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novembro 11, 2005
Do antes da alcatra e do pojadouro
Arfava sofregamente e o seu hálito desenhava bolas de nuvens quentes na madrugada gélida. Ao fundo ouvia das camionetas os rangeres das gaiolas que atarefadamente se abriam. Por entre as frechas da lona via passar o magote de homens vestidos com fatos-macaco riçados e vermelhos que faziam por aquecer as mãos em concha com fôlegos que expiravam. Era o pleno Inverno e àquelas horas da madrugada, assim imobilizado, isso fazia-se sentir em toda a ossatura. A seu lado haviam muitos outros, e agora era bom poder apertar-se de encontro a eles e sentir-lhes o calor próximo. Um calor forte que largava um cheiro áspero. Lá fora ninguém reparava na natureza daquele cheiro que lhes vinha das entranhas, e que epidemicamente se ia pegando de uns para outros. Aliás, lá fora, por entre os afazeres que se adivinhavam do barulho, todos os ignoravam ali, eles sendo paisagem da rotina de todos os dias. Do edifício maior libertava-se um rumor de fundo, quase inaudível, mas que lhe era perfeitamente distinto. Ali quase nada, mas lá de onde se fazia ouvir era berraria, uma descontrolada gritaria de arquejos que lhe eram familiares. Aos poucos, todos os que ali estavam consigo foram tomando consciência desse doloroso som distante, e notava-lhes cada vez mais acentuadamente os sinais da sua irrequietude. Era orgulhoso, e lá das terras de onde vinha era tido como um macho altivo – e essa era a sua natureza. Mesmo ali, por entre todos os outros, era no porte mas também na sua aparente serenidade que se impunha entre os demais. Mas até ele soçobrava agora, arrastado por aquele murmúrio crescente, uma ladainha de terror, assim mesmo, largada em tom baixo e soturno. Era como se, mesmo sem falar, um por um, notasse nos outros confirmar-se aquilo que a sua intuição já lhe tinha trazido. Esperava-o a morte.
Pouco depois, a carripana onde os tinham enfiado deslocou-se em marcha-atrás, lentamente, até se imobilizar com um baque seco de encontro ao embarcadouro de cimento. Um homem meteu a mão por dentro e desarmou o ferrolho. Assim que se soltou o painel da parte traseira todos aqueles que ali o acompanhavam se comprimiram lá no fundo da caixa da camioneta, confundindo-se uns com os outros, embaralhando os olhares dos homens que agora os encaravam. Ele não. Deixou-se ficar imóvel, tenso, carregando um olhar de audácia com que escondia o profundo medo que o enfraquecia por dentro. A manhã agora destapada, deixou-o ver breves instantes o outro edifício lá mais ao fundo, de onde se exalavam agora mais evidentes os cheiros que notara antes. Eram odores agridoces, espessos, inconfundivelmente carnosos. Nesse outro embarcadouro afadigavam-se vultos para trás e para diante, dividindo aos pares o peso de peças pesadas, de cor encarniçada, que empurravam para dentro de camiões brancos. Mesmo sem discernir na distância do que de facto se tratava, sobressaltou-lhe a certeza de que eram cadáveres que assim eram transportados. Depois, subitamente, sentiu-se laçado, uma e outra vez, e antes que pudesse reagir um espigão enterrou-se dilacerante por trás da sua nuca. Atrás de si ouvia a bradaria de pânico que se tinha apoderado dos outros. Escorava-se com força nas travessas que lhe serviam de chão, agora inundadas da sua urina que escorria por entre as frechas do tabuado, enquanto do lado de fora três ou quatro homens gritavam e puxavam-no, incentivando-o a ceder. O ferrão cravava-se cada vez mais profundamente e a dor fazia-se já adormecida por todo o corpo. As pernas baqueavam e o seu olhar orgulhoso embaciava-se escondendo de si a visão dos homens de fato vermelho que tinha pela frente. Uns vociferavam, enquanto outros riam desbragadamente. Não conseguia compreender exactamente as suas expressões. Sabia apenas que mostravam uma alegria que lhe era incompreensível ali, e que o revoltava ainda mais. Tudo aquilo era ignóbil. Não fora ensinado a perceber o que os humanos queriam fazer com ele, e muito menos porque agora ali estava e porque o queriam conduzir para a matança. E nada disso lhe deveria levantar interrogações. E contudo, naquele momento, perguntava-se porque teimavam aqueles homens em largar aqueles gritos esganiçados. De que mostravam eles satisfação afinal. Porque não o deixavam cumprir com a sua dignidade de macho estes seus últimos passos. Fincou então numa última teima as patas dianteiras, e de seguida rodou o torso tanto quanto pôde, até poder ver os fundos da camioneta. O seu cachaço rasgava-se num colar de dor, e um bordado de sangue deixava-se cair em franjas escuras. Fitou então com os seus olhos negros, uma última vez, os seus companheiros, e susteve-se assim galhardo todo o tempo que lhe sobrou. Por fim, lançou o pescoço ao céu e largou o mais estridente grito que alguma vez se deverá ter ouvido pelas bandas daquele matadouro. Os homens, surpreendidos aliviaram bruscamente a pressão do ferro e das cordas com que o acicatavam, e depois, vendo-o liberto, afastaram-se num reflexo de receio por uma investida sua. Em vez disso, desceu mansamente pelo estrado que ali tinham pousado, e encaminhou-se altivamente para a porta do edifício de onde sabia virem aqueles inexplicados odores e barulhos. Só, sem outros mais, sobretudo sem a infame companhia daqueles homens que se aliviavam por o ver seguir assim brando. Mesmo sem a compreender, esta morte, seria sua.
Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 11, 2005 08:40 PM
Comentários
Ai Eufigénio que nunca mais vou conseguir comer bifes porque em cada «bordado de sangue» vou ver os «olhos negros».
Porque é tão humano querer-se morrer sendo quem somos sem a necessidade de uma turba que se extasie com a nossa desgraça.
Era capaz de ficar aqui horas e horas a ler-te tal a intensidade dos teus textos. ( E não encontro uma maneira inteligente de dizer que gostei muitíssimo deste teu texto e que só posso posso aplaudir de pé a forma como continuaste a série do Matadouro).
Publicado por: maria arvore em novembro 11, 2005 09:55 PM
Esta, Maria A., é a versão do lado de lá da série do matadouro, a versão vista pelos 'olhos negros'. Percebes agora porque é que eu nunca a consegui acabar? ;)
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 09:57 PM
É sem dúvida uma arte civilizada!
Publicado por: Cláudio em novembro 11, 2005 10:22 PM
Excelente,
Sem mais delongas citei-te, (integralmente!) n'O Souselense.
Publicado por: Alfredo Silvestre em novembro 11, 2005 10:34 PM
ah... o matadouro, finalmente
a escrita dos anteriores (foram 2, salvo erro?) era quase crua
esta agora está definitivamente tártara
Publicado por: jose quintas em novembro 11, 2005 10:39 PM
Cláudio,
Posso assegurar pelo menos que há 23 anos, era esta a arte que se praticava (e não conto o que o pobre bicho encontrou lá por dentro porque receio, tal como na altura de ficar uns tempos a peixe só)
Alfredo Silvestre,
Fui ver e nem queria acreditar! Foi quase tão imediato que quase admiti que tivesse sido uma postagem com emissão simultânea :)
Obrigado pelo destaque
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 10:40 PM
Amigo José Quintas, nem sabes tu (e calcularás porquê :) ) as vezes que retrocedi, as vezes em que a caneta hesitou, por culpa de pensar na tua sensibilidade sobre esta matéria. Ainda bem que a amaciei tártara, cheguei a temer a versão hamburguesa.
[o que disse à Maria é absolutamente verdade: os fundos dessa outra versão do matadouro, eram tão ... que achei por bem ficassem por contar]
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 10:44 PM
Eu trabalho num matadouro. Vem comprovar uma velha teoria minha. São os que mais respeitam os animais.
Publicado por: Alfredo Silvestre em novembro 11, 2005 10:57 PM
Bem, isto hoje parece um Natal antecipado! :) (com tantos e tão variados posts, quero eu dizer, que do ponto de vista do bicho nem por isso...)
Gostei (já me estou a repetir!!)... já deve ter percebido que gosto muito da forma como aborda os assuntos "menos fáceis". (Bem, e da forma como aborda os outros também :) Acho que repôs muito bem a verdade dos factos: vamos ao talho, trazemos uns dias isto, outros dias aquilo, mas a maior parte das vezes esquecemo-nos de que a verdade, a verdade, é que estamos a ver a questão toda ao contrário...
... Não sei como faz este mistério de usar a paleta das palavras e com ela pintar cenários simultaneamente tão ricos e etéreos, usando as palavras como se elas deslizassem por vontade própria... mas o certo é que é viciante!! :) Dá-me vontade de ler tudo em voz alta, um pouco como acontece com a poesia... (obrigada!)
