum algum mesmo anseio, o que nem por isso faz deles a mesma coisa. Mas o que digo eu ...

Bill ...? Não, hoje não o vi JPT

Publicado por: Eufigénio em novembro 8, 2005 11:42 AM

O único amor que me levou a apanhar uma gripe foi o amor pela Natureza. Mas agora por causa da Gripe das aves também já me deixei disso.

(livra, és o agnóstico mais crente que conheço. Abraço)

Publicado por: PN em novembro 8, 2005 01:02 PM

Gastamos a palavra antes se nos partilhamos e deixa de fazer sentido dizê-la.
Ou então, estafamos mesmo a palavra a dizê-la como pontuação de frases.

Já gastámos as palavras do Eugénio de Andrade. ;)

Publicado por: maria árvore em novembro 8, 2005 02:27 PM

Eufigénio,
parece que depois do espirro veio a constipação, certo? ;-)
A definição de amor é esta:
O amor é como um gelado: se perdermos tempo a tentar defini-lo, quando conseguirmos encontrar a definição correcta já o gelado se desfez.

Publicado por: Jorge Morais em novembro 8, 2005 02:36 PM

O Amor não se percebe, sente-se...nas pequenas coisas da vida, quer seja numa gripe ou numa noite intensa, sentados no sofá, encostados um ao outro, cada um com seu livro na mão...mas por outro lado, amor é fogo, que queima as entranhas, que palpita o coração, que arde de dúvidas, que se enrosca em noites loucas de paixão...

Amor... é assim, falar baixinho e dizer, eu gosto muito de ti!

;)

Publicado por: Menina_marota em novembro 8, 2005 06:45 PM

Também é esse o amor que eu percebo. Não saberia descrevê-lo, mas é esse.
Acho que o outro de que falas é um fictício prolongamento do estado de paixão, em que ambos os intervenientes falam línguas diferentes convencidos de uqe estão a falar a mesma, até que...

Publicado por: susana em novembro 14, 2005 09:55 AM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)