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novembro 30, 2005

Não concordo e pronto !

É curioso nisto das discussões públicas (e privadas), constatar que os maiores críticos são justamente os mais intransigentes na defesa das suas ideias. Eu explico melhor, segunda vez:

É curioso notar que embora lancem a sua desmedida verve contra tudo o que os outros pensam ou dizem, são os críticos mais tenazes, - os mais arrogados de privilégios democráticos - quem raramente concede que uma crítica, a sua, seja ela em si mesmo uma ideia que pode ser contestada.

Razão tinha o Winston Churchill, que agora lhe compreendo a impaciência: “O que eu espero é que, depois de um razoável período de discussão, toda a gente concorde comigo

Tenho dito, e isto não era uma crítica, e além disso não aceito críticas nos comentários, pronto.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:42 PM | Comentários (6)

Hidden Organization

Ainda agora, com pompa de conferencista, alguém dizia que as Learning Organizations são mais do que a soma dos conhecimentos dos seus colaboradores. O diagnóstico nesta nossa organização não se fez tardar - entre nós correu um olhar desconfiado: “quem raio me anda a esconder algo” pensámos logo todos em sussurro.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:20 AM | Comentários (0)

novembro 29, 2005

Ligeira irritação(zinha) de Natal

santa-christmas.gif O Natal aí à porta, e também na blogosfera se vão assistindo aos enfeites festivos. São renas voadoras, sininhos luminescentes, pinheiritos que piscam-piscam, imensa neve e bolinhas de todas as cores e muitos outros gifs, amorosos, como este que aqui deixo, também eu aderente às festividades. Aqui e ali instalam-se também as músicas da época, ele é o jingalubéle e o cristmas e outras coisas assim que repicam a quadra festiva. É sem dúvida um tempo de paz e amor este, também na blogosfera …

… e depois a porra(zinha) do Internet Explorer fica para ali parado, nem para trás nem para a frente, engasgado com tanto penduricalhado, e nós feitos parvos à espera, dez, quinze minutos que a porra(zinha) do blogue natalício se abra, e a voltinha rápida a meio do trabalho a transformar-se num enrascado “só um momento que já falo consigo que agora estou aqui com um problemazito”, até que aquilo rebente tudo e na melhor das sortes tenhamos os tipos do Bill Gates a perguntar no fim se queremos enviar o relatório de erro não sei para onde, sim, porque a outra das sortes é quando a porra(zinha) do trabalho vai todo por água abaixo e temos de reiniciar o PC !!

Ah, e um feliz e santo Natal para todos, quase me esquecia de o desejar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:30 PM | Comentários (4)

Retratos

É doce, bonita, dá mimos a nós todos e diz que o mimo não estraga, agora anda sempre cheia de frio, cozinha coisas óptimas mas obriga-nos a comer salada, é muito alegre, outras vezes não e diz que quer ficar sossegada, tem uns olhos que ficam pequeninos e muito brilhantes quando às vezes olha para nós, e uma boca grande que dá uns beijos muito macios, às vezes irrita-se mas depois esquece num instante as coisas que a chatearam, deixa-nos fazer mais coisas que o pai, e às vezes esquece-se do que a gente tinha para fazer e nós podemos brincar mais um bocado, quando vai ter com o pai e ele está a escrever no computador ficam lá os dois a rirem-se das coisas que ele escreveu e olham muitas vezes para nós e entre eles e voltam a olhar para nós e nós nunca percebemos porquê, quando precisamos de pedir alguma coisa é a ela que pedimos porque é mais fácil, quando estamos cansados enroscamo-nos nela e ela diz que somos as melhores coisas do mundo, e o pai abana a cabeça com ar chateado mas achamos que deve ser só a brincar

Ele ri menos que a mãe, e tem mais rugas, gosta mais de andar na rua e nós gostamos de ir com ele e a mãe fica a dizer porque azar tem uma casa só de homens, todos gostamos de rugby mas ele já não joga porque diz que está velho e no outro dia quando jogou connosco ficou a coxear imensos dias, nós ainda achamos o pai muito forte embora não seja muito grande, faz palhaçadas e diz coisas com graça quando está mais descontraído, mas quase nunca chega descontraído a casa, só depois, às vezes, o Francisco está tramado porque é ele que o ajuda nos estudos e é muito severo, e é o pior de nós a jogar o Fifa 2005 e depois fica irritado quando perde e diz que não precisamos andar a fazer risinhos esganiçados lá porque ganhámos, é bom para nos tirar duvidas, e tem jeito para arranjar coisas em casa mas está sempre a dizer que nunca tem tempo, arranja só mais ou menos, as únicas coisas que sabe cozinhar bem é o esparguete maluco e os cachorros ao domingo, a mãe diz que ele está amuado quando passa muito tempo sem dizer quase nada, mas depois quando começa a falar outra vez ri-se imenso e diz que gosta muito de nós, quando ele diz que jogámos bem ficamos mais orgulhosos do que se for a mãe a dizer, e está sempre a dizer-nos para lavarmos bem a pilinha, também gostamos dele mas ralha mais do que a mãe

Olha Eufigénia, ficaria muito mal se eu propusesse que trocássemos de fato, digamos, aí até ao Natal? Depois eu voltava a vestir o mau feitio e essa minha mania da disciplina e devolvia-te a indulgência, o sorriso e os mimos para tu usares outra vez. Um mesinho, que tal? Prometo não estragar

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:08 PM | Comentários (9)

Pois

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:29 PM | Comentários (1)

O teste de inglês: Insuficiente, ele. Eu, medíocre.

