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setembro 29, 2005
IV - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
Aviso prévio do Autor: Caro leitor, antes que venha ao engano deixe-me dizer-lhe que isto não é um post. Na verdade, embora tenha começado por ser um episódio real que aconteceu comigo, e apesar de ser uma narrativa que se contaria com meia dúzia de palavras, tem vindo a sofrer uma tal dilatação que agora, já na 4ª parte, (e sem que lhe veja fim), acabou por se transformar numa espécie de exercício aeróbico para as minhas falanges. Desista. Caso contrário repudiarei acusações futuras de que encharco os leitores com texto a metro, a pretexto de encetar narrações que depois nem tenho o decoro e a consideração de finalizar. Se não estiver ainda convencido do bom senso do meu conselho deixe-me só informá-lo: este post tem exactamente 8287 caracteres … ora vê !?
A sala para onde me mandaram entrar era ampla e todo o seu ambiente combinava com o ar de “estado novo” que o exterior do edifício ostentava. O mobiliário, escasso e austero, dividia-se simetricamente por cada um dos cantos na diagonal da sala. Nestes dois vértices concentrava-se tudo o que ali existia: as estantes, enormes, duas usadas secretárias de chapa esmaltada, papeis, gavetas para despacho, agrafadores, cinzeiros de cerâmica repletos de beatas e do cheiro de cinza fria, copos com designações comerciais de onde floriam as pontas de inúmeras canetas de oferta, um retrato emoldurado de uma família num dia festivo, outro com um bebé obeso e sorridente, e mais papéis. No meio desta amálgama de ‘clichés’ de escritório, destacavam-se incontáveis processos - alguns em pastas de cartão canelado, outros ataviados com um baraço de cordel - que se encavalitavam sobre as mesas de trabalho, e já para além destas, em cada um dos armários que lhes ficavam por trás, e que estes, já a abarrotar dos mesmos e arqueados de tanto peso, derramavam no chão em seu redor. Além destas duas áreas onde se concentrava todo o rol de coisas, quase nada mais ali havia. O resto da sala era um espaço enorme não ocupado, despido de qualquer ornamentação e funcionalidade, e onde apenas se encontravam duas velhas cadeiras de madeira. Foi numa delas que pediram para me sentar.
Recordo-me como fiquei surpreendido com o que assim encontrei. Tinha no meu imaginário que um Agente da Judiciária era um arguto “homem de acção”, ao jeito do “Colombo”, e que a última coisa que sabia e queria fazer na vida era lidar com burocracia, e afinal esse suposto local de temerárias investigações parecia-me mais uma poeirenta repartição de finanças. A segunda reacção veio de chofre e deixou-me atónito e desconcertado por alguns instantes. A outra cadeira era ocupada pela minha alucinada acusadora. Sentei-me como se não fizesse caso, e nem mesmo quando a porta se fechou me tentei a cumprimentá-la, pouco me importando de não disfarçar os efeitos daquela contrariedade. Já ela, acabrunhava-se com a minha presença, minguando na cadeira, fazendo-se ainda mais pequena do que na verdade já era. Nem pestanejava. Mordia os cantos dos lábios acentuando as feições aduncas, mas os seus olhos míopes fixavam-se apáticos no chão.
Notoriamente embaraçado, e procurando aquietar-me, resvalei primeiro o olhar pelo mobiliário, deixando-o depois correr para além das janelas, por sobre a copa dos choupos que lá fora quase tapavam o céu, acentuando ainda mais o ar penumbrento do gabinete. Neste volteio acabei por me aperceber que numa das paredes, a da minha direita, se estendia a todo o comprimento uma enorme vidraça. O facto de se encontrar de viés levara-me a que não me tivesse apercebido dela quando entrara, mas agora, que a tinha descoberto não podia deixar de notar os dois polícias que no gabinete contíguo mal-disfarçavam uma qualquer ocupação com os seus afazeres. Era óbvio que se pretendiam propositadamente conspícuos, e que nós, ali sozinhos, não havíamos sido deixados ao acaso. Tudo isso fazia parte de uma estratégia de observação que se baseava em patrocinar a nossa confrontação, a partir da qual aspiravam estudar-nos sem que para isso pretendessem dissimular a sua presença do outro lado da sala. Do que viam pouco haveria a registar, já que a L. se mantinha soturna e de olhar hipnotizado, enquanto eu, atento agora às suas duas figuras recuadas, experimentava uma postura contorcida e desajeitada que nem o olhar de soslaio que lhes lançava conseguia dissimular. Provavelmente isso emprestava-me um ar hirto e constrangido, o que apesar de tudo poderia ser considerado pouco suspeito se fosse tida em consideração a curiosidade e o suspenso da singular situação em que me encontrava.
