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agosto 09, 2005
O Xica
Faz um mês que ele se fez anunciar pela recepcionista: “está aqui o Sr. Xica dos Olivais”. Fiquei surpreendido ao princípio, afinal já lá iam mais de 25 anos. Mas depois lá fui recordando que num outro dia tive encontro fugaz aqui perto, e lhe terei referido a coincidência de trabalharmos bem perto um do outro. Era portanto caminho que eu próprio antecipara.
Enquanto o aguardava no gabinete fui revendo esses outros tempos. Ele terá sido o único “miúdo da rua” que tive como amigo na infância. Talvez considerá-lo como amigo seja exagero, mas eu ajudava-o, por vezes, e ele protegia-me da malta mais rude lá do bairro. E conversava-se, lá pelo meio daquelas tardes lentas e disponíveis. Era por isso uma relação sincera, talvez não de amizade, mas certamente de confiança (*). E tinha-lhe simpatia, nisso de ir para além da esfera da sua zona, dessa ousadia de passar a fronteira. Censure-se o raciocínio, mas era assim, e raros eram os casos em que estas duas gentes se misturavam, e ir assim até ao outro lado, para o pé dos “putos queques” seria certamente lá dos lados dele motivo de chacota. Acharia haver ali melhor futuro, talvez até possível de seguir? Sempre acreditei que era isso, e isso, sem qualquer afectação, levou-me a respeitá-lo e a augurar-lhe uma vida melhor, pelo menos mais a jeito de se ter um “bom” futuro. Enquanto eu ainda estudava já ele trabalhava. Claro que também roubava os “putos queques” como nós, (mas não nós), nos tempos que lhe sobravam. Quase uma perna no presente, que com usos do seu bairro assim o municiava, e outra no futuro com que se queria precaver. Aliás, um dos seus primeiros trabalhos tinha-o arranjado eu lá na fábrica do meu pai. Depois o meu pai perdeu a empresa, mas já antes disso ele tinha partido para outro ganha-pão. E foi por aí que o comecei a perder de vista. Fui sabendo que criara família, que se mantinha lá pelo bairro e que era algo inconstante nos empregos (por culpa do seu génio imaginava eu), mas que lá se ia safando, que lá se ia dando ao trabalho.
E agora ali estava ele. Contou-me do filho que se afundava na má vida e a quem já não tinha mão, da vida de caridade que fazia em casa dos sogros, e do sogro, um bêbedo, da penúria que vivia há 10 meses, da esmola da mulher que calculasse eu como era isso. Mas que se mantinha sem vícios, nem tabaco, nem álcool, nem nada dessas coisas, e que aquelas mãos nunca se recusaram a nada, que não era homem para se ficar. Que a desgraça de tudo aquilo era aquele seu génio, que acabava sempre por chatear-se com o patrão. E antes de sair ainda insistiu que me devolveria os 40 Euros, que agora a coisa ia melhorar, que aquilo era só para resolver os transportes no primeiro mês, e que quando tudo já estivesse mais certo e recebesse o ordenado logo viria ter comigo para acertar contas, que com ele era assim mesmo, e que eu era um grande amigo …
E eu anuía com a cabeça, que depois logo mos devolveria. Ambos sabíamos que isso não iria acontecer, mas era o jeito mais fácil para esconder a vergonha. Provavelmente no dia seguinte as coisas terão voltado a ser o que ele me contou, mas ainda assim duvido que o torne a ver. Vi-lhe os lábios cerrados, depois o abraço, a querer dizer mais, e percebi que naquele momento se terá ali acabado de esgotar o orgulho daquela parte da infância que ainda trazia consigo, a parte que tinha a ver comigo. Tanto, e uns míseros 40 Euros.
(*)Esta é uma versão atenuada, talvez até um pouco emoldurada, vítima certamente dos tempos vagos a que remonta ou talvez porque aqui não cabe tê-la pormenorizada; Para uma versão mais episódica, escrita com o esplendor fotográfico com que tão bem ele sabe criar, recomendo um dos últimos comentários deste post, pela mão do JPT
Publicado por Eufigénio Lagoa às agosto 9, 2005 03:30 PM
Comentários
Vocemecê é um bom homem, não tanto pelo taco mas mais pelos bons sentimentos com que o enrola...
