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novembro 28, 2005
No sábado, aos Xutos & Pontapés
A bateria primeiro, depois as guitarras. A melodia começa a palpitar e já não engana. Quase de imediato o burburinho da plateia toma conta dela, vogando à vontade, rompendo a saudade. O Tim cala-se, ou melhor, nem entra, apenas sorri, e o Coliseu inteiro agita-se percebendo que o mote é agora deles. A primeira estrofe aclara-se primeiro baixinho, procurando o tom, e depois entra de rompão num uníssono assombrosamente afinado.
E vai lançada assim a canção, entregue ao público. E novos e velhos, e pais e filhos, numa única entoação, quase gritada, lançam esse brado poderoso com que marcam o ritmo, todos ali a uma só voz. E tantas memórias, tudo de dentro de cada um sai gritado das gargantas empolgadas. É sublime esse coro partilhado, por essa vontade que perpassa pais e filhos, essa vontade de ir, correr o mundo e partir. Um único grito, ali troando a emoção dos que não chegaram a ir, e dos que ainda não chegaram a partir. Clamam-se vontades entre duas gerações, tão diferentes ainda, mas tão próximas de serem o mesmo. E segue tonitruante: No fundo horizonte / sopra o murmúrio para onde vai / No fundo do tempo / foge o futuro, é tarde demais... .
E canto eu, e grito também, e escuto com emoção as vozes deles ali perto da minha, a mesma emoção, um grito tão alto quanto o meu. Na plateia outros se abraçam, e lançam mais alto a voz que nem sempre todos os dias entre eles se encontra. Que agora, essa canção que se entoa, ninguém a canta mais que ninguém, ninguém a canta com mais idade que ninguém, e as memórias que evoca, umas tão longe das outras, fazem-se todas do mesmo, agora ilusão. É mais que uma canção, é mais que uma onda, mais que uma maré, aquilo que ali se canta.
Partilhar assim num grito, uma mesma vontade, tantas marés e tantas memórias, tanta vontade de partir, é uma sensação indescritível. É sentirmo-nos para além de pai e filho, e por um momento nada haver mais a dizer que aquela vontade de cantarmos juntos, esse fado de sermos homens: Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade, / vai quem já nada teme, vai o homem do leme... .
E acho que é por isso que os
UTOS são a melhor banda portuguesa de sempre !
O Homem do Leme
Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.
E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.
E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder
Xutos e Pontapés
Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 28, 2005 05:25 PM
Comentários
xutos com pontapés se pagam...
Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ver os sonhos partirem
À espera que algo aconteça
A despejar a minha raiva
A viver as emoções
A desejar o que não tive
Agarrado às tentações
Refrão 1:
E quando as nuvens partirem
O céu azul ficará
Vais ver o sol brilhará
Vais ver o sol brilhará
Refrão 2:
Não! Não sou o único
(Eu não sou o único)
Não sou o único a olhar o céu
Não! Não sou o único
(Eu não sou o único)
Não sou o único a olhar o céu
Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ouvir os conselhos dos outros
E sempre a cair nos buracos
A desejar o que não tive
Agarrado ao que não tenho
Não! Não sou o único
Não sou o único a olhar o céu
Publicado por: merdinhas em novembro 28, 2005 08:49 PM
também tu ...?
Publicado por: jpt em novembro 28, 2005 09:49 PM
Também lá estive, no sábado :)
Confirmo, são a melhor banda portuguesa. :))
Publicado por: Karla em novembro 28, 2005 10:59 PM
Perante este video do concerto, só consigo responder com a Linha do Equador:
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria, isto pra mim é viver
Publicado por: maria arvore em novembro 28, 2005 11:31 PM
Vi uma entrevista com o Zé Pedro. Os velhos Xutos continuam a encantar, pelo relato!
Publicado por: madalena em novembro 29, 2005 01:09 AM
Merdinhas, obrigado, essa vai para o espólio também, que ler tais letras é quase logo trauteá-los, sai-me logo a melodia e tomam relevo as veias do pescoço, grite-se assim!
Também eu JPT! e os putos! A única diferença no adeptismo (gostas desta, inventada?) é que eles levam cachecois, perdão, camisolas do clube ... e eu já não. Por conta deles nos últimos dois anos já papei 4 concertos, e olha que não me arrependi de nenhum, mas este talvez o melhor, devias lá ter estado.
Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 09:35 AM
Eras tu Karla que por lá andavas na moche? (é assim que se diz?) E a Nani (acho que era assim que se chamava) a menina que originalmente cantou "a minha alegre casinha", ein, delicioso!
Mas é uma alma muito especial M. Árvore, este que ‘transpassa’ gerações, no mesmo mote, no mesmo ritmo, no mesmo grito - se fossem futebol os xutos seriam selecção
Eu não li o Zé Pedro, Madalena, mas lembro-me de um relato antigo dele, impressionante, quando teve de largar o que já lhe tinha comido o fígado, humilde, a fazer a moral da história para quem o quisesse ler. Mas tive outras mordomias maiores no sábado Madalena: os putos levados por primas, que primas dele também, já clube de fãs, a privar depois do concerto, e fotos, e mais do ídolo. Mordomia porque assim me fazia eu, lá mais ao fundo encostado, mero motorista, meio acabrunhado, a fugir dessas coisas, mas a reconhecer que não há ali tiques de vedeta, e a admirar isso no roqueiro.
Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 09:40 AM
Que nao existam duvidas qto à grandeza dos Xutos. Ainda hoje as suas musicas (sejam classicas, sejam novas), fazem-nos mexer.
Estou a ver que foi mais um concerto ao estilo deles.
Abraço vizinho
Publicado por: Alexandre em novembro 29, 2005 10:08 AM
A alma de sempre Alexandre. Os tipos são rijos, são os nossos stones por assim dizer, transgeracionais já, e nem traços de decadência no palco, antes pelo contrário.
Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 10:14 AM
Também me lembro desse relato do Zé Pedro
E o "Homem do Leme", esta letra, passou o meu 3º ano de faculdade afixado na parede da minha sala de aulas praticas, junto ao meu lugar :)
Publicado por: sofia em novembro 29, 2005 11:07 AM
cá em casa somos serias adeptas dos Xutos...falhamos este, porque fomos a outro, mas já temos uma vasta colecção de concertos deles
Publicado por: Luna em novembro 29, 2005 01:18 PM
No laboratório da química aposto Sofia
Não acredito Luna, nenhum adepto dos Xutos pode querer ser sério
Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 02:33 PM
Era a Milu, Eufigénio.
Deliciosa, a senhora!
Publicado por: Karla em novembro 29, 2005 10:27 PM
A Milu caneco, que confusão eu fiz, era por estar no camarote ao lado, assim de perfil nem a reconheci ...cof, cof
Publicado por: Eufigénio em novembro 29, 2005 10:30 PM