Votos de continuação de boa inspiração (mas guarde alguma para a sua apresentação também ;)
(E eu que, até aqui e desde uma bela manhã de verão em que cá vim parar completamente por acaso, estava tão caladinha a esperar pelos seus posts e a lê-los, ávida e repetidamente, e agora parece que não há meio de me calar??... tsk, tsk, tsk ;)
Publicado por: Jill em novembro 11, 2005 11:12 PM
Eu tambem trabalhei num matadouro Alfredo Silvestre, ainda que temporariamente, e não posso concordar com o que dizes. Não que ache que lá fossem os animais respeitados mais que noutro lado, apenas por igual, ou seja, numa crua e indiferente insensibilidade. Ambos sabemos então, que ainda sem terem um pé lá dentro os animais pressentem a morte, e o cheiro que libertam é o cheiro acre do terror, e isso devia sensibilizar-nos para a dor desses. Acontece que os ofícios trazem-nos tiques de trabalho, e deixar as coisas andar, que não dá para pensar nas coisas que não se compadecem da profissão. No matadouro onde trabalhei (ainda que temporariamente) haviam muitos pormenores que aqui poderia contar, trarei alguns. Não revelam menos/mais respeito por parte de quem lá trabalhava, para com os bichos, mas seguramente revelam uma absoluta indiferença. No matadouro de beirolas, à altura o maior do país, matavam-se os bichos com uma facada entre os cornos, para não ter de se andar por ali aos tiros, ou para poupar nas balas, nunca o quis perguntar. Em vez de cairem redondos, naquele espaço que faltava percorrer até aos mono-rails onde os içavam, brincava-se com os bichos moribundos, touradas, os bichos embriagados de morte e as risadas no tropeço das patas da frente e nas cabeçadas que tontos davam por ali fora. Depois lá se dependuravam no monorail. Ao que parece convinha ainda vivo para sangrarem melhor. Enfim, é assim, que digo eu. Mas havia quem lá mais à frente alguns metros apenas, de serra/faca na mão refilasse que lhe andavam a demorar as vacas e que quando lá chegassem já íam cadáveres, e que assim se tornava mais dificil despelá-las. Claro que isto já fez muitos anos e eu passava por lá temporário, mas dizer que aí/lá se respeitam os animais, não posso concordar.
Apenas acho que não se respeita nem mais nem menos do que noutro lado qualquer, a indiferença é o que torna suportável tal ofício, não é sítio para fantasias dessas como o respeito pelos animais que se mata.
(espero não ter ofendido)
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 11:14 PM
esteja à vontade Jill - um pouco de baba a escorrer-me do queixo não há-de parecer bem, mas mal não me fará certamente, quando muito (ai do frio) talvez um pouco de cieiro.
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 11:20 PM
Não. Não ofendeste nada. Felizmente tenho outras experiências e conheço não um, nem dois, nem três mas bastante mais. E, crê-me, não admitiria, em circunstância nenhuma, atitudes tais como as que descreveste.
Publicado por: Alfredo Silvestre em novembro 11, 2005 11:27 PM
Já agora, e de colega para colega (risos) deixa-me perguntar uma coisa: Lá nesse de beirolas havia no hall de entrada para o salão da administração, desses onde já só se ía com o chapéu amarrotada na mão, um museu de monstros, não mais do que prateleiras e prateleiras forradas de enormes frascos com animais, nem todos embriões alguns grandes, com mal-formações. Era fascinante, sempre que podia passava por lá na hora do almoço, não sei como me posso justificar por achar isso, mas era, talvez a questão cientifica, que seja isso. Mas saberás do que estou a falar? 6 pernas, 4 olhos, 2 cabeças, etc, calculo que com um enorme valor científico aquele espólio. Pois bem, esse matador foi abaixo com a EXPO, e muitas vezes me tenho interrogado para onde terá ido parar essa tão valiosa colecção de que nunca ouvi falar. Saberás do que falo?
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 11:36 PM
Sei do que falas mas não faço a menor ideia de para onde possa ter ido. Mas vou tentar saber.
Publicado por: Alfredo Silvestre em novembro 11, 2005 11:51 PM
muito agradecia se me dissesses caso venhas a saber
Publicado por: Eufigénio em novembro 11, 2005 11:55 PM
caríssimo Genghis Khan de Beirolas:))
admito que hesitei por momentos em desancar na crueza do assunto e assinar como Çoçiedade Prutectora dos Vobinos mas o tom do post e o facto de ter sido escrito sob o ponto de vista do animal impediram-me de me armar outra vez em pirilampo:)
tb acho que quem convive diariamente com a morte, mais do que respeito pelas vítimas, deve sobretudo ficar indiferente.
tenho, contudo, de sentir-me grato por existirem pessoas que conseguem ter essa profissão pois, gostando de comer animais mortos e sendo incapaz de matar uma mosca, doutro modo iria rapar uma fome do caraças.
mais incoerências neste edifício ético tão esburacado? a propósito daquele juízo de valor sobre o respeito pelos animais que se assemelha ao de alguns caçadores, parece-me mais reprovável a caça desportiva do que trabalhar num matadouro e, no entanto, se fosse obrigado a escolher entre as duas profissões, preferiria ser caçador...
caramba, o assunto é desconfortável. imagino que deve ter sido incómodo escrever o post. vou lê-lo de novo. conseguiste comer carne durante aquele tempo?
Publicado por: jose quintas em novembro 12, 2005 12:29 AM
Claro que não, durante largo tempo só o cheiro me enfastiava, foi peix, peixe, peixe. Depois acabei por arranjar um partime na lota e tive de me converter aos macrobióticos, mas isto antes de experimentar um período na monda do trigo claro :))
Publicado por: Eufigénio em novembro 12, 2005 12:37 AM
sublime este teu texto e mais não digo.
Abraço Eg
Publicado por: Luna em novembro 12, 2005 09:05 PM