Ontem desviava os olhos de mim. ‘Que se passa Francisco? ’ E ele claramente consternado a tentar explicar-se pelo silêncio. ‘Já recebeste o teste, foi isso? ’ e poupando-lhe os dizeres ‘então vai lá buscá-lo, se fazes favor’. Voltou com ele tremendo-lhe na mão, e a deixá-lo pela ponta, como quem daí escorre vergonhas. No mesmo instante em que lhe tomo o teste, subitamente, lança-se num choro. “Insuficiente mais”. A primeira negativa dele, creio. E logo a inglês, que ele julgava saber, que eu sei que ele sabia, eu que até lhe testemunhei o empenho, quase orgulho meu ao vê-lo entregar-se à leitura de um livro escrito em inglês, ‘para treinar’ dizia então brioso. Haveria ali mais do que o desagrado pela negativa, provavelmente porque descobrira assim o amargo sabor do insucesso, essa desconfortável sensação de incapacidade que lhe esparramou no orgulho um insuficiente em troca do esforço em que se tinha empreendido. E eu já acolhendo-o nessa desilusão, que mais desagrados desses haveria de ter, e que não era caso para estar assim, que haveríamos de recuperar aquela nota, e que eu nunca o repreenderia pois sabia que se tinha preparado e …e … a forma como ainda se encostava à parede, minguando-se, e como olhava de viés e media a distância de mim. Não, não era apenas a infelicidade e a sensação de injustiça que o perturbavam. Havia também o temor - era eu, a minha severidade, o que ele ali mais receava.

Ontem, logo no mesmo dia, tivemos os dois uma negativa.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:42 AM | Comentários (2)

novembro 28, 2005

No sábado, aos Xutos & Pontapés

A bateria primeiro, depois as guitarras. A melodia começa a palpitar e já não engana. Quase de imediato o burburinho da plateia toma conta dela, vogando à vontade, rompendo a saudade. O Tim cala-se, ou melhor, nem entra, apenas sorri, e o Coliseu inteiro agita-se percebendo que o mote é agora deles. A primeira estrofe aclara-se primeiro baixinho, procurando o tom, e depois entra de rompão num uníssono assombrosamente afinado.

E vai lançada assim a canção, entregue ao público. E novos e velhos, e pais e filhos, numa única entoação, quase gritada, lançam esse brado poderoso com que marcam o ritmo, todos ali a uma só voz. E tantas memórias, tudo de dentro de cada um sai gritado das gargantas empolgadas. É sublime esse coro partilhado, por essa vontade que perpassa pais e filhos, essa vontade de ir, correr o mundo e partir. Um único grito, ali troando a emoção dos que não chegaram a ir, e dos que ainda não chegaram a partir. Clamam-se vontades entre duas gerações, tão diferentes ainda, mas tão próximas de serem o mesmo. E segue tonitruante: No fundo horizonte / sopra o murmúrio para onde vai / No fundo do tempo / foge o futuro, é tarde demais... .

E canto eu, e grito também, e escuto com emoção as vozes deles ali perto da minha, a mesma emoção, um grito tão alto quanto o meu. Na plateia outros se abraçam, e lançam mais alto a voz que nem sempre todos os dias entre eles se encontra. Que agora, essa canção que se entoa, ninguém a canta mais que ninguém, ninguém a canta com mais idade que ninguém, e as memórias que evoca, umas tão longe das outras, fazem-se todas do mesmo, agora ilusão. É mais que uma canção, é mais que uma onda, mais que uma maré, aquilo que ali se canta.

Partilhar assim num grito, uma mesma vontade, tantas marés e tantas memórias, tanta vontade de partir, é uma sensação indescritível. É sentirmo-nos para além de pai e filho, e por um momento nada haver mais a dizer que aquela vontade de cantarmos juntos, esse fado de sermos homens: Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade, / vai quem já nada teme, vai o homem do leme... .

E acho que é por isso que os xutos.gifUTOS são a melhor banda portuguesa de sempre !

O Homem do Leme

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder

Xutos e Pontapés

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:25 PM | Comentários (14)

novembro 25, 2005

Os dias supérfluos guardo-os em longos post´s

Por cada hora de trabalho que não resolvo costumo escrever uma palavra. Por vezes saem muitas. São feitos de frases grandes os dias desnecessários.

Por, cada, tropeção, que, dou, desde, manhã, acrescento-lhes, vírgulas. São frases, interrompidas, os dias, agitados.

E

por cada

coisa que

hoje

não fiz

e queria

fazer

introduzo

um parágrafo.

São

textos

esguios

os dias

que nada

são.

 

Já pelo fim da tarde, releio-o então, ao texto que assim escrevi, uma e outra vez, a medir-lhe o comprimento, a pesar-lhe a estatística de cada outro dia. Ai se lamento que hoje me tenha saído texto assim tão grande. É sexta-feira, já quase a fechar, e só me resta tentar o óbvio com as horas que ainda sobram:

vou para casa apagá-lo, linha a linha.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:55 PM | Comentários (1)

o acordar que alugo todos os dias

Quando me sentei no carro fiquei a vê-lo com aquele ar enrolado a tentar vencer desastradamente o fecho da porta. Lá entrou, já eu vociferava do atraso. Lânguido, remeloso, o cabelo pouco importado com os penachos despenteados da cama, o olhar sem enganar o sono que ainda trazia dormindo, e a ouvir-me como se fosse mais um pequeno incidente, como aquele do fecho da porta que estava perro, mas que se haveria de abrir, que assim me haveria de calar. Há nele um sono que nunca chega a despegar-se completamente, um sono cheio de coisas suas que por vezes se denunciam com repentes que desvendam um fabuloso mundo de humor e imaginação. E eu já de boca aberta outra vez para o confrontar com o que se tinha esquecido de trazer, com o atraso com que iríamos chegar, com as recomendações que nunca acatava, já ali desregulado, a antecipar-me, a preparar-me fera para o resto do dia. E depois tudo isso a misturar-se já com o comentário ao projecto lá da empresa que não me apetecia preparar, e eu já enervado, e mais a falta de açúcar em casa, as compras em atraso, as dores na coluna, a consulta que me esqueci de marcar, o carro que agora não quer pegar, e com todas as outras coisas inadiáveis que em cinco minutos, ao princípio da manhã, listo para me comprometer com todo o resto do dia. Eu acordo assim, cheio de atraso.

