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setembro 30, 2005
A Memória Inventada
Está mal Vasco. Partir assim é quase como se subitamente se esvaziassem parte das minhas Memórias. Ficam os meus sinceros agradecimentos pelas viagens em que essa escrita me lançou, e os desejos de voltar a sentar-me nessa deliciosa máquina do tempo (talvez lá para Janeiro? Eu espero). E tenho ainda tanto aí para ler … que não desfaço o caminho.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:56 AM | Comentários (6)
Chego ao fim de um mês
Como cresceu ! Que bem cresceu! Vai ser certamente muito maior que eu
… e em altura também.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:08 AM | Comentários (3)
ArteMínima
(e ao vivo ainda doeu mais)
Zezé, como eu não sou um fanático clubista como tu, sempre posso dizer que se eles não põem aquele gajo na rua já hoje, mudo-me para o restelo!!
PS: Abraquê?? abracinhos depois daquilo? pronto, Mudei-me !!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:59 AM | Comentários (10)
setembro 29, 2005
IV - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
Aviso prévio do Autor: Caro leitor, antes que venha ao engano deixe-me dizer-lhe que isto não é um post. Na verdade, embora tenha começado por ser um episódio real que aconteceu comigo, e apesar de ser uma narrativa que se contaria com meia dúzia de palavras, tem vindo a sofrer uma tal dilatação que agora, já na 4ª parte, (e sem que lhe veja fim), acabou por se transformar numa espécie de exercício aeróbico para as minhas falanges. Desista. Caso contrário repudiarei acusações futuras de que encharco os leitores com texto a metro, a pretexto de encetar narrações que depois nem tenho o decoro e a consideração de finalizar. Se não estiver ainda convencido do bom senso do meu conselho deixe-me só informá-lo: este post tem exactamente 8287 caracteres … ora vê !?
A sala para onde me mandaram entrar era ampla e todo o seu ambiente combinava com o ar de “estado novo” que o exterior do edifício ostentava. O mobiliário, escasso e austero, dividia-se simetricamente por cada um dos cantos na diagonal da sala. Nestes dois vértices concentrava-se tudo o que ali existia: as estantes, enormes, duas usadas secretárias de chapa esmaltada, papeis, gavetas para despacho, agrafadores, cinzeiros de cerâmica repletos de beatas e do cheiro de cinza fria, copos com designações comerciais de onde floriam as pontas de inúmeras canetas de oferta, um retrato emoldurado de uma família num dia festivo, outro com um bebé obeso e sorridente, e mais papéis. No meio desta amálgama de ‘clichés’ de escritório, destacavam-se incontáveis processos - alguns em pastas de cartão canelado, outros ataviados com um baraço de cordel - que se encavalitavam sobre as mesas de trabalho, e já para além destas, em cada um dos armários que lhes ficavam por trás, e que estes, já a abarrotar dos mesmos e arqueados de tanto peso, derramavam no chão em seu redor. Além destas duas áreas onde se concentrava todo o rol de coisas, quase nada mais ali havia. O resto da sala era um espaço enorme não ocupado, despido de qualquer ornamentação e funcionalidade, e onde apenas se encontravam duas velhas cadeiras de madeira. Foi numa delas que pediram para me sentar.
Recordo-me como fiquei surpreendido com o que assim encontrei. Tinha no meu imaginário que um Agente da Judiciária era um arguto “homem de acção”, ao jeito do “Colombo”, e que a última coisa que sabia e queria fazer na vida era lidar com burocracia, e afinal esse suposto local de temerárias investigações parecia-me mais uma poeirenta repartição de finanças. A segunda reacção veio de chofre e deixou-me atónito e desconcertado por alguns instantes. A outra cadeira era ocupada pela minha alucinada acusadora. Sentei-me como se não fizesse caso, e nem mesmo quando a porta se fechou me tentei a cumprimentá-la, pouco me importando de não disfarçar os efeitos daquela contrariedade. Já ela, acabrunhava-se com a minha presença, minguando na cadeira, fazendo-se ainda mais pequena do que na verdade já era. Nem pestanejava. Mordia os cantos dos lábios acentuando as feições aduncas, mas os seus olhos míopes fixavam-se apáticos no chão.