Mas, naquele forjado momento de espera, ao invés de cultivar a serenidade que se justificaria num inocente, acabei por não conseguir evitar o regresso tumultuoso das minhas cogitações. Num ápice, toda a panóplia de suposições que já anteriormente me tinham percorrido, apoderaram-se de novo de mim. Tudo o que tinha antecipado, as perguntas, as insinuações, as minhas fundamentações, a evidencia do estado demente da minha acusadora, nada do que tinha congeminado me havia preparado para este truculento interregno. Aqui esperavam que reagisse, mais do que o que pudesse articular. Entre a espontânea agressividade que me tinha provocado a presença dela ali, e a contenção que toda a situação me recomendava, voltaram aos poucos todos os pormenores inquietantes da minha figuração. Sabia que todos os meus gestos - a calmitude ou a irritação, a moderação ou a agressividade, a atrapalhação ou a serenidade – qualquer reacção que manifestasse perante aquele confronto, estava a ser observada e interpretada, e que daí poderia provir a convicção deles sobre a minha inocência, ou culpabilidade. Tinha ouvido dizer que são os primeiros segundos que determinam os juízos que se fazem dos outros. E eu, que tinha tão meticulosamente listado todas as minhas prelecções argumentativas, não estava simplesmente preparado para a confrontação que me haviam preparado. Forcei-me a repetir várias vezes para mim mesmo que era eu o inocente, e que rapidamente se veria demonstrado que aquela mulher era simplesmente louca. Era importante que tivesse sempre isso presente, e que o nervoso que começava a sentir neste matreiro início do processo de interrogatório não viesse sobrepor-se a esta minha condição. Era de facto inocente, mas rocambolescamente não me sentia como tal.
Entretanto, todos estes inquietantes pensamentos foram subitamente interrompidos. Nas nossas costas abriu-se a porta e alguém chamou pelo nome dela. Nem pestanejou. Mantinha a impavidez nervosa com que a encontrara, como se nem tivesse ouvido o chamamento. Depois, e sem que tivesse sido chamada de novo, num gesto absolutamente desfasado, levantou-se com um ar indignado e empoeirado e desapareceu nas minhas costas. Satisfez-me ver-lhe - ainda que ténues - sinais de insanidade na forma como reagiu ao chamamento, e desejei ardentemente que isso não tivesse passado despercebido a quem a houvera chamado. A L, apesar de ter um olhar arredado, uma fisionomia soturna, e vestisse como se tivesse emergido do século passado, aparentava apesar disso ser uma pessoa normal. No máximo poder-se-ia concluir que era uma personagem nevrótica vestida de uma indescritível fealdade, mas isso não fazia dela uma pessoa estranha. Revia agora a dificuldade que tivera em desconvencer os meus colegas acerca das insinuações descabidas que já antes ela tentara junto deles. Era uma pessoa profundamente reservada, quase muda, e por isso particularmente imperscrutável, e que por mais estranha que parecesse mantinha as suas capacidades intelectuais em boa forma - aliás confirmadas nos resultados académicos que nós colegas íamos testemunhando - pelo que, convencer alguém do seu estado de demência era algo que já confirmara não ser líquido. Sabia por isso de antemão que a comprovação da sua insanidade, por quem (ao contrário de mim) não tivesse sido vítima dos seus desvarios, era bastante improvável, razão porque me regozijava destes pequenos desmanchos da sua personalidade com que pensava poder capitalizar um juízo final favorável por parte dos agentes que nos auscultavam.