(O xica? também o encontrei quando aí fui, lá no "tó"...um bocado de conversa e safei 40 euros, está-se a ver)
(ouve lá, para além das coisas da "fronteira", "bom futuro" e isso, ai, ai, "menino de rua"?, ora porra, merda de auto-censura "lá no blog", politicamente correctozinho. Mete lá "cigano" que era o que a gente chamava. Ou então retira "queques" e chama meninos "finos" ou "de casa" ou quejando. Por esta não esperava eu, "meninos de rua", esta merda até parece o jornal da paróquia)
Publicado por: jpt em agosto 9, 2005 04:29 PM
Caro JPT, não percebe vc, douto da ironia, a carga subentendida que há neste dizer "miúdos da rua", assim mesmo, proferido por um "puto queque"?
Não, não troco os "miudos da rua", proferidos num tom simpático, solidário e generoso, de um engravatado que quase se delicia em ser "bom homem" à custa da merda de uns 40Euros, pelo "cigano" de um gajo acicatado que quer é que eles lhe saiam de cima.
Não vês tu que não me quero despenalizar desta coisa de vestir ao santinho da vida fácil?
Não, não tiro. Gosto da caridadezinha que lhe encontro no tom ... Uma ganda merda é o que é isto!
Publicado por: Eufigénio em agosto 9, 2005 04:39 PM
E, no entanto, ainda podes ter uma surpresa. Porque, às vezes, a vida traz-nos surpresas dessas.
Aqui há algum tempo, não muito, revi uma pessoa que está a passar uma fase muito, mas mesmo muito má, em que o pouco dinheiro que lhe chega às mãos não dá para pagar nem sequer a farmácia, quanto mais a mercearia.
À despedida, tentando não dar nas vistas, meti-lhe uma nota de 50 euros no bolso. Não queria que ela o sentisse como caridade, que achasse que me devia fosse o que fosse.
E, no entanto, mal recebeu dinheiro que tinha a haver, veio devolver-me os 50 euros.
E eu fiquei a olhar para aquela mulher tão acabrunhada pela vida e ainda assim tão senhora da sua decência sem saber o que fazer, quase suplicando que ficasse com aquela mísera nota para uma emergência.
E ela respondeu-me que não, que não era preciso. Mas que sabia onde me encontrar, caso a emergência aparecesse de facto.
E eu senti-me bem mais pobre do que ela naquele momento, Eufigénio.
Publicado por: Hipatia em agosto 9, 2005 05:22 PM
Não foi a miséria da ajudinha dos 40 Euros Hipatia, nem a vergonha que isso traz a quem os esmola. Os meus lá ficaram entregues, que nada resolvem mas não os quero de volta, não me fazem falta e dei-os de bom grado (talvez até a aliviar a alma).
É mesmo esta coisa (já uma vez o disse neste blogue e arrisquei ouvir do meu acutilante amigo JPT aí comenta em cima ser isso presunção ... ele não o disse assim, disse-o melhor) de constatar que os caminhos já nascem separados. Não há mérito em nós, apenas desgraça nos que nasceram do outro lado. E não é preciso ir muito longe, isso pode acontecer no nosso bairro como se prova aqui. Os 40 Euros, o gesto, isso é apenas emblemático.
Publicado por: Eufigénio em agosto 9, 2005 05:55 PM
eufigénio
não acredito em caminhos separados.
conheci amigos na faculdade que vinham de fora de lisboa, sem dinheiro, que fizeram o curso passando muita fominha e isto era mesmo assim, que tinham todas as condições para arranjar um emprego da treta e deixar o curso e aguentaram-se até ao fim por um sonho. hoje são grandes profissionais.
e tantas pessoas que tinham tudo para acabar mal...
e o contrário também se verifica, logo eu acho que depende mais da "cabeça" de cada um.
um beijo
Publicado por: riquita em agosto 9, 2005 07:06 PM
Eufigénio,
para quê a culpa da «nossa» vida ter sido melhor do que a dos outros?
