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outubro 11, 2005
O que está para além do: "Quando mija um português mijam logo dois ou três" ?
Vejo-os aos três (pairou por cá um amigo do Francisco, este fim de semana) na sala da televisão em amena cavaqueira enquanto jogam ‘playstation’. Falam, falam, falam. A discussão está ao rubro quando dois deles argumentam sobre os dotes do Van Nistelroy e o seu papel fundamental no Manchester, equipa que o Diogo escolheu e que por essa razão lhe terá trazido vantagem. Apesar da velocidade supersónica com que saltam de tema para tema, aqui da outra sala consigo acompanhar-lhes as notas de fundo (o facto de poder auscultar a conversa deles e de esta ser para mim minimamente inteligível é um aspecto fulcral para tudo o que se seguiu).
Em determinada altura reparo que um de cada vez se vai levantando, sem que a algaraviada se interrompa. É aí que noto (tenho a certeza disso) que em momento algum se interpôs na acelerada conversa, uma expressão, gesto, ou insinuação que fosse, que indiciasse a intenção de subitamente se erguerem. Pensei na altura que isso não seria assim tão estranho, que eram reacções maquinais, réplicas de gestos que podem bem acontecer quando as pessoas estão suficientemente absorvidas em alguma coisa – e os miúdos quando conversam estão absolutamente absorvidos – as recorrentes interjeições do “tá bem pai já vou” a que se sucede “mas eu nem ouvi chamarem-me” são bem prova disso. Ainda assim ficou-me uma nota de curiosidade, o bastante para passar a segui-los com mais atenção.
Vejo-os então encaminharem-se na direcção da sala em que me encontro sem que tivessem interrompido a algazarra que agora versa o jogo da selecção nacional e a caricatura do Ricardo vestido de frango. Aqui a minha surpresa torna-se maior. Posso garantir que não proferiram uma única palavra entre eles que os pudesse trazer ao subentendimento da razão, do destino, que seguem agora. E lá vão, já passados por mim, a dobrar a esquina do corredor, quase se atropelando uns aos outros. Não resisto e sigo-os por ali fora, sem os perder de vista.
Lá no fundo tudo continua a acontecer da mesma forma maquinal, cúmplice até, numa tal harmonia com que repartem os pequenos gestos que têm de fazer que, dir-se-ia, seguem um guião. Tudo se passa num ápice, como se fosse um único e fluido movimento, como se os três fossem parte da mesma criatura: o Francisco empurra a porta da casa de banho, o Diogo intromete-se primeiro e levanta a tampa da sanita, e já o amigo se desembrulha com a braguilha. Nada, mas absolutamente nada foi trocado entre eles desde há uns minutos atrás, quando ainda estavam agarrados aos controlos do jogo até agora, momento em que atónito os vejo, ao mesmo tempo, numa mesma vontade que contudo nunca precisaram que fosse declarada entre si. Na minha frente lá os vejo gesticular por entre palavras enquanto distraidamente as suas fiadas de urina se cruzam e deambulam em diagonais douradas que tilintam na zona côncava da retrete.
Entretanto interpõe-se no meu raio de visão a Eufigénia que os apanha em pleno disparate: “Francamente mas que ideia é essa de virem os três ao mesmo tempo à casa de banho? Não se está logo a ver que isso vai dar asneira ?! E depois há-de vir alguém limpar não é?”, e virando-se para mim: “ E tu Eufigénio, aí especado, não podias ter repreendido os miúdos antes do disparate acontecer”. Talvez porque eu nem insinuasse articular palavra, e porque estava obviamente demasiado perplexo para intervir, voltou-se de novo para eles, e insistia “Mas que ideia foi essa de virem logo os três, expliquem-me?”.
E continuo observando aquela misteriosa simbiose de gestos que se desenvolve de forma tão implícita entre eles. Ainda agora, apanhados em flagrante reagem como se fossem um só corpo, ou melhor, como se fossem três corpos controlados por um mesmo instinto, uma mesma vontade: Enquanto o Francisco descarrega o autoclismo e o amigo tenta compor o “disparate” fechando a tampa da retrete, já o Diogo os justifica aos três: “Oh mãe, apeteceu-nos fazer xixi!”. E a mãe já irritada. E eu absorto sem conseguir explicar-lhe o extraordinário da situação. Pois já ela incrédula, voltando a sua exaltação para mim, que “pareço um miúdo, um deles, que ás vezes não ajudo nada”. E já aí os desafiava de novo a explicarem-me como é que tinham combinado chegar até ali, assim tão subitamente, e ao mesmo tempo, e sem sequer terem conversado entre eles. Obtive um simples encolher de ombros, um nada mais a acrescentar a algo que para eles era absolutamente natural, e a mesma resposta desinteressada de quem não percebeu sequer o alcance da minha pergunta: “então, apeteceu-nos fazer xixi”.
A mãe cada vez mais irritada comigo, e com razão que assim não estava a ajudar nada, e eu querendo prestar-lhe atenção, a querer redimir-me mas incapaz de tal. Na minha cabeça continuava a ribombar a mesma pergunta: “Porque idade é que os homens perderão esta tão admirável capacidade de agirem como um todo?”, e sem resposta, a lamentar a perda desta qualidade do inconsciente dos homens, algures na sua adultidade, e a pensar em como tão diferente poderia ser o mundo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às outubro 11, 2005 07:50 PM
Comentários
Há coisas assim... Talvez se lhe chame cumplicidade
Publicado por: sofia em outubro 12, 2005 10:50 AM
Há mais que isso Sofia. Um estranho processo comunicacional que perdemos depois quando crescemos. Repara bem em grupos de crianças, nas decisões que tomam, na forma como se articulam com as brincadeiras, sem que para isso precisem de conversar entre si. É mais que isso, digo
Publicado por: Eufigénio em outubro 12, 2005 11:21 AM