Já ele não, (ele tem a arte mágica de não deixar desenrolar completamente os sonhos que o invadem de noite), e a olhar-me agora, e a interrogar-me de porquê assim, essas já interrupções, porquê tanto logo. E manso, a levar-me a mergulhar naquele seu ar de quem sabe acordar com o que a noite ainda lhe dá, de quem sabe trazer a noite para o acordar. Eu quase ainda a resistir ao que fala, ao como fala, essa maneira com que entrepõe o dia com a noite, a realidade com a magia, os deveres com o humor, o que tem de ser com o que é. E já não, eu agora já só ouvinte desse essencial de si onde nunca chove.

É de manhã, ali metido no trânsito entre aqueles dez minutos a caminho da escola, quando tenho as maiores expectativas do dia - enquanto os dois saboreamos o seu acordar que se vai revelando com estrelinhas – (n)essas coisas com que salpica a conversa entre dois semáforos, antes do resto do nosso dia das coisas importantes. Isto claro se o meu acordar se deixar amansar pelos sonhos (do) dele, que os meus já estarão esquecidos no dia que vem.

A manhã que não se troca por todas as coisas importantes e atrasadas com que se acorda para o resto do dia - são assim os filhos, todos (?), talvez.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:30 PM | Comentários (4)

A propósito de alguns blog’s onde vou assistindo ao seu encerramento

A qualidade é vaidosa.
Parte assim que se vê entre más companhias.
Uma lástima.

Mas ainda cá fico. Levantando pontas de textos.
Ainda há alguma, ainda há alguns,
E quem sabe não andem outros por aí mais distraídos.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:30 AM | Comentários (3)

novembro 22, 2005

Já volto

espelho.JPG

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:00 AM | Comentários (9)

novembro 21, 2005

Insuficiente … mente

Chego a casa, por cá vou andando, e é assim que daqui saio depois - uma breve interrupção do dia, vestido de intervalo entre o abrir e fechar da porta. E todos os dias assim me trago de volta, a mesma repetição, as aflições que me esperam, do lado de fora, o cansaço das coisas que acabei por não fazer, do lado de fora, distante e meditabundo, e zangado com coisa nenhuma, insusceptível de ser algo mais do que os restos que trago comigo, a parte que sobrou, do lado de fora. Trago-vos angústia e exaltação. Coisas que não sei como se me pegam, nem porque as trago, do lado de fora. E menos sei ainda porque as deixo entrar comigo. E pior ainda, porque espero que m’as curem.

Sei que sou isso tudo, quando chego, e que isso tudo é já só o quase que sobra. Sei que me falta o cantinho para as guerras reboladas com os miúdos no tapete. Sei que me esqueço de tirar a gravata antes de te dar um beijo. Sei que aparece sempre algo a interromper as risadas despregadas d’uns a contagiar os outros, por coisa nenhuma, só para estar assim, a dividir risos.  – há quanto tempo tudo isto? Desde ontem? talvez dantes, talvez desde a semana passada, mas não mais … Mas é assim que me conto em casa, por vezes? Mas as vezes de quê? Dos interregnosque arranjo para estar verdadeiramente aí? D’esse que chega a casa, esse feito de intervalos intermitentes de mim, preocupado com o tempo a que se roubou do lado de fora?

Mas hoje não. Chegarei com as ‘vezes’ enganadas. Tenho o dia todo para forjar um ferrolho melhor, que hoje, quando chegar, não me esquecerei de trancar a porta atrás de mim. Terei algumas horas para recuperar do que não tenho ‘sido’. E depois amanhã. E depois outra vez, e assim um pouco todos os dias, a trocar as voltas a esta coisa que se me pegou. Prometo, lá pelo natal, o mais tardar, já terei feito da minha vida lá fora, os intervalos do que sou aqui convosco.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:20 PM

Homoquê ? *

Agora que ao que parece se vai adquirindo (propalando) alguma tolerância pelas minorias homosexuais, talvez seja o momento de assegurar alguma complacência para com as maiorias heterosexuais, não?

Ou será que ainda convém resguardar por mais um pouco os meus instintos naturais, essas coisas da minha disposição que quase me envergonham nos tempos que correm?

* ah pois tenho, tenho fobia a exaltações, outras desmesuras, e a tudo o que imponha artificialmente (leia-se: por força de palavras de ordem da moda) o constrangimento do “se não estás comigo estás contra mim

Não. Não estou a bipolarizar a questão, estou apenas a integrá-la.
Além disso estou irritado: foi um fim de semana horrível, fui imprestável com a família
E este blogue serve para isto! Desirritar-me
E seja como for, prontos

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:27 AM | Comentários (15)

novembro 18, 2005

Debulhando

Agora apetecia-me improvisar assim

Mas infelizmente ninguém é bom aprendiz de si mesmo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:25 AM | Comentários (3)

novembro 17, 2005

Ai que saudades que eu já tinha dos jantares em família

- E a ciências, o que estás a dar?
- Oh, o cromo do Aristóteles
- O cromo? Oh pá tu não digas isso …
- Mas ele não acerta uma. Primeiro foi a história geocêntrica e agora a teoria da geração espontânea, só porque viu umas larvas a saírem da carne que ali tinha deixado
- Mas Francisco, na altura …
- Oh pai, na altura já a terra era redonda e a carne apodrecia

- Bem … deixa é melhor mudarmos de assunto: Qual foi a origem do homo sapiens sapiens?
- O mamute
- O mamute??? Mas tu hoje estás mesmo parvo!
- Oh pai, se não fosse o mamute, não havia peles nem comida na época glaciar e o homem de Neanthertal estava feito, e depois não teria havido nem homo sapiens sapiens nem sem ser sapiens, nem homem nenhum.