Ao primeiro impacto é um murro no estômago. E se pensarmos que ajudámos sempre que era possível?
A culpa é da «nossa» vontade de apagar o sofrimento.
Eu também acho que é uma porra só podermos apagar pontos e não a fotografia inteira.
Publicado por: maria arvore em agosto 9, 2005 09:29 PM
há coisas que não comento. Não o sei fazer. Mas sinto-as.
Publicado por: lyra em agosto 9, 2005 10:15 PM
Eu acredito nos caminhos separados.
Que mais tenho a dizer? Que gosto dos teus bons sentimentos.
Beijinhos Eufigénio!
Publicado por: madalena em agosto 9, 2005 11:27 PM
"Tinham-lhe prometido liberdade e ninguém lhe explicou que a liberdade também tem preço. Libertou o seu corpo ao primeiro namorado e nasceu o primeiro filho. Tinha dezassete anos e afinal o futuro era presente.
Afogou as mágoas nos corpos de outros homens, sem nunca saber, porque nunca ninguém se lembrou de lhe explicar, como evitar os filhos e as doenças. Acabou com mais dois filhos, de pais ausentes, pensões prometidas e nunca pagas. E fama de puta, lá pela terra, que as mentalidades não mudam só porque mudam as leis."
Foi isto que escrevi outro dia, Eufigénio. Sobre uma mulher que é da minha idade e, no entanto, porque não teve acesso ao que eu tive, ficou condenada a uma vida de enxovalhos e, neste momento, está demasiado doente para ainda sonhar com qualquer futuro.
Por isso, não sei se estaríamos a falar de coisas assim tão diferentes. Eu já vi de perto demasiados desses casos que me fazem questionar por que uns lados dos caminhos levam para baixo e o lado paralelo consegue levar para cima. E as linhas existem, mesmo quando não as queremos reconhecer; mesmo quando é politicamente incorrecto reconhecê-las.
Publicado por: Hipatia em agosto 9, 2005 11:36 PM
Não quero admitir-me piedoso, irrita-me até pensar nisso. Talvez porque a piedade é justamente uma forma de dar esmola, assentir na dor, na pobreza, é uma forma passiva de se aceitar as coisas como elas são, de lavar a alma à custa de gestos que, mesmo que abnegados, apenas servem para nos apaziguar. Não é portanto isso que tudo isto me inspira. Apenas mantenho que me faz impressão ver-me aqui no "quentinho" e saber que tantas trajectórias que cruzaram com a minha já seguiam (e insisto), o seu inevitável caminho.
Não falo de fatalismos Riquita, nem da vergonha de ter saído em sorte Maria A., mas apenas da constatação que aqui também a Madalena e a Hipatia reforçam, a de que é duro ver no nosso mundo moderno da terceiro milénio, ali mesmo no bairro onde nascemos, gente a quem calhou destinos tão distantes do nosso, e lá tão longe do que teriam direito a ser [ não sei se foi por culpa deles, nem me interessa, ou se foi do "sistema" (abomino esta expressão), ou por simples contrariedades da vida, apenas constato que isso me deixa arrepiado, como se eu tivesse inadvertidamente comido a última miga que estava em cima da mesa].
Depois passa, e isso é talvez o mais grave.
Publicado por: Eufigénio em agosto 9, 2005 11:59 PM
pois, bla, bla, bla...agora me lembro que o gajo nunca me devolveu o zenyatta mondatta dos police que me obrigou a emprestar-lhe, e a mais uns dois ou três discos, daqueles LPs que tantos bloguistas nem conheceram. cigano do caralho. não que não lhe emprestasse o taco, mas não me ponho a gemer caminhos separados - porreiro está o gajo, vivo e sem ter ficado junkie, o que lá para a zona do gordo onde vivia já foi sorte
um dia fui a casa dele, eu e um gajo da fulacunda que ainda não tem blog, uma tranza qualquer, abriu a mãe perguntou o pai, iradissimo, "são os tais camachos?", fugimos a sete pés. O raio do velho estava a enganar-se no apelido dos queques mas percebemos logo de quem estava a falar. Acho que deves conhecer essa família de "camachos"...