Por outro lado, receava que nada disso fosse assim tão notório, e que a base da minha inocência, baseada na constatação do seu frágil estado mental, pudesse nunca vir a ser uma evidência no juízo dos imprecatados (achava eu) agentes do interrogatório. Mas desta feita não tive o tempo bastante para matutar em mais esta nova inquietação. A porta abriu-se de novo, e pela mesma entrou de rompante um Agente de camisa amarrotada e ar bafiento e com cara de poucos amigos. Nada disse. Encaminhou-se para o armário que havia por trás da secretária para onde eu estava virado e retirou de cima de uma pilha de processos uma velha máquina de escrever que pousou carinhosa e lentamente em cima da mesa. De seguida, abriu uma gaveta e retirou de lá umas folhas de papel-químico que entrelaçou noutras brancas, e com a meticulosidade de um escriba ajustou-as no rolo. Entregou-se então a uma pequena pausa, comprazido, como quem se congratula de ter tudo preparado, e encarando-me com um modo absolutamente indiferente, começou: “Nome completo? ”
Durante uma boa meia hora foi registando maquinalmente os restantes dados cadastrais, onde se intrometia o trautear lento e compassado das teclas da sua pachorrenta máquina de escrever. Apenas o claque-claque, entrecortado pelo correr do carreto no fim de cada linha. A tudo fui respondendo, primeiro algo nervoso, depois com profundo enfado, e finalmente já irritado com tamanha falta de curiosidade, já que sobre o caso em mãos nem sequer tinha tentado qualquer avanço. Foi quando percebi que aquele homem semi-adormecido nada tinha a ver com os investigadores dinâmicos que eu conhecia dos filmes, e que seguramente não tinha havido nem iria haver nenhum interrogatório truculento ou qualquer outra manha policial que fosse para além do toque diligente com que alinhava as folhas sobre a sua direita. Perante tanta inépcia já não me sentia culpado nem inocente de nada, nem tão pouco recordava já o rol das inverosímeis acusações que me tinham trazido até ali, ou as dificuldades que tinha antevisto para provar que a L. era simplesmente maluca. A meio daquele improfícuo registo de dados já eu estava convicto que, apesar de ali ter chegado de manhã, iria passar todo o restante dia defronte daquele matraquear amolecido. Por vezes ainda me recordava da razão que me levara até ali, para acabar por concluir de novo que, apesar da aparência daquela inofensiva lassidão em que estava submergido, provavelmente estaria metido num molho de brócolos.
(…) <-- continua, claro
Publicado por Eufigénio Lagoa às setembro 29, 2005 12:43 AM
Comentários
E eu a pensar que hoje já se desvendaria o caso...
Mas nada disso - fica o impasse a curiosidade.
(Eufigénio, dá para antever o nº de episódios ou nem por isso?)É que fico mesmo curiosa ;)
Bom dia
Publicado por: sofia em setembro 29, 2005 10:11 AM
Bom dia Sofia, os meus sinceros parabéns pela persistência que te levou até aqui (creio que deveremos ser os únicos :) )
Quanto ao resto da história ... quem me dera saber! Na verdade já não há muito mais a contar ... mas compreenderás que estando há 7 anos nesta prisão, sem nada com que passar o tempo, prolongar tanto quanto possível esta história é uma forma agradável de passar o tempo ;)
Publicado por: Eufigénio em setembro 29, 2005 10:18 AM
A acção que a televisão nos vende em filmes e séries omite a parte pachorrenta com que te viste confrontado: «Apenas o claque-claque, entrecortado pelo correr do carreto no fim de cada linha.» (esta frase é uma delícia).
Publicado por: maria árvore em setembro 29, 2005 10:44 AM
E esqueci-me de dizer que creio haver muitos leitores habituais e assíduos mesmo que nenhuma palavrita escrita se lhes descaia aqui para a caixa. Porque a maior precentagem de leitores do meu blog chegam direitinhos daqui.
Publicado por: maria árvore em setembro 29, 2005 10:46 AM
Olá Maria A. Devem ser os que ao abrirem este post e ao darem de caras com tantas letras zarpam para paragens mais aprazíveis.
Publicado por: Eufigénio em setembro 29, 2005 10:54 AM
que delicia...espero ansiosamnte pelos próximos capitulos. Sou masoquista, gosto muita destas tuas estórias.
Publicado por: Luna em setembro 29, 2005 12:36 PM
Eufigénio,
aproveita a maré e conta a história em mais capítulos, desfraldando como vela umas imagens refrescantes de corpos semi-desnudos como a L. os imaginaria.
Porque «para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo»... ;)))
Publicado por: maria árvore em setembro 29, 2005 03:30 PM
Já escreveste a continuação?
Vá lá, despacha-te com isso! Ou estás numa "pachorrenta máquina de escrever"?