(adoro quando o “oh pai” antecede o disparate)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:42 PM | Comentários (4)

Eu que tenho por profissão apertar parafusos,

cada vez me sinto mais deslocado nesta blogosfera, onde metade é juiz, quase outros tantos serão jornalistas, e pelas minhas contas sobrarão ainda uns 10% que não são nem uma coisa nem outra mas escrevem muito melhor do que eu. *

Nem uma chave de grifes por aí - só notícias, juízos e belos textos. Ao todo 90% de coisas que para nada me servem.

* ignoro propositadamente os blogs que escrevem sobre os blogs pois nós esses são efeitos de réplica que como tal não relevam para contagens estatísticas

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:15 PM | Comentários (13)

novembro 15, 2005

E o resto é conversa

Bem, já não tenho hipótese para esquiçar a estrutura. O verbo, as piadinhas entremeadas, as pausas a antecipar o chavão, isso fica para a inspiração do momento - que quando não sobra tempo para preparar o melhor é nem mexer -vai de improviso. Vou então pesquisar uns Gifts e preparar o Powerpoint* que sem isso é que não ... Ai esta bela maquilhagem para seminários!

* ouviste?

PS das 19h38mn:
O template já há
táquase.jpg
Estou todo orgulhoso! E agora só falta o que lhe vou escrever por cima, e ainda tenho uma noite inteira para isso ... assim é que é, no stress, pois claro.

PS das 19h59mn:
O primeiro acetato já está
táquase1.JPG
E parece-me bem o lettering amarelo não? A coisa está a correr sobre rodas!

PS das 20h11mn:
E pronto
táquase2.JPG
até saíu bem. Afinal tanto desassossego e a coisa fez-se! Talvez lhe dê só mais um pouco de contraste no fundo. Agora vou mas é jantar e dormir, perdão, reflectir, sobre o tema.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:11 PM | Comentários (14)

novembro 14, 2005

A Memória (re)Inventada

Isto sim, é um regresso que se saúda efusivamente

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:14 AM | Comentários (0)

O texto que afinal não é do EPC

Avisado e desenganado sobre a origem do texto pela comentadora m., venho aqui penitenciar-me e corrigir a referência que fiz ao Eduardo Prado Coelho, como seu autor. É o facilitismo de passar a post a profusão de coisas que nos chegam por mail, sem que possamos atestar a sua veracidade. (servir-me-á de emenda)

No entanto, independentemente da sua autoria (não foi por isso que aqui deixei o texto), e porque o mesmo não perde as qualidades críticas que me levaram a postá-lo, aqui o mantenho:

“ A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós.  Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.  Não. Não. Não. Já basta.

Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade  em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte... Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?  Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados! É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.  Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?.... MEDITE! “ 

Autor desconhecido

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:20 AM | Comentários (13)

novembro 13, 2005

Escrevi sobre quase tudo aqui, mas ficou tanto fim por enlear

As bobines espojavam-se pelo chão desarrumadamente, e de dentro de algumas, semiabertas, saíam despenteadas as filiformes películas. Olhava à sua volta, ainda com a nova fita nas mãos, e desalentado conferia as datas, personagens e locais gravados nas tampas redondas de zinco, procurando-lhe lugar naquele enorme mar de histórias sem ordem que cobria todo o estúdio. Anos e anos transformados em desgrenhados cabelos de celulóide. Pontas de filme a mais para que um dia as ousasse juntar.

Todos os dias trazia um novo sketch cheio de personagens e argumentos que para ali atirava, sem mais uma vez se sentir capaz de dar sentido à longa-metragem que há 42 anos tentava montar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:41 PM | Comentários (15)

novembro 11, 2005

Do antes da alcatra e do pojadouro

Arfava sofregamente e o seu hálito desenhava bolas de nuvens quentes na madrugada gélida. Ao fundo ouvia das camionetas os rangeres das gaiolas que atarefadamente se abriam. Por entre as frechas da lona via passar o magote de homens vestidos com fatos-macaco riçados e vermelhos que faziam por aquecer as mãos em concha com fôlegos que expiravam. Era o pleno Inverno e àquelas horas da madrugada, assim imobilizado, isso fazia-se sentir em toda a ossatura. A seu lado haviam muitos outros, e agora era bom poder apertar-se de encontro a eles e sentir-lhes o calor próximo. Um calor forte que largava um cheiro áspero. Lá fora ninguém reparava na natureza daquele cheiro que lhes vinha das entranhas, e que epidemicamente se ia pegando de uns para outros. Aliás, lá fora, por entre os afazeres que se adivinhavam do barulho, todos os ignoravam ali, eles sendo paisagem da rotina de todos os dias. Do edifício maior libertava-se um rumor de fundo, quase inaudível, mas que lhe era perfeitamente distinto. Ali quase nada, mas lá de onde se fazia ouvir era berraria, uma descontrolada gritaria de arquejos que lhe eram familiares. Aos poucos, todos os que ali estavam consigo foram tomando consciência desse doloroso som distante, e notava-lhes cada vez mais acentuadamente os sinais da sua irrequietude. Era orgulhoso, e lá das terras de onde vinha era tido como um macho altivo – e essa era a sua natureza. Mesmo ali, por entre todos os outros, era no porte mas também na sua aparente serenidade que se impunha entre os demais. Mas até ele soçobrava agora, arrastado por aquele murmúrio crescente, uma ladainha de terror, assim mesmo, largada em tom baixo e soturno. Era como se, mesmo sem falar, um por um, notasse nos outros confirmar-se aquilo que a sua intuição já lhe tinha trazido. Esperava-o a morte.