Notoriamente embaraçado, e procurando aquietar-me, resvalei primeiro o olhar pelo mobiliário, deixando-o depois correr para além das janelas, por sobre a copa dos choupos que lá fora quase tapavam o céu, acentuando ainda mais o ar penumbrento do gabinete. Neste volteio acabei por me aperceber que numa das paredes, a da minha direita, se estendia a todo o comprimento uma enorme vidraça. O facto de se encontrar de viés levara-me a que não me tivesse apercebido dela quando entrara, mas agora, que a tinha descoberto não podia deixar de notar os dois polícias que no gabinete contíguo mal-disfarçavam uma qualquer ocupação com os seus afazeres. Era óbvio que se pretendiam propositadamente conspícuos, e que nós, ali sozinhos, não havíamos sido deixados ao acaso. Tudo isso fazia parte de uma estratégia de observação que se baseava em patrocinar a nossa confrontação, a partir da qual aspiravam estudar-nos sem que para isso pretendessem dissimular a sua presença do outro lado da sala. Do que viam pouco haveria a registar, já que a L. se mantinha soturna e de olhar hipnotizado, enquanto eu, atento agora às suas duas figuras recuadas, experimentava uma postura contorcida e desajeitada que nem o olhar de soslaio que lhes lançava conseguia dissimular. Provavelmente isso emprestava-me um ar hirto e constrangido, o que apesar de tudo poderia ser considerado pouco suspeito se fosse tida em consideração a curiosidade e o suspenso da singular situação em que me encontrava.
Mas, naquele forjado momento de espera, ao invés de cultivar a serenidade que se justificaria num inocente, acabei por não conseguir evitar o regresso tumultuoso das minhas cogitações. Num ápice, toda a panóplia de suposições que já anteriormente me tinham percorrido, apoderaram-se de novo de mim. Tudo o que tinha antecipado, as perguntas, as insinuações, as minhas fundamentações, a evidencia do estado demente da minha acusadora, nada do que tinha congeminado me havia preparado para este truculento interregno. Aqui esperavam que reagisse, mais do que o que pudesse articular. Entre a espontânea agressividade que me tinha provocado a presença dela ali, e a contenção que toda a situação me recomendava, voltaram aos poucos todos os pormenores inquietantes da minha figuração. Sabia que todos os meus gestos - a calmitude ou a irritação, a moderação ou a agressividade, a atrapalhação ou a serenidade – qualquer reacção que manifestasse perante aquele confronto, estava a ser observada e interpretada, e que daí poderia provir a convicção deles sobre a minha inocência, ou culpabilidade. Tinha ouvido dizer que são os primeiros segundos que determinam os juízos que se fazem dos outros. E eu, que tinha tão meticulosamente listado todas as minhas prelecções argumentativas, não estava simplesmente preparado para a confrontação que me haviam preparado. Forcei-me a repetir várias vezes para mim mesmo que era eu o inocente, e que rapidamente se veria demonstrado que aquela mulher era simplesmente louca. Era importante que tivesse sempre isso presente, e que o nervoso que começava a sentir neste matreiro início do processo de interrogatório não viesse sobrepor-se a esta minha condição. Era de facto inocente, mas rocambolescamente não me sentia como tal.
