« Escrevi sobre quase tudo aqui, mas ficou tanto fim por enlear | Entrada | A Memória (re)Inventada »
novembro 14, 2005
O texto que afinal não é do EPC
Avisado e desenganado sobre a origem do texto pela comentadora m., venho aqui penitenciar-me e corrigir a referência que fiz ao Eduardo Prado Coelho, como seu autor. É o facilitismo de passar a post a profusão de coisas que nos chegam por mail, sem que possamos atestar a sua veracidade. (servir-me-á de emenda)
No entanto, independentemente da sua autoria (não foi por isso que aqui deixei o texto), e porque o mesmo não perde as qualidades críticas que me levaram a postá-lo, aqui o mantenho:
“ A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.
Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte... Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados! É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... MEDITE! “
Autor desconhecido
Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 14, 2005 10:20 AM
Comentários
É melhor alterar o título do post, o Prado Coelho não tem nada a ver com esse texto q, aliás, tem origem no Brasil - e foi agora adaptado para a realidade portuguesa - onde foi erradamente atribuido ao Ubaldo Ribeiro. Além do mais se ler a crónica do Prado Colelho de hoje no Público constará q ele nega a autoria do mesmo.
Publicado por: m em novembro 14, 2005 10:32 AM
Muito obrigado m.
É o que acontece ao cair no desassossego de passar o clic dos mails para o clic do blog, sem a minima noção da veracidade da fonte. Acho que foi a primeira vez que o fiz (sempre me preocupou a leviandade com que as coisas nos chegam por mail) e servir-me-á de exemplo: foi a última.
Vou então corrigir
Publicado por: Eufigénio em novembro 14, 2005 10:45 AM
Independentemente do autor, e até do país de origem, é um texto onde me revejo de alto a baixo. Não só na opinião expressa, como também fazendo parte da "matéria prima" de que é feito o país.
Embora me considere uma pessoa justa, que não critica por dá cá aquela palha, que me sei "por" no papel do governante e tentar ver o lado de lá, que pago impostos (IRS e IRC) sem falcatruas, que ando com o carro cheio de lixo para não o deitar janela fora, a verdade é que à minha volta, vejo todos os dias, situações como as descritas. E nunca devo ter feito nada, para mudar.
É triste, mas deve ser genético.
Publicado por: Karla em novembro 14, 2005 11:11 AM
É isso que também acho Karla, do texto ... e de nós
Publicado por: Eufigénio em novembro 14, 2005 11:13 AM
Já agora, e nem de propósito, acabei de dar com isto:
http://ablasfemia.blogspot.com/2005/11/anatomia-de-um-11-boato.html
Publicado por: m em novembro 14, 2005 11:36 AM
Atitude... é preciso mudar de atitude.
O problema é que é preciso motivar cada um de nós para essa mudança. Divulgar este texto é um bom começo.
Mas para passar a mesma mensagem, em massa, a partir da televisão, já implica aval do governo para a emissão no canal público. ;)
Publicado por: maria arvore em novembro 14, 2005 05:02 PM
estava eu a pensar "o texto é uma boa merda" quando percebo que nem sequer é originário de portugal (o que incrementa a sua mediocridade - dado que roda devido ao "essencialismo" que lhe está pegado: pensava eu "eu sou de um país" etc e tal, escreve o anónimo, como se tal fosse único). Enfim, tanto defeito, tanto defeito, e afinal nem sequer é escrito sobre portugal - boa gargalhada
acho óptimo o comentário da Karla, tipo, isto é exactamente assim, excepto eu que até sujo o carro, mas os outros enfim...
acho estranho a rapaziada continuar a ir a badajoz com o ar parvo de quem acha que ali os caramelos são melhores (E os vendedores também)
Publicado por: jpt em novembro 15, 2005 11:04 AM
a 1º vez que fui a viena também me excitei com os sacos para vender jornais, ali abandonados na rua. foi há para aí vinte e tal anos. acho lindo, toca-me, que ainda haja gente que se excite com tanto. eu estou num país onde compro jornais aos ardinas, como se vê um país horrível
Publicado por: jpt em novembro 15, 2005 11:06 AM
E porque será que os portugueses, quando fora de Portugal, são trabalhadores excepcionais e verdadeiramente exemplares?
Porque teremos de sair para mostrarmos o que valemos?
Sinceramente, não compreendo...
Publicado por: Jill em novembro 15, 2005 11:44 AM
Estou como o JPT o texto é francamente mau, é uma pertença analise politica miserável, um género muito em voga na net que tem variantes na ajuda aos coitadinhos,nas suas múltiplas doenças (amanhã poderemos ser nós), aos casos verídicos dos quais se tira uma imensa aprendizagem, enfim “uma boa merda” . Quanto a Viena o que me impressionou nos idos de 80, foram os urinóis com autoclismos automáticos, isso sim valia a pena quais jornais qual carapuça!
Publicado por: Beeman em novembro 15, 2005 11:55 AM
Para além da vossa ilustrissima análise literária, eu cá posso bem vestir aquele carapuço, e esse, o carapuço, mesmo assim mal costurado como dizem que está, cai-me na perfeição. Mas isto sou eu a dizer, um autóctone que de Viena conhece apenas as valsas, e mal, e mal.
Vai um medronhozito para ir ao âmago da questão ou quê?
Publicado por: Eufigénio em novembro 15, 2005 12:04 PM
o beeman esteve bem, nas primeiras andanças também ficava espantado com os urinóis lá na estranja, tipo Espaço 1999
um medronho marchava. se envelhecido então ... não haverá mais naquela casa onde se bebia?
Publicado por: jpt em novembro 15, 2005 07:22 PM
E para se perceber melhor que Viena não evoluiu nada, ainda tem os urinóis automáticos, e ainda não tem medronho.
Publicado por: MB em novembro 16, 2005 09:53 AM