Pouco depois, a carripana onde os tinham enfiado deslocou-se em marcha-atrás, lentamente, até se imobilizar com um baque seco de encontro ao embarcadouro de cimento. Um homem meteu a mão por dentro e desarmou o ferrolho. Assim que se soltou o painel da parte traseira todos aqueles que ali o acompanhavam se comprimiram lá no fundo da caixa da camioneta, confundindo-se uns com os outros, embaralhando os olhares dos homens que agora os encaravam. Ele não. Deixou-se ficar imóvel, tenso, carregando um olhar de audácia com que escondia o profundo medo que o enfraquecia por dentro. A manhã agora destapada, deixou-o ver breves instantes o outro edifício lá mais ao fundo, de onde se exalavam agora mais evidentes os cheiros que notara antes. Eram odores agridoces, espessos, inconfundivelmente carnosos. Nesse outro embarcadouro afadigavam-se vultos para trás e para diante, dividindo aos pares o peso de peças pesadas, de cor encarniçada, que empurravam para dentro de camiões brancos. Mesmo sem discernir na distância do que de facto se tratava, sobressaltou-lhe a certeza de que eram cadáveres que assim eram transportados. Depois, subitamente, sentiu-se laçado, uma e outra vez, e antes que pudesse reagir um espigão enterrou-se dilacerante por trás da sua nuca. Atrás de si ouvia a bradaria de pânico que se tinha apoderado dos outros. Escorava-se com força nas travessas que lhe serviam de chão, agora inundadas da sua urina que escorria por entre as frechas do tabuado, enquanto do lado de fora três ou quatro homens gritavam e puxavam-no, incentivando-o a ceder. O ferrão cravava-se cada vez mais profundamente e a dor fazia-se já adormecida por todo o corpo. As pernas baqueavam e o seu olhar orgulhoso embaciava-se escondendo de si a visão dos homens de fato vermelho que tinha pela frente. Uns vociferavam, enquanto outros riam desbragadamente. Não conseguia compreender exactamente as suas expressões. Sabia apenas que mostravam uma alegria que lhe era incompreensível ali, e que o revoltava ainda mais. Tudo aquilo era ignóbil. Não fora ensinado a perceber o que os humanos queriam fazer com ele, e muito menos porque agora ali estava e porque o queriam conduzir para a matança. E nada disso lhe deveria levantar interrogações. E contudo, naquele momento, perguntava-se porque teimavam aqueles homens em largar aqueles gritos esganiçados. De que mostravam eles satisfação afinal. Porque não o deixavam cumprir com a sua dignidade de macho estes seus últimos passos. Fincou então numa última teima as patas dianteiras, e de seguida rodou o torso tanto quanto pôde, até poder ver os fundos da camioneta. O seu cachaço rasgava-se num colar de dor, e um bordado de sangue deixava-se cair em franjas escuras. Fitou então com os seus olhos negros, uma última vez, os seus companheiros, e susteve-se assim galhardo todo o tempo que lhe sobrou. Por fim, lançou o pescoço ao céu e largou o mais estridente grito que alguma vez se deverá ter ouvido pelas bandas daquele matadouro. Os homens, surpreendidos aliviaram bruscamente a pressão do ferro e das cordas com que o acicatavam, e depois, vendo-o liberto, afastaram-se num reflexo de receio por uma investida sua. Em vez disso, desceu mansamente pelo estrado que ali tinham pousado, e encaminhou-se altivamente para a porta do edifício de onde sabia virem aqueles inexplicados odores e barulhos. Só, sem outros mais, sobretudo sem a infame companhia daqueles homens que se aliviavam por o ver seguir assim brando. Mesmo sem a compreender, esta morte, seria sua.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:40 PM | Comentários (18)

Silêncio, que se está a preparar a intervenção num seminário

(ai que já não estava habituado a estas coisas … que stress!!)

[Olha vem para aqui mesmo, que no blogue leio melhor]

O E-Learning (formação-a-distância), um simples mal-entendido ou uma oportunidade que se esvai?

O E-Learning, a expressão em si, veste-se desde logo com os significados habituais de tudo o que nos chega pela Internet. E esses excluem-no quase compulsivamente da hipótese de ser encarado como uma solução ‘séria’ para a formação, se não por parte de todos os agentes de formação pelos menos dos mais conservadores, estes a maioria.

Começa por ser algo ‘demasiadamente’ acessível – de casa, de onde se quiser, agora ou mais logo a seguir ao jantar, quando eu quiser e me der mais jeito – e o simples facto de se vislumbrar nisso o acesso ao conhecimento de forma tão disponível vendida, remete-nos logo para um quadro de reserva e desconfiança. Afinal, a aprendizagem é um processo complexo e custoso, e que dificilmente é credível se não for alcançado à custa de algum sacrifício pessoal, se possível extraído até do nosso espaço familiar e da nossa disponibilidade pessoal. Pensar que é o estudante/formando quem decide quando e no que se quer aperfeiçoar, e que nos arriscamos a certificá-lo disso sem sequer lhe vermos a cara, é algo que a maioria dos agentes de formação não está preparada para reconhecer.

