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novembro 25, 2005
o acordar que alugo todos os dias
Quando me sentei no carro fiquei a vê-lo com aquele ar enrolado a tentar vencer desastradamente o fecho da porta. Lá entrou, já eu vociferava do atraso. Lânguido, remeloso, o cabelo pouco importado com os penachos despenteados da cama, o olhar sem enganar o sono que ainda trazia dormindo, e a ouvir-me como se fosse mais um pequeno incidente, como aquele do fecho da porta que estava perro, mas que se haveria de abrir, que assim me haveria de calar. Há nele um sono que nunca chega a despegar-se completamente, um sono cheio de coisas suas que por vezes se denunciam com repentes que desvendam um fabuloso mundo de humor e imaginação. E eu já de boca aberta outra vez para o confrontar com o que se tinha esquecido de trazer, com o atraso com que iríamos chegar, com as recomendações que nunca acatava, já ali desregulado, a antecipar-me, a preparar-me fera para o resto do dia. E depois tudo isso a misturar-se já com o comentário ao projecto lá da empresa que não me apetecia preparar, e eu já enervado, e mais a falta de açúcar em casa, as compras em atraso, as dores na coluna, a consulta que me esqueci de marcar, o carro que agora não quer pegar, e com todas as outras coisas inadiáveis que em cinco minutos, ao princípio da manhã, listo para me comprometer com todo o resto do dia. Eu acordo assim, cheio de atraso.
Já ele não, (ele tem a arte mágica de não deixar desenrolar completamente os sonhos que o invadem de noite), e a olhar-me agora, e a interrogar-me de porquê assim, essas já interrupções, porquê tanto logo. E manso, a levar-me a mergulhar naquele seu ar de quem sabe acordar com o que a noite ainda lhe dá, de quem sabe trazer a noite para o acordar. Eu quase ainda a resistir ao que fala, ao como fala, essa maneira com que entrepõe o dia com a noite, a realidade com a magia, os deveres com o humor, o que tem de ser com o que é. E já não, eu agora já só ouvinte desse essencial de si onde nunca chove.
É de manhã, ali metido no trânsito entre aqueles dez minutos a caminho da escola, quando tenho as maiores expectativas do dia - enquanto os dois saboreamos o seu acordar que se vai revelando com estrelinhas – (n)essas coisas com que salpica a conversa entre dois semáforos, antes do resto do nosso dia das coisas importantes. Isto claro se o meu acordar se deixar amansar pelos sonhos (do) dele, que os meus já estarão esquecidos no dia que vem.
A manhã que não se troca por todas as coisas importantes e atrasadas com que se acorda para o resto do dia - são assim os filhos, todos (?), talvez.
Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 25, 2005 03:30 PM
Comentários
não sei se são todos...as minhas são! Mas isso já não é novidade..
Publicado por: Luna em novembro 25, 2005 04:20 PM
Julgo que felizmente, todos serão assim, porque é contagiante a magia de encarar de os dias e julgo que nos (aos pais) a ver também magia nas coisas importantes que temos de fazer em cada dia.
Publicado por: maria arvore em novembro 25, 2005 08:03 PM
Há filhos(as) assim, outros que não, mas também pais que carburam a carvão ainda, adiando a temperatura ideal para carburar. ;)
Publicado por: cap em novembro 25, 2005 11:44 PM
Magia há em todo o lado, poucos a sabem alimentar e saborear... boa!
Publicado por: coiso em novembro 27, 2005 06:48 AM