Entretanto, todos estes inquietantes pensamentos foram subitamente interrompidos. Nas nossas costas abriu-se a porta e alguém chamou pelo nome dela. Nem pestanejou. Mantinha a impavidez nervosa com que a encontrara, como se nem tivesse ouvido o chamamento. Depois, e sem que tivesse sido chamada de novo, num gesto absolutamente desfasado, levantou-se com um ar indignado e empoeirado e desapareceu nas minhas costas. Satisfez-me ver-lhe - ainda que ténues - sinais de insanidade na forma como reagiu ao chamamento, e desejei ardentemente que isso não tivesse passado despercebido a quem a houvera chamado. A L, apesar de ter um olhar arredado, uma fisionomia soturna, e vestisse como se tivesse emergido do século passado, aparentava apesar disso ser uma pessoa normal. No máximo poder-se-ia concluir que era uma personagem nevrótica vestida de uma indescritível fealdade, mas isso não fazia dela uma pessoa estranha. Revia agora a dificuldade que tivera em desconvencer os meus colegas acerca das insinuações descabidas que já antes ela tentara junto deles. Era uma pessoa profundamente reservada, quase muda, e por isso particularmente imperscrutável, e que por mais estranha que parecesse mantinha as suas capacidades intelectuais em boa forma - aliás confirmadas nos resultados académicos que nós colegas íamos testemunhando - pelo que, convencer alguém do seu estado de demência era algo que já confirmara não ser líquido. Sabia por isso de antemão que a comprovação da sua insanidade, por quem (ao contrário de mim) não tivesse sido vítima dos seus desvarios, era bastante improvável, razão porque me regozijava destes pequenos desmanchos da sua personalidade com que pensava poder capitalizar um juízo final favorável por parte dos agentes que nos auscultavam.
Por outro lado, receava que nada disso fosse assim tão notório, e que a base da minha inocência, baseada na constatação do seu frágil estado mental, pudesse nunca vir a ser uma evidência no juízo dos imprecatados (achava eu) agentes do interrogatório. Mas desta feita não tive o tempo bastante para matutar em mais esta nova inquietação. A porta abriu-se de novo, e pela mesma entrou de rompante um Agente de camisa amarrotada e ar bafiento e com cara de poucos amigos. Nada disse. Encaminhou-se para o armário que havia por trás da secretária para onde eu estava virado e retirou de cima de uma pilha de processos uma velha máquina de escrever que pousou carinhosa e lentamente em cima da mesa. De seguida, abriu uma gaveta e retirou de lá umas folhas de papel-químico que entrelaçou noutras brancas, e com a meticulosidade de um escriba ajustou-as no rolo. Entregou-se então a uma pequena pausa, comprazido, como quem se congratula de ter tudo preparado, e encarando-me com um modo absolutamente indiferente, começou: “Nome completo? ”
Durante uma boa meia hora foi registando maquinalmente os restantes dados cadastrais, onde se intrometia o trautear lento e compassado das teclas da sua pachorrenta máquina de escrever. Apenas o claque-claque, entrecortado pelo correr do carreto no fim de cada linha. A tudo fui respondendo, primeiro algo nervoso, depois com profundo enfado, e finalmente já irritado com tamanha falta de curiosidade, já que sobre o caso em mãos nem sequer tinha tentado qualquer avanço. Foi quando percebi que aquele homem semi-adormecido nada tinha a ver com os investigadores dinâmicos que eu conhecia dos filmes, e que seguramente não tinha havido nem iria haver nenhum interrogatório truculento ou qualquer outra manha policial que fosse para além do toque diligente com que alinhava as folhas sobre a sua direita. Perante tanta inépcia já não me sentia culpado nem inocente de nada, nem tão pouco recordava já o rol das inverosímeis acusações que me tinham trazido até ali, ou as dificuldades que tinha antevisto para provar que a L. era simplesmente maluca. A meio daquele improfícuo registo de dados já eu estava convicto que, apesar de ali ter chegado de manhã, iria passar todo o restante dia defronte daquele matraquear amolecido. Por vezes ainda me recordava da razão que me levara até ali, para acabar por concluir de novo que, apesar da aparência daquela inofensiva lassidão em que estava submergido, provavelmente estaria metido num molho de brócolos.
(…) <-- continua, claro
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:43 AM | Comentários (21)
setembro 27, 2005
Contaminação
Ao fim de algum tempo tudo é água. Para onde olharmos haverá água, tanta água que a julgaremos até escorrer do céu. E chega essa a envolver-nos de tal maneira, que mesmo que bem aportados e de amarras bem lançadas, nem assim há quem nos convença a deixar a embarcação, tal o medo de nos afogarmos em terra.