E depois há este meio por onde ele emerge. A verdade é que nos habituámos a olhar para a Internet como um espaço de distracção, da deambulação indisciplinada através de um vasto conteúdo informativo, de ócio e vício também, longe por isso de poder constituir e competir como um ambiente sério de aprendizagem. Estas plataformas que se oferecem por via da Internet, concorrendo com sites pornográficos, com motores de pesquisa que nos levam para onde já nem sabemos onde estamos ou porque estamos, onde nos distraímos com chats, e blogues (esta fica bem aqui), e outros instrumentos de lazer deriva dos nossos dias, tudo isso constituindo um excesso fútil e dispersivo de informação, é algo que está longe de constituir o ambiente circunspecto, concentrado e controlado que a formação exige.

E, nesse E-Learning, há ainda a questão da sua denominação inglesa. E sabemos bem o quanto isso para a maior parte de nós é visto como uma intrusão, como se nos quisessem impingir estrangeirices, como se a formação, e designadamente a sua componente comportamental, pudessem ser supríveis por supositórios informáticos importados sabe-se lá de onde. Como se as complexas etapas da aprendizagem pudessem ser substituídas por módulos de navegação on-line cobrados com cartões de crédito. Tudo isso só pode ser fruto de quem não lida, como nós, pedagogos com dezenas de anos de experiência, com os complexos processos de aprendizagem, e não revê neles a importância que o formador, centro do processo, ocupa no contexto presencial, sim, presencial, da mesma. E lá vêm as tiradas do costume como aquela: “ o que eu ouço esqueço, o que eu leio lembro, o que eu faço aprendo”. E claro que deixamos ficar outras por dizer, como a outra: “Quando os ventos de mudança sopram, uns levantam barreiras, outros constroem moinhos de vento”, que aqui não viriam a propósito.

E pronto, ficam assim lançadas as bases da desconfiança por parte de muitos dos agentes de formação. E mais uma vez, (e aqui coloco apenas como hipótese) o preconceito, e a questão vocacional, tendem a deixar de fora uma oportunidade para inovar. E mais uma vez, os processos de aprendizagem, e os seus agentes, obstinadamente, e reclamando-se dos seus pressupostos, menosprezam as oportunidades e as características que as ‘novas’ tecnologias arrastam, essas mesmas que arrastam os ‘novos’ formandos até elas.

Está criada a cisão. Os impulsionadores do e-learning, aqueles que ainda hoje detêm uma significativa fracção do mesmo, orientados para objectivos de mercado mais do que para as lógicas da aprendizagem, são na sua grande maioria organizações flexíveis, montadas num contexto vocacional estranho à formação, com uma dimensão transnacional e assentes em estruturas de trabalho virtual, e que têm como pilares da sua competência a produção de suportes multimedia e a gestão de grandes plataformas informáticas. Nessas organizações faltará combinar para além das facilidades tecnológicas que tão bem implementam as noções fundamentais do conhecimento da aprendizagem, a pedagogia, a experiência e o saber acumulado. Terá sido a falta destes predicados que levou durante alguns anos há baixa penetração do E-Learning, por quanto este continuava a ser ‘vendido’ como uma solução (digo bem, solução) concorrente da formação presencial.

Estas valias encontram-se do outro lado, do lado das organizações de aprendizagem instaladas, aquelas que detêm o saber e os modelos da aprendizagem, e que os tratam no contexto presencial, com base num saber acumulado milenar, e aparentemente imutável. Estas são por natureza organizações rígidas e conservadoras, que padecem do preconceito e da pouca permeabilidade para abraçar a mudança. E também estas, por isso mesmo, foram responsáveis pelo baixo índice de sucesso do E-Learning, justamente porque não o conseguiram e não quiseram assimilar. O E-learning tem assim sido vítima do simplismo do “é só meter a ficha”, essa perspectiva do negócio informático que hoje invade todos os domínios da nossa sociedade, e que em alguns casos o descredibiliza enquanto solução formativa, mas também do conservadorismo das organizações que lidam com o desafio da aprendizagem, e que por entre lamentos sobre a baixa adesão à formação (e lá vem a estatística a enunciar que são apenas 6% os activos que em Portugal a ela recorrem e blá blá blá), se continuam a mostrar quase imunes à mudança e ás alternativas de que dispõem e que podem construir.

Aliás, quase podemos generalizar, já que encontramos estas duas ‘forças’ quase sempre em contra-mão no processo da inovação e da implementação de novas tecnologias: de um lado o olhar pragmático, a inovação, a tecnologia, a displicência para com os conceitos que tratam, a orientação para o negócio, a agilidade, e em muitas das vezes o sucesso; do outro a experiência, a intransigência e o imobilismo de processos, a mais-valia da actividade, os conceitos, o alinhamento com a ética da actividade e o menosprezo para com os resultados da acção, o esforço e a advogância da razão; de um lado as novas gerações, do outro as gerações que ensinam, de um lado os que são de livres de escolher, do outro os que se lamentam das escolhas dos outros, de um lado o moderno, do outro o antigo. E vem a propósito um velho ditado (ficam sempre bem nestas coisas) que reza assim: “O mestre deve escolher o que diz, mas é quem ali está para o ouvir que escolhe a pedra em que se senta” – (bem, na verdade inventei-o agora, mas será que pega se disser que foi do Confúncio? Mal sabia o desgraçado quantos palavras já puseram a serem ditas pela boca dele).

