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outubro 21, 2005
Há memórias que não se escrevem
Por vezes escrevo para me deixar conduzir numa viagem às minhas memórias. Coisas lá deixadas pelos outros, do eu que fui com eles. E quando escrevo chego a apoderar-me de alguns gestos seus – alcanço-lhes até a forma das mãos nas conversas mais arrebatadas, ou um tique no andar, as hesitações no rosto antes de uma inconfidência – e aos poucos, nessas pequenas coisas os vou reencontrando. E porque continuo a escrever, vai-me chegando mais deles, e com o que me chega recomponho fragmentos das nossas conversas, e com estas, meticulosamente, interligo e reconstruo alguns dos momentos que passámos juntos. Escrevo porque consigo criar a ilusão de os visitar.
Hoje apetecia-me escrever sobre ele. Mas não o vou tentar. Aliás, faltou sempre o texto que eu poderia ter escrito sobre ele, e acho que o vou deixar sempre por escrever - há em mim um diálogo interrompido que não se troca por saudades, e que não ouso reinventar, que trazê-lo para mais perto era perdê-lo, mesmo que assim incompleto. Há coisas que vivem apenas na dimensão das coisas que se sentem. São lugares que não se escrevem. Na minha infância, lá onde vive, e agora comigo, e nos meus filhos, no que eu quero ser com eles, e assim no meu futuro. Em todos estes lugares o sinto presente, nestes lugares que não são só meus. Por isso nunca os saberia escrever sozinho.
Hoje apetecia-me escrever sobre ele, mas não sei, e acho que não o quereria saber.
Publicado por Eufigénio Lagoa às outubro 21, 2005 12:55 PM
Comentários
E eu agora apetecia-me dar-te um beijo, pelo que não escreveste o que te apetecia escrever sobre ele, mas não sabes, e achas que não o quererias saber.
Publicado por: Luna em outubro 21, 2005 02:47 PM
Mas acabaste por escrever: nos espaços de silêncio.
Publicado por: catarina em outubro 21, 2005 02:52 PM
Beijinho
Publicado por: sofia em outubro 21, 2005 03:18 PM
Eu gostop de voltar às minhas memórias. Ao meu passado e a tanta coisa que por lá anda. As pessoas que amei e me amaram, mesmo aquelas pequenas coisas dolorosas e, que na altura me magoaram, mas que agora filtrado o "veneno", encontro em mim com carinho. Passagens de mim, do que fui, do que sou... são as minhas memórias. E gosto delas! E, gosto de escrev~e-las...
Gostei de ler-te.
Um abraço e bom fim de semana :)
Publicado por: Menina_marota em outubro 21, 2005 04:29 PM
:)
Como referiu a Catarina, dizes-te-nos muito sobre ele: o essencial. Mereces um abraço daqueles. ;)
Publicado por: cap em outubro 21, 2005 10:00 PM
Ei amigo, gostei deste bocadinho onde fizeste renascer as águas ( dolorosas?) da memória.
Gostei muito da tua sensibilidade. Bem haja que sejas sempre assim, pois só assim vale a pena TUDO.
Uma boa semana para ti.
Aquele @bração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em outubro 23, 2005 03:02 PM
Não sei 'recomentar-vos' ... obrigado
Publicado por: Eufigénio em outubro 24, 2005 12:01 PM
Dá a teu filho bom nome e bom ofício.
Publicado por: bil em agosto 17, 2006 11:59 PM
mereces um abraço, sim.
Publicado por: jpn em agosto 20, 2006 01:11 PM