[ Mahon – Menorca – Ilhas Baleares – Numa soalheira tarde de verão ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:28 PM | Comentários (15)
Nem mais !
(e bem oportuno dada a lamechice que por aqui anda)
![]()
Acabadinho de roubar ao JPT que ao que parece já o tinha surripiado numa Tabacaria para onde teria sido trazido de um Castelo que … enfim, isto dos post’s é como as anedotas, quando têm piada começam a carambolar por aí fora e acabam por perder os direitos de autor
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:55 PM | Comentários (3)
O mundo, quando acorda, ainda sozinho
O último turno da noite, sendo o mais árduo, é definitivamente o mais apetecível. De cada vez que via a alvorada avizinhar-se surpreendia-me com o facto de o dia, todos os dias, nascer assim.
Devem ser os homens, ao acordar, que depois o ‘dis’formam.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:15 AM | Comentários (15)
setembro 26, 2005
Trago mar e saudades
A esteira, o poente, a linha indistinta do horizonte, todo esse mar que se estende à nossa volta e lá longe se desfaz para além da nossa vista, é a mesma imensidão, a mesma dormência das saudades. São contrários que se tocam: É enorme este mar por onde queremos ficar, e imensas são as saudades que a ele se pedem para nos fazer chegar. No mar, as horas passam lentas e os dias lestos. Há um vai-e-vem, nele, em nós, que traz a métrica do tempo confundida: de um lado esse tanto sentir que se ocupa das horas, do outro, nós, cada vez mais inertes, a pairar sobre os dias que passam. Nas saudades são as horas que se sucedem apressadas, sem nada que as preencha, e os dias que se arrastam, com uma indolência sádica que teima em nos manter longe. E no entanto, o mar e as saudades, quando brincam com o tempo que temos em nós, tornam-se a mesma coisa: aos poucos perdemos a noção da nossa identidade, até já quase só sermos o que sentimos do mar, e aos poucos, acabamos por nos resignar a ser apenas, minuto após minuto, o ponto de onde todo aquele azul se lança e as saudades se encurtam. Há tanto mar por diante e tanto deles em mim, que tudo o resto, cheio das coisas de absoluta importância que trazia, afinal se torna um sentir vazado em tanta infinidade. E já nada mais me é tão importante. Tornei-me longínquo, lá de onde nunca saí. Tornei-me o mar, a querer apertar a distância de onde o resto de mim ficou.
Trago apenas mar e saudades, e essas são coisas que não sei (d)escrever. Tentá-lo seria mesmo uma impostura.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:40 PM | Comentários (9)
setembro 25, 2005
Eu ainda não voltei, eu não voltei, eu não, ainda não
Dubrovnic, Corfu, Lipari, Panarea, Alicudia, Stromboli, Porto Cervo, Bonifácio, Cabrera, Formentera …
… “Esquadrão G”, “Tertúlia côr-de-rosa”, “Sra. Dona Lady”, Fátima Felgueiras, Isaltino Morais, Avelino Ferreira Torres
(Lá se foi o bronze)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:49 PM | Comentários (12)
Por lá me perdi
E para aqui voltei já tarde demais
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:19 AM | Comentários (4)
setembro 05, 2005
Esta é uma mensagem POSTuma e privADA
Provavelmente hoje já teremos deixado o tacão de Itália para trás. Pouco mais que isso arrisco antecipar; sei que devo estar a sentir que esta é a viagem da minha vida, e que sofro de saudades infinitas vossas, isso sempre consigo antecipar. Mas volta-sim-volta-não lá vos tenho encontrado na proa, com os pés de fora, no respingo, e os braços apoiados no varandim, sabes como é, não é?
Mas era mesmo só para te desejar, na 'rentrée', um bom dia de trabalho
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:56 AM | Comentários (0)