Compete hoje às organizações e agentes de formação serem capazes de olhar para o E-Learning como algo que pode enriquecer a sua resposta. E esta questão nada tem a ver com a quebra dos conceitos pedagógicos, com as complexas infra-estruturas de informática, nem com disputas de mercado, como tanto se apregoa por aí. É possível as organizações tradicionais de formação integrarem harmoniosamente o e-learning nas suas respostas nos seus ciclos de formação presencial, seja durante (o blended learning) ou após a mesma (post learning) e com isso poder contribuir fortemente para algumas das grandes lacunas e lamentações dos nossos dias: permitir percursos/respostas de formação personalizados, alargar o raio de acção (geográfico) das organizações de formação, possibilitar mercados transnacionais, obviar os custos e o sacrifício de deslocações que tantas vezes é argumentado na renúncia à formação, emagrecer custos de concepção de conteúdos, criar ambientes altamente eficazes de partilha de know-how, potenciar novas formas de trabalho nas empresas que servem, etc, etc, etc. Para isso é fundamental que se deixem os preconceitos para trás, que se estude este fenómeno numa perspectiva de impacto na eficácia, e sobretudo que nos deixemos da leviandade de olhar para esta realidade a preto-e-branco, sem ser capaz de, com criatividade, de lhe encontrar novas matizes. . Entretanto o E-learning vai tomando inexpugnavelmente o seu espaço nos nossos dias. E poderá fazê-lo em disputa com os agentes tradicionais de formação ou através deles. Compete a estes decidir se este fenómeno é uma mera ameaça pueril ou um contributo para adequar os sistemas formativos à realidade dos nossos dias.

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Bem, a coisa se calhar até nem está mal … para introdução. Agora só falta mesmo é preparar a intervenção e deixar-me de discursos bacocos …

… enfim, levar o portátil para casa, o powerpoint ali à mão. Ai seca, começar tudo de novo !!!

Lá se vai o fim-de-semana. Também, quem me manda a mim só começar a pensar nisto numa 6ª feira, e logo a seguir ao almoço?! : (

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:15 PM | Comentários (7)

Esta mulher excepcional que além de levar com as idiotices dos outros chefes ainda tem de me aturar há décadas

- Então pague-se!
- Mas eles dizem que a factura tem de ir com data de 2006 !?
- Então não se pague!
- Mas eles dizem que se tem de pagar até final de 2005!
- Então pague-se!
- Mas depois como fazemos com a factura?
- Então não se pague!
- Mas …
- Pague-se!
- Masssss …
- Olhe, já fiz muitas transições de ano nesta casa. Já paguei, já despaguei, já paguei, já devolvi, já fiz estornos. As orientações são sempre escusas, as preocupações sempre imensas, e no fim o resultado foi sempre o mesmo: “não era assim”. Portanto pague-se ou não se pague, escolha. Jurei a mim mesmo que neste final de ano me vou apenas dedicar ao trabalho … efectivo.

[ora, vou mas é almoçar]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:36 PM | Comentários (4)

Terapia matinal

um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez um dia de cada vez

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:17 AM

novembro 10, 2005

Um blogue é isto

Longe de tudo, imune a todos, e tão próximo do que queremos realmente escrever.

Longe de todos, imune ao que realmente queremos escrever, e tão próximo de tudo.

Um blogue é isto

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:00 AM

novembro 07, 2005

O amor é … uma construção com cal e reboco,
ou uma noite de sexo em que a gripe se me pegou

[ Há uns dias li algures na blogosfera o tão costumeiro cântico do amor. Este fazia-se vincar por uma estrofe da Rita Lee: “Amor sem sexo é amizade, Sexo sem amor é vontade”. Vou lendo essas explosões de paixão, e acabo por ficar sempre acabrunhado, eu que continuo sem entender o que é isso do Amor. ]


Não percebo o amor, nem o ostento. Percebo o que é ter alguém a nosso lado, por quem cresce permanentemente a amizade e a admiração. E percebo o que é sentir por ela uma inesgotável vontade de sexo – sim, sexo puro, saciedade, troca de fluidos, orgasmos, as carícias que o envolvem, deleite – confesso, não conheço outro sexo, nem consigo neste incluir o ‘amor’ mas tão só esse fervor animal. Serei um amante incompleto, eu que não declaro o amor. Eu que apenas sei identificar a afeição e a carnalidade que nos move todos os dias ao encontro do outro. Eu que apenas sei que divido a minha vida com a única pessoa com quem quero, e tenho sexo com a amante que desejo. Nada nisto me transcende. É uma construção com cal e reboco. Uma dualidade simples e quase tangível de afectos e desejo. E isso já eu percebo.

Já do amor, esse que se sussurra, e que se escreve engalanado em versos, o amor que se jura, o amor que se envergonha do estrito prazer carnal, essa abstracção que se agita e que me confunde, dele pouco sei. Sei que tê-lo, ao ‘amor’, como a definição (exigência) de uma relação ... é uma incauta maneira de nos tentarmos explicar, e incauto é já querermos explicar-nos - Declamamos algo que é maior que nós, e gritamos a dois esse grito que não tem som, talvez até receosos, como quem teima em lançar para longe o seu fim, lá nesse dia onde a paixão, esse “amor/desejo” de hoje, se acabará por consumir.

Não percebo o ‘amor’, nem preciso dele para exclamar a relação que tenho. Pode ser que ele esteja mesmo aqui. Que o veja entre duas coisas simples, como esta gripe que agora sinto e que bebi dela numa noite de sexo, e esta outra, a satisfação que encontro em mim por poder imaginar que assim a tirei (à gripe) um pouco dela. Entre o desejo e o afecto, o meu amor não consegue ir além disto. Nem corre o risco de um dia o não ser.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:00 PM | Comentários (14)

Já que aqui se trata de amor sexo,

e assumido que está o risco deste blog se fazer avançar para tão polémico tema, recomendo vivamente este hilariante diálogo, o qual retrata a liberalização do discurso sobre a sexualidade, sentado na mesa de um ‘comum’ serão familiar.