por falar em camachos havia um barão, que estava comigo, quando este teu amigo teve o filho, deu-nos uma seca nessa noite, feliz que estava, não se calou durante uma hora ou mais. Bom fundo, passou a anunciar e festejar
"estás bom?" "lembras-te do meu nome?" "foda-se, então não me lembro de andar a fugir de ti" "outros tempos, outros tempos" "claro, pá" - dois quarentões nos olivais, à cidade do lobito, no entre tosta e tó, diante do cheira mal, julho 2005
Publicado por: jpt em agosto 10, 2005 01:52 AM
Eh,eh,eh,eh! Vou imprimir isto... se vocês o encontraram também não deve tardar a cruzar-me com ele, e 40 euricos masé o camandro, ofereço-lhe isto e pronto.
(O gajo deve ter aprendido a ler!)
Publicado por: bill em agosto 10, 2005 09:30 AM
JPT, encagalhas-me o post com tanto neo-realismo caneco. E só não te desminto tudo porque a esse "camacho" até a mim me dava ganas às vezes de lhe chegar a roupa ao pêlo, e do barão, tanto quanto me lembro, chegou um dia a casa com o irmão, os dois só de cuecas, mas isto quando ainda não conheciam bem o Xica que depois tornaram-se grandes amigos e foram "blueberrys" e outras coisinhas assim sem volta na ponta.
E não vejo em que é que tudo isso o afaste do conceito de "amigo", ou a estes não se dá, tantas vezes, contravontade ?
Publicado por: Eufigénio em agosto 10, 2005 10:08 AM
essa do "esplendor fotográfico" é boca à merda das minhas fotos de bichos que tenho postado? não gostas não vejas, ó carássas. agora o do neo-realismo é mesmo para ofender ó camacho. por falar em camachos, o barão camacho de cuecas amais o prudêncio - a mim quem me gamou o cinto e o relógio foi o tinoco, mas esse emigrou para frança ainda andava eu no valsassina. o teu amigo a mim só me obrigava a "dar-lhe" brinquedos. um dia, e lá foto neo-realista, estávamos a jogar À bola no maracangalha e ele apareceu lá em cima, e eu baldei-me via escadas da cetra, estava avisado que tinha que pagar em géneros, cena de mafia infantil, mas o sacana apanhou-me via o túnel do prédio vilão [na altura dos mesquitas]. Foi lá acima, ficou à porta e eu fui buscar assim os trastes que um puto de 11 ou 12 anos decide prescindir. o meu pai foi à porta viu um puto lá, decerto meu amigo, e mandou-o entrar - estava eu, transido de medo, e nem pensar em queixar-me, no quarto quando entra ele porta dentro, todo sorridente e desvanecido com o meu pai. lanchámos, claro [fica bem dizer uma groselha e sandes de mortadela, mas isso já não lembro], levou umas merdas assim como quem não quer a coisa. mas ficou tão contente com a recepção que nunca mais cobrou protecção [a não ser os tais discos, 4 ou 5 anos depois, uns ocasionais "primeiros" nos cachimbos de prata, e um ou dois pintores emprestados - mas tudo isso bem mais tarde]. Enfim, uma verdadeira história da condessa de ségur, não achas?
Amigo, claro.
Bill, se lhe dás isso a ler publico a história do bilhar até de manhã que li num blog qualquer
Publicado por: jpt em agosto 10, 2005 05:29 PM
Ah caneco, que até se me eriçam os pêlos, seu merlin das memórias, seu Vitorio Di Sicca da minha juventude.
Mas olha que ele a mim nunca foi de pedir muita portagem. Um aninho a mais que os outros e isso notava-se, e era rapaz robusto e saudável, talvez presa mais dificil [enfim, depois crescemos (cresceram) e eu fiquei assim ... ao que parece agora já em boa fase para ser então tributado]
Publicado por: Eufigénio em agosto 10, 2005 06:02 PM