Publicado por: bill em setembro 29, 2005 04:00 PM
Se eu consegui ler o processo do Kafka, também vou conseguir ler isto até ao fim.
Publicado por: a em setembro 29, 2005 05:49 PM
Eu também sou (masoquista) Luna, gosto muito de as escrever
Estás a propor que retalhe um pouco mais as minhas memórias M. Arvore? Não iria essa maior intermitência provocar ainda mais ansiedade nesta lama de letras?
Caro Bill, posso assegurar-te que isto aqui não é um pronto-a-vestir. Tudo o que aqui vês é feito na hora, com as melhores farinhas do bairro. E fresquinho, que não tem mais do que as horas em que à noite se lhe deita o fermento, e aqui de dia se põe no forno.
Que lisonjeira querida A. Se isto já empastela para quem não lhe conheça ainda o fim, faço ideia do que será para ti que (não estou a insinuar que sejas a L.) já lhe sabes o desfecho.
Publicado por: Eufigénio em setembro 29, 2005 07:23 PM
Continuas a insistir que sou louca? Que foi tudo um devaneio da minha fértil imaginação? Um desejo latente, não satisfeito? ;)
Publicado por: L. em setembro 29, 2005 08:34 PM
;) Qual Agatha Christie, Patricia Highsmith, ou qualquer outro consagrado autor policial ... nenhum me prende tanto a atenção. :))
Publicado por: Karla em setembro 29, 2005 08:43 PM
Isto está interessante!...
Publicado por: re21 em setembro 29, 2005 09:06 PM
Ansiedade é só desejo de ler-te em cada linha de memória desabada em gramática de frases irrepreensível apesar das emoções sentidas como «uma personagem nevrótica vestida de uma indescritível fealdade» até à inovação dos comentários corridos.
( e mea culpa, mea culpa, mea culpa que se escreve «percentagem»)
Publicado por: maria arvore em setembro 29, 2005 10:12 PM
Eufigénio,
ouvi dizer que estavas de volta e vim logo cá.
E devo dizer-te que estou a adorar esta descrição. Melhor ainda é lê-la durante um jogo do Sporting, é bastante mais excitante... ;-)
Publicado por: Jorge Morais em setembro 29, 2005 10:50 PM
Ai! isto promete...
Publicado por: Luna em setembro 29, 2005 11:21 PM
Eufigénio,
aquele comentário ao jogo de Sporting foi sem querer, não sabia que aquilo estava a correr tão mal. E apesar de benfiquista, sou sempre pelas equipas portuguesas nas competições europeias.
Publicado por: Jorge Morais em setembro 30, 2005 12:34 AM
Oh Sr. Agente, olhe a L.!!! Vê, vê que é ela sempre que começa?
Pois a mim já são os dedos que se me prendem Karla, e o pior é que não vislumbro a hora de sair daquele prédio penumbrento e arrumar a caneta deste caso
Re21, deve ser do pós-férias, essa expectativa toda (eu quer já cheguei uns dias – poucos – antes, já não vejo assim tantas pontas por onde possa pegar nesta coisa
Publicado por: Eufigénio em setembro 30, 2005 01:14 AM
M. Arvore, serei sincero: essa "inovação dos comentários corridos" é-me perfeitamente estranha. Acho que é por culpa da nova versão do MT e do wysiwygsejaláoqueissofor que puseram nisto. Agora essa da "percentagem" é que não percebi bem (continuamos a falar do processo de retalho da história? sugeres talvez uns 20% de cada vez?)
Jorge Morais, só assim posso desculpar tamanha estocada. E eu como bom sportinguista masoquista até fiz questão de ir sofrer a coisa ao vivo e tudo.
Não tenho tanta certeza disso Luna (mas entretanto sempre se vai desentorpecendo os dedos não é ;) )
Publicado por: Eufigénio em setembro 30, 2005 01:19 AM
Sugiro pelo mesno 25%. Sempre dá um quarto para guardar a história. :)
Publicado por: maria arvore em outubro 1, 2005 02:04 PM
WYSIWYG - What You See Is What You Get
WYSINEWYG - What You See Is Not Exactely What You Get
WYSIY - What You See Is Yours
P.S. A última não é uma sigla informática
Publicado por: Jorge Morais em outubro 1, 2005 03:20 PM