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agosto 16, 2005

Não fui treinado para tanto "eu"

Nós, os dois miúdos, a avó Vitorina, um cão e um gato. Levei o meu mundo para férias, deixei-os à beira da piscina, e voltei para cumprir com a minha sorte profissional. E por aqui me debito agora a trabalhar, em sossego e sem interrupções … sem ‘interrompimentos’ diria. Bom tempo este para o trabalho, em que por aqui me uso e abuso. Que trabalho há muito, e agora é boa altura. Agora não incomoda resolvê-lo a todo de uma vez, que nem há quem espere pelo meu atraso.

Aldrabices! Isso do trabalho, essa coisa que construo, quase obsessivamente, para me afastar, para me atrasar, de uma casa que agora está estranhamente vazia, na qual se guarda um silêncio que não sei viver. É assim, nesse logro que arquitecto com coisas inadiáveis e compromissos importantes, que aprendi a fugir da altura em que faltarão os barulhos, as suas vozes, os tropeços em algo que alguém deixou no caminho, traços de outros. Que fatalmente, nada esconderá o facto de ali apenas estar eu.

Nunca aprendi a viver só comigo. Sou irmão de mais cinco, cresci no meio do barulho e de uma multidão de afectos. Quando um dia parti dessa vida de filho e irmão, foi para construir logo outra, mas já não só, nunca só, e depois quase pai, e já mais gente outra vez. Sempre vivi rodeado de afectos, e na família fui somando-os. Cresci e tornei-me adulto sempre com outros, e nunca tive de me treinar para lidar só comigo.

A verdade é que assim, apanhado desprevenidamente sozinho, tudo deixa de ser urgente ou importante, ou interessante. Amolece-me a vontade do que quer que seja, e o que quer que seja é tempo demais que se tenta esconder com a pressa de o terminar. Tudo ali em casa, onde estou só eu, se faz desajeitadamente. Nada tem ordem ou urgência, e sem outros também não tem significado. É deriva e fastio.

E fico para ali, no liga-desliga, a disfarçar a companhia de alguém que nada exige de mim, que afunda o silêncio quando se fica calado porque estou calado, que soterra a vontade quando nada exige se eu nada tenho que fazer, que me empurra para uma mansidão onde pairo sobre as horas, angustiado, para que algo, além de mim, aconteça. Tudo ocorre num sítio que me é estranho, e onde me sinto a mais comigo mesmo.

Na verdade é como se me sentisse inibido comigo mesmo. Como se de repente me pedissem para ali ficar com alguém que não conheço, e isso me atormentasse, só de pensar em tanto “eu”. Como se fosse uma conversa que não se dá por iniciada, e se suspende naqueles momentos intermináveis e embaraçosos, e eu ali, acabrunhado, a ficar sem saber o que dizer fazer comigo. Há nisto até uma vergonha púbere, de quem de repente descobre que nunca aprendeu a solidão, essa parte que nunca treinei, e de que sempre, sorrateiramente, soube fugir.

É um bom tempo para trabalhar, enquanto espero que voltem de férias. No resto, se um dia tiver de o aprender, hei-de saber crescer com essa parte em que sobra um enorme absurdo de mim. Se um dia precisar, hei-de treinar-me, dia após dia, sozinho, até que deixe de me sentir um desconhecido. Mas por agora, não lhe vejo proveito nenhum. Na solidão, se posso, hei-de continuar criança.

Publicado por Eufigénio Lagoa às agosto 16, 2005 01:44 PM

Comentários

A solidão é para o espírito o que a dieta é para o corpo.
(li isto em qualquer lado)

Publicado por: bill em agosto 16, 2005 03:17 PM

Olha lá, e achas que eu não estou magro que chegue?

Publicado por: Eufigénio em agosto 16, 2005 03:18 PM

Tens de comer mais fejão...

Publicado por: bill em agosto 16, 2005 03:27 PM

Isso é um convite para jantar? estou em fase de aceitar tudo, mesmo que fieto por ti

Publicado por: Eufigénio em agosto 16, 2005 03:37 PM

Não sei se mesmo com treino se chega a saber viver só com eu!Beijinho, Eufigénio!

Publicado por: madalena em agosto 16, 2005 09:40 PM

eu adoro estar sozinha, é mesmo do que sinto mais falta, de me acompanhar só quando me apetece :)

Publicado por: riquita em agosto 16, 2005 11:31 PM

ao ler isto, nem sei bem a causa, lembrei-me de gaspacho

Publicado por: jpt em agosto 17, 2005 07:12 AM

Acho que tem a ver com cada um de nós Madalena. Eu mais do que a consciência de que não sei viver só com este "eu", tenho até pavor disso. Beijo

Riquita, sabes que eu acho que isso é mais 'fácil' nas mulheres? os homens são neste aspecto (atenção, eu disse neste aspecto) mais subdesenvolvidos, menos autosuficientes.

JPT, a mim deu-me mais para me pensar com àgua pela cintura, num tanque, a beber bocks e a esparvoar conversas no meio do calor

Publicado por: Eufigénio em agosto 17, 2005 01:53 PM

gaspacho, muito, dezenas de convivas, 1,5 l per capita ao fim do dia ... piscina para pescar as bebidas assim refrescadas, enfim, diz-te algo?

Publicado por: jpt em agosto 17, 2005 03:15 PM

Assim de repente (insisto) só relaciono com a avó Vitorina (chamar àquele tanque piscina é um tique snob pá)

Publicado por: Eufigénio em agosto 17, 2005 03:52 PM

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