(que aqui transcrevo na íntegra para a posteridade)

Pais e filhos devem conversar abertamente sobre sexo?

Nada mais apavorante do que essa estória de que os pais devem conversar abertamente sobre sexo com seus filhos. Só de começar a pensar no assunto, sinto meus cabelos arrepiarem.
O que os pedagogos, os psicólogos, médicos, jornalistas, ou seja lá quem for que diz isso, querem dizer? Aonde o mundo vai parar?
Querem que conversem abertamente sobre sexo. Então vamos lá:

É de manhã, a família está à mesa. Todos estão comendo. O pai, enquanto passa a manteiga no pão, pergunta à sua filha:

- Chegou tarde ontem minha filha, você sabe que isso não é bom. Tem vestibular no final do ano. Você precisa estudar.
- Mas pai, eu também preciso de me divertir. E ontem eu só cheguei tarde porque meu namorado ejaculou antes de eu gozar. Então eu tive que esperar a segunda, foi quase uma hora para ele ficar excitado de novo. E não pensa que foi fácil. Foi só com boquete...~
- Sexo oral minha filha, olha o respeito, estamos à mesa.
- Ai, pai, deixa de ser careta.
- Minha filha, respeita seu pai - diz a mãe. Ele não quer escutar essas palavras feias em casa.
- Tá bom.
- E chupeta?
- Chupeta passa. Se quiser se referir ao sexo oral como chupeta, aí pode.
- Então, como eu tava dizendo, foi só com uma chupetinha que o bichinho ressuscitou.
- Aí você gozou, né minha filha? - diz a mãe, fitando a filha e piscando os olhos com ternura.
- Você acredita que não, mãe.
Nisso, o pai intervém, diz, balançando a cabeça com ar de reprovação:
- Já disse, minha filha, esse seu namorado é muito bonzinho, mas é ruim de serviço.
- Ai, pai, larga disso. Sexo não é tão importante assim. Eu amo ele.
Aqui, a família inteira cai na gargalhada. A filha fica brava:
- E você pai que tem que ficar usando viagra para dar conta da mamãe.
Ao escutar estas palavras, o filho mais velho vem em defesa do pai.
- Mentira. Você sabe que o papai come a mamãe toda a noite, não é verdade mamãe.
- É meu filho. E cada dia a gente varia a posição. Ontem mesmo nos passamos quase duas horas fazendo um sessenta e nove. Mas a posição que eu mais gosto é o frango assado. Mas ontem ficamos só nas preliminares até seu pai ejacular na minha garganta. Acho até que foi isso que deixou minha garganta meio inflamada hoje. Acho que vou prepara um chazinho para mim antes de visitar sua avó.
A filha mais nova, que também está na mesa, quer entrar na conversa.
- Eu dei a bunda ontem.
- Mas, minha filha, você não está muito nova para isso não.
- Não mamãe. Eu já tenho dez anos de idade e nunca fiz nem sexo anal. Todas as minhas amiguinhas já fizeram, menos eu.
O pai, depois de escutar isso, sussurra na orelha da mãe: "É melhor a gente estimular, senão depois ele vai ficar deslocada dos amiguinhos".
- Que legal filhinha. Depois eu vou te dar um KY novinho para você brincar com os seus amiguinhos.
- AÊÊ! Uipi! E o natal tá chegando. Eu quero um vibrador da XUXA, todo colorido.

Pelamor de Deus! Nem eu aguento mais continuar essa estória. E não adinta boquejar: isso é a verdadeira conversa franca entre pais e filhos. Espero não estar viva quando este dia chegar.”

In Santaputa

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:43 PM | Comentários (1)

novembro 04, 2005

“fiquei surpreendida com o que conheci de ti, não te fazia assim”

As pessoas não escrevem como falam, não falam como pensam, nem pensam como escrevem, apesar de em cada um destes planos expressarem um pouco de si próprias.  Se conseguirem contudo cuidar destas três formas de ser, talvez se possam sentir mais próximas do que verdadeiramente são.  É por isso que é bom escrever.  É por isso que quando o não podemos fazer nos sentimos mais vazios, como se desperdiçássemos cá dentro alguém mais, assim silenciado, ensimesmado no meio da enorme algazarra que exaltam as outras duas partes de nós. 

 “nem eu I., nem eu me fazia assim”

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:51 AM | Comentários (12)

novembro 02, 2005

proximizades.JPG

"No mundo em brutal aceleração em que vivemos hoje, escasseia o tempo para pararmos um pouco para reflectir em situações que nos rodeiam, de forma mais ou menos próxima / mais ou menos afastada, relacionadas com pessoas carenciadas, sem voz que permita dar expressão às suas necessidades mais básicas.

Por este motivo, procurando lutar contra o "cultivo da insensibilidade" que de alguma forma se vai instalando, um conjunto de "bloggers" decidiu reunir-se num projecto comum ("Proximizade"), visando potenciar as virtudes da blogosfera, no sentido de "aproximar uma mão amiga" (que será a de todos os que decidam de alguma forma apoiar / colaborar com este projecto) dessas pessoas carenciadas.

Como primeiro gesto prático e concreto, o "Proximizade" começou por "apadrinhar" uma criança carenciada em Moçambique, a Berta, de 3 anos."

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:00 AM